Missão Gaia
5 Pandora
Ochako não estava acostumada a acordar e dar de cara com paredes cor-de-rosa, não era a primeira vez que dormia na cabine de Mina, mas, ainda que só tivessem passado 24 horas, já sentia falta das paredes de cores monótonas e cheias de pequenas estrelas — desenhadas estrategicamente quando Katsuki não estava presente — do seu antigo dormitório. Só que nem ferrando ela voltaria àquela cabine, ao menos não enquanto a mente revivia, sem dó, a calorosa discussão que tiveram. Ele havia se mostrado um tremendo idiota, e a vontade que tinha era de nunca mais olhar na cara dele, de não ter que cruzar o seu caminho, de não ter que ouvir falar da maldita missão e do seu piloto estúpido.
Não queria saber de mais nada sobre o Regresso. E como sabia que podia contar com a hospitalidade e a amizade de Mina, aproveitaria a estádia e voltaria ao trabalho o mais rápido possível. Havia recebido duas rotações de folga por causa do acidente que, em parte sofrera, e em parte provocara; embora não se sentisse psicologicamente preparada para retomar o trabalho, ela tentaria conversar com Gunhead e voltar a fazer pequenos reparos, só para ocupar a mente. Tinha ciência que seu erro teria consequências, entretanto, sabia que podia contar com o bom julgamento de Gunhead e sofrer uma penalização leve. Ela se desculparia pessoalmente e voltaria ao trabalho, pois tinha certeza que ele jamais descartaria a melhor dentre todos os seus pupilos.
— Sra. Zero Gravity — disse Mina, saindo do banheiro — Pensei que você não fosse acordar nunca mais.
— Oi, Mina — cumprimentou, deitada na cama da amiga — Fico muito feliz em saber que minha saúde te preocupa.
— Não debocha, 'Chako. Eu até arranjei uns trecos pra trocar o curativo do seu braço — disse, mostrando uma bolsinha cheia de materiais de primeiros socorros — Eu sou ou não sou uma amiga exemplar?
— É a melhor — respondeu sorrindo.
— Modéstia à parte, sou a melhor mesmo! — concordou beijando um ombro, fazendo Uraraka revirar os olhos — Senta logo e me mostra essa belezinha.
Ochako obedeceu sem questionar a “delicadeza” da amiga. E foi entre queixas e afagos que Mina conseguiu trocar o curativo. O braço não estava mais inchado, os pontos estavam firmes e, mesmo não sendo uma enfermeira ou da área de saúde, arriscaria dizer que a cicatrização parecia boa. Em breve ela não precisaria mais de curativos e estaria pronta para outra aventura.
Porém, não podia dizer a mesma coisa sobre seu estado emocional. A doce mecânica estava visivelmente triste, e nenhum dos risinhos que ela dera era capaz de esconder o opaco dos seus olhos. Era uma situação muito estranha, pois desde que Ochako assumira um relacionamento sério com Katsuki, Mina nunca imaginaria que veria a amiga pedir entre murmúrios e lágrimas um lugar para dormir. Sabia que às vezes eles tinham alguns desentendimentos, só que jamais a ponto de fazê-la sair da cabine tão magoada. E, mesmo curiosa, Ashido não questionou os motivos que a levaram até lá, apenas a acolheu e a tratou como uma boa irmã faria. Sabia que na hora certa, ela lhe contaria o ocorrido.
— Como você tá se sentindo hoje? — perguntou Mina, guardando os itens que usou no curativo.
— Minha cabeça tá doendo — respondeu dando de ombros —, mas eu vou ficar bem.
— Acho que eu não tenho nenhum analgésico…
— Não se preocupe, eu tenho.
Ela pegou uns comprimidos que guardara debaixo do travesseiro e tomou com um pouco de água que Mina lhe oferecera.
— Como conseguiu os remédios? Não me diga que você foi até…
— Não — negou friamente — Eu não quero voltar lá. Pedi outra receita à Fuyumi.
— Nossa, você consegue tudo mesmo com essa cara fofa — provocou, aconchegando-se ao lado de Ochako.
— Não é verdade...
