Mistérios de Dezembro
15 Narcisista
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XII – MISTÉRIOS DE DEZEMBRO
CAPÍTULO XIV – NARCISISTA
Taskmaster era exatamente como as pessoas o descreviam. Mesmo usando uma roupa ridícula, luvas, botas e uma máscara escondendo seu rosto, ainda era possível sentir toda a sua imponência. Aperto a alça de minha bolsa e quase posso sentir ele sorri enquanto me encara. Ele segurava um porta-retrato que reconheço como o que eu guardava escondido em minhas coisas com a foto de Clint, Lila e Cooper.
— Natasha Romanoff. Ou eu deveria te chamar de Natalia Rushman? – A voz robotizada ecoa pela sala e me pega surpresa, mas o que realmente me deixa em choque foi ouvir o nome que não ouvia desde que era criança.
— Como você sabe? – Pergunto, perplexa. Ele se levanta e passa a andar pela sala com o porta-retrato em mãos, até o colocar na estante onde estava a televisão. Levo minhas mãos aos bolsos do casaco que Hillary havia me emprestado, mas todas as minhas armas haviam ficado na casa da garota. Eu sabia que aquela era uma oportunidade única de prender o líder da HYDRA e colocar um ponto final nesse jogo doentio dele.
— O quê? O seu endereço que você tenta esconder de todos ou o seu nome de nascença? – Questiona Taskmaster, virando-se para mim. Levo a mão para dentro da minha bolsa, buscando a arma com a qual eu sempre andava, mas o homem apenas rir. – Está procurando por isso?
— O quê?! – Balbucio, vendo-o com a minha arma extra em mãos.
— Sabe, o garçom do pub que você estava foi muito generoso em me emprestar essa linda Beretta 950BS da sua bolsa. – Comenta o homem, retirando a munição antes de colocar a arma sobre a mesa de centro. – Não me olhe assim, Natalia.
— Não me chame assim! – Digo entredentes, irritada. Apenas Clint deveria saber meu nome verdadeiro. Ele também é o único que permito me chamar assim. – Você não tem esse direito!
— Natasha é um diminutivo russo de Natalya, que se originou a partir do latim natalia, que deriva de natalis, que significa literalmente "nascimento" ou "dia do nascimento de Cristo". Não acha isso interessante? Seu pai adotivo te deu esse nome porque você apareceu e renasceu como um milagre para ele, sem nem mesmo imaginar o quão perto do seu nome verdadeiro ele estava. – Ironiza Taskmaster, aproximando-se lentamente.
Após ser salva por Ivan, eu não tinha nome, sobrenome, idade ou data de nascimento. Traumatizada e nova demais para lidar com a situação, eu passei um ano sem falar. Tudo o que meu pai adotivo tinha de pista sobre qual era o meu nome era uma agenda queimada com "Nat". Assim, ele resolveu me chamar de Natasha. Somente quando entrei para a CIA é que descobri que meu verdadeiro nome era Natalia Rushman e todas as informações sobre mim que faltavam.
No entanto, decidi enterrar tudo no fundo de minha memória e em meu coração. Eu não era mais Natalia. Essa garota morreu junto com meus pais naquele terrível incêndio quando eu era criança. Natalia era uma menina inocente que acreditava em Papai Noel, fadas dos dentes e em contos de fadas. Eu simplesmente não podia manchar a imagem daquela criança que eu nunca voltaria a ser.
— O que você quer? – Questiono, segurando-me para não avançar contra o homem. – Por que você está aqui?
— Não se preocupe. Eu não vim para te matar, se é isso que está pensando. Se eu realmente quisesse fazer isso, já teria feito há muito tempo. Oportunidades foram o que não me faltaram. – Afirma Taskmaster, parando de frente para mim. – Na verdade, eu vim aqui apenas para fazer uma rápida visita.
— Visita? – Repito e rio com ironia. – Eu juro que eu vou acabar com você. Farei com que pague pelo que fez com Bernard e todas as pessoas inocentes que você feriu ou obrigou a entrar nessa maldita organização. Não importa o que eu precise fazer, eu vou te destruir.
— Não seja assim, Naty. Eu vim aqui como amigo. – Responde o homem, tentando tocar em meu rosto. Institivamente me afasto e tento socá-lo, mas para a minha surpresa, ele consegue desviar e ainda puxar meu braço e atingir um nervo que me paralisa momentaneamente de forma que somente uma pessoa havia conseguido.
