Notas iniciais
Esperam que curtam! Todo domingo pretendo postar um capítulo novo.

Kane

Peguei meu carro e saí do café direto para o trabalho. Como de costume a primeira coisa que fiz após abrir a porta do carro foi ligar o rádio, isso geralmente decidia como seria o dia. “Happy” começou a tocar, senti que aquele dia provavelmente seria maravilhoso. Durante o caminho Nate me ligou:

— Onde você está? Faltam 5 minutos para começar a reunião sabia? — disse ele — Espero que já tenha saído de casa. Os papéis já estão todos comigo.

— Se você me falar uma única vez que eu cheguei atrasado para alguma coisa prometo que não te demito. — ele soltou risos ao telefone e prosseguiu:

— No dia em você conseguir viver sem mim, eu mesmo me demito.

No mesmo momento cheguei na porta da minha empresa. Ver todas aquelas janelas de vidros e aquelas dezenas de pessoas entrando e saindo às nove horas da manhã me fazia sentir realizado. Soltei aquele sorriso espontâneo, o mesmo que por anos tem sido o motivo de acordar preparado e disposto para tudo.

O Nate estava a minha espera com uma mala que continha todos os papéis que ia precisar durante o dia, organizados de um modo que eu sabia o que tinha em cada bolso. Ele me abordou:

— Todos os diretores já estão na sala de reuniões, doze no total. — consenti e ele prosseguiu — minha mulher fez um bolo de cenoura e eu sei que você gosta. Coloquei três em um pote na sua mala e tem esse para comer no elevador — ele me entregou o saco de papel com o bolo dentro. Peguei o saco e disse:

— Não sei se gosto mais da sua eficiência e organização ou do quanto você puxa saco. — dei um sorriso de leve para que ele percebesse que não passava de uma brincadeira — Já chamou o elevador?

— Já está te esperando. — respondeu ele.

Com os passos rápidos não precisei parar para abrir a porta do elevador, pois o porteiro já havia o feito. Ele cumprimentou com um feliz bom dia, e eu retribuí. Abri o saco e comecei a comer o bolo, que por sinal era sim o meu favorito. Agradeci:

— Muito obrigado Nate, diga a sua esposa que estava maravilhoso.

Chegamos ao oitavo andar e seguimos em direção a sala de reuniões. Muita gente me cumprimentava durante esse caminho e eu respondia com um simples “oi” ou apenas sorria. Muitas vezes esquecia que era o dono daquilo tudo, e que muitas pessoas me viam desse jeito, como o dono da Velike Tech. Nem sempre é esse olhar que queria os outros tivessem de mim.

Entrei na sala disposto, abri a porta e vi todos automaticamente sentando em seus lugares. Abri o sorriso, e animado comecei a reunião.

— Olá a todos. A exato um mês atrás estávamos aqui discutindo o futuro dessa empresa, e hoje, quero que cada um me fale sobre o progresso que tivemos. – me acomodei na minha cadeira e disse — Comecem!

Em torno de uma hora todos já haviam falado e discutido sobre próximos passos. Até que a Robin, diretora de marketing e propaganda, se levantou. Ela se vestia muito adequada para ocasião, usava uma saia preta que ia até um pouco acima do joelho, uma blusa social branca e um salto alto. Arrumou o cabelo liso e preto que ficava sobre o ombro e disse:

— A força de uma empresa está na forma que ela se apresenta, há mais ou menos um mês minha equipe, sob minha supervisão — enfatizou — desenvolveu uma nova campanha para lançar no mercado. Vejam por si só e me digam o que acham. – Ela se levantou entregou panfletos com o possível novo design da empresa, algo realmente muito bonito e inovador.

Enquanto avaliávamos a sua ideia, o projetor foi ligado. Ela havia feito uma apresentação para aquilo? Por que motivo não convocou uma reunião para falar apenas sobre isso? Me irritei de início, mas dei corda para ver onde ela queria chegar.

Após vinte minutos de apresentação ela finalmente terminou, gostei do trabalho dela, por mais que sua atitude ousada tenha me deixado um pouco bravo no início. A convidei para sentar novamente. Levantei.

— Robin, você tem a minha autorização para continuar com esse projeto. Ficou muito bom.

