Missing you
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eles se conheceram no trem. Quantas amizades não surgiram ali naquela mesma cabine? Quantas e quantas vezes garotos aleatórios não se encontraram ali e criaram una amizade duradoura?
Ah, mas a deles era diferente. Não podia ter sido por acaso. O destino foi muito bondoso em colocá-los na mesma cabine do Expresso de Hogwarts. Desde o início eles se deram bem. E se uniram para implicar com o mesmo garoto antes mesmo de conhecê-lo.
Era incrível o fato de terem se dado bem tão rápido. Incrível como cada diferença parecia um detalhe tão pequeno naquele momento.
Um garoto fascinado pela Grifinória. Um garoto cuja família inteira foi da Sonserina.
Um garoto de uma família boa e amorosa.
Um garoto de uma família envolvida com artes das trevas.
Um filho querido.
Um filho rebelde; a vergonha da família.
E ainda assim eles se tornaram amigos.
Melhores amigos.
Quantas vezes ele não havia dito ao amigo para desistir da ruiva que ele tanto gostava?
—Você sabe que eu sempre vou te apoiar, mas eu não aguento mais ver você assim, chorando e resmungando pelos cantos por causa dela.
—Eu acho que a amo — o amigo dizia cabisbaixo.
—E se ela não vê e valoriza isso, ela não te merece — respondeu o abraçando e passando confiança.
Ele havia sido um bom amigo. Tentara. Mas havia falhado.
Falhara com o homem que lhe acolheu com um irmão.
Quando ele o pediu para ser o fiel do segredo que protegeria sua casa, Sirius cogitou aceitar. Seu primeiro pensamento foi em dizer sim. Ele sabia que morreria para manter os Potter em segurança.
Mas, lembrou que era a escolha óbvia.
Existiam muitas maneiras de forçá-lo. Voldemort poderia usar a maldição Imperius e pronto: o segredo estaria perdido.
A vida de seus amigos estaria perdida.
E foi aí que cometeu o maior erro de sua vida: confiar em Pedro.
Parecia o plano perfeito: Voldemort iria atrás dele, mas ele não poderia revelar nada.
Morreria protegendo os amigos...
Lembrava-se perfeitamente de cada momento. Como James se empenhou nos estudos de transfiguração até que pudessem se transformar em animagos, para que Remo Lupin tivesse uma vida melhor.
Lembrava também do dia em que descobriram o segredo do Lobisomem, ainda no primeiro ano.
Todo mês Lupin sumia e eles começaram a anotar as datas, todas em luas cheias. Começaram a criar teorias e, um dia, decidiram seguí-lo usando a capa de invisibilidade de James.
Sirius jamais se esqueceria de como se sentira ao ouvir os gritos do amigo durante a transformação.
Esperaram que ele se recuperasse da Lua Cheia e foram falar com ele.
—Remo... — James fez uma pausa e completou — você é um lobisomem.
Eles esperavam que o garoto dos olhos âmbar entendesse que eles se preocupavam e que queriam ajudá-lo, mas a reação foi inversa.
Os olhos de Remo se encheram de lágrimas e uma expressão de dor passou por seu rosto. Ele abaixou a cabeça e permitiu que as lágrimas escorressem. Por que se iludira achando que poderia estudar em Hogwarts e ser um garoto normal?
Pedro parecia perdido. Ficou lá esperando que um dos outros garotos dissesse algo. James estava surpreso pela reação do amigo. Sirius tomou a iniciativa.
—Remo, o que foi? — ele se aproximou e viu as lágrimas do menino — você está chorando? — ele se sentou ao lado de Lupin.
Remo levantou os olhos, surpreso pela aproximação de Black, e o viu sentado ao seu lado.
—Fala com a gente, Remo... — Sirius disse e viu que os amigos já estavam sentados ali perto. Pedro, ao lado de Lupin e James, no chão, perto de Sirius e Remo.
—Eu entendo que vocês não queiram dividir quarto com uma aberração como eu — Remo deixou escapar um soluço — não sei porque acreditei que poderia ser um garoto normal, estudar aqui e tudo mais... eu sou um monstro — ele disse aos prantos, sussurando a última frase.
Sirius deu um sorriso reconfortante para o amigo, mas foi James quem falou:
—Você acha que não vamos querer mais sermos seus amigos porque descobrimos seu probleminha peludo?
Pedro, que estava todo esse tempo calado, se pronunciou também:
—Acha que vamos te expulsar do dormitório? — soltou uma risada — está brincando, não é?
Sirius, ainda sorrindo, completou o discurso, vendo o olhar de choque e emoção que tomava conta de Lupin:
—Sinto muito, lobo mal, você não nos dá medo — terminou o puxando para um abraço. Remo envolveu os braços no amigo, desacreditando que aquilo fosse real.
