Notas iniciais
Mais de um ano sem escrever fanfic, perdão qualquer coisa.

“Quem tem amor na vida

Tem sorte

Que na fraqueza sabe

Ser bem mais forte”

Há apenas quatro tipos de informações no mundo, aquelas que sabemos, aquelas que fingimos não saber, aquelas que não sabemos e aquelas que fingimos saber. E a estranha relação entre o coronel Mustang e a primeiro tenente Hawkeye demonstra perfeitamente dois destes tipos. Eles eram quase mitos na central: O único portador da perigosa alquimia das chamas e sua primeira tenente olhos de águia, diziam que ela podia acertar uma bala em alguém a cem metros de distância com um desvio mínimo na trajetória original, e todos sabiam do que Roy era capaz. Eles pareciam verdadeiros demônios. Demônios lindos, despertando o ódio em homens e mulheres por toda a cidade. Os homens, especialmente os casados, odiavam a forma como todas as mulheres observavam Roy, e as mulheres solteiras detestavam Riza por considera-la um empecilho em suas investidas amorosas. Dito isso, não é de se surpreender que qualquer um que passasse tempo o bastante na cidade ouvisse os rumores que circundam sobre os dois:

“Ei, vocês souberam? Hawkeye e Mustang ficaram até tarde ontem outra vez. Sinceramente, eles deviam procurar um quarto ao invés de usar o local de trabalho, quanto desrespeito...”.

Apenas duas coisas podem ser constatadas a partir de tais boatos. A primeira, é que todos fingem saber de tudo em nome de uma boa fofoca mansa, a segunda e que ninguém jamais entenderia a complexa relação entre Roy e Riza, nem mesmo eles. Ela se perdia no tempo, no espaço e no sangue derramado por ambos, se embebia em lembranças dolorosas, fogo, amizade e compreensão. Se emaranhava tão profundamente no passado deles que, às vezes, era difícil distinguir onde acabavam as lembranças de um e começavam as do outro. Era uma conexão profunda, intensa e incomparável. Não era de admirar que ninguém a entendesse.

...

O sol sempre se punha lentamente através da janela, às costas de Roy Mustang, quando o dia se aproximava do fim. Não eram raros os dias em que o coronel era obrigado a atravessar a noite sentado em sua mesa pondo todo o trabalho negligenciado em dia. Da mesma forma que não era incomum que sua primeira tenente o acompanhasse noite a dentro, em parte para supervisiona-lo, em parte para protege-lo, e em parte porque queria estar ali, ainda que isso significasse estar sujeita a grunhidos de insatisfação, bocejos e piadas horríveis.

Lentamente os alquimistas passavam pelo corredor para ir embora. Era possível ouvir os passos contínuos e as conversas animadas, eles combinavam programas juntos, bares, algumas festas e encontros na casa de acompanhantes de madame Christmas. Roy ria um pouco ao ouvir isso. Sua tia lucraria bem. Talvez ele passasse mais tarde para cumprimenta-la pela ótima noite de ganhos. E quem sabe dessa vez ela o agradecesse por todos os clientes que chegavam até suas garotas por recomendação do coronel que, supostamente, “Já havia provado das mais doces mulheres, mas nada se comprava às de Madame Christmas”.

A medida que o tempo se arrastava, o ardente vermelho alaranjado do sol poente em chamas era substituído por tons mais escuros e frios de azul que anunciavam como um relógio: a noite não tardaria a chegar. E como se ouvissem o silencioso badalar da atmosfera, os alquimistas continuavam a se retirar do local de trabalho, silenciando os passos e as conversas entrecortadas, seguindo até onde nem mesmo os olhos treinados de Hawkeye poderiam alcança-los.

Já era noite plena e sem lua quando o último alquimista passou pelo corredor e alegremente se despediu de Roy e Riza, oferecendo suas condolências ao coronel por ele não pode ir até Madame Christmas para a noite dos solteiros com os outros. Quando a figura do homem se perdeu no horizonte um pesado silêncio recaiu sobre o escritório. Mais uma vez Roy estava preso em seu trabalho com Hawkeye enquanto os outros chegavam às suas casas e programas. O coronel não os invejava.