— Onde você aprendeu isso? – Questiono, surpresa. Ele ri e me solta, provavelmente se divertindo com a minha reação. – Como aprendeu esse ataque que apenas Clint é capaz?
— Sabe, Naty, eu nasci com um dom. Eu descobri a minha habilidade mnemônica ainda na infância, enquanto assistia um programa de televisão sobre caubóis. Surpreendentemente, eu consegui replicar todos os movimentos que vi nos personagens. Conforme eu crescia, eu tentei entender ainda mais os meus "superpoderes". Minha mãe me levou ao psiquiatra, que definiu as minhas habilidades como reflexos fotográficos. – Explica o homem, voltando a andar pela sala. – Eu conseguia imitar qualquer pessoa. Nenhuma técnica de luta era difícil o bastante para mim. E então comecei a me apaixonar pela ideia de testar as pessoas. É fascinante como a mente humana funciona quando exposta a certos estímulos. As pessoas costumam agir em momentos de desespero e isso nos mostra o quão frágeis são os seres humanos.
— Então você resolveu brincar com a vida das pessoas? Por acaso você se acha um Deus que pode decidir quem vive e quem morre? – Questiono, recuperando-me do golpe que ele havia aplicado em mim.
— Eu não me acho um Deus, até porque nem mesmo acredito que exista um, mas se existisse, eu definitivamente seria a melhor descrição para um ser divino. – O tom sarcástico da voz robotizada faz meu estômago se revirar de raiva. – Quer dizer, eu tenho cerca de trinta agências de segurança nacional em minha busca de diferentes países e até mesmo tive a honra de terem criado unidades específicas na CIA e no FBI apenas para me procurar durante os últimos vinte anos e até agora, ninguém nem mesmo chegou perto de descobrir quem eu sou ou de me prender. Quer prova maior do que essa para comprovar que eu sou muito melhor que todos vocês juntos?
— Narcisista de merda! – Rosno, enfurecida. – Cretino filho da puta!
— Que coisa feia! Olha a boca, Naty. Você é uma mulher educada. Não vamos baixar o nível. – Repreende Taskmaster, voltando a pegar o meu porta-retrato. – Seus filhos não ficariam nada orgulhosos de ouvir a mãe falando desse jeito. Mas na verdade, isso não importa. Eles estão mortos mesmo. Não faz diferença alguma se eles gostariam ou não.
O descaso e o deboche presente na voz de Taskmaster ao comentar sobre a morte de meus filhos fazem com que a minha fúria se elevasse em níveis até então desconhecido por mim. Assim, sem conseguir controlar meus impulsos, avanço em alta velocidade contra o homem que estava de costas para mim. E para a minha surpresa, antes que eu acertasse o soco que tanto desejava, ele se vira, puxa meu braço e me derruba contra a mesa de centro da sala. Arfo e sinto o seu aperto forte em meu pescoço.
— Quanta ingenuidade, Natalia. Eu sou o líder da maior organização criminosa do mundo. Eu sou como o rei do submundo. Acha mesmo que um ataque com tantas aberturas como esse vai ter algum efeito em mim? Esperava mais da ex-agente do Tentáculo e a melhor agente da CIA. — Comenta Taskmaster, pressionando minha garganta cada vez mais intensamente. — Para a sua sorte, eu vim pacificamente hoje e vou ignorar esse seu ataque deprimente. Mas lembre-se: o único com alguma possibilidade de me derrotar se chama Clinton Barton.
Taskmaster me solta e eu acabo tossindo, sentindo minha garganta doer pelo aperto forte do homem. Ele se afasta e sinto seu olhar sobre mim enquanto me recomponho.
— O que você... veio fazer... aqui? — Questiono com a voz rouca.
— Eu apenas vim dar um aviso e me apresentar, já que nós nunca nos vimos antes. – Responde com o tom pensativo. – A verdade é que essa é a primeira vez que encontro alguém capaz de jogar de igual para igual comigo. Eu tenho observado vocês há muito tempo. Cada detalhe interessante de suas vidas. Como alguém com o intelecto evoluído como o meu, tenho que admitir que a inteligência de Clint é admirável. Ele capta os detalhes e é por isso que é tão divertido desafiá-lo. É por isso que eu o escolhi para a minha batalha final.
— Então você vai desistir da HYDRA? – Pergunto, sem acreditar no que ele dizia. – Vai desfazer a organização se Clint vencer o seu maldito joguinho?
— É claro. Por que não? É uma aposta interessante. – Afirma Taskmaster e novamente sinto que ele sorria. – Se ele descobrir quem eu sou e conseguir me pegar, a HYDRA terá finalmente o seu fim.