Ela fez um bico e, por sua vez, Mina arqueou uma das sobrancelhas.
— Ah não, ‘Chako?! — perguntou retórica — Já se esqueceu que me fez aceitar aquela spacewalker super perigosa?
— Nem era tão perigosa assim.
— Tá bom… — Balançou a cabeça negativamente — Vamos fingir que não aconteceu então. Mas e todas as vezes que o Izuku te deu as sobremesas dele?! Ou as que a Tsuyu aceitava trocar de turno só pra você ficar olhando pra Lua e sei lá mais o quê?! Eu não lembro de uma única vez que eles te disseram não.
— Mas o Deku sempre me dedurava pros meus pais — retrucou, tentando se defender.
— Claro! Porque eles eram os únicos que não caiam nessa armadilha fofa — disse, apertando as bochechas de Ochako.
— Aí — reclamou, rindo da atitude infantil da amiga — Lembra aquela vez que vocês tentaram fazer uma surpresa de aniversário pra mim?
— Aquilo foi um desastre total! — Revirou os olhos ao lembrar — Eu não sabia que fazer um shake de baunilha era tão difícil. Eu quase morri tentando desligar o processador que, do nada, superaqueceu; o Izuku quase perdeu o dedo; e a Tsuyu ficou toda melada de adoçante.
— Foi a bebida mais deliciosa e doce que já tomei em toda minha vida — falou, sorrindo.
— Você é uma sádica!
Ambas riram com a memória e, em seguida, mergulharam em um silêncio nostálgico. Em qualquer outro momento, reviver tais memórias aqueceria o coração de Ochako; mas, agora, ela só conseguia sentir um misto sufocante de angústia e saudade. Por isso, repousou a cabeça no ombro de Mina, suspirou pesadamente e confessou:
— Acho que eu deveria ter ido com eles.
— O quê?! — exclamou, incrédula — Do que você tá falando, ‘Chako?
— Da Earth 2.0. — Fungou, na tentativa de segurar o nó que se formava na garganta — Eu deveria ter ido com eles no dia da Grande Divisão. Não tinha que dar adeus para minha família.
— Você tomou os remédios certo, Ochako? — questionou Mina, ainda descrente do que ouvia — Porque eu não tô acreditando no que tô ouvindo. A gente sempre sonhou em regressar… trabalhamos todas as rotações pra isso! Pra um dia pôr os pés em terra firme, correr, nadar…
— Não importa mais — disse, tomada novamente pelo desânimo.
— Ochako, por favor, me conta o que aconteceu — pediu, quase que em uma súplica desesperada.
Uraraka fitou Mina, cuidadosamente ponderando se deveria ou não contar o que havia acontecido. Por mais que considerasse Katsuki o maior cretino do universo, prometera que não falaria a ninguém sobre a Missão Gaia e sobre os planos do Comandante. Mas se não podia compartilhar sua dor com sua melhor amiga e irmã, não poderia fazer mais nada nesta vida. Pensando assim, Ochako segurou firmemente nas mãos de Mina e falou:
— Mina Ashido, você precisa me prometer que não vai contar pra ninguém. Pra ninguém, ninguém e ninguém. É um segredo absoluto, porque a Ártemis pode virar um caos se isso vazar. E precisa me prometer que não vai ficar pensando nisso, que vai me ouvir e depois esquecer. Promete?
— Céus! É caso de vida ou morte?!
— Promete ou não, Mina?
E mesmo hesitante, ela prometeu guardar o segredo. Então, Ochako respirou fundo e contou tudo em detalhes. Não foi uma narrativa imparcial dos fatos, pois, enquanto contava sobre a Missão Gaia, transmitia todo o ressentimento que sentira ao discutir com Bakugou sobre os perigos da empreitada. Houve momentos em que chegou perto de deixar uma lágrima rolar, mas usando toda sua força e mágoa, se conteve e completou a narrativa.
— Puta merda! — xingou Ashido, totalmente abobalhada com a notícia — Eu seria uma amiga muito ruim se ficasse feliz com essa tal de Missão Gaia?
— Não. — Suspirou cansada — Eu também fiquei… no início.