—Estamos sozinhos. – A voz de Mustang ressoou grave como um trovão cortando o perfeito silêncio que tomava o ambiente. – Por que não se senta? Nunca te perguntei se é desconfortável passar o dia inteiro de pé como uma estátua. – Ele continuou sem mover os olhos de seu trabalho.

—Não é tão ruim quanto imagina. – Riza aceitou a sugestão e tomou a cadeira à frente do coronel criando uma sombra que dificultava o processo de manejar toda aquela papelada. Os olhos de Roy desgrudaram de qualquer coisa que estavam lendo e seguiram a sombra pelo dorso, pescoço e pararam por alguns instantes no rosto da primeira tenente. Ela tinha os longos cabelos loiros presos e bagunçados, além disso tinha um semblante cansado que era coroado por olheiras negras e profundas numa pele mais pálida do que costume.

—Algum problema, coronel?

—Estava apenas admirando a beleza estonteante de minha primeira tenente. – Não havia ironia em sua voz. – E pensando na única coisa que a deixaria ainda mais bela.

—E o que seria isso? – Ela perguntou, já sabendo onde aquilo terminaria.

—Convencer todas as outras garotas num movimento a favor do uso diário de mini saias. – Ele disse descansando a cabeça na palma da mão.

—Senhor?

—Sim? – Ele respondeu com um fingido sorriso cafajeste.

—Ainda tenho uma arma carregada na cintura. – Roy deu uma sonora gargalhada que ecoou pelos corredores vazios e logo foi acompanhando pela doce, porém incomum, risada de Riza, amenizando a tensão que ele sentia.

—É claro que tem, Riza. – Ela relaxou a postura na cadeira, como se o nome dela dito pelos lábios de Roy fosse um sinal secreto deles para pôr fim às formalidades do exército. Mais uma vez ela foi observada atentamente por Roy. Por um segundo ele ficou feliz que todos os homens estivessem deitados com suas próprias esposas ou com garotas mais jovens por dinheiro. Isso fazia com que Riza, nessas noites intermináveis de trabalho, fosse completamente sua. Talvez ele atrasasse um pouco mais. Sua tia podia esperar.

...

“Disseram que o Coronel Mustang vai até a casa de sua primeira tenente todas as noites. Será que estão tendo um caso?”

Eram quase 23:00 horas quando Mustang deu um profundo suspiro ao erguer a cabeça do último relatório, apenas para baixa-la novamente e perceber que Riza havia caído no sono com a testa apoiada no braço que repousava sobre a mesa. Ela reluzia com os cabelos loiros agora completamente soltos como uma cascata de finíssimos fios de ouro puro lhe caindo sobre as costas, contrastando com o azul profundo de sua farda. Em algum momento, Roy tinha certeza, o pai de Riza devia ter quebrado um dos tabus da alquimia e transformado os cabelos de sua filha em joias preciosas tornando-os dignos da cabeça da rainha que ela sempre foi. “Maravilhosa”. Roy pensou e ao mesmo tempo considerou a possibilidade de ele mesmo deitar ali e pela manhã alegar que também havia caído no sono. Riza parecia serena com seus ombros posicionados preguiçosamente sob a mesa. Hawkeye dava profundos suspiros descompassados que moviam lentamente sua caixa torácica para cima e para baixo numa perfeita harmonia entre seus músculos, seria uma imensa crueldade tirá-la de seus sonhos.

Mustang já estava a meio caminho de juntar-se a ela quando pensou nas consequências disso. Encontrarem um coronel dormindo ao lado de sua tenente no escritório.... Isso ia além de fofocas, era passível de punição. Então, contra sua vontade, o coronel decidiu acorda-la.

—Riza... – Ele chamou docemente.