— Simples assim? Ah, por favor! Eu não sou idiota! O que você está planejando? Qual é a sua jogada suja dessa vez? – Indago, indo até no homem, que dá de ombros.
— Simples assim. A vida inteira, tudo o que fiz foi procurar alguém que fosse capaz de me entreter da maneira como Clint tem feito. A HYDRA foi apenas um passatempo, que graças ao meu talento natural, acabou tendo ainda mais sucesso desde que assumi a presidência. Essa é a minha chance de ultrapassar meus limites. É uma verdadeira batalha! Finalmente algo de esplêndido e desafiador. Finalmente algo que realmente vale a pena me superar. Então, se Clint for capaz de me vencer, vocês ganharão o que tanto desejam. Sem jogos sujos. – Responde Taskmaster, virando-se para mim.
— Bom, então parece que nós finalmente colocaremos um fim nessa perseguição que dura mais de sessenta anos, porque eu tenho certeza de que Clint vai vencer você. Além disso, nós temos um ponto a nosso favor. Temos uma testemunha que viu o seu rosto. É só uma questão de tempo até que a gente...
— O quê? Acha mesmo que eu vou cair no truque de que a pobre garotinha Kayla é a chave para vocês descobrirem quem eu sou? Parece que estão superestimando demais a garota. Eu já ouvi o depoimento dela, que assim como eu já previa, foi bastante genérico e só serviu para os frustrar. A descrição foi realmente incrível. Homem branco, careca, alto e por causa da escuridão foi incapaz de ver a cor dos olhos. Sem cicatrizes ou marcas que pudessem diferenciar. Em outras palavras, ela descreveu mais de setenta milhões de homens da população mundial. – Explica o homem, parecendo achar graça da situação. – Fiquem à vontade para interrogar cada um deles.
— Se você sabia que o depoimento dela seria genérico, então por que perseguiu ela e os irmãos mais novos com um assassino? Eles eram apenas crianças! – Digo, furiosa. Ele ri e dá de ombros mais uma vez.
— Porque era divertido. E realmente foi interessante ver o seu protegido, Steve Rogers, e a sua querida amiga, Margareth Carter, fingindo ser uma família. Foi realmente divertido ver vocês lidando com Schmidt. O desespero todas as vezes que se encontravam era animador. – Responde o líder da HYDRA e mais uma vez sinto aquele desejo incontrolado de o destruir com as minhas próprias mãos.
— Você vai pagar bem caro pelo que fez e pelo que está fazendo. Eu juro. – Declaro, apertando meus punhos.
Taskmaster se aproxima a porta de vidro da sala de estar do meu apartamento provisório que dava acesso a varanda, gargalhando pela minha ameaça. Ele encara a paisagem e abre a porta. O homem então se vira para mim e para de rir.
— Não faça promessas que você não pode cumprir. – Responde com um tom de voz intimidante. Mesmo com a voz robotizada, sinto um arrepio desagradável e assustador subir pela minha espinha. Ele então se aproxima da varanda. – Ah, e que tal você ligar para Clint nesse momento? Eu aposto que você vai adorar saber que ele finalmente tem a chance do seu tão esperado acerto de contas com Alexi.
— O quê? – Sussurro, sentindo o medo de atingir.
— Bom, chegou a minha hora. Nós nos veremos muito em breve, Natalia. E não se esqueça que quem brinca com fogo pode acabar se queimando. Esteja pronta para se machucar, porque eu não vou pegar leve. – Informa Taskmaster, que não demora muito a pular da varanda.
Corro para conferir se ele realmente havia pulado do terceiro andar e o vejo correndo em direção a um carro preto sem placa. Bato frustrada no parapeito da varanda do apartamento e observo a neve cair com intensidade. Era tarde demais. Ir atrás dele com essa intensa tempestade de neve que caia só seria uma grande perda de tempo.
Então, sentindo o gosto amargo e tenebroso da derrota, volto para sala e busco pelo meu celular dentro de minha bolsa. Assim que o encontro, disco o número de Clint, que mesmo depois de anos, eu nunca havia esquecido. Levo o aparelho ao ouvido e encaro a foto sobre a estante, que Taskmaster havia colocado. Acaricio o rosto de Clint na foto e suspiro.
Mais uma vez, teremos que lidar com os fantasmas do passado e eu não tenho certeza de como tudo isso vai acabar. No entanto, a única coisa que eu espero é que consigamos sair vivos e vitoriosos dessa batalha de jogos mentais.
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