Suas lágrimas caíam na camisa de Sirius e seus soluços eram ouvidos pelo quarto.
Pedro, que estava sentado ao seu lado, o abraçou também. James, que estava no chão, não tardou em se levantar e sentar perto deles na cama, acolhendo o amigo também no que se tornou um grande abraço coletivo.
—Vocês estão falando sério mesmo? Não têm medo de mim ou me odeiam? — Remo perguntou mais uma vez, ainda temendo que fosse um sonho.
—Claro que estamos, Remo Lupin! Você é nosso amigo e nós vamos cuidar de você. Você nunca estará sozinho — James disse e os outros dois balançaram a cabeça, concordando.
—Nós te prometemos, Remo — Sirius completou, arrancando um sorriso do amigo.
—Sempre terá a nós. Te prometemos, lobinho — James também afirmou, recebendo mais um sorriso em resposta.
—Sim, prometemos não te deixar sozinho — Pedro foi o último a prometer.
E seria o responsável por quebrar a promessa também.
Como ele pôde? — Sirius se perguntava com ódio.
Ele sempre esteve lá conosco. Nós sempre o ajudamos. Petrigrew sempre teve dificuldade na escola e Remo, o mais dedicado do grupo, sempre o ajudava a praticar os feitiços e a estudar.
James, que sempre foi o melhor em transfiguração, o ajudou em todas as etapas para se tornar animago.
Sirius, que foi responsável pela ideia e por projetar boa parte do Mapa do Maroto.
E ele os traiu.
Traiu a confiança de James, ao entregá-lo para Voldemort.
Quebrou a promessa que fez a Remo, quando, naquele 31 de outubro, ele perdeu todos os seus amigos por culpa de Pedro.
Destruiu a vida de Sirius, tirando dele tudo que mais amava: seus amigos e seu afilhado — sua família — e sua liberdade.
Ah, como doía... Sirius lembrava cada momento deles e sentia o peso de cada lembrança. Ele amava os amigos e perdeu tudo.
E Harry...
Lembrava de quando James contou que ia casar e o convidou para ser padrinho.
Lembrava do dia em que Lily e James lhe contaram que seriam pais. Sirius sentiu como se o filho também fosse dele. Os Potter sempre foram sua família.
Lembrava do nascimento de Harry, quando recebeu o patrono de James avisando que seu bebê tinha nascido.
Lembrava da primeira vez que vira o bebê. Sorrira para James e dissera para Lily:
—Poxa, ruiva, ele é lindo, mas seria melhor ainda se fosse mais parecido com você. Ele só tem os seus olhos, mas é a cara do Pontas — Lily e James gargalharam.
Lembrava também do dia em que os Potter o convidaram para ser padrinho de Harry.
James havia enviado uma coruja com um bilhete, convidando para almoçar. Sirius foi até a casa dos amigos por rede de flu. Quando chegou, viu o bebê sentado no chão da sala junto ao pai, segurando uma varinha de brinquedo.
Ao avistar Sirius, Harry abriu um sorriso banguela e estendeu os braços. O Black sorriu para o amigo, mas foi direto até Harry, o segurando no colo e deixando um beijo em sua bochecha.
James levantou e cumprimentou o amigo, avisando que Lily estava na cozinha e seguindo para lá.
—Olá, ruiva — Sirius disse dando um abraço na amiga, ainda segurando Harry em seu colo.
O almoço já estava pronto e todo na mesa. Eles se sentaram e comeram, enquanto Sirius controlava a curiosidade de perguntar a novidade que James dizia na carta.
—Almofadinhas, imagino que esteja curioso... — James começou a falar assim que terminaram de comer e foi interrompido pelo amigo.
—Sim, muito!
Lily e James riram, sendo acompanhados por Harry, que nem entendia o que estava acontecendo, mas ria junto com os pais.
—Nós estávamos pensando, Sirius, e queríamos que, caso algo acontecesse com a gente... — Lily começou, mas Sirius interrompeu novamente.
—Não vai acontecer nada com vocês — disse com convicção.
—Esperamos que não, mas caso aconteça... — James começou novamente — queríamos te pedir para ser padrinho e tutor do Harry.
—Se você quiser, é claro — Lily completou.
Os olhos de Sirius marejaram e ele concordou com a cabeça.
—Claro que eu aceito, vocês sabem que eu amo o Harry como se fosse meu filho — ele disse, nitidamente emocionado.
—Por Merlin, não chora, Sirius — Lily levantou segurando Harry nos braços, o colocou sentado no colo do Black, que rapidamente o segurou e passou os braços em volta do amigo, o puxando para um abraço apertado.
James deu a volta na mesa e, assim que Lily se afastou, abraçou o amigo também.
