Mistérios do ensino médio
2 A primeira vez de Julia
Notas iniciais
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Primeiro dia de aula, bléh.
Depois de um final de semana triste, meio de luto e essas coisas depressivas, a segunda-feira chegou de uma forma mais assustadora que o próprio assassinato do juiz Sato, era o primeiro dia de aula e eu estava no primeiro ano do colegial.
Acordei cedo e mal humorada, não tinha dormido muito, a gente sempre desacostuma acordar no horário certo durante as férias. Senti raiva do Caio que ainda estuda a tarde, ele está no sétimo ano. Coloquei o uniforme da escola com fúria, queria rasgar aquele pano ou amarrá-lo no pescoço de quem inventou o horário matutino de aulas, era uma calça vermelha com detalhes brancos nas laterais e o logo da escola na coxa, a camiseta era polo estilo social com botões que se abrisse se tornava um decote, resolvi deixar todos os botões abertos, afinal, estava calor. Peguei a mochila que tinha arrumado no dia anterior e saí do quarto.
Eu estava acabada de sono, procurei na dispensa da cozinha algo para levar de lanche e encontrei um salgadinho e um suco de caixinha, como eu disse no início, de nada adiantou meus exercícios do canal de ginástica, as gordices me ganhavam fácil e a procrastinação de não fazer exercícios também.
— Ding Dong — A campainha tocou e era o cara da perua escolar, peguei as coisas e fui.
Sim, meus pais pagam perua para eu ir à escola, não me orgulho disso já que a maioria dos meus colegas vão de ônibus e alguns dizem que perua é coisa de criança, mas a escola é longe e eu odeio ter que pegar ônibus porque nunca tem lugar para a gente sentar ou quando tem, assim que você senta, brota um velhinho do além que fica te encarando mesmo que não esteja ocupando um lugar preferencial e tenha outros lugares vagos, parece que a gente está fazendo algo errado por estar sentado, sei lá.
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— Ca! Que bom te ver — Era minha amiga Julia que vinha em minha direção com um largo sorrisso estampado no rosto.
— Oi Ju, bom te ver também! — respondi sincera.
Julia é um ano mais velha que eu, estudamos juntas desde o quinto ano e pode-se dizer que é minha melhor amiga. Ela é muito mais alta que eu, ela tem aproximadamente 1,70m e eu 1,58m, já foi chamada para fazer testes para modelo por isso, seu corpo é magro mas pesamos o mesmo, a diferença é que por ser mais alta ela aparenta ser bem magra e eu, bem, não tão magra eu diria. Seus cabelos são lisos e negros, batem na cintura, seus olhos são verdes e grandes, bem expressivos.

— Olha, precisamos conversar, preciso te atualizar de tudo que aconteceu comigo nas férias. Você não vai acreditar! — Disparou a falar sem me dar chance de respirar.
— O que houve? — perguntei curiosa.
Mas antes que ela voltasse a falar o sinal do início da primeira aula soou e corremos para dentro da sala, procuramos lugares na fileira da parede e encontramos as últimas mesas do fundão. É, esse ano promete.
O fundão para quem não sabe, é o lugar em que o professor tem menor campo de visão, por isso é procurada pelos alunos mais baderneiros da sala.
Julia sentou atrás de mim, ficando na última mesa e eu na penúltima. Enxerguei nas primeiras mesas de outras fileiras, pessoas conhecidas do ano anterior, era bom ver esses rostos familiares.
Abri meu caderno e separei a matéria de biologia que seria a primeira aula daquela manhã, pelo menos era o professor de biologia que havia entrado na sala.
— Bom dia classe! Acho que a maioria de vocês já me conhecem, sou o profº Afonso... — o professor corcunda simpático começou a se apresentar.
De repente senti uma cutucada da Julia atrás de mim, virei o rosto e vi ela me estendendo um pedaço de folha de caderno dobrada em oito, peguei a folha e coloquei sob a mesa.
— ... mas esse ano, ao contrário do que pensam, não vou lecionar só biologia para vocês. — Alguns alunos manifestaram surpresa.