— Obrigado! – ela agradeceu.

— A reunião acabou, vejo vocês próximo mês. E espero resultados. Obrigado.

Cada um foi arrumando suas próprias coisas e saindo. Enquanto saiam eu os cumprimentava, um a um. Após todos já terem ido, suspirei e sentei novamente. Abri minha mala guardei alguns papéis e tirei de lá os pedaços de bolo do Nate. Abri a tampa do pote e fui logo atacando, um atrás do outro. Agora passaria o resto do meu dia sentado assinando papeis, aguardando o anoitecer para um jantar de negócios. Levantei e segui direto para minha sala. Assim que abri a porta vi que uma pilha de papeis me esperava. Suspirei novamente. Sentei na minha cadeira, peguei a caneta e o primeiro papel. Não sabia realmente se era aquilo que me deixava feliz, mas eu construí tudo aquilo do zero, acho que era minha obrigação. No mesmo instante meu telefone tocou, larguei tudo e fui atender.

— Kane Velike falando.

— Kane, tem um pessoal querendo falar com você na sala dois, falaram que estão com um problema. Pode ir? – disse o Nate.

— Ok, já estou indo.

Segui até a sala. Chegando lá haviam duas mulheres, uma era baixinha e tinha um cabelo azul num corte onde a ponta da esquerda era muito menor que a direita, a outra mulher era um pouco mais alta, usava óculos e tinha um cabelo preto, grande e ondulado. Haviam duas caixas empilhadas sobre um carrinho no meio da sala e outras duas menores ao lado. Olhei sem saber o porquê de terem me chamado.

— Aconteceu um problema e nosso motorista não pode vir. Consegui deixar as entregas todas para amanhã, menos essa. São capacetes e um traje de... espaço? Acho que sim. – disse nervosamente a do cabelo azul, colocando o cabelo atrás da orelha constantemente – pensei que você poderia, não sei, entregar, eu acho.

— O cliente disse que precisava urgentemente. E não tem nenhum outro motorista disponível – disse a outra garota.

— Ok, eu levo. Qual é o endereço? – faria qualquer coisa para não ter que ficar o dia inteiro na minha sala assinando aquele monte de papeis.

— O que? Sério? Tipo, leva mesmo? – perguntou a de cabelo azul, sua amiga a deu uma cotovelada do mesmo instante. Arqueei uma sobrancelha no intuito de expressar minha incompreensão – Desculpa. É que...

— Aqui está o endereço. – disse rapidamente.

Olhei o endereço e constava ser um galpão a cerca de quatro quilômetros de distância. Me lamentei por não ser mais longe. Olhei para as duas, elas estavam com uma postura reta, mãos para trás e olhando sérias, uma delas chegava a tremer. Por que raios minha presença despertava aquilo nas pessoas?

— Obrigado por avisar – disse eu – quando precisarem de algo podem me chamar, estarei à disposição.

— Tudo bem, muito obrigado por vir. Podemos ajudar com algo a mais?

— Podem me ajudar a levar essas caixas para o carro?

— Podemos! – consentiram em uníssono.

Soltei um riso de leve e peguei o carrinho com as duas caixas maiores, enquanto cada uma levava uma das caixas menores. Coloquei uma grande no porta malas e outra nos bancos de trás junto com as pequenas. Entrei no carro, liguei o GPS e segui em direção ao que constava ser uma base de treinamento espacial.

Quatro quilômetros depois achei a tal base, era uns novecentos metros distantes de qualquer casa ou estabelecimento, cercada por uma grade com três metros de altura que era muito distante das paredes do local. Sem contar que mais parecia ser um galpão gigante do que a base de alguma coisa. Procurando por onde poderia entrar, me perguntei porque vendíamos aquilo? E qual o motivo de aquilo ser tão distante de tudo?

Mas assim que cheguei a portaria minhas perguntas eram outras.

— Mas porque eu não posso entrar? Tenho que entregar uma encomenda.

— Você nem sequer está usando um carro autorizado, como quer entrar? – disse o porteiro – Tente me provar que realmente tem boas intenções e quem sabe deixo você entrar.

Peguei meu RG e mostrei a ele.