—Obrigado... mesmo! Vocês são minha família e eu não posso agradecer o bastante — Sirius disse sorrindo para os amigos — e eu amo você, Harry... sei que não vai ser preciso, porque nada vai acontecer com seus pais, mas eu sempre vou cuidar de você. Mesmo que por algum motivo eu precise ficar longe, você sempre vai estar aqui — apontou para o peito — e eu sempre vou fazer tudo para te proteger.
James sorriu irônico para o amigo e falou:
—Depois eu que sou o veado — Sirius gargalhou.
—Mas você não dizia que era cervo? — rebateu, rindo junto ao amigo.
Ah, como sentia saudades daquela época...
Infelizmente, Sirius também lembrava da última vez que vira o amigo.
Seu corpo já sem vida e os olhos vidrados caído no chão da sala.
A mesma sala onde, tantas vezes, deram risada juntos. A mesma sala onde brincara com seu afilhado.
Naquele momento, Sirius sentiu os joelhos fraquejarem e caiu ao lado do corpo de James.
—Não, Pontas... Você não pode... — ele chorava, abraçado ao corpo do homem que sempre fora como um irmão.
Subiu as escadas e encontrou Hagrid, trazendo Harry no colo.
—Harry — ele sussurrou. O menino que chorava nos braços do meio gigante esticou os bracinhos para o padrinho e pareceu se acalmar.
Sirius o pegou do colo de Hagrid e o balançou, ninando até que ele se acalmasse.
—Dumbleodore pediu que eu o levasse, Sirius — Hagrid estendeu os braços para pegar o menino.
—Eu sou o padrinho dele, o tutor dele... deixe-o comigo. Vou cuidar dele — Sirius argumentou.
—Ordens de Dumbleodore. Fale com ele depois — o homem respondeu, fazendo Sirius suspirar.
—Lily? — perguntou com esperança e Hagrid balançou a cabeça em negação.
Sirius fechou os olhos em expressão de dor. Deu um beijo na testa de Harry e sussurrou para ele:
—Isso é só um até logo... prometi que te protegeria e eu vou. Só tenho que vingar seus pais primeiros. Amo você, mini Pontas — com as lágrimas escorrendo, ele entregou Harry a Hagrid.
—Pegue minha moto, não vou precisar dela — Hagrid assentiu e levou Harry.
Sirius fechou os olhos e terminou de subir as escadas. Viu Lily caída perto do berço de Harry. Assim como James, seu olhar estava vidrado, sem vida.
—Ruiva — sussurrou com as lágrimas caindo. Tinha perdido os dois de uma vez só. James e Lily.
—Eu vou vingar vocês, eu juro — sussurrou e fechou os olhos da garota. Passou a mão entre seus cabelos pela última vez e se levantou.
Desceu as escadas e novamente se deparou com James. Ajoelhou ao seu lado novamente.
—Eu vou pegá-lo, Pontas. Ele vai se arrepender por ter te traído — disse entre soluços — eu amo você, irmão.
Fechou os olhos do Potter e se levantou, indo em direção à porta, pronto para se vingar de Pedro Petrigrew, sem saber que seu destino seria passar 12 anos preso em Azkaban.
O cachorro parado em frente ao túmulo dos Potter soltou um ganido de dor. Sirius ainda sofria por todas as perdas daquela noite.
Assim que conseguiu se recuperar da fuga, foi direto à Godrics Hollows visitar o túmulo de sua verdadeira família.
Almofadinhas olhou em volta e percebeu que a rua estava deserta. Valia a pena o risco. Transformou-se novamente e logo o homem esquelético, com olhos fundos e um emaranhado de cabelos na altura dos cotovelos estava ajoelhado perto do túmulo dos Potter, que tinha na lápide a frase: "Ora, o último inimigo a ser derrotado é a morte".
—Já faz doze anos e não há um dia que eu não sinta sua falta — o homem sussurrou rapidamente, sentindo os olhos queimarem.
—Aquele desgraçado armou para mim. Ele matou vocês e me fez levar a culpa — disse com amargura — ele está perto do Harry. Eu não podia deixá-lo perto do nosso menino.
Ficou em silêncio por um instante, apenas encarando a lápide à sua frente, mas logo voltou a falar sabendo que não tinha muito tempo.
—Eu vou atrás dele. Vou passar no bairro onde o Harry mora para vê-lo e vou partir para encontrar o Rabicho.
Sirius dizia, lembrando os momentos que passara com os amigos.
—Vocês acham que o Harry um dia vai acreditar em mim? Vai acreditar na minha inocência? — perguntou com esperança de um dia poder ser o padrinho que Harry merecia.
—Eu tenho que ir... eu... — Sirius gaguejou — eu realmente estou sentindo falta de vocês — suspirou e se transformou em cachorro novamente.
E quem passasse em Godrics Hollows naquela noite, veria um cachorro preto e magro com um olhar triste, andando para fora da cidade e indo atrás de justiça para seus amigos. Para sua família.
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