Mistérios de Dezembro
14 Momento
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XII – MISTÉRIOS DE DEZEMBRO
CAPÍTULO XIII – MOMENTO
Alexi abre e fecha a boca várias vezes e é nítida a dor que ele sentia naquele momento. Seu corpo cai para frente e eu acabo o segurando de forma desengonçada. Bufo e deixo meu canivete cair para conseguir o apoiar melhor. Estava começando a nevar e ele sangrava com intensidade pelo pescoço e na região próxima as costelas.
— Des... graçado. – Ele arfa, levando uma das mãos ao ombro.
— Não ouse morrer agora. – Sussurro de volta, enquanto vejo a pessoa que havia atirado correr em nossa direção.
— Clint! Você está bem?
— Mas que droga, Shawn! Por que raios você atirou? – Questiono, encarando-o furioso. — Que merda você pensa que estava fazendo?
— Salvando a sua vida? – Ironiza Shawn, revirando os olhos, enquanto guarda a arma no cós de sua calça por baixo do casaco grosso que ele usava para se proteger do intenso frio.
— Errado! Você atrapalhou a minha vingança! – Retruco e Shawn me encara indignado.
— Ele tinha a droga de uma arma apontada na sua cabeça, Clint! – Resmunga o cientista, suspirando frustrado.
— E eu tinha um canivete e estava me saindo muito bem. Agora vou ter que salvar a vida deste maldito por sua culpa! – Acuso e ele arregala os olhos sem acreditar.
— O quê? Por quê? Por acaso você se esqueceu que esse é o desgraçado que matou seus filhos, atrapalhou seu relacionamento com Natasha e matou Bernard? Por que vai salvar a vida dele? – Questiona Shawn, completamente confuso.
— É justamente por ele ter feito tudo isso que eu não posso deixar que ele simplesmente morra pelas suas mãos. Ele não pode morrer tão fácil assim. Alexi precisa sofrer mais do que qualquer outra pessoa no mundo ao ponto de desejar estar morto. Eu o farei sentir as piores dores físicas e psicológicas do mundo. E quando ele não estiver mais forças, eu injetarei adrenalina nele para que ele permaneça acordado, enquanto experimenta mais tipos de tortura. Então, somente quando ele já estiver praticamente morto, eu darei veneno para ele beber e morrer de maneira angustiante. – Respondo e o cientista me encara assustado. – A minha sorte é que você sempre foi ruim de mira.
— Você é completamente maluco. Não sei porque eu continuo seu amigo e nem como minha mãe pode dizer que você é uma boa influência para mim. Aposto que ela não pensaria isso de você se o ouvisse falando nesse momento. – Resmunga Shawn, puxando Alexi para compartilhar o peso do homem que começava a perder a consciência. – E o que faremos agora?
— Nós vamos levá-lo para a sua casa. – Respondo simplista e Shawn me encara indignado.
— O quê? Por que para a minha casa? – Questiona e eu dou de ombros.
— Porque a culpa é sua. Eu já te disse várias vezes para não interferir quando eu estiver brigando e agora eu vou ter que fazer esse maldito sobreviver se quiser ter minha tão sonhada vingança. – Afirmo e Shawn suspira, frustrado.
— De forma alguma eu vou levar esse cara para a minha casa. Primeiro que minha mãe está em casa e vai enlouquecer se ver um homem baleado por lá. Mais ainda se descobrir que a culpa é minha. – Responde, balançando a cabeça em negação. – Vamos para a sua casa.
— Impossível. – Digo, suspirando. – A família de Bernard está por lá. Quero evitar que eles encontrem o assassino dele e que descubram que estou planejando salvar a vida dele.
— Então vamos levá-lo para o hospital. Você conhece os donos e a maior parte da equipe de médicos do IU Health Methodist Hospital mesmo. Aposto que eles dariam um jeito de deixá-lo entrar para que fosse atendido sem que ninguém descobrisse, assim como fazem com as celebridades. – Sugere Shawn e eu o encaro sem acreditar na ideia maluca que ele estava dando. Rio incrédulo.
— Eu não vou levar esse desgraçado para o hospital. Ele não merece isso. Quero que ele sofra. Para que eu vou permitir que ele vá para o hospital? Prefiro que ele morra. – Respondo e dessa vez é Shawn quem rir com ironia.
— Eu não te entendo. Uma hora diz que quer o salvar e depois fala que prefere que ele morra. Você definitivamente é doente. – Afirma Shawn, irritado. – Decide logo para onde nós vamos que eu já estou cansado, começou a nevar e segurar esse homem pesado depois de atirar dele não era exatamente o que eu planejava para essa noite de sábado quando eu decidi ir ao cinema. Eu quero ir para casa. E de preferência para bem longe desse assassino.
