Mistress Alice
6 Death?
Notas iniciais
Estava aos poucos me acostumando com toda aquela situação. Aliás, uma pessoa não engoliria em seco os pesadelos tão reais que tinha e as coisas que presenciava.
– Eu com certeza me meti em uma grande encrenca. — ajeitei minha voz — Mas, isso por um lado é bom. *Cof cof* Atualmente moro em uma casa onde fatos bizarros acontecem comigo. — Levantei da cama com determinação — Certo. Vamos fingir que nada disso aconteceu, tudo bem? — batia levemente nas bochechas e observava meu reflexo no espelho. Fechei os olhos e suspirei. — Bom, agora vamos dar algum sinal de vida a Jack. — Abri-os novamente e aliviei-me.
Distraí-me com o barulho vindo da janela. Virei e deparei com uma especie de bolinha de pêlo. Fiquei alguns segundos sem reação. Estava estranhando, já que só via coisas horripilantes e assombrosas naquele lugar (tirando Jack, mesmo com o seu jeito sinistro de ser). A bolinha de pêlo estava me encarando com aqueles olhinhos azuis meigos, que por algum motivo pareciam familiares. Aproximei-me, não podia tocá-la, já que a janela nos dividia. Ambos nos encaramos por alguns segundos, mas não foi um encaro maldoso, foi um encaro agradável. Não tirava os olhos dela, digo, da bolinha de pêlo, já que não sabia seu sexo. Depois de muitos minutos ela se retirou. Pode parecer estranho, mas, parecia que já me conhecia. Aquele pequeno animal havia aumentado minha auto estima. Já aguardava sua próxima visita. Esperava que voltasse, pois acreditava que não havia sido de desagrado aos seus olhos, assim como ela não foi aos meus.
Novamente estava distraída com um simples fato e já era quase hora do jantar. Devia aprontar-me o mais rápido possível. Tive tempo de sobra para isso, mas, como sempre o desperdiçava com distrações. Acredito que Jack não se importava se minha pessoa estava presente ou não. Apenas sentia a necessidade de ser ao menos pontual com meus horários.
– Já estou pronta. — escovei meus cacheados fios com delicadeza. Cerrei meus olhos e respirei fundo.
Senti certo desconforto ao chegar na porta de entrada da sala. Tinha que ter coragem para encarar aqueles olhos o jantar inteiro. Abri a porta e me acalmei. Não podia me alimentar nervosa.
– Boa noite! — o cumprimentei educadamente. Sentei-me e me acomodei na mesa. O jantar já estava sobre ela. Sempre me perguntava quem o fazia, mas hesitava em esclarecer minha dúvida. Comecei a me servir.
Vários minutos passaram-se e Jack não havia tocado momento algum nos talheres. Ele disfarçadamente me encarava e parecia desconfiar de algo. Continuei a me alimentar para quebrar o clima, mas não adiantou. Decidi esclarecer minha dúvida.
– Jack, poderia apresentar o responsável pela preparação dos aperitivos? Queria elogiá-lo, são muito deliciosos.
– Não há necessidade disso no momento. Apenas continue seu jantar. — respondeu com um sorriso no rosto, coisa que raramente fazia.
– Já estou satisfeita, muito obrigada. — desconfiei. Agora eu o encarava.
– Algum problema com meu rosto? — não hesitou no sarcasmo.
– Não, nenhum. — calei-me por alguns segundos e limpei minha boca com um pano — Estou me retirando. Uma ótima noite para você. — me despedi e retirei-me.
Estava caminhando em direção as escadas quando me lembrei de certa fala dita por Jack.
– Matar? Se eu quisesse que você morresse teria deixado todas aquelas coisas horrendas matá-la por mim. Aliás, está me devendo duas coisas.
– Deixe-me raciocinar... — estava novamente aprofundando em meus pensamentos — Se Jack sabe das coisas horrendas, com certeza deve tê-las presenciado, ou, estava tendo os mesmos pesadelos que eu. — tentava chegar em alguma conclusão — Quanto mais eu penso, mais dúvidas surgem... Sacudi a cabeça. Precisava voltar a realidade e parar de lembrar daquelas coisas. Novamente ajeitei minha voz.
Já estava para subir as escadas. Mirei os degraus e continuei meu percurso. Voltei a pensar, dessa vez, na pequena bolinha de pêlo que havia visto na janela de meu quarto. Me alegrei, pelo menos vi algo bonitinho e fofinho, ao contrário das outras coisas.
Agora, já estava nos corredores. Estaria mentindo se dissesse que sentia medo somente deles, aliás, temo o castelo inteiro. Me tranquilizaria se passasse por eles pensando em coisas boas, pois, foi o que fiz. Poderia eu descrevê-lo enquanto estou mergulhando novamente em meus pensamentos? Pois bem. Imagine o corredor de um castelo muito antigo, dessa vez escuro, apenas iluminado por velas, forrado com um carpete vermelho, decorado com objetos antigos e esbeltos, mas que mesmo assim passasse certo medo, algo difícil de se esconder. É como se estivesse no filme de terror que mais temes.
Aquele devia ser o meu dia de sorte. Não estava sendo assombrada e provavelmente, arranjei uma nova companhia. Surgiu a ideia de cantarolar a única melodia que sabia, uma das minhas primeiras lembranças, expressar minha felicidade e ternura mesmo que fosse para as paredes, pouco me importava. Simplesmente respirei fundo mais uma vez, fechei meus olhos e comecei a imitá-la. Em poucos minutos já estava cantando, talvez até um pouco alto, mas com uma voz suave, que demonstrava os meus atuais sentimentos.
– Você parece feliz... — disse com ar de despreocupado, com a postura de sempre.
Parei de cantar e fitei-o por alguns segundos.
– Acordei você? Me desculpe, não pretendia. — parei de encará-lo — Sim, eu estou feliz.
– Enxerguei tal fato. — tirou o pequeno acessório do bolso. — Você parecia tão desanimada esses dias... — segurou-o com dois dedos e ergueu até seus olhos. — Sinto-me feliz por se sentir assim.
– Agradeço por sua atenção.
– Por favor, pegue. — mirou e jogou o objeto em minha direção.
Descuidadamente o peguei, por pouco não o deixei cair.
– Você irá precisar! — cravou a faca em meu peito. — Sentirás a verdadeira dor. — afundou um pouco mais — Oh! Me desculpe pelos modos... — tirou-a com um sorriso nos lábios. — Desejo-lhe doces sonhos... Alice.
Desabei no chão como uma frágil boneca de porcelana.
My life of dead weight is over...
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