— Viu? Sou Kane Velike, dono da Velike Tech, que produz – olhei para as caixas buscando respostas, até que li – tecnologia para trajes espaciais.

Pelo visto tinha perdido tempo, ele nem tinha pegado meu rg. Até que tive uma ideia e pedi para ele esperar. Enquanto isso eu vasculhava minha maleta e o porta luvas, tinha certeza que havia uma pasta com uma cópia dos documentos de entregas que deveria ter levado para a empresa. Achei. Era o mesmo endereço, de uma base espacial do governo no meio do nada. Entreguei ao porteiro, ele lia calmamente, até que fechou a janela de vidro e pegou o telefone. Vi enquanto ele falava, gesticulava e girava com a cadeira de um lado para o outro. Até que disse:

— Tudo bem, pode entrar. Arizona vai estar esperando por você lá dentro, ela acha que o dono da empresa que fornece o material deve, no mínimo, saber do que se trata o projeto pelo qual está ajudando.

Nada me enfureceu mais do que a cara de deboche daquele porteiro. Mas, sinceramente, nem sequer sabia que a empresa fazia esse tipo de coisa. Entrei com o carro até o estacionamento, que não passava de um local vazio perto de um muro. Saí e avistei uma mulher branca com longos cabelos pretos. Ela usava uma calça justa e cinza, que parecia ser de moletom, uma bota preta no meio dos joelhos, pulseiras e uma blusa que mal se via devido ao seu sobretudo bege. Ela era séria, caminhava em minha direção, até que estava alguns passos na minha frente. Pensei em me apresentar, mas não tive tempo.

— Olá senhor Kane, meu nome é Katherine, siga-me. – foi o que fiz, sem nem sequer questionar.

Seguimos pelo portão principal, o mesmo pela qual a vi saindo. Passamos por um corredor largo com paredes brancas e com portas que davam em salas pequenas de ambos os lados. Nas salas haviam muitas coisas. Trajes e ferramentas foram as mais frequentes. Reconheci muitos aparelhos eletrônicos, alguns deles peças de automações mais sofisticadas e outros eram computadores, televisores e equipamentos de tecnologia. Mas logo percebi que aquilo era só um pedaço, um deposito diria. Logo afrente avistei uma grande porta dupla de ferro. Katherine olhou para mim e deu um sorriso sarcástico, como se esperasse alguma reação minha, e ela certamente teve o que esperava. Assim que entrei percebi a grandiosidade e a beleza daquele lugar. A única coisa que tinha em comum com a minha empresa era o monte de pessoas andando de um lado para o outro.

— Esse é o nosso hall, onde trabalham todas as pessoas que gerenciam e cuidam deste lugar. – ela falava como alguém fala de sua própria casa, e isso é algo que admiro muito. Já andando, ela começou a me apresentar o local – O que temos aqui são algumas pessoas de cada área fazendo o trabalho que eu denominaria como processo criativo. Daquele lado são os engenheiros de software e hardware, criando os dispositivos das naves e todos os outros equipamentos que usamos em nossos projetos. Daquele outro são nossos arquitetos e mais a direita alguns de nossos físicos e matemáticos. Deve ter percebido a imensidão disso, certo?

— Sem sombra de dúvida! – assenti.

— Venha comigo, vou te levar para conhecer Arizona, a líder do projeto Andrômeda, e atual missão Saturno.

— Quando você fala Saturno, quer realmente dizer Saturno? – questionei.

— Guarde suas dúvidas para quem pode respondê-las com propriedade.

Ela foi extremamente convincente com suas palavras. Seguimos através de um corredor que nos levava para uma sala de espera que era como uma recepção, porém, com cadeiras de veludo extremamente confortáveis e coloridas, haviam até mesmo algumas revistas ao lado de vários panfletos em cima da mesa. O chão era um tapete cinza muito confortável, enquanto a parede era toda cheia de anotações, fotos de astronautas, alguns troféus e capacetes autografados. Vi que poderia passa muito tempo ali apenas curtindo o lugar. Katherine me pediu pacientemente para aguardar enquanto ela conferia se Arizona estava disponível. E foi exatamente o que eu fiz.

Notas finais
Não se sintam acanhados, postem um comentário e digam o que acharam!