Suspiro e deixo o corpo de Alexi ir ao chão. Encaro Shawn com um sorriso irônico, quase em uma pergunta muda sobre ele estar satisfeito com a situação e ele dá de ombros. Alexi estava vivo, mas continuava a perder muito sangue. Nesse ritmo, ele morreria em cerca de no máximo uma hora. Isso se ele tivesse sorte.
A mira de Shawn poderia ser péssima, mas ele ainda havia atingido pontos que poderiam ser vitais. Pondero para onde deveria ir, mas nenhum lugar parecia ser bom o bastante para impedir que o maldito sobrevivesse, enquanto impedia que a HYDRA nos atacasse.
Eu poderia levá-lo para a minha casa no lago, mas para chegar lá com a tempestade de neve que estava para chegar, nós demoraríamos mais de duas horas. Minha segunda opção seria ir atrás de Hillary ou Natasha, mas as duas deveriam ainda estar no pub e eu não queria atrapalhar a noite delas. Natasha merecia ter uma noite normal e eu sabia que ela não concordaria com os meus métodos. Ouço Alexi gemer de dor e suspiro, guardando a arma de Alexi no bolso interno do meu sobretudo. Pego meu celular e busco pelo contato que eu precisava na agenda telefônica. Assim que o encontro, levo o aparelho ao ouvido.
— Para quem você vai ligar? – Questiona Shawn, encarando com curiosidade.
— Para provavelmente a única pessoa que pode nos ajudar nesse momento. – Respondo e volto a prestar atenção na ligação.
— Oi, tio Clint.
— Oi, Sara. Desculpa te ligar tão tarde. – Lamento, imaginando que já se passavam da meia noite.
— Não se preocupe com isso. Eu não estava dormindo. – Afirma a filha mais velha de meu irmão. – O que houve? Aconteceu alguma coisa?
— Por acaso você está em casa? – Pergunto, esperançoso.
— Sim. Leonard e eu estamos assistindo a um filme. Por quê? Eu posso ajudar de alguma forma? – Indaga a garota com curiosidade.
— Na verdade, sim. Mas antes de tudo, eu tenho uma pergunta a fazer, Sara, e peço que seja honesta com a sua resposta, por favor. – Digo e quase posso ver a expressão confusa que a minha sobrinha deveria estar fazendo nesse momento.
— Tudo bem. Eu prometo que serei honesta. – Garante Sara no outro lado da linha. – O que precisa saber?
— Se eu te pedisse para fazer algo que vai contra os princípios da CIA, o que você faria? – Pergunto com cautela. Não queria preocupar minha sobrinha. – Você me ajudaria mesmo sabendo que poderia perder seu emprego e acabar presa ou se recusaria para seguir as normas da S.H.I.E.L.D?
— Eu o ajudaria sem hesitação. — Responde a agente da CIA sem nem mesmo pensar sobre o assunto. Sorrio, satisfeito com a sua resposta. – O que precisa que eu faça?
— Infelizmente eu não posso falar sobre isso por telefone, mas estou indo agora mesmo para a sua casa. – Respondo, demonstrando um pouco de urgência pelo meu tom de voz. – Chego em dez minutos.
— Tudo bem. Estamos te esperando. — Afirma Sara, parecendo entender o recado. Encerro a ligação e me viro para Shawn.
— Onde está o seu carro? – Pergunto e ele aponta para o veículo parado a uns cem metros de distância de nós. – Está bem. Vamos levar o dejeto humano para lá e correr para a casa da Sara e de Leonard.
— Droga! Ele vai sujar o banco do carro de sangue. – Resmunga Shawn, enquanto voltávamos a levantar Alexi para o levar até o veículo. – Por que temos que ir no meu carro? Por que não vamos no seu?
— Porque meu carro está no pub há uns cinco minutos daqui e nós não temos tempo a perder. Tivemos sorte que nenhuma testemunha passou por aqui, mas não deve demorar para que alguém apareça. Então para de drama e vamos logo. – Retruco, passando um dos braços de Alexi por cima dos meus ombros.
Com certa dificuldade para andar, já que a neve havia aumentado consideravelmente e o corpo de Alexi parecia pesar mais de cem quilos, Shawn e eu arrastamos o homem até o carro e o colocamos para dentro no banco de trás sem cuidado algum. Ele arfa de dor e o ouço proferir ofensas em russo a mim, mas eu realmente não me importava. Eu só precisava dele vivo para o fazer pagar por ter machucado a minha família.
