Mistérios da Meia-Noite

13 Capítulo IX: A aproximação de Maurício


Maurício estava sentado na janela da velha cabana observando o céu estrelado. A lua era minguante, por isso não podia ser vista. O homem estava pensativo sobre os últimos acontecimentos: o novo trabalho, Ana Luísa, Vovô e seu braço quebrado, o ômega quase ninja... Há quanto tempo não tinha uma vida tão movimentada? Talvez desde que era adolescente e aprontava poucas e boas na escola, ficava até tarde na rua e quando fugia com Rosa a noite para olhar as estrelas... Exatamente como fazia agora.

– Pensando na morte da bezerra, Maurício? — perguntou Vovô saindo do pequeno laboratório, o braço ainda pendurado.

O lobo somente olhou o velho, mas nada respondeu.

– Você está muito melancólico ultimamente. — disse o velho tocando sua testa com o indicador. — Por que não chama a menina Ana Luísa para sair? Acho que vai te fazer bem.

– Chamar a Luísa pra sair? Duvido que ela vá aceitar. Sou só o professor de biologia, um homem de trinta e poucos anos... Velho demais para uma mocinha como ela.

– Ah, não “sair” do jeito que você imagina. Mas por que não a chama para tomar um sorvete depois da aula? Não é nada demais!

– Vou pensar nesse caso. — disse Maurício pulando para o lado de fora da casa. — Vovô, vou andar um pouco.
. . .

A semana passou voando e já era sexta-feira. Maurício dava a última aula, que era para a turma do Primeiro Ano A. Uma turma pequena, fácil de controlar.

– Vamos lá pessoal, me ajudem. Como fica esse cruzamento? — perguntou Maurício já com o giz preparado para montar a tabelinha.

– AA, Aa, Aa, aa. — responderam os alunos enquanto o professor anotava as respostas no quadro.

– Então, qual a chance do filho desse casal ser homozigoto dominante para a característica olhos azuis?

– Vinte e cinco por cento!

– Muito bom, pessoal! Estão de parabéns. — disse Maurício sorridente. — Bom, chega de matéria por hoje né? Agora vamos anotar o dever de casa. Façam todos os exercícios da página trinta à trinta e cinco, ok?

– Vale nota, professor? — perguntou um menino moreno.

– Aluno é um bicho complicado hein. Só funciona à base de nota.

Todos riram. Logo em seguida o sinal bateu e Maurício liberou os alunos. Quando saiu da sala viu Luísa passar no corredor e se lembrou das palavras de seu velho mestre. Ele respirou fundo, estufou o peito e foi até a menina.

– Senhorita Luísa. — disse tocando seu ombro. Ela, Eloá e Clarisse se viraram

– P-Professor? — peguntou ela ficando totalmente vermelha e confusa.

– Bem... Ér... Queria conversar um pouco com você. Gostaria de tomar um sorvete?

Eloá e Clarisse riram, deixando Luísa mais nervosa.

– Ér...

– É claro que ela quer, professor! — disse a ruiva empurrando a amiga.

– Ei! E–eu... Tá...

Maurício levou Luísa até a lanchonete do outro lado da rua. Era um lugar bastante colorido comparado com o resto da cidade. Eles se sentaram a uma mesa e passaram a folear os menus, porém Ana Luísa estava um pouco acanhada por ter pouco dinheiro.

– Pode pedir qualquer coisa, eu pago.

– Mas... — ela olhou o professor já querendo dizer algo, mas ficou encantada demais por aqueles belos olhos escuros.

Os dois ficaram calados por alguns instantes apenas se olhando. Porém o silêncio foi interrompido pela garçonete.

– O que vão querer?

Aluna e professor voltaram a Terra.

– Então, já se decidiu, senhorita? — perguntou Maurício.

– Eu quero... Vou querer um milk-shake de morango com calda de chocolate.

– E o senhor?

– Vou querer o mesmo. — respondeu Maurício sorrindo.

– Obrigada. Com licença. — a garçonete anotou os pedidos e se retirou.

– Professor, posso te perguntar uma coisa?

– Claro, senhorita.

– Pode me chamar de Luísa, tá? — a menina disse um pouco sem jeito.

– Está bem, Luísa. O que quer perguntar?

– É que... Por que me chamou para tomar um sorvete?

– Bem, é que você é uma de minhas melhores alunas!

– Não parece isso.

Maurício engoliu seco.

– Como assim?

– É que... Nada, deixa pra lá.

Não demorando muito os seus pedidos chegaram. Enquanto tomavam os milk-shakes professor e aluna conversavam. Luísa havia se soltado um pouco na conversa e Maurício tinha um sorriso muito bobo no rosto.

– Sabe, Luísa. Você me lembra alguém...

– Quem?

– Minha noiva.

– Você tem uma noiva?

– Eu tive, há muitos anos atrás... – disse com o olhar agora um pouco entristecido.

– O que aconteceu com ela?

– Ela morreu, foi assassinada...

– Nossa, que triste... — disse Luísa. — Meus pêsames.

– Mas isso já tem muitos anos, sabe. — disse forçando um sorriso. — Já me conformei...

– Desculpa perguntar, mas qual era o nome dela?

– Ah, era Rosa.

– Rosa? Já ouvi esse nome em algum lugar. — disse tentando se lembrar. Mas não vinha nada em sua cabeça.

– É um nome comum. — Maurício sorriu e olhou o relógio. Já ia dar sete horas da noite. — Poxa! Olha a hora! Moça, pode trazer a conta, por favor?

Após pagar a conta os dois saíram da sorveteria e o homem fez questão de levá-la até em casa. Os dois continuaram a conversa de forma animada até que finalmente chegaram a porta da casa de Luísa.

– Pronto, está entregue. — disse sorrindo.

– Obrigada por tudo, professor.

– Não precisa agradecer. Bom, até semana que vem.

– Até.

– AH! E não saia a noite. Essa cidade está muito estranha ultimamente.

– Está bem.

Maurício acenou e saiu andando com as mãos no bolso. Luísa ficou o olhando se afastar, reparando em um tipo de tatuagem negra em sua nuca que ela não conseguiu ver direito o que era.

Notas finais
No próximo capítulo teremos ação! Fiquem ligados! :3