—Hummm. – Ela grunhiu baixinho. Roy sorriu e direcionou uma de suas mãos para o topo da cabeça dourada de Hawkeye lhe fazendo um pequeno afago. Seus cabelos eram macios como a mais fina das sedas do oriente, e exalavam um cheiro sutil que Roy sempre identificou como o cheiro verdadeiro de uma mulher, sem as fragrâncias extravagantes e doces que todas usam quando tentam seduzir os homens. Ele inspirou profundamente aquele aroma antes de continuar sua tentativa de acorda-la.

—Riza, você precisa acordar. Já terminamos por hoje.

—Hummm. – Riza grunhiu novamente mexendo a cabeça, expondo o lado esquerdo de seu rosto. A pele alva brilhou contra a luz, revestindo-a de uma aura dourada quase celestial. Mustang sorriu e baixou a mão para tocar-lhe a bochecha. A pele do rosto de Riza era macia e aveludada, ela transmitia aos dedos de Roy um leve calor, diferente das chamas que ele produzia com a ajuda de suas luvas, um estalo lancinante que logo deixava seus dedos, a pele de Riza, pelo contrário, tinha uma temperatura morna, constante e aconchegante que contrastava terrivelmente com a brisa fria que entrava pela janela e gelava o corpo do coronel.

—Riza. – Ele repetiu a contragosto.

Dessa vez ela abriu lentamente os olhos, direcionando seus orbes cor de mel pra o negrume profundo dos do coronel. Roy Mustang tinha os olhos mais escuros que Riza vira em toda sua vida, olhar para eles era como estar à beira do mais profundo dos abismos e diante deles ela podia sentir pulsar em suas veias um irrefreável desejo de pular. Aquele era, como ela havia identificado anos antes, o efeito Mustang, os olhos de noite sem estrelas dele eram convidativos e sedutores, te induzindo ao súbito desejo de se entregar de corpo e alma ao fundo daquele precipício sem fim em direção à mais profunda escuridão que pode habitar a alma de um homem. Talvez isso fosse o que o resto das mulheres da central, ou melhor, do país, não compreendessem, elas perdiam muito tempo olhando para coisas desimportantes e superficiais, se elas parassem de fita-lo através da lente da lascívia, se por um segundo o enxergassem como Riza o enxergava... se elas soubessem, se realmente elas soubessem o que estava por trás daquela boa aparência fugiram em disparada ao avistar Mustang. Por baixo da pecha de coronel, por baixo de sua patente, bem abaixo da carne de seu corpo, no fundo de sua alma ele era uma existência completamente devastadora e antagônica em seu próprio âmago, Roy Mustang tinha a estranha capacidade de sugar até a última gota da alma de alguém com um único olhar, ele era capaz de te fazer esquecer como era viver antes dele, e se perguntar como poderia continuar vivo depois que ele se fosse. Dentro de Roy a mais brilhante e ardente das chamas queimava com ferocidade, convivendo numa interminável guerra com a mágoa mais obscura de seu passado, que matou seus ideais e lhe arrancou a maior parte de seus sonhos. Visto por esse ângulo, talvez Mustang se quer fosse humano, mas sim uma verdadeira materialização, uma real personificação dos antagonismos emaranhados no tecido da vida. Bem, fosse ele humano, ou qualquer outra coisa, olhando em seus olhos negros, agora pacíficos e gentis, Riza Hawkeye podia afirmar com certeza que depois que sua chama se extinguisse, o mundo seria lançado na mais profunda destruição, não restariam edifícios de pé, não restariam bosques verdejantes, não restariam sorrisos nos lares, ou felicidade nos bares, não restariam águas nos oceanos ou cores no céu, porque, ela tinha certeza, que a vida não tinha permissão de continuar a existir depois que Roy Mustang se fosse.

—Roy? – Ela pronunciou seu nome com temor, como se ele fosse um espírito prostrado frente a ela, prestes a se esvair ao mínimo piscar de olhos. -O que você está fazendo na minha casa? – Os dedos dele eram longos e a tocavam com cuidado e carinho.