Por estarmos próximos da casa onde Sara mora com o namorado, Leonard Snart, não demoramos muito para chegar. Aproveitando que a rua do casal estava vazia, Shawn e eu descemos do carro e tocamos a campainha. Em seguida, enquanto esperávamos a porta ser aberta, retiramos Alexi do carro e o arrastamos em direção a casa de minha sobrinha.
E então a porta é aberta por Sara, que desfaz imediatamente o sorriso que tinha seus lábios ao reconhecer Alexi. Ela me encara em questionamento e eu apenas balanço a cabeça, em um sinal de aquele não era o momento para ela me exigir respostas. A garota então abre espaço para que entrássemos e, após conferir que ninguém tinha visto a gente entrar, ela fecha a porta e suspira.
— O que está acontecendo, tio Clint? Por que trouxe Alexi Shostakov para a minha casa quando deveria estar o entregando para a polícia? – Questiona, enquanto nos guiava para dentro da residência, que confortavelmente estava aquecida. Leonard se levanta do sofá e nos encara surpreso.
— Clint! O que aconteceu? – Leonard se aproxima com preocupação. – Você está bem? Por que trouxe esse homem até aqui?
— Sim. Eu estou bem. Mas preciso salvar a vida desse desgraçado antes de entregá-lo para a polícia. – Respondo e novamente sou alvo de olhares confusos.
— Nem questionem. Ele é maluco. Essa é a explicação. – Resmunga Shawn, arfando cansado.
— Hã... certo. Eu... eu vou pegar a maleta de primeiros socorros. Coloque-o no sofá para que...
— Não precisamos de sofá. Não vale a pena sujar o móvel de vocês com sangue desse maldito. Vamos apenas jogá-lo no chão mesmo. – Interrompo Leonard, empurrando Alexi contra o chão.
Alexi cai de forma violenta de cara no chão e novamente ouço seus resmungos indignados. Shawn e Sara me encaram sem realmente estarem surpresos com a minha reação, enquanto Leonard parece não acreditar no que eu havia acabado de fazer contra o homem.
— Shawn, verifique os locais que as balas atingiram em Alexi. – Peço, encarando o cientista, que suspira concordando. – Não importa o quanto doa, eu o quero vivo.
— É claro que mais uma vez você vai me usar para fazer algo que não tem nada a ver com a área que eu trabalho. – Ironiza o rapaz, aproximando-se do corpo encolhido no chão, completamente tomado pelo sangue.
— Como isso foi acontecer? – Pergunta Sara, encarando-me com seriedade.
— Ele resolveu aproveitar que eu estava sozinho para me atacar com uma arma. Tivemos uma rápida luta, onde eu obviamente levei a melhor, mas Shawn resolveu interferir, atirando contra ele. – Explico, frustrado ao lembrar que tudo poderia ter destruído Alexi com o canivete.
— Shawn! – Minha sobrinha repreende o cientista, que bufa irritado.
— Alexi estava com uma arma apontada para o seu tio. O que eu deveria ter feito? – Resmunga Shawn, analisando a profundidade que as balas haviam se alojado em seu corpo.
— Aqui está a caixa de primeiros-socorros. – Anuncia Leonard, aparecendo na sala com uma maleta branca grande com tampa vermelha.
— Qual a possibilidade de vocês terem equipamento cirúrgico? – Pergunta Shawn, retirando o casaco de Alexi.
— Nenhuma possibilidade. Tudo o que temos são gazes, antissépticos, algodão, álcool, luvas e esparadrapos. – Responde Sara, suspirando.
— Não é o suficiente para salvar a vida dele. – Informa Shawn, encarando-me, enquanto pressiona o ferimento. – A bala se alojou em um local complicado de tirar. Eu preciso de um bisturi, agulha, linha e pinça, além de algum tipo de anestesia.
— Ele não precisa de anestesia. – Garanto e Shawn balança a cabeça em negação. – Sara, ligue para Barry e peça para ele trazer o equipamento cirúrgico que ele tem em casa. Exija sigilo dele. Se Cait estiver lá, ela pode vir, mas não quero que a história se espalhe.
— Está bem. – Responde Sara, seguindo para o quarto, onde provavelmente deixou o celular.
— Leonard, fique de olho em Alexi e ajude Shawn no que ele precisar. Eu vou para a cozinha fazer um café e ligar para Fury para informar que Alexi está aqui e que eu vou cuidar dele antes de o entregar para a CIA. – Oriento e o namorado de minha sobrinha, que é um agente do FBI, assente.
— Pode deixar. – Concorda, erguendo as mangas de sua blusa, antes de passar a procurar algo dentro da maleta que ajudasse a estancar o sangue que continuava a descer com intensidade dos ferimentos de Alexi.
