Mistérios de Dezembro
16 Oportunidade
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XII – MISTÉRIOS DE DEZEMBRO
CAPÍTULO XV – OPORTUNIDADE
— O que faremos agora? – Questiona Shawn, enquanto levávamos um Leonard desacordado para o sofá.
Assim que colocamos o rapaz deitado de forma confortável, analiso o corte que ele havia sofrido na cabeça. Não parecia tão fundo, mas o impacto foi forte o bastante para fazê-lo desmaiar e bater a cabeça no chão. Definitivamente ele precisaria realizar exames para ter certeza de que ele estava bem. Desvio o olhar para minha sobrinha, que tentava colocar a porta derrubada no lugar, mas os trincos haviam sido destruídos. Ela suspira e encara o namorado com um olhar preocupado.
A sala de estar da casa de Sara e Leonard estava completamente tomada por um gás de fumaça que atrapalhava a visão e causava irritação as vias respiratórias e olhos. Assim, retiro um lenço que sempre carrego em meu bolso para proteger meu nariz e boca e vou até as janelas da sala, abrindo-as para que ventilasse o ambiente e dissipasse a fumaça.
Encontro a bomba de fumaça que ainda estava agindo e a jogo pela janela. Aos poucos, a sala começa a se tornar mais clara e é possível enxergar a todos com clareza. Ainda havia marcas do sangue de Alexi pelo chão da sala e noto algumas marcas de sapatos próximos. Retiro fotos para analisar depois. Vou até o casaco de Alexi e vasculho, procurando algo que pudesse me dar uma dica de onde ele estaria.
Além de armas, carteira e o celular de Alexi, encontro um cartão que parecia ser de uma casa de shows que fica na cidade vizinha de Hawkins. Eu tinha ido algumas vezes a essa casa de shows quando ainda namorava com Natasha. O antigo dono era um amigo da faculdade que eu ainda matinha contato. Agora, a casa é sempre lotada e é preciso ter reservado mesa com antecedência para entrar. Analiso o cartão e há uma data, um horário e um nome presente nele. Suspiro ao reconhecer.
— Tio Clint? – Sara me chama e eu desvio o olhar do cartão para encarar a garota. Ela estava ao lado do namorado e pressionava um pano sobre o ferimento de Leonard. Guardo o cartão e os pertences de Alexi em meus bolsos antes de me aproximar de minha sobrinha. – O que vamos fazer?
— Por enquanto, vamos cuidar de Leonard. Ele parece ter recebido uma pancada feia na cabeça. Talvez seja melhor que a gente o leve para o hospital e... – Antes que eu continuasse, ouço meu celular tocar. Puxo o aparelho do meu bolso e surpreendo-me ao ver o nome de Natasha brilhando na tela. Sinto o olhar de minha sobrinha sobre mim, esperando a continuação da orientação e suspiro, virando-me para o homem desmaiado. – Shawn, preste os primeiros-socorros em Leonard. Sara, pegue os documentos dele e separe uma roupa quente para levá-lo ao hospital. Eu preciso atender essa ligação.
E sem esperar por respostas, afasto-me de Shawn e Sara para atender ao telefonema inesperado de Natasha. Ansioso para descobrir o que ela queria me falar, retorno para a cozinha e respiro fundo antes de atender a ligação.
— Natasha? Aconteceu alguma coisa? – Pergunto, preocupado.
— Taskmaster apareceu na minha casa. – Responde com a voz cansada. Sinto meu corpo tenso com a informação. Eu a conhecia bem o bastante para saber que o encontro não havia sido fácil e algo não saiu como ela planejava.
— Você está bem? Ele te machucou? – Questiono e ouço a mulher suspirar do outro lado da linha.
— Sim. Apenas com o orgulho ferido por ter sido vencida tão facilmente por aquele narcisista e com o desejo de arrancar a cabeça dele com as minhas próprias mãos está dez vezes mais intenso. — Afirma e posso sentir a fúria presente em seu tom de voz. – Ele me disse que você e Alexi se encontraram. Isso é verdade?
— Sim. – Confesso, suspirando. – Mas é melhor não conversarmos por telefone. Estou levando Leonard para o hospital. Consegue me encontrar no mesmo lugar que íamos?
— Leonard? Leonard Snart?
— Ele mesmo. – Respondo, suspirando.
— O que houve com ele? – Indaga, confusa com a informação.
— Eu te explico tudo quando você chegar. – Decido encerrar a conversa, ciente de que a HYDRA deveria estar ouvindo toda a nossa conversa.
— Está bem. Estou indo para lá. – Concorda Natasha, suspirando cansada. – Tenha cuidado.
