Notas iniciais
Estou muito feliz pelos dois comentários, haha *-* espero que gostem do capítulo 2 s2

Eu sei que isso pode ser paranóia. Mas era tecnicamente impossível ele ter concluído o curso de biologia para dar aulas. Patch tinha vinte anos. No máximo. Aquilo era notável.

E eu, sinceramente, nunca vi um professor de biologia com um sorriso tão astuto em toda a minha vida. O técnico era primitivo demais para ser esperto e malicioso.

Talvez o país todo tenha professores assim e a minha escola só esteja querendo renovar.

As preces de Vee finalmente foram escutadas! Ela olhava para ele como um cachorro esfomeado encarava um frango assado. Chegava a ser triste.

- O técnico está com problemas familiares e teve que viajar. Para outro país. China, se não me engano. – ele sorriu mais largo ainda, andando entre os corredores e observando minuciosamente cada aluno.

O técnico chegava a ser mais americano do que eu. Como ele pode ter tido problemas familiares na China? Pelo jeito que o professor sorria, ele provavelmente estava tirando sarro da gente.

Ele andava e as suas botas rangiam quando entravam em atrito com o chão. Ele chegou ao nosso lado. Vee olhava para frente com as bochechas esquentando. E eu o encarei, sem desviar o olhar. Seus olhos passaram de entediados para desafiadores.

- Você não é muito novo para ser professor? – Marcie perguntou lá trás, alisando seus dois rabinhos de cavalo de cor avermelhada e deixando suas pernas a vista na carteira.

A vadia acha que seus gravetos seduzem os homens. Infelizmente, ela estava certa. Não havia um menino naquela escola que não se sentisse atraído por Marcie Millar. Mas Patch parecia entediado com as insinuações da menina.

- Você esta duvidando da capacidade da escola de escolher um professor qualificado para dar aulas? Não quer ir discutir isso com o diretor? – suas palavras soaram tão frias, que senti um arrepio na espinha. Ele parecia ameaçador agora. Um animal pronto para o ataque.

Aquilo sim era biologia em ação.

Marcie se endireitou na carteira com a testa franzida e os lábios contraídos. Aquela era a cara de brava dela. Infantil, eu sei.

- Seu nome? – ele disse agora com a face mais amena, apontando para mim.

- Nora Grey. – respondi. – E eu gostaria de discutir com o diretor se você é realmente qualificado para dar aulas.

Seu sorriso era enigmático. Ele parecia estar se divertindo muito. Sorri irônica para ele e ignorei o olhar incrédulo de Vee em cima de mim.

- Então você duvida da minha integridade como professor? – ele disse agora mais próximo, me rodeando. Seus olhos se tornaram mais opacos e frios, como um universo parado e sem estrelas.

- De jeito nenhum. – meu tom ainda estava irônico. – Eu sou jornalista do eZine, e eles iriam amar uma reportagem especial sobre o novo professor substituto. Eu gosto de pesquisar muito antes de escrever algo no jornal da escola.

- Jornalistas são conhecidos como pessoas enxeridas. Espero que você não seja assim, senhorita Grey. – fingi não ter entendido sua ameaça subjetiva. E sorri inocente.

- Não sou.

- Então, vamos começar com a aula.

Ele começou introduzindo sobre ecologia, e sua explicação fluía naturalmente. O que me fez morder a língua. Ele ensinava perfeitamente bem, prendendo a atenção dos alunos.

Quando o sinal tocou, recolhi meus materiais enquanto Vee me esperava.

- Vamos Nora, quanto mais rápido eu chegar em casa, mais rápido eu vou comer algo. Estou morta de fome. – ela me apressava, fazendo gestos engraçados com as mãos.

Levantei com a mochila nas costas e andei preguiçosamente até a porta.

- Grey, preciso trocar umas palavrinhas com você. – Patch disse atrás de mim, sentado em cima da mesa dos professores. Vee começou a entrar também. – Você não, senhorita Sky. Grey, feche a porta.

Acenei para Vee, sentindo meu estômago se contrair. Ela murmurou algo como “sortuda” e fechou a porta. Sentei na carteira mais próxima e esperei ele se pronunciar.

- Você me julgou pela idade, alegando que eu não sou qualificado para ser professor. Se sente arrependida? – ele indagou com um sorriso astuto.

- Eu nunca falei sobre idade com você. – rebati.

- Mas pensou.

- Além de professor de biologia também lê mentes? – me senti na defensiva. Eu realmente tinha pensado naquilo. E era óbvio. Mas ele não precisava ser tão direto. Me levantei da carteira e peguei minha mochila. – Se é só isso...

- Você se acha muito esperta, Nora Grey. – ele se levantou, ficando de frente para mim. Apenas uma fina camada de ar separava nossos corpos. Ele era bem mais alto que eu. – Mas quem brinca com fogo sai queimado. Sempre.

- Isso foi uma ameaça, professor? – perguntei, levantando meu queixo em uma clara pose de superioridade.

- Sim. – ele respondeu, me surpreendendo. – Isso foi uma ameaça. Fui claro, Grey?

Senti meu corpo se enrijecer. Aquele homem não era normal. Ele arrumava suas coisas que estava em cima da mesa, enquanto eu permanecia estática. Ele era frio, sarcástico e pelo jeito que analisou toda a sala, parecia bastante calculista.

- Até amanhã, senhorita Grey. Uma perfeita tarde e a noite, tenha bons sonhos. – ele disse, saindo da sala com um sorriso sexy.

Aquele “bons sonhos” me soou como um “durma com um olho aberto se quiser viver”. Senti a temperatura da sala cair drasticamente. Ou era apenas meu corpo em estado de defesa.

Uma pessoa que ameaça outra, provavelmente tem segredos ruins. E o que ele me disse só me deu mais vontade ainda de descobrir o que havia por trás dele.

Eu iria descobrir seus segredos.