Sigo para a cozinha da casa e suspiro, sentindo minha cabeça latejar com mais intensidade. Desde o meu aniversário, eu estava constantemente com dor de cabeça e isso me deixava irritado. Eu sabia que tudo era fruto do estresse, da má alimentação e das quase inexistentes horas de sono que eu vinha tendo desde a morte de Bernard, no entanto, não havia muito o que eu pudesse fazer para aliviar a situação.
Encho o bule da cafeteira de água e a coloco para funcionar. Ao longe, era possível ouvir os gritos de Alexi, que provavelmente sofria com as tentativas nada gentis de Shawn de tratar de seus ferimentos. Encaro o teto da cozinha e o ouço os passos delicados de Sara se aproximando do cômodo. Desvio o olhar para encarar a loira que tinha os olhos azuis sobre mim, analisando-me com preocupação.
— Você está bem, tio Clint? – Pergunta a garota com cautela.
— Eu estaria mentindo se dissesse que sim. – Afirmo, suspirando. Ela dá um fraco sorriso e me abraça.
— Você parece cansado. Por que não vai dormir um pouco? Barry e Cait já estão a caminha e Leonard e eu podemos ajudar Shawn a ficar de olho em Alexi. – Sugere Sara, encostando a cabeça em meu ombro. Deixo um beijo no topo de sua cabeça e volto a encarar o teto da cozinha.
— Mesmo que eu tentasse, não conseguiria. Alexi destruiu minha vida de inúmeras formas e essa é a chance que eu queria para me vingar dele. Não posso simplesmente dormir. – Respondo, respirando fundo. Sara se afasta e passa a me analisar com intensidade.
— Por que eu sinto que você está escondendo alguma coisa importante de mim que envolve Alexi? – Pergunta Sara e eu apenas dou de ombros. – O que ele fez, tio Clint? Sei que ele trabalha para a HYDRA, que matou Bernard e que ele foi o ex-namorado da tia Tasha, mas eu sinto que seu ódio por ele vai muito além desses motivos. O que ele fez para você a ponto de você estar planejando o torturar até a morte?
— Então eu deixei evidente o meu objetivo. – Comento, passando a observar a cafeteira, que já começava a borbulhar a água.
— Bom, eu o conheço desde que nasci. Sei como você costuma agir com determinados criminosos. A forma como você tem tratado Alexi já me diz muito sobre o que planeja fazer.
— Não é como se eu estivesse tentando esconder, de qualquer forma. – Comento, indo procurar por canecas para colocar o café. – No entanto, ainda não é o momento de contar os crimes que Alexi cometeu contra a sua tia e eu. Mas definitivamente farei Alexi experimentar as inúmeras técnicas de tortura usadas durante a Segunda Guerra Mundial.
— Tudo bem. E como eu posso te ajudar, tio Clint? – Pergunta Sara e eu nego, acariciando seu rosto.
— Apenas mantenha tudo em sigilo. – Respondo e ela exibe aquela expressão discreta de insatisfação. – Não me olhe assim. Eu apenas preciso fazer isso sozinho. É uma questão de honra e acerto de contas. Não quero envolver você e seus primos nesse mundo louco em que eu vivo e que tenho tentado poupar vocês desde que nasceram.
— Mas tio Clint, eu...
Antes que Sara continuasse a argumentar, um forte estrondo vindo da sala de estar ecoa pela casa. Sara e eu trocamos olhares e eu imediatamente puxo a arma que peguei de Alexi. Minha sobrinha pega uma faca grande que havia na cozinha e corremos em direção ao cômodo de onde veio o barulho. No entanto, logo uma fumaça espessa invade nosso campo de visão e tudo o que escuto são comandos em russo, as vozes de Shawn e Leonard, além de passos idênticos aos das botas dos agentes da KGB a dez anos atrás, quando a organização ainda existia.
Paro de andar logo na entrada da sala de estar. Tento usar meus sentidos para descobrir o que acontecia, mas o gás de fumaça intensifica ainda mais a minha dor de cabeça. Encolho-me e levo as mãos a cabeça em uma tentativa falha de aliviar a dor aguda que eu sentia. Era tão angustiante que eu nem mesmo conseguia respirar direito naquele momento.
— Tio Clint? O que houve? – Sara tosse em seguida, afetada pelo gás de fumaça.
— Eu...
— Droga! – A exclamação frustrada de Shawn me interrompe e eu posso sentir que algo de muito ruim estava acontecendo. – Clint! Os agentes da KBG acabaram de nocautear Leonard e fugir com o corpo de Alexi.
Fale com o autor