A neve caía silenciosa sobre a floresta ao norte de Konoha, cobrindo os galhos nus com um manto branco e pesado, um cobertor que abafava até o mais sussurrante dos sons. Para a maioria, era um cenário de paz gélida. Para Aburame Shino e Inuzuka Kiba, era uma camuflagem perigosa. Sua missão de reconhecimento nas fronteiras do País do Fogo, outrora rotineira, agora tinha o sabor metálico do alerta. Estavam em guerra.

— Está tudo quieto demais — murmurou Shino, seus óculos escuros refletindo a paisagem monocromática, escondendo os olhos que vasculhavam cada sombra com precisão analítica — Muito quieto. Até os insetos se recolheram.

Kiba farejou o ar, as narinas dilatadas. Uma fina camada de gelo se formava em suas bochechas — Pra caralho! O cheiro... está puro demais. Só de neve e pinheiro. Akamaru também sente. Não é nem perto do que imaginei pro nosso natal.

O grande cão branco rosnou baixo, uma vibração grave que ecoou no peito de Kiba. Seu pelo estava eriçado, uma clara bandeira de alerta. Foi então que o silêncio se quebrou.

Shurikens cortaram o véu branco, vindas de múltiplas direções. Shino e Kiba se moveram por instinto, anos de parceria falando mais alto que qualquer comando. Figuras envoltas em sombras e mantos escuros surgiram da paisagem, como fantasmas materializados. O brilho sinistro de lâminas envenenadas era o único ponto de cor no ambiente.

— Hijutsu! — a voz de Shino era um comando calmo no caos. Uma nuvem escura de insetos zumbiu de suas mangas, um exército vivo que se lançou para cercar e confundir os inimigos.

Kiba avançou com a fúria de uma tempestade, os olhos vermelhos brilhando como brasas:

— Gatsuuga!

Ele tornou-se um redemoinho de garras e dentes, uma força da natureza que se chocou contra a disciplina dos atacantes. A sincronia entre os dois ninjas de Konoha era uma dança letal e bem ensaiada. Enquanto os insetos de Shino imobilizavam um inimigo, o golpe de Kiba abatia outro. Mas a luta era desigual. No auge do confronto, um dos mascarados, percebendo a ameaça tática que Shino representava, lançou uma kunai especial, adornada com um papel explosivo, não contra um deles, mas contra o solo entre os dois.

O mundo explodiu em branco e ruído.

Kiba foi jogado para trás, atordoado. Quando a visão voltou, seu sangue gelou. Shino estava caído a vários metros de distância, ao pé de um carvalho antigo. E não era uma queda comum. Sua perna esquerda estava torcida em um ângulo grotesco e impossível, um osso pálido e ameaçador rompendo a pele e o tecido da calça. Um estalo seco ainda parecia ecoar nos ouvidos de Kiba, mais aterrorizante que qualquer explosão.

— SHINO! — o grito de Kiba foi um rugido de puro desespero. Ele ignorou o inimigo que se aproximava, desviando por um triz de uma lâmina que quase lhe cortou o braço. A fúria que tomou conta dele então não era mais a de um soldado, mas a de um animal acuado protegendo sua matilha, protegendo o precioso companheiro. Com um ataque cego e brutal, do qual mal se lembraria dos detalhes, ele e Akamaru, num esforço final, conseguiram repelir os poucos e últimos agressores que não viram outra opção além de causar nova explosão. O ataque não teve outra intenção além de servir de distração, conquanto fosse forte o bastante para lançar Kiba e Akamaru longe, dando tempo aos inimigos que recuaram para a floresta, machucados e em desordem, levando os feridos consigo.

Com a respiração ofegante, Kiba caiu de joelhos na neve, a adrenalina esvaindo-se e deixando para trás um rastro de dor e terror. Foi quando ele percebeu. O silêncio havia voltado, mas agora era opressivo. E algo, ou alguém, estava faltando.

— Akamaru? — sua voz foi um fio de esperança. Ele se virou, procurando a forma branca familiar — AKAMARU!

Nada. Apenas o vento sibilando entre os pinheiros, carregando o peso do silêncio e da neve. Akamaru havia desaparecido.

— Shino… — sussurrou, atordoado. O namorado estava ferido e o ninken desaparecido. precisava fazer alguma coisa!

Tão logo se pôs em pé e respirou fundo, quase caiu novamente. A dor do lado direito do peito foi intensa e aguda. Tinha no mínimo uma costela trincada.

Que maravilha de natal seria aquele.


Notas finais
não foi betado serão quatro capítulos