Missão Neve Mortal
3 O Eco da Solidão - Segundo Dia
O segundo dia amanheceu mais cinza e mais pesado. A neve recomeçou a cair como um véu incessante que ameaçava soterrar não apenas a floresta, mas também a frágil esperança de Kiba. A perna de Shino estava visivelmente pior. A pele ao redor do ferimento inflamara, com um tom avermelhado e sinistro, e uma febre começava a tomar conta de seu corpo. Os movimentos, antes precisos, estavam lentos, e suas palavras, ainda lógicas, eram entrecortadas por suspiros de agonia.
Kiba sentia o desespero como uma serpente a se enroscar em suas entranhas. A lógica fria, que ele sempre desdenhara, mas que Shino personificava, agora sussurrava em seu ouvido. Ele está piorando. Você está ficando sem tempo.
Tentou alimentar Shino com um pouco da carne de coelho, conquanto o namorado mal conseguisse engolir. A quietude entre eles já não era mais a de companheiros confortáveis, mas a de uma vigília fúnebre. Kiba já não conseguia ficar parado. Ele perambulava pela pequena caverna, os ouvidos atentos a qualquer som, seu faro sendo constantemente testado, buscando um único cheiro no mundo que pudesse trazê-lo de volta à sanidade, a mão apoiando com cuidado o lado direito do peito, a dor, à essa altura, fazia lágrimas se juntarem nos olhos selvagens, conquanto soubesse ser ínfima perto do que Shino enfrentava.
— Ele não viria até aqui se estivesse ferido, Kiba — Shino murmurou, seus olhos semicerrados atrás dos óculos — Sua lógica canina o levaria direto para Konoha. Para a ajuda, ele vai se salvar.
— Eu sei! — Kiba explodiu, o som ecoando como um tiro na caverna. E imediatamente se envergonhou. Passou uma mão suja pelo rosto. — Eu... eu sei. Mas eu não posso fazer nada. Só ficar aqui e esperar. Eu odeio esperar.
Sua mente começou a vagar por territórios perigosos. Ele se lembrou de quando Akamaru era apenas um filhote, pequeno o suficiente para caber em seu capuz. Lembrou do primeiro treinamento que fizeram juntos, das incontáveis missões, das vitórias e das raras, mas dolorosas, derrotas. Akamaru estava em todas as suas memórias, uma presença constante e leal. A ideia de um futuro sem aquele calor, sem aquele olhar que o entendia completamente, era como um buraco se abrindo sob seus pés.
— Preciso que vá atrás de ajuda, Kiba — a voz do outro rapaz soou baixa, fraca — Por favor, preciso saber que… — não completou a frase, ainda que fosse possível de se adivinhar. Preciso saber que ficará bem, que ao menos você vai sobreviver.
— Não.
— Kiba, por…
— Não! — cobriu as orelhas com as mãos — Não vou te deixar, porra. Não quero escolher isso! Eu… acabei de me declarar. A gente só começou a namorar. Não é justo!
— Não é justo...
Outro fator que contribuiu para a decisão de Inuzuka Kiba: seu próprio corpo estava ferido. Por mais arrogante que fosse, por mais que acreditasse ser forte, conhecia seus limites. Não iria muito longe com o machucado. Trazer o namorado para aquele precário abrigo havia cobrado seu preço.
Ao entardecer, a febre de Shino piorou. Ele começou a delirar, murmurando sobre coisas que não faziam sentido, seus insetos zumbindo de forma inquieta ao redor, refletindo a confusão de seu hospedeiro. Kiba sentou-se ao lado, envolvendo a mão trêmula com a sua, uma sensação de impotência absoluta o consumindo. Ele estava perdendo os dois. Seu parceiro humano definhava diante de seus olhos, e seu parceiro canino estava perdido em algum lugar do inferno branco.
Naquela noite, a mais escura de sua vida, Kiba sussurrou para a escuridão, sua voz rouca e quebrada:
— Por favor... por favor, apenas volte. Akamaru, fique bem. Apenas... volte para casa.
Era uma admissão de derrota, uma prece de um homem que sabe ter esbarrado em um limite, agora se rendendo a uma esperança que mal conseguia segurar.
A mão entre a sua era um lembrete cruel da realidade. Tão diferente do que estava acostumado: desde que teve coragem de se declarar, de abrir o coração e descobriu que era recíproco, todos os toques foram calorosos, aconchegantes, firmes. E, diferente de horas atrás, não estava fria, pois o corpo do jovem ninja ardia em febre.
— Fizemos planos, Shino — a essa altura a dor na costela era mais do que incomoda. Lhe dava náuseas e causava calafrios — Nossos planos…
O Monumento Hokage ficava iluminado, havia fogos de artifícios e casais apaixonados por todos os lados. A guerra não podia mudar esses planos! Podia? Claro que podia. A guerra mudou tudo. E ameaçava roubar o homem que amava, ameaçava destruir o futuro ao roubar-lhes o amanhã.
Porque Kiba era assim. Ficaria ao lado de quem amava; pois, naquele instante, nada mais importava. Nada mais tinha valor. Lutou e sonhou tanto ter Shino ao seu lado, que sua escolha só podia ser aquela: ficaria ao lado dele. Até depois do fim.

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