Abri o bilhete da Julia com calma tentando disfarçar, olhei para todos os lados e ninguém estava me olhando, então finalmente baixei os olhos para ler o bilhete:
"Amigaaaaa, estava louca para te contar, perdi a virgindade na virada do ano, foi fantástico!...."
— Vocês também terão aula de educação sexual comigo. — terminou o professor.
— EITA PORRA! — Acabei dizendo alto o suficiente para mais da metade da sala me encarar, inclusive o professor.
— Sem palavrões Carina, ou vou ter que mandá-la para a diretoria. — Me repreendeu e eu gelei na hora, nunca fui para a diretoria e não queria saber como era.
Eu estava em choque pelo bilhete, não tinha nada a ver com as aulas de educação sexual que teríamos. Ano passado Julia havia dado o primeiro beijo, ok, e esse ano já tinha perdido a virgindade, parece rápido demais, eu acho.
Na verdade, não sei se o que eu estava sentindo era inveja ou medo de ser passada para trás, não julgava Julia, mas achava estranho ela já ter feito tanto coisa, enquanto eu ainda sou bv!
"Depois te conto mais detalhes :)" — estava escrito no final do bilhete.
Suspirei frustrada, sei lá porque. Olhei para trás rápido e sorri como resposta.
A aula foi extremamente tediosa, começaram falando sobre puberdade e menstruação, eu já sabia de tudo aquilo, menstruei pela primeira vez há dois anos atrás e minha mãe tinha me explicado tudo o que precisava saber. Mas por um momento fiquei pensando na filha do juiz Sato, sem pais, ela não tinha como saber o que significava "virar mocinha", talvez seja para isso que ensinam na escola, para crianças órfãs de doze anos como ela.
Quase no final da aula, uma batida na porta interrompeu o discurso do prof Afonso sobre pêlos pubianos masculinos, ele abriu a porta um pouco constrangido.
Era a professora Sara de matemática e junto a ela, um garoto muito, mas muito bonito. Todas as garotas olharam para ele e o constrangimento inicial do professor passou para o garoto, só que vinte vezes maior.
— Com licença prof Afonso, esse aluno é da sua turma mas acabou entrando na sala errada. — falou a jovem professora de óculos e roupas elegantes, enquanto empurrava o menino para dentro da sala.
O garoto estava muito corado com toda a atenção, eu não conseguia desviar o olhar, aquele filho da puta era muito lindo, tanto que sentia vontade de bater nele. Acho que o que mais chamava atenção era seu olhar despreocupado, com olhos puxados e cabelos tão negros, por mais envergonhado que estivesse ele esbanjava um ar muito seguro de si. Vestia parte do uniforme da escola, mas também estava com uma blusa de moletom cinza com uma caveira, o que não era permitido, mas quem liga para regras quando se é tão bonito? Ele desfilou com sua postura confiante até uma mesa vaga, que para minha surpresa era na fileira ao lado, há umas duas mesas de distância de onde eu estava.
— Ai meu coração! Que gato!!! — Ouvi Julia sussurrar baixinho em minha direção.
A professora se despediu após entregar o garoto e saiu da sala, o professor fechou a porta e continuou falando dos pêlos até tocar o sinal para a próxima aula. Depois que foi embora, a sala toda ficou falando em alto e bom som, algumas garotas foram falar com o aluno novo formando uma rodinha. Virei para trás para conversar com Julia mas não encontrei ninguém na mesa, passei os olhos pela sala e a vi na rodinha, ela ficou um tempo lá, não dava para ouvir o que estavam falando mas deu para perceber que ele quase não abria a boca.
De repente ouço uma voz conhecida na mesa de trás.
— Oi Ca! — Era Bruno, um amigo que também ia de perua comigo.
— Oi Bru, não te vi na perua hoje, tudo bem? — As palavras saíram sozinhas, não queria puxar assunto, ele era meu amigo, eu devia gostar de falar com meus amigos, mas estava incomodada.