— Nós vamos realmente voltar para casa! — exclamou, com os olhos marejados.
Uraraka, por um instante, se achou uma pessoa horrível por sentir tanta repulsa à missão que salvaria todos os tripulantes da estação espacial. Repulsa que não era completamente culpa sua, já que ela nascera da discussão que tivera com Katsuki.
— Vamos… Eu só não queria que fosse nessas circunstâncias, não queria ter que arriscar perder tanto… não é seguro!
— Eu sinto muito, ‘Chako — disse, abraçando a amiga — Mas aquele idiota falou mesmo que você devia ter ido embora?
— Praticamente.
— ‘Chako, ele disse ou não disse?
— Vai defender ele agora? — perguntou encarando-a.
— Nunca — respondeu, negando com a cabeça — Mas vocês são dois cabeças duras, adoram falar besteira quando acham que estão certos e nunca dão o braço a torcer. Preferem ter razão do que paz.
— Não importa. Eu não quero mais olhar na cara dele.
— Eu entendo que essa é a missão mais perigosa dos últimos cem anos, mas… e se der certo? E se ele sobreviver… o que você vai fazer?
— Eu… eu não sei — revelou, atordoada com a pergunta.
A verdade é que Ochako tinha focado tanto nos perigos da missão, nas chances gigantescas de dar errado e em Katsuki não sobrevivendo, que acabou não pensando no que aconteceria se a missão fosse bem sucedida.
Será que Mina tinha razão?
Será que eles se exaltaram demais na discussão dos fatos?
— ‘Chako, só não quero que se arrependa depois. Você sabe… — disse, apertando a mão dela. — Eu ainda me arrependo por não ter me despedido do Kiri no Dia do Adeus, não precisava ter sido daquele jeito… As coisas podiam ter terminado mais… amigáveis entre a gente.
Ochako inspirou fundo e fechou os olhos. A lembrança daquele dia lhe trazia arrepios, sem dúvidas, fora um dos dias mais infelizes da sua vida.
— Eu vou pensar sobre isso. Obrigada, Mina.
— Eu tô aqui pro que você precisar. — Beijou o rosto da amiga e se levantou da cama — Agora eu preciso ir.
— Espera — falou, se levantando também — Eu vou junto com você, quero conversar com o Gunhead.
— Não tô indo pro módulo de manutenção, recebi algumas horas de descanso. — disse enquanto ajeitava o cabelo no pequeno espelho que havia na cabine — Eu tenho um… encontro.
— Como assim?! Me conta essa história direito, Mina! — pediu, surpresa com a novidade.
— Se der certo, eu te conto. — Piscou, traquina — Ah! Antes que eu me esqueça… Por mais que eu ame ver suas coxas grossas nas minhas calças, você precisa pegar algumas mudas de roupas no seu antigo ninho.
— Ah, Mina! Eu não quero ir lá… — reclamou igual uma criança — Posso higienizar todas as roupas que temos aqui. Posso ser sua escrava!
— Tentador, ‘Chako, mas não vai dar. Ainda estamos na era do racionamento.
— A última instalação de painéis Uravity não foi suficiente para o sistema voltar a funcionar em 100%? — perguntou, indo ao banheiro verificar se tinha água.
— Não sei ao certo. Gunhead não entrou em detalhes, mas agora acho que a Missão Gaia pode ter alguma coisa a ver com isso — respondeu incerta — E não tenta me enrolar, Sra. Zero Gravity, se limpa e vai buscar as roupas.
— Tá bom, eu busco! Mas só quando ele não estiver na cabine.
— De acordo!
Mina mandou mais um beijo de despedida e saiu da cabine. E apesar de ainda estar melancólica, Ochako amava como a melhor amiga sabia lhe consolar e animar. Não estava pronta para encarar Katsuki, contudo, consideraria o que ela havia dito. E esperava, de coração, que o “encontro” acabasse bem, afinal ela também merecia ser feliz. Enquanto isso, Ochako se arrumava para ir ao módulo de manutenção e torcia para que sua conversa com Gunhead fosse igualmente bem sucedida.
