Mistake

1 De novo


Nove horas da manhã. De novo.

Mesmo itinerário de sempre: acorda, passa o uniforme, toma banho, veste o uniforme, toma o café da manhã, vai para a escola. De novo.

Depois disso nada é de exatamente de novo.

São sempre as mesmas pessoas, o mesmo ônibus, o mesmo tudo, mas ela me traz o novo. Ela sempre parece cheia de novidades, de segredos, de felicidade. Tão cativante, tão encantadora, tão... única. Acima disso tudo, tão fora de alcance.

Meninas como ela não se interessam por pessoas como eu, não se interessam por... outras elas. O mais longe que eu posso chegar é exatamente onde estou, e não é de todo ruim. Na verdade, é extraordinário. Ouvir os seus segredos, os seus medos, os seus sonhos, saber seus planos, suas esperanças. Conhecer de verdade a pessoa a ponto de poder mapear a sua alma e deduzir seus sentimentos pelos menores gestos. Isso não tem preço.

— Tem alguma coisa no meu rosto?

— O que?

— Você está olhando tanto para a minha cara que só pode ter alguma coisa errada nela. Pode falar, melhor vir de você do que de outra pessoa.

— Se tivesse eu te diria.

— Então porque a súbita entrada em um universo paralelo, senhorita?

Talvez por causa das suas sardas perfeitamente desenhadas, por causa do seu cabelo ruivo como o mais belo pôr do sol que esse mundo já possa ter visto. Possa ser por causa do seu jeito encantador, do seu sorriso que me tira os maiores dos pesos que a vida possa trazer, dos seus olhos que me fazem perder a noção do tempo.... Talvez seja por que eu seja estranha.

— Não entrei.

— Você fez de novo.

— Se eu não fiz na primeira vez como posso ter feito de novo?

— Mentindo nas duas vezes.

— Já que sabe tudo, porque ainda me pergunta?

— Porque tenho interesse em ver suas mentiras.

— Para que?

— Para montar as minhas verdades.

— E porque precisaria montar as suas próprias verdades já que age como se fosse dona de todas?

— Porque as vezes as verdades que eu crio nunca acontecerão no mundo real.

— Até parece.

— O que?

— Nada.

Sinceramente não sei quanto tempo faz que estou levando isso. Me controlando. Sofrendo. Me contentando. Fingindo que um dia poderá ser possível um absurdo tremendo para que eu seja feliz. Não importa, o melhor é aceitar.

Uma coisa dessas começa tão devagar, tão sorrateira... e quando você vê já está totalmente dominado. O que antes parecia um simples gostar vira uma coisa muito maior. Amor? Talvez, mas não acho que terei o prazer de comprovar isso algum dia.

As horas passam, o céu vai mudando os seus tons e cores. Quando menos se espera já se foi mais um dia. Tudo exatamente igual. As mesmas expectativas, os mesmos receios, os mesmos sentimentos, os mesmos medos. O mesmo. Só resta no coração, embalado pela brisa da madrugada e pelo canto das estrelas, a esperança de que quando der nove horas no dia seguinte, ele não seja apenas mais um.

Definitivamente não foi.

Não chegou a dar nove horas. O telefone tocou. Quando atendi não consegui entender de imediato a mensagem que estava tentando ser transmitida a mim. “Minha filha”, “voltando para casa”, “batida”, “estado grave”, “UTI”. Mas a última frase soou perfeitamente clara, mesmo em meio aos prantos e soluços do outro lado do telefone.

— Venha aqui, por favor.

Segui o meu caminho o mais rápido que consegui. Encontrei com a família dela e a única coisa que a mãe tinha era um envelope. Me entregou dizendo que a filha tinha pedido, há algum tempo atrás, que se alguma coisa de ruim acontecesse a ela, que a mãe me entregasse aquele bilhete. Disse que nunca leu em respeito aos pedidos da filha.

O bilhete não tinha nada demais, por isso preferi ler depois. Naquele momento só queria ir o mais rápido possível para o hospital.

Quando cheguei lá, como ela estava diferente. Suas sardas não tinham mais o pano de fundo claro de sua pele, agora estavam imersas em diversos tons de roxo. Os olhos fechados e inchados, os diversos cortes na face. Apenas o rosto estava visível, mas já era mais do que suficiente para me causar um dos piores sentimentos da minha vida. Talvez o pior.

Ela estava lá tão frágil, tão indefesa, tão exposta. Mas ainda era ela, e aquilo doía demais.

Passei a noite no hospital, e depois de um certo tempo decidi ler o bilhete. Grande erro.

“Não sei se sente o mesmo, mas sei que sabe o que quero dizer.

Obrigada por tudo”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!