Mistão de Lagartop
1 O Cavaleiro do Batonzinho
Misty terminava de fazer as malas de sua mudança, exceto por algumas roupas que guardara para os próximos dois dias até que regressasse ao Santuário. Desde que fora revivido, pediu para viver afastado por alguns anos, mas sem sair da Grécia, pois queria se livrar de alguns estigmas que o atormentavam. Já que estava dentro do seu cronograma, resolveu aproveitar seus últimos momentos em Mykonos, visitando suas belas praias. Vestiu uma sunga vermelha, empapando seu corpo em protetor solar. Pôs um calção da mesma cor e uma regata branca, prendeu seu longuíssimo cabelo loiro, feliz com a sedosidade dos fios e, principalmente por sua franja agora bater na altura do peito, fez um coque no alto da cabeça. Por fim, apanhou óculos escuros, uma esteira de praia, a última edição da Men’s Health, calçou chinelos e saiu de casa.
A praia estava lotadíssima, mas com sorte Misty conseguiu um guarda-sol, abrindo sua esteira por baixo dele. Enquanto folheava a revista, ele percebeu uma figura de aparência quase divina, que lutava para achar um guarda-sol para si. Sem perder tempo, Misty se levantou e andou até a garota, a convidando para dividir o lugar consigo.
A menina se virou, tirando o óculos, revelando olhos grandes e de um azul bem claro, assim como seu longo cabelo ondulado que estava preso numa trança.
—Posso mesmo, gato? — disse mordendo a pontinha da haste do óculos.
—Será um prazer.
Enquanto conversavam, Misty observava discretamente o corpo dela. Era uma pele bem branquinha, com músculos bem definidos, seios bem pequenos mas pernas lindas e torneadas. O maiô retrô com temática de marinheiro que ela usava tinha a parte de baixo azul e a outra metade branca com listras cor-de-rosa e lacinhos. Ela era um pouco mais alta que o próprio Misty, logo ele assumiu que devia ser uma daquelas modelos dos países nórdicos aproveitando o final da temporada.
Apesar de encantado com a beleza da moça, ele tinha o pressentimento de já tê-la visto por aí.
—Então, com esse corpo lindo, assumo que você trabalha na passarela. Estou certo?
—Eu? Não, quem me dera, lindo. Eu...ahn...trabalho numa vilinha perto de Atenas, em um templo antigo. É um trabalho chato, não vou te incomodar com detalhes. -disse, desconversando.
—Ah...e sua mão, tá bem arranhada. Você tem gato?-disse, pegando a mão da moça.
—Então, eu tentei podar uma roseira mas acabei me machucando, não tenho gato não, imagina, ia encher minhas roupas de pelo, que horror.
Uma vaga lembrança vinha a Misty, mas ele não conseguia colocar tico e teco para funcionar. Coçava sua barba espessa, tentando se lembrar de onde já teria visto aquela mulher. Prestou atenção no pingente que ela trazia no pescoço, uma rosa dourada delicadíssima. Como viu que ela ficara desconfortável quando ele perguntou de trabalho, resolveu mudar a tática.
—Você acredita em signos? Eu sou libriano. E você?
—Eu sou de Peixes, querido.
—PEIXES? PEEEEEEIXES? É VOCÊ MESMO, A...como que era...AHH! AFRODITE?
Afrodite olhou espantado para o Cavaleiro de Prata, achando que para um civil saber sua identidade deveria estar em perigo, então enfiou a mão dentro da bolsa e conjurou uma Rosa Diabólica. Misty sentiu o Dourado usando seu cosmo e se apressou em explicar-se, tirando os óculos e falando baixo para não chamar a atenção.
—Afrodite, para. Sou eu, Misty de Lagarto, Cavaleiro de Prata. Não lembra de mim?
—Misty? Tá de brincadeira, né? Fala logo quem você é. O Lagarto era uma bicha cafona com um cabelo ruim, você aí todo musculoso, trabalhado no coque samurai e com essa barba de lenhador não me engana não. Diz quem é antes que eu chame reforço. O Poseidon tá aprontando de novo? Ou é outro deus complexado querendo invadir o Santuário?
Lagarto criou uma barreira, imperceptível para as pessoas ao redor, entre ele e Afrodite, que pode sentir que aquele era de fato o cosmo de um irmão de armas e desfez sua rosa.
