Missing

8 Capítulo 8


Os olhos turquesa do moreno se arregalaram.

— O que você quer dizer com dez minutos?

— Que em seiscentos segundos, vamos descobrir quem mandou aquela carta.

Ken se encontrou sem saber o que dizer. Não era possível que ele estivesse ouvindo o que ele achava estar ouvindo.

— Schuldig, você está querendo me dizer que não tem idéia do que está acontecendo?

— Ja. Precisamente.

O sorriso de sempre se encontrava alojado nos lábios do alemão, e o ex-jogador de futebol sentiu seu sangue ferver e a vontade quase incontrolável de jogá-lo longe crescer.

Completamente perplexo, o antigo membro do Weiß perguntou:

— Por que você me trouxe aqui, Schuldig?

— Como?

— Por que você me trouxe? — Ken pressionou — Você me tirou da prisão para pedir ajuda. Em quê? Eu não fiz absolutamente nada até agora.

— Ahhh, Kenken. — respondeu o ruivo, ignorando o olhar cortante que o moreno havia lhe dirigido quando havia usado o seu nickname — Você não deveria diminuir sua importância assim. Você está deixando esta viagem muito mais agradável. — o telepata completou, piscando.

— Não é hora para os seus jogos, Schuldig!

O moreno apoiou as mãos no banco, inclinando-se levemente para a frente e exigindo que o alemão olhasse diretamente para ele, coisa que o telepata fez.

— Eu não estava brincando quando disse que é um excelente companheiro de viagem.

— Schuldig, eu não sou seu brinquedo. Eu não sou alguém que você pode arrastar para onde quiser e levar para cama quando tiver vontade.

— Cama? — o alemão piscou inocentemente — Mas nós ainda nem chegamos lá.

— Mas conhecendo você, isso eventualmente acontecerá.

O sorriso do ruivo se alargou ainda mais, se é que aquilo era possível.

— Parece que eu não sou o único que lê mentes aqui.

A paciência de Ken evaporou por completo com a última resposta engraçadinha do telepata. Ele não suportava a mania irritante do outro assassino de sempre fugir de respostas sérias e concisas.

Sem se dar conta do que estava fazendo, o moreno percebeu que estava quase sufocando o ruivo contra o banco quando ouviu este engasgar e falar na sua mente.

\"Ken, você me sufocando.\"

\"Bem feito.\"

Mesmo a contragosto, o ex-jogador de futebol afrouxou as mãos, mas ainda mantendo o ruivo preso.

— Você é irritante.

— Já me disseram isso.

— Me diga por que me trouxe até aqui.

— As pessoas vão olhar se continuarmos assim.

— Eu não me importo.

Schuldig ergueu uma sobrancelha.

— Não?

— Não. Comece a falar.

O alemão ainda conseguiu dar um pequeno suspiro dramático antes de começar, seus olhos escurecendo e sua expressão ficando ligeiramente mais séria.

— Porque eu tinha que manter um olho em você.

Lentamente, o moreno soltou Schuldig, e ele voltou a posição antiga, sentado ao lado de Ken. Porém, ele massageava o próprio pescoço quando retomou a conversa.

\"Você era... Não, você é minha responsabilidade. Não poderia simplesmente sair do Japão e deixar você para trás.\"

\"Ah, claro. Seu dever. Tenho certeza de que foi isso.\"

Schuldig olhou feio para Ken, não gostando do sarcasmo que ouviu.

\"De todos os Weiß, com certeza você é o mais teimoso.\"

\"Estou impressionado pela sua dedução. Schuldig, fale a verdade. Você nunca se preocupou em checar minhas condições. Me vigiar era a tarefa mais fácil que você poderia receber.\"

\"Você está me ofendendo. E está se ofendendo também. Já disse porque Crawford queria que você fosse vigiado.\"

\"Hmph.\"

Ken cruzou os braços, os olhos na direção do campo de futebol, mas sua mente estava muito longe do jogo das crianças.

— Eu ainda não vejo porque fui trazido. Esqueça o seu \"dever\" e o fato de precisar de companhia como justificativas.

O moreno quase se assustou com o suspiro pesado que ouviu ao seu lado. Virando a cabeça, ele viu Schuldig com a cabeça tombada para a frente, o seu cabelo laranja encobrindo parte do seu rosto.

— Ken, você realmente pensa melhor do que nos seus dias de Weiß.

— Schuldig, eu...

-...Então me surpreende você não ter notado que se Crawford sumiu, algo muito sério está acontecendo.

Isso emudeceu o assassino mais jovem.

\"Crawford é um precog, Ken. Ele vê o futuro.\"

\"E onde está a novidade nisso?\"

\"Se ele sumiu, aconteceu alguma coisa tão importante e tão poderosa, que conseguiu enganar seus poderes. Você não percebe?\"

\"...Não tinha pensado nisso. Mas ainda não sei porque vim.\"

\"Eu precisava ter mais alguém comigo. Eu não sei o que está acontecendo, Hidaka.\"

\"Você poderia ter dito tudo isso no começo.\"

\"E se eu tivesse dito, você teria vindo?\"

Mais uma vez, a expressão de Ken era de espanto.