[...]
Era a terceira vez que Shouto lia o relatório da perícia sobre o caso dos meteoritos. Havia conferido o nome de todos os envolvidos, os relatórios dos astrônomos e cientistas, as imagens do acidente, o laudo técnico do impacto, as coordenadas e o eixo de rotação da Ártemis antes e depois do acidente; tudo isso para chegar à conclusão de que não tinha nenhuma inconsistência nos documentos ou evidências de sabotagem. E se por um lado ele se sentia aliviado ao constatar que não havia nenhum tipo de boicote à estação — apenas erros e falhas técnicas —, por outro sentia-se extremamente desapontado por não conseguir construir um argumento capaz de convencer o atroz Comandante Todoroki.
Shouto Todoroki estava frustrado e cansado; mas ele não desistiria até conseguir desmistificar a crença de um impostor na Ártemis. Prometera ajudar Moe, e era isso que ele faria, examinando cada linha e cada cenário até chegar à verdade, seja ela qual fosse. Pois não deixaria a insanidade do Comandante e sua vontade transcendental de entrar para a história da humanidade comprometer o anseio de todos remanescentes, não quando estavam tão perto de voltar à Terra. Ele protegeria o restante da família, bem como a vida de todos os tripulantes.
Esse seria o seu modo de contribuir com a Missão Gaia, porque, por mais que desejasse, Shouto não pilotaria a nave de reconhecimento, pelo simples motivo de não querer dar a Enji a satisfação de mais um Todoroki fazendo história. Trabalharia arduamente na estação, e assim que a Fase 1 tivesse êxito, ajudaria a levar todos para casa sendo apenas mais um piloto da Fase 2. Não havia glória em seus planos, mas ele sentia-se realizado e contente em cumpri-lo.
E foi motivado por esses pensamentos que abdicou suas horas de sono. E as consequências não podiam ser outras: suas costas doíam, sua vista começava a embaralhar as letras dos documentos, a cabeça dava sinais de cansaço e o corpo clamava por uma pausa. Inclinou-se para trás na cadeira que estava sentado e respirou fundo. Não queria interromper a investigação, mas também não conseguia raciocinar perfeitamente. Talvez devesse ao menos parar para comer alguma coisa…
— Ainda trabalhando? — Ouviu Momo lhe perguntar enquanto o abraçava por trás.
— Não consegui dormir — respondeu, fitando-a e aproveitando o afago. — Como você está se sentindo?
Estava tão concentrado e ao mesmo tempo tão disperso que nem notara a noiva acordar. A cabine que eles dividiam era o dobro do tamanho das cabines do módulo habitacional, privilégio e mérito da Tenente Yaoyorozu, a engenheira mais jovem a entrar para a equipe de comando. Shouto sentia-se orgulhoso pela atuação brilhante dela, mesmo que tenha ficado aborrecido com o susto que ela lhe dera ao desmaiar e ser levada ao módulo hospitalar às pressas.
— Eu já estou bem, Shouto — disse confiante, fazendo um cafuné nos cabelos dele. — Não precisa se preocupar, aquilo foi só um descuido meu… O prazo do Comandante é apertado, achei que fazer algumas horas extras não faria mal.
— Eu sempre vou me preocupar. — O toque dela era tão suave que ele se acomodou e fechou os olhos. — O Comandante não tem escrúpulo quando o assunto é trabalho e a missão. Não quero que você comprometa sua saúde ou o serviço por causa dos prazos loucos dele, Momo.
— Não vou, e prometo tomar cuidado hoje — falou, dando-lhe um beijo na testa. — Os painéis solares foram todos consertados e agora temos mais energia do que antes do acidente. Além disso, solicitei reforço… tenho certeza que só mais algumas horas e a nave estará pronta. Eu vou conseguir cumprir o prazo.
— Claro que vai — confirmou, abrindo os olhos e vendo o sorriso de Momo.
