Mistress
2 Breathe
Eram mais ou menos umas duas horas da tarde quando o automóvel de Morgan chegou à fabrica. Um burburinho rondava por ali, afinal ninguém havia visto qualquer coisa sequer do que acontecera. O cadáver aparecera ali como se fosse mágica. Todos tinham histórias diferentes para contar, todas distintas umas das outras. Ninguém tinha realmente certeza do que ocorrera. O detetive Alan McCain aguardava em frente à fábrica, demonstrando claramente sua impaciência. Hora sim, hora não, dava ordens aos policiais e a perícia que passavam quase que desordenadamente por ali.
Jordan saiu do automóvel, logo depois abrindo a porta para eu Morgan saísse. Ela se levantou e ajeitou cuidadosamente as vestes azul-marinho de veludo e voltou sua atenção ao detetive.
— Senhorita Roche, sinto muito pelo o que aconteceu... — disse o detetive, e deu uma pausa, esperando que Morgan esboçasse alguma reação, o que não ocorreu. — O corpo ainda está na fábrica, pois houve um problema no transporte para o necrotério, e desde então, não pudemos encostar-lhe um dedo sequer.
— Creio que o odor está pútrido a uma hora dessas. — ela respondeu, com desdém — Descobriram alguma coisa afinal?
— Só o fato de que ele não foi morto no local onde foi encontrado.
— Como sabe disso?
— Não há sangue na cena do crime. E ele foi morto com um corte na região da artéria, que resultou em uma hemorragia. Até agora, não fazemos idéia de onde ele possa ter sido morto.
— Era de se esperar. Londres é uma grande cidade. — deu uma pausa — Dêem um jeito de retirar o corpo daí. Meus funcionários já reclamam aos ventos das condições de trabalho, é muito óbvio que um cadáver no local de trabalho possa causar muitos problemas.
— Estamos providenciando isso nesse exato momento, senhorita. — o detetive olhou-a desconfiado — a propósito, onde esteve na noite passada?
— Está me tomando como suspeita? — Morgan ergueu uma sobrancelha.
— É a principal, senhorita. Afinal, nós sabemos de sua relação com seu pai.
— Entendo... — ela suspirou, pacientemente — Ontem eu estava em minha casa.
— Pode provar?
— Bem, meus empregados podem lhe confirmar isso. E mesmo que você venha a acreditar que eu os tenha manipulado, estive em reunião com o vice-presidente da Portgate como você pode comprovar com o próprio e seu secretário.
— Pois bem. — um policial veio fazer um comunicado ao detetive — O corpo foi liberado, podemos investigá-lo agora. Gostaria de ir conosco?
— Sim, por que não?
O detetive Alan ficou surpreso com a frieza que Morgan apresentava naquela situação. Afinal, era seu próprio pai! E ela se mostrava impassível e inalterável sobre o caso. Alan não engolira realmente o fato que Morgan pudesse ser inocente. Ela deveria ter alguma coisa a ver com aquilo, direta ou indiretamente.
O corpo estava estendido no chão, nu, de bruços, com a boca aberta, olhos arregalados, e com a cabeça a 180° de sua posição original. Assim como Morgan previra, o odor estava terrível, e o ambiente carregado. Em seu pescoço, um corte em X exibia sua traquéia e os ossos fraturados da espinha. Um rato passeava displicentemente sobre as costas do falecido. A cena era abominável.
Morgan levou um lenço ao rosto, para cobrir o cheiro, e ao mesmo tempo esconder parcialmente sua expressão indecifrável. Memórias tenebrosas voltaram a sua mente ao ver aquele corpo. Depois que falira seu pai, fora taxada como a terrível vilã da história. Mas pouquíssimas pessoas sabiam da verdade por trás daquele homem, e o motivo que a levou a fazer tudo o que fez.
Acertou-lhe com a bengala, fazendo com que um corte se abrisse no rosto cândido de menina de doze anos, e que o frágil corpo fosse de encontro ao chão. Ela choramingou, e na tentativa de se levantar, levou outra pancada, dessa vez fazendo com que rolasse pelo chão.
Ela ergueu os olhos castanhos para os outros ocupantes da sala. Os homens ali sentados nas confortáveis poltronas se mostravam indiferentes a cena. Seus olhos recaíram em seu irmão Arthur, como um pedido de socorro. Porém, esse nada pode fazer. Não podia contestar seu pai.
Morgan colocou-se de pé, olhando para baixo. Seu vestido que já fora de um branco impecável exibia manchas de sangue. Jordan, o mordomo, de um lado da sala, observava apreensivo, esperando a hora que poderia socorrer a pobre menina.
Estevan Roche acertou a menina dessa vez com tanta força que ela caiu para o lado, quase inconsciente. Um sorriso presunçoso surgiu no rosto de um dos homens ali presentes, outro homem deu uma risadinha maliciosa.
Uma lágrima escorreu no rosto da menina, e um desejo de vingança surgiu em seu coração.
Jordan era um homem cinquentenário. Servia a mansão Roche fielmente desde os dezenove anos, e por isso sabia todos os segredos do Sr. Roche, e todas as coisas que ocorreram naquele lugar. Havia feito há alguns anos atrás uma promessa em que deveria proteger a Srta. Roche a todo custo. Era a pessoa que ela tinha mais intimidade, e quase o considerava como um pai.
Aproximou-se de sua patroa, e sussurrou em seu ouvido:
— Não tem necessidade de ficar aqui. Esse odor vai acabar se impregnando em suas roupas e cabelos.
— Certo. — disse ela, virando as costas e se retirando.
— Perdoe-me a impertinência, mas permita-me fazer uma pergunta pessoal? — disse o mordomo, enquanto andavam para sair da fábrica.
— Sinta-se a vontade. — o tom de voz de Morgan era tranqüilo.
— Como se sente com tudo isso?
— Sinceramente, não sei lhe dizer. Uma parte de mim está... Feliz por isso ter acontecido. Porém a outra parte está preocupada. Não duvido nada que esse assassinato ocorreu por vingança. Mas, qual o motivo, afinal? E se houver alguma coisa que me envolva, eu terei problemas.
— Entendo. Gostaria de ir para casa agora, ou prefere ir a algum lugar antes?
Antes que Morgan pudesse dar a resposta, o detetive McCain se aproximou.
— Senhorita Roche! Irei acompanhá-la.
Ela não disse nada, e saiu da fábrica, sendo seguida pelos dois. A rua estava movimentada, automóveis e carruagens transitavam sem parar, e pessoas caminhavam. Morgan olhou em volta, distraída. Seu olhar se fixou em uma coisa. Um enorme cão negro, que estava parado no meio do calçamento. As pessoas que passavam ignoravam-no como se não existisse. Os olhos do cão eram vermelhos como sangue, e de sua bocarra cheia de dentes muito pontudos, escorria saliva em meio de um rosnado feroz.
Então o cão veio correndo em sua direção, pronto para atacar.
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