—Bicha cafona? Puta merda, todo esse tempo fora e vocês ainda acham que eu sou viado? Puta que me pariu, Afrodite. E por que você está vestido de mulher? Eu achei que ia me dar bem e aparece o Travesti de Peixes na minha frente. Cadê teu piru? Acertou com uma rosa negra?
—Tô passada que não é mana, tá mentindo pra mim, né? E é só uma roupa, vai dizer que eu não fiquei bem? Tem que ser meio burro pra me confundir com uma mulher com o meu tamanho. O resto das coisas tá tudo aqui, se quiser eu te mostro depois, gato. E que mudança foi essa, cadê aquele cabelo de diva dos anos 80?
—Afrodite. Aqueles eram os anos 80. Você tinha praticamente o mesmo corte de cabelo.
—Tinha, eu admito. Mas pelo menos não era aquela palha loira, né? E esses músculos todos? Tá ficando maior que o Aldebaran, menino! A não ser essas perninhas de grilo, né. Podia melhorar. O que tá fazendo por aqui? Não te vi mais no Santuário.
—Eu vim me livrar dessa ideia torta que todo mundo tinha. Não aguentava mais ficar ouvindo piadinha dos outros por causa da minha aparência. Inclusive deixei minha armadura pro Mu de Áries arrumar e tirar aquela roupa rosa de bailarina que vinha por baixo.
—Mas por que dar bola pra isso?
—Você não fica no meio dos Cavaleiros de Prata e de Bronze, Afrodite. Eles são ridículos, me atormentaram por tanto tempo com isso que ou eu espairecia ou matava um ali mesmo.
—Bom, pelo menos não tá mais usando aquele batonzinho barato, né?
—Eu nunca usei batom, Afrodite. -disse, querendo arrancara os olhos da cara, de tanta raiva.
—Usou sim, inclusive o discípulo do Camy falou que quando você tinha virado espectro ainda tava com o brilhozinho na boca, todo mundo sabe.
—Aquilo não era batom. Mas acho que é melhor que pensem que era batom do que saibam o que era de verdade, pelo menos o Asterion não abriu a bocona dele.
—Ai, credo. O que que era? Tinha cara de batonzinho de farmácia.
—Não interessa o que que era, Afrodite. -disse, fazendo menção a se levantar.
—Tá, tu tá dizendo que não era batom mas não quer me contar? Por que? Eu não vou contar pra ninguém, garoto, se manca. Não sou fofoqueira que nem o Cisne. Além disso, aquieta aí que o dia tá ótimo e não tem mais guarda-sol, vai ter que ir embora e jogar seu passeio fora.
Misty revirou os olhos, mas Peixes tinha razão. Ia perder o dia na praia sendo que logo voltaria ao Santuário e aquelas oportunidades seriam ainda mais raras.
—Ok, eu conto. Mas se contar pra alguém eu ponho fogo nas suas roseiras, tá entendendo?
Afrodite queria rir pois sabia que ele morreria antes de chegar perto de uma de suas flores, mas segurou a risada e assentiu com a cabeça.
-Eu saí com uma menina do vilarejo e...peguei sapinho. Como não podia faltar aos treinos, o Asterion trouxe uma pomada que a vó dele fez que era pra curar aquela porcaria, mas daí o Grande Mestre me chamou e tive que ir pra missão com aquela merda que não saía mais e morri. Ninguém tirou aquilo da minha boca e a plasta também não secou. Aliás, a velha deve se alimentar daquilo pois tá viva até agora. Demorei um mês pra remover tudo depois que Atena me reviveu. Isso que limpei com um paninho molhado com gasolina.
-Ai, coitado. Bom, isso acontece, Mas não se desespere. Você é lindo, Misty. E devia mesmo usar batom de verdade, olha que boca maravilhosa que você tem.
O loiro ficou com as bochechas coradas. Mesmo que Afrodite também fosse mal falado no Santuário, ele sabia que a maior parte do falatório era por maldade dos outros cavaleiros e que Peixes era muito querido pelos outros dourados e pela deusa Atena. Além de tudo, fazia bem ao seu ego ser elogiado por um homem com aquela beleza extraordinária que Afrodite possuía. Este, vendo o outro corar, resolveu deixá-lo mais à vontade.
-Misty, vou dar um mergulho, parece que não arrumei os bagos direito e agora a jeba quer pular pra fora. Cuida aqui das minhas coisas que depois eu volto.