—Não estamos na sua casa. Você caiu no sono. – Um lampejo de compreensão tomou o rosto de Riza quando ela moveu os olhos para longe dos de Roy e observou o ambiente a volta dele.

—Entendo. – Ela moveu o braço e pôs sua mão acima da de Roy, fazendo ele segurar por completo seu rosto. Mustang cheirava a tinta de caneta e cinzas. Nada seria mais apropriado.

—Riza, o que você... – Ele sibilou quando ela roçou os lábios nos dedos dele.

—Está fria. As mãos do Alquimista das chamas deveriam ser mais quentes. – Ele riu um pouco.

—Perdão, prometo que vou esquentá-las antes de te tocar de novo. – Nesse instante Riza prensou seus lábios rapidamente nas pontas dos dedos de Roy, deslizou sua mão sob a dele e a largou, logo em seguida levantando da mesa e arrumando seus fios de ouro de volta no lugar, deixando apenas o ar frio da noite onde estava seu rosto segundos antes. Roy manteve sua mão estendida por alguns instantes, atônito, inebriado, indignado por ela ter se retirado tão subitamente de seu alcance. Ele tinha esperanças de que Riza retornasse e lhe permitisse tocar sua pele de novo, apenas mais uma vez, que pressionasse novamente seus lábios contra os dedos gelados pela brisa, ansiava tão profundamente por isso que foi difícil impedir suas mãos de a tocarem sem permissão. Esse pensamento arrepiava assustadoramente todos os pelos do corpo de Roy. Nunca antes uma mulher o havia controlado dessa forma.

—Quem disse que vai haver uma próxima vez? – Ela retrucou ainda sonolenta, arrumando a postura na cadeira. Aquele era o aviso de Riza, e Mustang podia ler as entrelinhas em sua voz tão claramente quanto um circulo de transmutação: “Nós dois sabemos que esse não é o lugar para quaisquer sentimentos”. Roy abaixou sua mão, era necessário retornar às provocações amigáveis. Ela não voltaria, ao menos, não aqui, não agora. Roy deu um longo suspiro, toda a profundidade de seus olhos foi levada embora numa lufada de ar que saiu preguiçosamente por seu nariz e se espalhou pelo ar como a fragrância de um perfume. Ele voltara a ser o coronel Mustang. De certa forma, ele odiava ser essa pessoa na frente de Riza.

—Bem... – O coronel foi interrompido pelo som de seu estomago roncando, desesperado pelo jantar que não tivera.

—Está com fome, coronel? – Ela suspirou aliviada por terem sido tirados daquela conversa.

—Foi tão alto assim? – Riza riu como resposta.

—Se eu me lembro bem, você é um péssimo cozinheiro, e acho que não há muitos restaurantes bons abertos a essa hora. O que acha de comer em minha casa?

—Essa é mais uma de suas inúmeras tentativas depravadas de ter meu corpo em sua cama, primeira tenente Hawkeye? – Um falso brilho obsceno brincava nos olhos do coronel ao dizer isso.

—Coronel, você e eu sabemos muito bem que eu nunca precisaria implorar para ter um homem em minha cama, especialmente você. – Ela retrucou sorrindo.

—É claro que não. Mas então, o que vai cozinhar?

—Hum. Considerando suas piadas de hoje, o que acha de ensopado de língua de alquimista das chamas?

—Parece, ótimo. Mas se minha língua vai ser o prato principal... que parte de meu delicioso corpo será servida de sobremesa? – Riza adquiriu um semblante pensativo enquanto analisava Mustang.

—Seus olhos são mais escuros que chocolate amargo. Vamos ver como ficam numa torta. – Ela concluiu sorrindo, longo sendo acompanhada por Roy. Ele não precisava de palavras ou explicações para o real motivo daquele convite, ouvi-la falar era o bastante para entender que Riza não queria deixa-lo ir aquela noite.

-Perfeito. – Mustang respondeu, pensando que sua tia podia esperar um pouco mais para lhe agradecer.