— Minha avó resolveu parar de pagar perua, estava ficando caro. Agora eu vou de bike, se quiser uma carona qualquer dia, estou a disposição! — respondeu sorrindo com os dentes metálicos.
Bruno morava com a sua avó desde que os pais morreram em um acidente de carro, ele era mais baixo que eu e gordinho, usava aparelho nos dentes desde que conheço, e conheço ele há muito, muito tempo mesmo.
— Obrigada Bru!
Ele sentou na cadeira da Julia e aproximou seu rosto do meu, tapando a boca com uma das mãos para falar:
— E aí? Você também tá apaixonada pelo menino novo? — perguntou baixinho.
— Hahaha — ri tentando disfarçar — Não, ele não é grande coisa!
— Então deve ser a única, olha como as meninas ficaram — disse apontando para a rodinha de garotas na mesa dele.
A professora Marcia de português entrou na sala com o barulho do seu salto anunciando sua entrada há uns dez quilômetros de distância, exagero meu. Era uma professora jovem, por volta dos trinta e poucos, tinha um corpo escultural mas um rosto cansado, mesmo no início do ano letivo, ela parecia já estar exausta. A rodinha só se desfez quando ela deixou seus livros na mesa e fechou a porta, Julia voltou para a mesa com um sorriso de orelha a orelha.
"Ela não perdeu a virgindade? Então, deve estar namorando, por que quer ele também?" — pensei comigo.
Tentei não encarar o vagabundo do aluno novo, mas ele jogava a franja para frente de uma forma tão sedutora que comecei a sentir raiva de gostar de olhá-lo. A aula passou rápido, era revisão de matéria dos anos anteriores e a professora passava tudo de uma forma bem light.
De repente, Julia pediu permissão para ir ao banheiro, e saindo do seu lugar me entregou outro bilhete tão rápido que não pude ver seus movimentos. Abri a folha dobrada em oito com medo do que leria, na melhor das hipóteses podia estar contando os detalhes da primeira vez.
"Esse menino novo é muito lindo, o nome dele é Dani, acho que é de Danilo ou Daniel, não entendi muito bem, mas ele tem 16 anos e eu estou apaixonada ♥"
Fechei a mão e bati na mesa em protesto interno, ela estava gostando do mesmo garoto que eu, e é claro, eu sabia que não tinha chance!
Distraída, eu não notei que a professora de português estava no fundo da sala e percebeu eu redobrando o bilhete.
— Olha só, um bilhete! — Disse ela chamando a atenção da sala toda para meu lado.
Não, por favor, não. Essa professora era maravilhosa em termos acadêmicos, mas péssima em constranger os alunos quando pegava fazendo algo errado durante a aula.
Sem reação, tentei amassar o bilhete, mas ela foi mais rápida e chegou a minha mesa em poucos segundos.
— Não é um bilhete prof, eu juro. — Menti em desespero.
— Se é ou não, vou ver agora. — Pegou o papel amassado das minhas mãos e levou até sua mesa na frente de toda a classe.
Ela desamassou a folha e passou os olhos pelo bilhete, depois amassou de novo e me entregou dizendo com um sorriso sarcástico:
— Quem diria!
Senti meu rosto pegar fogo, logo Julia voltou do banheiro e sentou de volta, ela nem ao menos percebeu meu desconforto. O resto da segunda aula, eu fiquei estática como um robô, apenas anotando as coisas da aula, na passagem para terceira aula virei para trás e Julia estava lá.
— Você tá bem? Parece aérea.
— A professora viu o seu bilhete e acha que é meu! — Respondi devolvendo o bilhete com uma expressão preocupada.
— Ah não! Você disse que era meu?
— Não. Ainda.
— Mas não pode dizer, nenhum professor pode saber, por favor! — disse suplicando.
— Tá bom, mas por quê?
Ela olhou em volta conferindo se ninguém estava olhando para nós, se aproximou bem do meu ouvido, e sussurrou:
— É que eu perdi a virgindade com um professor.
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