— Eu vou ficar bem. Eu prometo. – Garanto e logo em seguida a ligação é encerrada. Sorrio e suspiro, lembrando de quando as ligações ainda eram um hábito para nós.
Guardo meu celular no bolso do meu casaco e retorno para a sala de estar. Como eu havia orientado, Sara vestia roupas quentes em Leonard, enquanto Shawn a ajudava. O ferimento havia sido limpo e tampado pelo cientista para estancar o sangue, mas como eu suspeitava, o corte – que pelo formato havia sido feito pela bomba de gás que o atingiu na cabeça – levaria pontos.
— Shawn, onde estão as chaves do carro? – Pergunto, aproximando-me. O cientista pega chaveiro que eu havia dado a ele, onde estavam as chaves, e joga para mim. – Sara, você dirige. Shawn e eu colocamos Leonard no carro. Quero que utilize a rota de fuga.
— Tudo bem. – Concorda a mulher, respirando fundo para se acalmar. Era evidente a sua preocupação com o namorado, mas ela sabia que precisava manter as emoções sob controle se quiséssemos chegar rápido ao hospital. – Eu estou pronta. Vamos lá.
Pegando um casaco grosso e todos os documentos de Leonard, Sara sai em direção ao carro para destravar e colocar o namorado no banco de trás. Shawn e eu levamos o rapaz com agilidade para dentro do veículo, completamente exaustos e incomodados com a intensidade do frio que fazia. A tempestade continuava a piorar e a visibilidade seria um grande problema para nós chegarmos ao hospital.
Colocamos a porta arrombada da sala do casal de forma improvisada em frente a entrada para proteger a casa e saímos em alta velocidade pelas ruas de Hawkins. Concentrada na pista, Sara desvia de todos os obstáculos com exímio e em no máximo quinze minutos nós chegamos ao hospital que ficava do outro lado da cidade. O imponente IU Health Methodist Hospital continuava a se mostrar com exuberância, conforme eu orientava Sara, não demoramos a nos aproximar da entrada secreta que Robert Queen, meu amigo de longa data, havia criado para que eu usasse em situações nas quais eu não poderia ser visto pela mídia ou por alguns de meus inimigos.
— E agora, tio Clint? – Questiona Sara, assim que entramos no beco sem saída do hospital.
— Está vendo a caixa de correios antiga e abandonada mais à frente, que parece que é para ser jogada fora? – Questiono, pegando meu celular.
— Sim. – Concorda a garota, confusa.
— Aproxime-se e erga a tampa. Dentro dele há uma tranca digital. Digite o seu código e aperte o asterisco. Uma porta irá se abrir. Você terá dez segundos para entrar, antes da porta se fechar, então seja rápida. – Oriento, procurando pelo número da madrasta de Barry, Echo Allen.
— Código? – Questiona Shawn com curiosidade.
— Cada um dos sobrinhos do tio Clint têm um código único que é usado para desbloquear todas as tecnologias que ele fabricou. – Explica Sara e eu assinto, concordando.
— Que tipo de tecnologia nós estamos falando para que você permita que apenas seus sobrinhos usem e que tem que ter um código? – Shawn me encara com desconfiança.
— O tipo de tecnologia que não se deve parar nas mãos erradas. – Respondo, observando Sara digitar o código dela na tranca digital.
Como eu havia informado, a porta escondida a nossa frente se abre imediatamente e nós entramos antes que ela se fechasse. Dentro do estacionamento reservado apenas para os membros da família Barton, todas as luzes se ligam. Enquanto Sara procura a melhor vaga para ela estacionar, uma equipe de enfermeiros aparece com uma maca para levar o paciente. Assim que estacionamos, a equipe se aproxima e Shawn, Sara e eu descemos do carro para que os enfermeiros realizassem o trabalho deles sem nenhuma interferência.
— Boa noite, sr. Barton. – Cumprimenta Malévola Faery, a enfermeira chefe do hospital, que coincidentemente, é a sogra de meu afilhado. – Qual é a emergência dessa vez?
— Olá, Malévola. A Echo está? – Pergunto e ela assente, encarando Leonard com curiosidade. – Ele sofreu um forte impacto no osso frontal e na crista occipital externa. Preciso que realize uma tomografia computadorizada do crânio para verificar a possibilidade de um traumatismo craniano e que suturem o corte na testa.
— Sim, senhor. – Concorda Malévola, oferecendo sua típica expressão séria. – A dra. Allen se encontra em sua sala. Deseja que eu entre em contato?