Afrodite saiu apressado, largando o chapéu e óculos ao lado da bolsa, dando uns pulinhos desajeitados até o mar. Lagarto não entendeu direito como que Peixes escondeu o “pacote” mas sentiu uma pontada de dor no próprio corpo. Pensou que, por mais inusitado que tenha sido esse encontro, talvez fosse uma oportunidade de ficar mais próximo do dourado, já que se falaram poucas vezes anteriormente, e até agora ele parecia ser uma companhia bem mais agradável do que qualquer um dos Cavaleiros de Bronze, mesmo tocando em um assunto desagradável. Voltou a ler sua revista, ocasionalmente espiando uma menina ou outra, por baixo das lentes escuras.
Quando Afrodite voltou, os dois decidiram dar uma volta até que este secasse seu corpo, caminharam pela praia, até o entardecer. Afrodite vestiu uma saída de praia elegante, que cobria até o meio de suas coxas e Misty soltou o coque deixando cair um cabelo lindo, macio e longuíssimo. Os dois seguiram até um café movimentado, perto dali. Enquanto esperavam seus pedidos, o assunto Santuário voltou a aparecer na conversa.
-Misty, Misty. Quando que vai voltar para o trabalho? Eu já volto agora pela noite, não posso deixar o posto por muito tempo.
-Eu tenho permissão de voltar em três meses, mas já deixei tudo marcado para depois de amanhã, pela tarde. Asterion irá me encontrar em Atenas.
-Esse Asterion é o...qual ahn, departamento?
-Ele é o responsável pelos cães de caça.
-Ah, eu confundi ele com o rapaz responsável por outro bicho, desculpa. Vocês são bem próximos, hein?
-Sim, sempre fizemos treinamentos estratégicos juntos. É uma das poucas pessoas do, da empresa com quem mantenho contato nessas...férias.
-Entendo. Espero que possamos nos falar mais quando voltar à...empresa. — disse Afrodite com um sorriso discreto. Era sempre engraçado para ele estar no meio de tanta gente e falar sobre a vida de Cavaleiro. Sabe que passando 11 escritórios pode me achar, é a sala mais bem decorada da firma, mas agora a Presidente nos deu outras atribuições então visitamos outros setores com mais frequência.
Beberam seus frappuccinos e se despediram. Afrodite precisava passar no hotel para se trocar e partir. Combinaram de pedir alguma missão juntos quando Misty regressasse.
—-
As últimas horas de Lagarto na ilha de Mykonos passaram rápido, e quando se deu conta, o ferry boat já atracava no Porto de Atenas, onde seu melhor amigo Asterion o aguardava. Os dois se abraçaram fortemente quando se viram, com o Cavaleiro de Cães de Caça impressionado com a mudança na aparência de Lagarto.
-Brother, tu tá top. -disse, entre gargalhadas.
-Vai cagar, Ash. -riu junto, dando um soquinho no ombro do outro.
Em algumas horas chegaram ao alojamento. Asterion tinha se encarregado de deixar os aposentos de Misty habitáveis. Tinha chamado alguns servos que deixaram o local como novo e ainda abasteceu sua cozinha. Ajudou o loiro com as malas, indicando um pacote que deixara em cima da cama.
-Isso chegou pra você antes de eu ir te buscar. Um aspirante entregou. Vou deixar que descanse um pouco, mais tarde vamos beber pra comemorar sua volta.
Misty se despediu do amigo e foi investigar aquele embrulho de papel pardo. Quando rasgou a embalagem de fora encontrou uma caixa decorada com rosas e um bilhete, que dizia o seguinte:
Bem vindo de volta. Eu sei que não usa batom, queria só que visse o que eu criei com pigmento das minhas rosas, foi inspirado em você. Não se preocupe, não é venenoso.
Nos vemos amanhã.
Um abraço,
Afrodite de Peixes.
Lagarto deu uma coçada na barba, como se acostumou a fazer sempre que ficava confuso com uma situação. Ao abrir a caixa, encontrou uma embalagem requintada, que daria inveja aos produtos de lojas caríssimas por onde passava na ilha de Mykonos. Removeu a tampa, que também era decorada com rosas e o perfume magnífico dessas flores tomou conta do ambiente. Misty pensou um pouco e se lembrou de como ele fazia com desodorantes em bastão e girou a parte de baixo, revelando um produto de um vermelho encarnado que ele nem sabia que existia.
Assim como hipnotizado, seguiu até o banheiro, olhando sua imagem no espelho e o presente de Afrodite. Respirou fundo e, um pouco desajeitado, aplicou o batom aos lábios. Peixes tinha razão sobre o que lhe disse na praia. Ele nunca se sentiu tão bonito, com a boca vermelha entre a vistosa barba, se admirou durante um bom tempo, até que ouviu batidas na porta.