“Impérios de um lobisomem

Que fosse um homem

De uma menina tão desgarrada

Desamparada se apaixonou”

...

“Ei, ei, vocês ouviram? Disseram que o Coronel Mustang voltou dos mortos para salvar sua tenente”

Roy Mustang e Riza Hawkeye nunca podiam andar lado a lado fora do expediente durante o dia. Eles chamavam muita atenção, o alquimista das chamas e sua primeira tenente sniper... Se quer poderiam sonhar com o privilégio de serem vistos juntos por centenas de pessoas sem um objetivo oficial. Mas à noite era diferente, a meia-noite encobria os mistérios pessoais dos habitantes da central com seu manto de névoa branca e fria que podia congelar até os ossos o mais robusto dos homens e faze-lo ver coisas que na verdade não estavam atravessando a grossa neblina, se alguém os visse, ao menos os boatos dessa pessoa jamais teriam credibilidade o bastante para causar algum problema.

O vento cortante como uma lâmina de gelo bagunçava os cabelos de Roy que seguia ao lado de Riza em silêncio. Mesmo durante a noite, eles não costumavam conversar em público, a guerra os havia ensinado que as paredes, o vento, o chão, o sol e a lua tinham ouvidos aguçados. Eles caminharam por vários minutos, antes de chegarem à casa de Hawkeye, um presente de seu avô para ela quando foi transferida para a central ao lado de Mustang. Era um pequeno apartamento ficava no topo de três rols de escada, não era luxuoso, mas ela não se importava com isso, era um lugar relativamente antigo, da época em que seu avô ainda era jovem, então ele tinha paredes grossas que impediam que um apartamento ouvisse qualquer coisa que vinha dos andares abaixo ou acima dele. Extremamente conveniente na opinião de ambos.

Roy Mustang e Riza Hawkeye subiram silenciosamente as escadas e cruzaram o pequeno corredor de paredes cor de terra até a porta do apartamento de Riza. Ele sempre entrava primeiro. Eles não sabiam dizer quando isso começou, mas Roy sempre entrava primeiro, colocava seu casaco no cabide e esperava por Riza enquanto Black Hayate pulava em suas pernas e cheirava seus sapatos. Mas dessa vez o cão não veio, ele estava no veterinário, aparentemente Riza ainda não o havia pego. O coronel, agora sem o casaco do exército, ouviu Riza trancar a porta às suas costas e entrar, ele estendeu a mão para que ela lhe entregasse seu casaco, mas, ao invés disso, ele teve seu braço jogado para trás com ferocidade. Um tremor súbito lhe percorreu do ponto onde suas costas atingiram a parede, com um estampido seco que tomou conta de seus ouvidos, até o topo de sua cabeça, a lateral de seu cotovelo produziu uma dor aguda assim que o contato violento com a parede foi consumado. Um lampejo de curiosidade tomou o lugar da dor nos os olhos de Mustang quando Riza parou a sua frente, segurando seus braços acima da cabeça com uma única mão. O ceticismo estava estampado em seu rosto, salpicado com pequenas porções de uma loucura contida, a qual todos adquirem no exército, enquanto ela parecia revistar cuidadosamente cada centímetro do corpo de Mustang.

—Essas não eram as boas-vindas que eu estava esperando.

—Calado! – Ela urrou. Seu rosto já não apresentava um semblante cansado. Estava bem além disso. Roy não estava certo de que haviam palavras humanas para expressar os sentimentos que aquele rosto transmitia. Era uma complexa mistura de fúria, tristeza, desconfiança, cansaço e esperança em proporções variáveis a depender do ângulo que se olhava para ela. – Eu não posso... não posso continuar assim. – Seus olhos de mel estavam marejados. O coração de Mustang deu um salto de desespero.

—Não acha que seria mais fácil me dizer o que procura, Riza?

—Não. Eu não posso confiar em mim.

—O que você quer dizer com isso?