Ele também sorriu, pois ver a mulher empoderada que a Yaoyorozu havia se tornado o enchia de prazer. Então, não resistindo ao sorriso dela, Shouto girou na cadeira e fez com que ela se sentasse em seu colo. Pegou uma das mechas de cabelo preto e colocou atrás da orelha dela, encostou suas testas e sentiu o perfume floral que a noiva usava em todas as ocasiões. Era afrodisíaco e revigorante. Não tinha como não a amar e não a desejar só para si. E sem que pedidos e concessões fossem feitos, até porque ele já havia superado essa fase, Shouto a beijou apaixonadamente.
Fora a grande inspiração de All Might, Yaoyorozu foi um dos motivos principais que o fizera ficar na Ártemis. Apesar de se conhecerem desde a adolescência e de ele ter ciência do desejo que a garota tinha de conhecer a Terra, para Shouto não havia diferença no seu destino, afinal não importava onde estivesse, sempre viveria à penumbra do nome Todoroki. Porém, o sonho da garota outrora insegura e tímida, transformou-o em algo inesperado. Ele não era mais um menino melancólico e rebelde, e sim um homem determinado a continuar o legado do Comandante da Paz. Agora, Shouto sentia que não havia nada que não pudessem fazer juntos.
— Eu te amo — falou ele, assim que se separaram.
— Eu também, Shouto. Mas eu tenho que ir, e você… — Ela, ainda no colo dele, lhe deu mais um selinho. — Você precisa dormir. Não vai conseguir manter o ritmo se não descansar um pouco.
— Humpf… — bufou meio irritado, deitando a cabeça no encosto da cadeira. — Eu preciso encontrar um argumento decente para convencer o Comandante. Não cheguei a lugar nenhum…
— Hum… — resmungou, pegando alguns documentos que estavam na mesa e analisando. — Acho que você devia tentar uma abordagem mais… mais pessoal.
— O que quer dizer?
— Acho que devia conversar pessoalmente com todos os envolvidos. Você sabe… — Deu de ombros — Investigar as entrelinhas e os fatos que não constam nos relatórios oficiais. Não se esqueça que eles estão sujeitos à mesma pressão que a gente. Talvez consiga uma informação nova… Eles não vão se recusar a conversar com você, Shouto.
— Tem razão — concordou com ela — Eu vou começar imediatamente.
— Negativo, piloto — repreendeu-o, autoritária — Primeiro você vai dormir um pouco, depois que estiver descansado e alimentado, está autorizado a voltar ao trabalho. Isso é uma ordem, piloto.
— Achei que o Hawks era o responsável pelos pilotos... — disse, erguendo uma sobrancelha.
— Mas você está sob a minha jurisdição, portanto, me deve obediência — respondeu com um sorriso travesso — Estamos entendidos, piloto?
— Seu desejo é uma ordem, Tenente.
— Excelente!
Satisfeita, Momo beijou o noivo mais uma vez e, em seguida, foi se arrumar para finalmente voltar à sua criação. Já Shouto não via outra alternativa a não ser obedecer às ordens que recebera. Sim, ele descansaria, depois voltaria ao trabalho, e enfim acabaria com toda desconfiança do Comandante Todoroki.
[...]
Ochako sentia o coração palpitar desesperadamente enquanto caminhava junto a Gunhead. A conversa com o chefe não havia sido nada como ela idealizara, e de todos os finais possíveis, nunca imaginaria que trabalharia logo no complexo de lançamento construído para a Missão Gaia. Ela sabia que o acidente na spacewalker teria consequências, porém não esperava ser exonerada da equipe de manutenção e obrigada a trabalhar no lugar de seu maior desafeto. Ela não queria fazer parte dessa missão suicida! E se isso não era o universo lhe castigando, Ochako não sabia o que era.
Além disso, sentia que Gunhead estava escondendo algo. Em todos os anos que trabalhara com ele, nunca o viu tão aborrecido e tomando medidas disciplinares tão drásticas, e olha que Uraraka era expert em testar os limites e a paciência do chefe. Por isso, embora ele não tenha confirmando, ela tinha certeza que o relatório do acidente havia parado nas mãos do Comandante, e que o próprio Gunhead havia sofrido penalizações por causa dela. Tudo o que não queria que acontecesse. Então, se tinha algum culpado pelo seu destino agridoce, esse culpado era ela mesma. Maldita hora que fizera a spacewalker!