-Misty, tá cagando? Não vai abrir a porta?
-Será que ele saiu?
-Acho que não, a luz tá acesa e não passou pela gente.
Em desespero, Lagarto apanhou uma toalha e tentou remover a maquiagem, que parecia ficar mais intensa à medida que ele esfregava. Como parecia que a porta ia ser derrubada, ele respirou fundo, desistindo de lutar contra seus próprios lábios, procurou um cachecol na mala e o enrolou em torno da boca, pedindo para que esperassem. Quando abriu a porta, encontrou todos os Prateados ali. Tinham preparado uma surpresa para ele e haveria uma comemoração no vilarejo. Misty não teve nem tempo de pensar e foi arrastado para fora.
Ao chegar no bar, outra surpresa: os Cavaleiros de Bronze também estavam lá, entre eles Hyoga de Cisne, que o deixou ainda mais desconfortável, agora que ele sabia da fama de fofoqueiro do outro. Surpreendentemente, Misty conseguiu passar a festa inteira com o cachecol enrolado na cara. Os drinks vinham com canudinho, o que facilitou a tarefa.
Na primeira deixa que teve, Lagarto sumiu. Foi fácil, já que todos estavam bem bêbados. O prateado partiu para as 12 casas, rezando para que nenhum dos dourados encrencasse com sua presença. Ao chegar em Peixes, só não derrubou a porta por que não queria chamar atenção. Já era por volta das 4 da manhã ali.
-Tá com saudade, gato? Eu disse até amanhã, podia ter esperado umas horas, né? -disse um sonolento Afrodite, quando o atendeu.
-Tu tá doido, Peixes? Olha isso daqui. O que eu vou fazer? -tirou o tecido que cobria seu rosto, revelando lábios volumosos e vermelhos.
Afrodite esfregou os olhos e exclamou:
-Eu disse que ia ficar maravilhoso! Não imaginei que você fosse usar, tão másculo assim, mas está divino!
-Puta merda, Afrodite. Isso daqui não sai, tu tá de palhaçada com a minha cara?
-Claro que não sai. Quando eu voltei, procurei o tal Cães de Caça e pedi um pouco do plasto aquele que tu falou, é ingrediente do meu batom. Mas eu dei um jeito pra que não saia nem com gasolina. A deusinha e as amazonas vão adorar!
-Afrodite! Como que eu tiro essa merda?
-Pra que alguém vai tirar? Olha que lindo, não tem cor que supere. A galinhada vai conhecer o Hades e anos depois vai ter só o bocão no caixão.
—E POR QUE DIABOS VOCÊ ME MANDOU ESSA MERDA SE SABIA QUE EU NÃO USO BATOM?
—Se não usasse, não ia ter experimentado, né? Agora aguenta, eu não falei pra você usar, só mostrei. Mas tá lindo, viu. Parece o Ladybeard.
Misty sentou no chão ali mesmo. Teve tanto esforço para que as pessoas parassem de falar da sua aparência. Usou toda a sorte de produtos para deixar uma barba crescer e cobrir seu rosto extremamente feminino e agora, por pura curiosidade, ia ser chamado de “Cavaleiro do Batonzinho” novamente. Pôs as mãos no rosto e chorou.
Afrodite, com pena, o ergueu, o apontando o sofá.
-Gato, dorme aqui, viu. Amanhã a gente conserta isso, eu faço alguma coisa pra tirar. Mas vê se aprende a parar de passar qualquer coisa na boca sem saber direito se vai sair ou não, ok? E nem pensa em tacar fogo no meu jardim que você chega a óbito antes de passar da porta.
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No outro dia, conforme prometido, Afrodite preparou um líquido em sua bancadinha onde fazia cosméticos caseiros, o que removeu por completo o produto.
-É uma pena, tava bonito de verdade, moço. Quando mudar de ideia e quiser outras maquiagens, vem aqui que eu te ajudo. Agora vai lá se arrumar que a gente tem que se apresentar pro Mestrinho.
Peixes acompanhou o loiro até a porta, mas quando chegaram ali, se deram conta de que a porta estava entreaberta e um certo Cavaleiro de Cisne dormia sentado, com um copinho de bebida do lado e uma cara satisfeita de quem havia feito uma descoberta interessante naquela noite...
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