—Por favor. Seja real dessa vez... Só dessa vez... – Ela sussurrou mais para si própria do que para Roy enquanto com sua mão livre tirou lentamente a camisa social de dentro da calça de Mustang. Ele sorriu como sorriria para uma criança desesperada por ter perdido seu brinquedo favorito.

—Então era isso. – O coronel disse quando ela levantou cuidadosamente o lado direito da camisa dele. Instantaneamente Riza deu um suspiro de alívio e o soltou se afastando da parede em direção à outra extremidade da parede.

—Você podia ter me pedido. – Roy segurou sua camisa levantada por alguns instantes, revelando uma grande área de pele enrugada, levemente mais clara que o resto do abdômen do coronel, ainda estava em processo de cicatrização, as bolhas de pus haviam estourado e deixado a pele sensível, arroxeada e com veias saltadas próximo ao local onde Mustang cauterizara, com suas próprias chamas, o ferimento causado por Lust. Riza virou seu rosto na direção oposta à dos olhos de Roy e rangeu os dentes antes de começar a falar.

—Minha mãe morreu em um incêndio quando eu era apenas um bebê. A porta ficou bloqueada pelas chamas, meu pai conseguiu me salvar, mas não houve nada que pudesse fazer por ela. Desse dia em diante ele decidiu, que como vingança, o fogo que lhe tirara sua mulher se tornaria seu servo através da alquimia, mas, ao fim de seus estudos, ele percebeu que essa era uma força muito destrutiva se controlada pelas mãos erradas, então ele queimou sua pesquisa. – Riza sorriu, mas seus lábios comprimidos e a água em seus olhos contrariavam aquele forçado arquear dos cantos de sua boca, fazendo seu rosto tremer com as pressões opostas aplicadas em seus músculos. – E escondeu o segredo do controle do fogo onde ninguém, não confiável, poderia alcança-lo. – Ela tocou com pesar o próprio ombro e caiu sentada, abraçada em seus próprios joelhos, no frio e duro chão gasto de madeira. – Depois disso, quando eu já estava crescida, ele aceitou um estudante em nossa casa. – Riza lançou um olhar significativo para Roy. -Um rapaz bom, e idealista que alcançou o segredo das chamas e me roubou as primeiras experiências amorosas de minha vida. Ele acabou sendo mandado para a guerra logo depois de meu pai morrer, e eu o segui, com uma arma em minhas mãos, pronta para pôr-me a frente dos horrores de uma guerra... ou melhor, de um massacre, junto a ele, porque eu estava enlouquecendo, eu via meu pai caminhar pela casa em direção à biblioteca, eu o ouvia chamar meu nome, eu o ouvia chamar pelo nome dele. Minha mente sempre adorou me pregar peças, e esse rapaz, eu o segui em seu caminho na esperança de que ele tirasse aqueles sentimentos de mim, eu o seguiria até o inferno, eu o segui até o inferno. E quando eu o encontrei... quando tudo finalmente acabou, nós não erámos mais os mesmos, o mundo não brilhava mais aos nossos olhos, mas ele me prometeu... me prometeu... – A voz de Hawkeye morria pouco a pouco a cada nova frase que ela tentava terminar, as palavras pareciam estar engasgadas em sua garganta, lutando em uma guerra inútil para finalmente serem vomitadas para fora. Ele se ajoelhou a frente de Riza e tocou novamente seus cabelos, fazendo um pedido silencioso para que ela olhasse em seus olhos mais uma vez, era muito doloroso assistir àquilo. Ela o respondeu de bom grado. Seus orbes pintados com lágrimas, dor e alívio.

—Que jamais a deixaria só. – Roy puxou seu relógio do exército e o abriu. De dentro dele saltou um pequeno anel de cor cinza opaca, como a de uma bala de rifle, tão fino que podia desintegrar se fosse manuseado de maneira incorreta, tinha tamanho o bastante para caber em seu dedo mindinho, Mustang não arriscaria colocá-lo em nenhum outro, era uma peça muito preciosa para ser quebrada. Ele o acariciou com apreço e adoração antes de estende-lo à Riza. Sua feição se amenizou, e ela repetiu o gesto de Mustang, dentro de seu relógio havia uma peça semelhante, mas branca, feita de um material áspero, perfeito para gerar fagulhas.