— Achei que ficaria mais feliz por poder trabalhar em uma missão especial — disse Gunhead, incomodado com o silêncio da mecânica — A Tenente Yaoyorozu solicitou especificamente seus serviços. É sigiloso, mas tenho certeza que vai se sair bem. Você sempre foi uma das minhas melhores alunas e...
— Obrigada, chefe — falou, interrompendo-o —, mas não é como se eu pudesse recusar o pedido da Tenente. E eu queria me desculpar... Se eu te prejudiquei de alguma maneira, não era essa minha intenção.
— Ei, Uraraka. — Colocou a mão no ombro da aluna, fazendo-a parar e encarando-a — Nunca mais se desculpe por fazer seu trabalho, entendeu? Você é brilhante! A estação nunca teve tanta energia. E eu tenho orgulho de ter sido seu professor e de trabalhar junto com você.
Ochako apertou os lábios segurando a vontade de chorar. Essas últimas rotações estavam sendo piores do que atravessar uma chuva de meteoros misturada com lixo espacial. Um verdadeiro inferno astral!
— Mas o sistema de suporte à vida não voltou à normalidade, e isso me faz pensar que não fiz o suficiente pela Ártemis.
— Isso não tem nada a ver com você, Uraraka. — Gunhead afirmou, convicto — O Comandante tem seus... próprios motivos para agir assim. Não se martirize por causa de coisas que não dependem de você, ok?
— Eu vou tentar, chefe. — respondeu, esboçando um pequeno sorriso.
— Ótimo! — disse satisfeito, dando duas batidinhas na cabeça de Ochako. — Bom... é aqui que nos despedimos. Assim que abrir a porta, estará sob os cuidados da Tenente Yaoyorozu. Acho que vai gostar do hangar de lançamento, a gravidade de lá simula a da Terra.
— Essa tecnologia parece incrível — disse, impressionada.
— Coisas da Tenente... Tenho certeza que vocês, garotas, dominarão o novo mundo. — Ela riu, e ele deu de ombros, estendendo a mão em sua direção — Boa sorte, Ochako.
— Obrigada, Gunhead — agradeceu, retribuindo o aperto de mãos.
E assim que se despediram, ele deu as costas e, com a postura ereta, caminhou de volta ao módulo de manutenção sem olhar para trás. Ochako respirou fundo, organizando as ideias e criando coragem para seguir em frente. Esse era mesmo o fim de mais um ciclo em sua vida. Não esperava tantas mudanças em tão poucas horas, porém, ela não choraria mais, e sim faria seu melhor onde quer que estivesse.
Confiante e com suas emoções sob controle, Uraraka abriu a porta que dava acesso à câmara de descompressão, e que separava a Ártemis e o complexo de lançamento. Ao entrar, ela não pôde acreditar no que via. Com certeza aquela era a sala de controle, e podia dizer que era simplesmente... INCRÍVEL! Muito mais espaçosa que a maioria dos módulos da estação, tinha certeza que caberia toda a equipe de comando e mais dez pessoas ali; havia equipamento de ponta, um verdadeiro paraíso; a mesa de controle parecia tão difícil de manusear com tantos botões e telas...
E mesmo que não estivesse de fato dentro do complexo, já podia sentir o efeito da gravidade terrestre. Então seria assim que se sentiria quando regressasse? Era estranho sentir o corpo tão pesado... E a franja curta fazia até cócegas na sua testa. A sensação era inusitada, mas também era agradável. Ochako quase esqueceu os motivos que faziam-na detestar a Missão Gaia.
Entretanto, quase não era suficiente para fazê-la concordar com os riscos, definitivamente, não era certo uma pessoa correr tantos perigos quando, sem sombra de dúvidas, podiam tomar todas as precauções possíveis para uma viagem segura. E a construção desse complexo de lançamento era a prova disso. Um tanto indignada, ela vedou a câmara, acionou a válvula de descompressão e esperou a contagem regressiva terminar. Enquanto o corpo se adaptava ao ambiente, percebeu que o lugar parecia vazio. Não havia rastros da Tenente responsável. Será que havia chegado cedo demais?