— Não será necessário. Eu mesmo vou ligar para ela. – Informo, levando meu celular ao ouvido. Sara e Shawn me encaravam surpresos, mas eu apenas ignoro as evidentes perguntas que eles tinham.
— Oi, Clint. – Echo atende a ligação no quarto toque. – O que precisa de mim?
— Desse jeito você machuca meu coração, Echo. Faz parecer que eu só entro em contato para pedir alguma coisa. – Respondo e ela ri do outro lado da linha, divertindo-se com meu comentário.
— Então você não tem nenhum pedido a me fazer? — Questiona a melhor neurologista do país com a voz carregada de humor e dessa vez sou eu quem acaba rindo.
— Eu nunca disse isso. – Retruco e ela ri ainda mais.
— Como eu imaginei, afinal, você nunca me ligaria uma hora da manhã apenas para saber se eu estou bem. Então me conta. O que eu posso fazer por você hoje? – Pergunta a mulher, assumindo um tom mais sério.
— Eu trouxe um paciente para você. Leonard Snart. Ele é o namorado de Sara. Nós fomos atacados na casa deles. Arremessaram uma bomba de gás de fumaça contra ele, que acabou atingindo o osso frontal e o fez desmaiar com o forte impacto. Leonard caiu e bateu também a crista occipital externa. Poderia cuidar dele para mim? – Indago, observando a equipe de enfermeiros levarem Leonard. Sara, Shawn e eu seguimos logo atrás.
— Claro. Malévola já o levou para fazer a tomografia? – Ouço o som de Echo se movimento e já consigo imaginar a mulher se preparando para atender o namorado de Sara.
— Está a caminho. Preciso cuidar de alguns assuntos, mas Sara e meu amigo, Shawn Kennedy irão acompanhar o procedimento. Peço que caso eu não esteja por perto quando estiver analisando os exames, que você me ligue. – Peço e posso ver o olhar inquisidor sobre mim.
— Não se preocupe. Eu farei isso. Até mais tarde.
— Obrigado e até mais. – Despeço-me e encerro a ligação.
— Aonde você vai, Clint? – Questiona, Shawn. Sara também me encara com curiosidade, esperando alguma resposta.
— Eu vou me encontrar com Natasha. Parece que o Taskmaster apareceu na casa dela. Vou saber mais detalhes agora. Shawn, acompanhe a Sara e me avise assim que tiver notícias. Eu não devo demorar, mas de qualquer forma, vocês já estão avisados. — Respondo e posso ver os olhos de minha sobrinha e amigo quase dobrarem de tamanho.
— Tia Tasha está bem? – Sara me questiona, desesperada.
— Sim. Não se preocupe. Ele apenas quis assustá-la. Depois de conversarmos, eu acredito que ela deva vir comigo para verificar como Leonard está. – Respondo, assim que passamos pela porta que nos dava acesso as áreas públicas do hospital, e eles assentem.
— Não demore. – Alerta Shawn no momento em que nos afastamos.
Aceno em despedida e corro pelos corredores do hospital, cumprimentando alguns profissionais que eu conheço, até chegar na escada de emergência. Corro pelos lances de escada e após dez andares, eu finalmente chego ao heliponto do hospital. Como eu esperava, Natasha me esperava, encarando a linda vista que tínhamos do lugar.
Ela usava um casaco grosso preto com uma camada de pelo branco ao redor do pescoço. Natasha usava também uma calça, botas coturnos e luvas pretas. Por causa do vento, seus cabelos escarlates se balançavam com força e a deixavam mais linda que o normal. A tempestade começava a dar uma trégua, mas ainda estava bastante frio e do lugar que estávamos, tudo se tornava ainda mais intenso.
— Você está horrível. – Comenta Natasha, encarando-me de cima a baixo. Apesar de seu comentário, eu sabia que essa era a sua forma de se preocupar comigo. – Você está bem?
— Sim. Alexi foi quem realmente se machucou. – Respondo e ela suspira. Aproximamo-nos da beirada do heliponto, observando a cidade que nunca parava. – E então? O que foi que aconteceu? O que ele te disse?
— Eu não sei como ele entrou no meu apartamento. Ninguém além de Hillary, Fury e Sara sabia que eu estou ficando no alojamento da CIA. E ele não parecia ter arrombado. Tentei olhar nas câmeras de segurança do prédio e ao redor, mas todas foram desativadas antes de sua entrada e saída do local. – Conta Natasha sem realmente me surpreender. – E segundo aquele maldito narcisista, ele apareceu apenas para me visitar e nos avisar que está de olho em nós.