Cuidadosamente Riza segurou o anel cinza, e colocou-o no mindinho esquerdo de Roy Mustang com um beijo trêmulo e quente sob ele. Sua mão, agora ela percebia, ainda tinha as cicatrizes dos cortes para fazer o circulo de transmutação em sangue. O relógio de prata de Mustang foi largado no chão sem o menor apreço ou cuidado, como uma peça de metal velha e inútil que pulou e caiu jogado em algum lugar sem importância e menos iluminado do chão, ele colocou o anel branco no anelar esquerdo de Riza e levou seus dedos aos lábios, aspirando seu aroma inconfundível.

—Nós coroamos essa promessa com aquilo havíamos usado para infligir mortes e destruição em Ishval. Desde que meu pai morreu, ele me veio como um sonho bom, e quando eu penso... quando se quer me passa pela cabeça que eu posso perde-lo... Eu precisava saber, se ele realmente havia me salvado, ou se era tudo fruto da minha imaginação. – Riza manteve o olhar fixo em Roy, despindo a ambos de todas as máscaras impostas pela vida adulta. Em seus olhos, eles eram novamente as crianças sem manchas de sangue em suas almas que, despreocupadamente, roubavam beijos com cheiros de livros antigos na biblioteca do pai de Riza, pensando que a pior coisa que podia acontecer no mundo era serem pegos e Roy e expulso. Como eram inocentes...

—Me perdoe, Riza. Eu nunca quis preocupar você. – Roy se inclinou, e envolveu o corpo de Riza num apertado abraço. Mesmo naquela posição desapropriada, os corpos dos dois se encaixavam perfeitamente um ao outro, o que fazia do abraço um encontro perfeito de duas almas solitárias e amorfas que, ao tocarem uma na outra, descobriam seu lugar no mundo. Houveram lágrimas, não era certo a quem elas pertenciam, talvez elas pertencessem aos dois, porque quando eles se tocavam, os corações batiam numa única frequência, os pulmões respiravam num único ritmo, não haviam mais Roy e Riza como entidades separadas, eles eram um só, um único ser, uma única alma, festejando por estar, novamente, completa.

—Eu estou aqui. Não vou a lugar algum sem você. – Roy continuou a falar quando Riza o apertou com mais força. Ela se afastou por um segundo e segurou o rosto dele com as duas mãos quando ele estirou suas pernas no chão e a puxou para sentar em seu colo. No instante em que o espaço entre eles foi extinto e seus lábios se tocaram eles se sentiram puros e idealistas novamente, acreditando piamente que poderiam ter o mundo inteiro a seus pés, e fazer toda a humanidade dançar a música que eles consideravam correta e boa para todos, enquanto durou aquele momento, o mundo se desnudou da escuridão, da crueldade e do medo e se tornou um lugar realmente bom. Eles sentiam cheiro de biblioteca e juventude no ambiente.

Nenhuma palavra foi pronunciada, mas Mustang e Hawkeye puderam ouvir claramente um grito que ecoou apenas em seus ouvidos, um dos maiores segredos da capital que despertava boatos de toda sorte nas esquinas foi anunciado no silêncio daquele beijo entre os eternos amantes secretos:

“Eu te amo!”

Notas finais
Depois de tanto tempo, só tenho 2 coisas a dizer
1) Muito obrigada por ler
2) É muito bom estar de volta
Ps: As músicas que me inspiraram foram: Mistérios da Meia Noite - Zé Ramalho
Sinônimos - Zé Ramalho
Teatro dos Vampiros - Legião Urbana
Quase sem Querer - Legião Urbana
I will - Ao Haru Ride
Tem algumas referências a elas ao longo da fanfic. Em fim, obrigada por lerem minha (re)estreia no mundo das fanfic.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!