— Olá! Tem alguém aí? — gritou, assim que a porta da cabine de descompressão se abriu. — Tenente Yaoyorozu?!
Nenhuma resposta. Ochako começava a ficar nervosa, afinal não queria ser repreendida mais uma vez por estar no lugar errado.
— TENENTE YAOYOROZU?! — gritou novamente, mais alto dessa vez.
— AQUI EM BAIXO!! — Ouviu-a responder.
Ochako aproximou-se da mesa, olhou através do vidro espesso e anti vácuo que dividia os ambientes, e viu a Tenente acenando animadamente.
— À sua esquerda, no chão e no final da sala, tem uma escotilha que dá acesso ao hangar! — explicou a Yaoyorozu. — É só descer pela escada, mas toma cuidado, se você cair, a gravidade vai te machucar!
Uraraka assentiu e seguiu as instruções dadas. O hangar de lançamento, quando comparado a sala de controle, era bem mais modesto do que ela imaginara. Diria que só uma mente astuta poderia executar um projeto de alto nível sem falhas, mesmo que não houvesse sinais de desleixo, diria também que o lugar fora feito às pressas. Ela conhecia a fama da Tenente Yaoyorozu, mas ainda assim parecia impossível a missão ser totalmente bem sucedida.
— Então você é a engenheira por trás dos painéis Uravity... — disse, limpando as mãos antes de cumprimentá-la — É um prazer finalmente te conhecer, sou a Tenente Momo Yaoyorozu, como você já sabe.
— É um prazer te conhecer, Tenente. — Ochako deu um pulinho do último degrau, experimentando a gravidade, e aceitou os cumprimentos de Momo — Ochako Uraraka, mas sou só uma mecânica.
— Ah, pode me chamar de Momo. E não seja modesta! O Gunhead me contou tudo sobre você, Ochako. Pode não ter um certificado, mas sem dúvidas é uma das melhores engenheiras da Ártemis. Os outros ficaram tão desesperados que tiveram os cérebros paralisados... Você pensou rápido.
— Obrigada, Tenente Yao... Momo — agradeceu constrangida, tentando corrigir a forma de tratamento.
— Eu que agradeço — disse, achando engraçado a confusão com seu nome. — Mas uma perguntinha... Se tivéssemos outro acidente com meteoritos, por exemplo, qual seria o nível de danos nos novos painéis?
— Bom, acho que quase nenhum... — respondeu pensativa. — Eles dobram facilmente no espaço, e também podem ser recolhidos rapidamente caso seja necessário... A única parte que talvez sofreria algum dano, seria a haste que os conecta a Ártemis.
— Incrível! É exatamente disso que eu precisava — exclamou admirada. — Bom... como você pode ver, essa é a nave do Regresso. O Gunhead já deve ter te contado sobre a Missão Gaia, certo?!
Ochako confirmou enquanto observava a nave logo atrás da Tenente.
— Na verdade, não é bem uma nave. — continuou Momo. — É uma sonda lunar, eu e outros engenheiros fizemos as adaptações e a transformamos em uma nave. Um dos trabalhos mais difíceis da minha vida... Tive que fazer muitos ajustes, e é a primeira vez em cem anos que vamos enviar uma sonda tripulada até a Terra.
— Quantos testes já foram feitos? — perguntou Ochako, por mais que já soubesse a resposta.
— A nave nunca saiu desse hangar — respondeu sincera e sem rodeios. — Perdemos boa parte dos nossos recursos no acidente com os meteoritos. Não temos combustível suficiente para testes e demoraria anos para nos reabastecer. O Comandante não quer esperar e arriscar a vida dos remanescentes, Ochako.
Momo revelou encarnando-a seriamente. Uraraka sabia que a Tenente não tinha motivos para guardar segredos, mesmo assim sentiu o estômago revirar ao ouvir a notícia. Diferente do que pensara, havia uma razão razoável para os testes não serem feitos. Contudo, isso não a fazia mudar de ideia, ainda achava perigoso demais aceitar tal missão.