— Ele apenas aproveitou a oportunidade para te tirar do sério e verificar como você reagiria com a presença dele. Taskmaster é o tipo de doente que gosta de se vangloriar e da adrenalina de ver as pessoas sofrendo. – Explico e ela dá um riso anasalado. Sento-me na beirada do prédio, sem me incomodar com a altura de pelo menos trinta metros. Natasha se senta ao meu lado e se encolhe contra mim com o forte vento que nos atinge. Retiro meu casaco e coloco sobre seus ombros. Permaneço com meu suéter e cachecol para me proteger do frio.
— Você vai morrer congelado. – Ela me repreende, tentando me devolver o casaco e eu nego, dando de ombros. Eu estava acostumado a testar meus limites e ela sabia disso. Natasha então suspira e veste o casaco. – Você não parece surpreso com o fato de Taskmaster ter invadido a minha casa. Como sabe que ele é um exibicionista?
— Ele não estaria fazendo um jogo como esse se não fosse egocêntrico. As pistas e a marca registrada são provas o bastante para eu saber que ele gosta de ter atenção e que as pessoas o temam. – Respondo, entrelaçando minha mão na de Natasha, que surpreendentemente, encosta a cabeça em meu ombro e se encolhe contra mim.
— Nós temos que pará-lo de qualquer forma. A partir de agora ele vai jogar com a vida das pessoas que amamos. É assim que ele gosta de agir. – Responde Natasha, suspirando. Passo o braço por cima de seus ombros e a trago para mais perto, deixando um beijo no topo de sua cabeça.
— O que mais ele te disse? – Pergunto, ciente de que ela ainda não havia me contado toda a verdade.
— Ele apostou a HYDRA no jogo. – Revela e ela se afasta para me encarar. — Se você descobrir quem é o Taskmaster e conseguir o pegar, a HYDRA o seu fim. Ele acredita que você é o único adversário capaz de derrotá-lo, portanto, ele resolveu apostar todas as fichas dele nesse jogo para ter certeza de que vocês dois terão o melhor jogo de suas vidas.
— Então parece que o fim da HYDRA está mais perto do que nunca. – Comento e Natasha me encara com preocupação. Suspiro e passo a observar o céu nublado. Acompanho um dos cristais de neve cair em minha mão e o observo derreter. – A KGB também entrou no jogo.
— O quê? Impossível! Essa agência deveria ter sido extinta há vinte anos, quando a União Soviética caiu. – Natasha não parecia acreditar nas minhas palavras. – Como você sabe disso?
— Alexi estava usando o uniforme deles e a equipe de operações especiais da KGB invadiu a casa de Sara e Leonard quando cuidávamos dos ferimentos de bala de Alexi. Eles entraram com uma bomba de gás de fumaça. – Respondo e ela novamente me encara confusa.
— Você foi para casa da Sara e do Leonard para cuidar dos ferimentos do Alexi? – Pergunta, como se estivesse confirmando que ela não havia entendido errado. – Por quê?
— Alexi apareceu um pouco depois que deixei o pub. Eu resolvi andar um pouco para amenizar a dor de cabeça que eu sentia e colocar os sentimentos no lugar. Ele me atacou com uma arma e eu revidei com meu canivete. Shawn achou que eu estivesse em perigo e atirou duas vezes contra Alexi. Para a nossa sorte, ele é ruim de mira e não o matou instantaneamente. No entanto, ele estava perdendo muito sangue e morreria em uma hora. Eu não poderia levá-lo para a nossa casa, porque a família de Bernard está por lá. Não podemos leva-lo para a casa de Shawn, porque a mãe dele está lá e surtaria. A sua casa e a de Hillary estavam fora de cogitação, já que estavam bebendo juntos, mas assim como qualquer outros dos meus sobrinhos, eles não poderiam ajudar. Sara era a única que poderia me ajudar naquele momento.
“Eu não poderia permitir que aquele desgraçado morresse tão facilmente. Não sem antes de experimentar a minha vingança. Assim, o levamos para a casa deles e enquanto Shawn cuidava dos ferimentos de Alexi, a casa foi invadida. Jogaram bomba de gás de cozinha e acertaram Leonard na cabeça”. – Explico à mulher, que suspira frustrada.
— E o que pretende fazer agora? Perdemos Alexi e Taskmaster. – Comenta e eu a puxo para mais perto para alcançar o cartão que encontrei de dentro do bolso interno do casaco.
— Nós iremos nos encontrar com um antigo conhecido nossa depois de amanhã. – Respondo e ela me encara confusa. Exibo o cartão e Natasha o pega para analisar.
— “Howl at the Moon às dezenove horas”. – Lê minha ex-namorada, que arfa ao reconhecer o nome. – “Com Aaron Moon”.
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