— Então como sabemos que é seguro, Tenente?
— Apenas o motor da nave foi de fato testado — respondeu, mostrando os compartimentos internos da nave. — Fora isso, só fizemos testes de voo através de um software desenvolvido pela Saiko, uma das engenheiras do projeto. Usamos os dados do ‘banco de viagens dos nossos antepassados para calcular o quanto de energia e combustível serão necessários, e também usamos a sequência de pouso da sonda Burnin. A grande diferença é que, obviamente, a nave será pilotada e...
— E o piloto vai ter que assumir o controle manual. — completou Ochako, observando o câmbio de pilotagem.
— Exatamente! — confirmou. — Não temos como pilotar remotamente como fazemos com as sondas. É muito arriscado, a atmosfera ainda causa muitas interferências... Por isso que algumas sondas nunca voltam à estação.
— Oh, eu não sabia disso.
— É confidencial. — revelou Momo, com naturalidade de quem conta uma fofoca — Mas enfim... O piloto vai entrar na atmosfera a 20.000 km/h, e terá menos de sete minutos para desacelerar. O ideal é que ele chegue a 0 km por hora, antes de ativar os propulsores e pousar com segurança.
— O piloto tem que ser muito bom... — disse, em tom leve de ironia e ressentimento.
— Katsuki Bakugou é o piloto, soube que tem um dos melhores resultados nas simulações de voo do Hawks. — informou, sem notar os sentimentos por trás das palavras de Ochako — Uma taxa de 93% de aproveitamento e sucesso, Hawks disse que...
— Parece bom. — interrompeu Ochako, indisposta a ouvir as qualidades de Katsuki. — Mas por que exatamente estou aqui, Tenente?
— Ah, claro! — exclamou, sem graça por se desviar tanto do real propósito de Uraraka — Não temos certeza das reais condições da Terra. O Comandante acha que a atmosfera é respirável, mas 65% de chance não é uma taxa muito confiável... Por causa disso, eu estou instalando um sistema de suporte à vida na nave. E eu preciso que a fonte de energia seja um painel Uravity.
Ochako não conseguiu evitar que o queixo caísse. Não esperava esse tipo de cuidado vindo da equipe comandada pelo preponderante Enji Todoroki. Instalar um sistema de suporte à vida era como ter um plano B caso a Fase 1 falhasse, era como instalar pulmões caso Bakugou não conseguisse respirar na Terra.
— Você quer que eu faça a instalação do painel na nave? — perguntou, ainda chocada. E Momo assentiu. — E isso tem a aprovação do Comandante?
— Claro que não, Ochako! — negou prontamente, sorrindo — O Comandante Todoroki não faz ideia disso. E se alguém perguntar, você tá aqui pra me ajudar com os propulsores, ok?!
Ela assentiu ainda atordoada.
— Alguma pergunta? — Momo quis saber.
— Por onde eu começo?
A Tenente riu e mostrou todas as ferramentas para Ochako; e sem delongas, ambas começaram a trabalhar. Como os propulsores realmente precisavam ser inseridos à nave, a tarefa de criar novas conexões e instalar o painel Uravity — compacto e feito sob medida para a nave — ficou sob a responsabilidade de Uraraka. Algumas vezes Momo checava o progresso, fazia perguntas curiosas sobre o processo de criação da tecnologia, dava e recebia alguns palpites para tornar a operação eficaz e sem falhas. Trabalhar com a Tenente Yaoyorozu estava sendo mais agradável do que imaginara.
Entre conversas e trocas de ferramentas, Ochako descobriu que a Tenente Prodígio era só mais uma jovem cujo sonho infantil era regressar. Claro, ela vinha de uma linhagem de tenentes e de nomes importantes para a manutenção técnica e social da Ártemis, mas o coração de Momo era como o de qualquer outro remanescente: esperançoso. E por mais que o tal sentimento estivesse enfraquecido em seu próprio coração, Uraraka reconhecia que ele tornava todos sobreviventes iguais perante o cosmos. Então, talvez Ochako devesse fazer como o Mito de Pandora: fechar a caixa e preservar a esperança.
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