— Então, Aya... Ele não sumiu? Era uma isca?

— Não, ele também está desaparecido. — comentou ocasionalmente o telepata enquanto mexia a cabeça de um lado para o outro, vendo se seu pescoço ainda doía do ataque surpresa feito por Ken — Mas isso obviamente não é tão importante para mim.

— Egoísta dos infernos.

— Claro. Você está muito empenhado em correr atrás de um antigo inimigo, não está?

O ex-jogador de futebol se calou de novo.

\"Vocês vieram.\"

Enquanto o alemão se virava, procurando alguém que pudesse ter falado com eles, Ken se encontrava em estado de choque. Alguém havia falado com ele...

...E esse alguém não era Schuldig.

\"Aqui.\"

Na frente dos dois, estava parado um homem que eles não haviam visto antes. Vestia uma roupa vermelho escura relativamente justa ao seu corpo, e o cabelo era loiro, os olhos de um tom dourado inquietante.

Só então Ken percebeu que ele já havia visto aqueles olhos antes. Pelo menos, um deles.

— Farfarello? — exclamou Schuldig completamente surpreso, se levantando do banco e caminhando para mais perto do irlandês. Ainda piscando, o moreno não se moveu.

Ele estava entre dois membros do Schwarz. O quê exatamente ele tinha na cabeça quando resolveu que deixar a prisão com o telepata era seguro?

\"Ken, você está me ofendendo.\"

\"Schuldig!\"

\"Vamos, venha até aqui.\"

Odiando ver que ele estava obedecendo a um comando do alemão, Ken se aproximou com cautela do par, um de seus olhos turquesa encobertos pela sua franja cor de chocolate. Ele parou alguns passos atrás do ruivo, que olhava intensamente para Farfarello.

— Você mudou.

— Você também.

O tom de voz que o irlandês usava era calmo, mas isso não fez com que o ex-jogador de futebol baixasse sua guarda. Ele ouviu novamente a voz do recém-chegado na sua cabeça.

\"Não podemos conversar aqui. Sigam-me.\"

Ter mais alguém com habilidades telepáticas por perto não era exatamente a idéia de diversão que Ken fazia, mas a risada do ruivo na sua cabeça o fez ter certeza que Schuldig estava achando muita graça em tudo.

O último lugar que o antigo membro do Weiß pensava em entrar com o mais louco dos Schwarz era em uma igreja. E para espanto geral do moreno, era exatamente onde eles estavam.

De uma forma desajeitada, ele se lembrou de fazer o sinal da cruz antes de seguir Farfarello e Schuldig à sua frente. Ken se sentia desconfortável por estar em um lugar sagrado, tendo matado tanto.

\"Pelo menos você não alega matar ninguém em nome de deus algum.\"

Vindo do ruivo, aquilo havia soado como um elogio, mas sem certeza de como classificar o que ouvira, ele optou por ficar calado e se sentar no banco onde o irlandês e o alemão já se encontravam acomodados.

— Por que uma igreja? — sibilou Ken, sentado na ponta do banco.

— Porque igrejas são usadas para troca de segredos desde o início dos tempos.

A resposta de Farfarello deixou o moreno intrigado, mas ele não fez mais questionamentos. A voz de Schuldig soou na sua cabeça logo depois:

\"Por que não ficamos na telepatia?\"

\"Porque falar algumas coisas em voz alta é fundamental.\"

Um período de silêncio curto se seguiu, e Ken se perguntou como ele ouvia a voz do Berserker do Schwarz na sua cabeça. Até onde ele se lembrava, o perigo de Farfarello eram as suas facas; não a sua mente.

\"Eu fiz um canal.\"

O assassino mais jovem se virou para o homem de cabelos laranja ao seu lado:

\"Um canal?\"

\"Ja. As pessoas que eu quiser podem ouvir o que eu estou ouvindo. Uma conferência telepática.\"

\"Precisamente.\"

O fantasma de um sorriso apareceu no rosto de Farfarello, e o antigo membro do Weiß imaginava o que havia acontecido com seu tapa-olho. Ainda com o olhar fixo no altar, o homem que carregava o nome de um demônio começou a falar baixo, mas alto o suficiente para ser ouvido.

— Antes de mais nada, fui eu quem enviou aquela carta.

— Você? — Schuldig perguntou — Então você sabe...

— Calma. Eu sei onde Abyssinian está... Mas não tenho certeza de onde Crawford se encontra.

— Aya? Onde ele está? — Ken falou rapidamente, ansiedade no seu rosto.

\"Cada coisa a seu tempo. Acalmem-se os dois e deixem-me contar o que sei.\"

Sem mais protestos, Farfarello começou seu relato:

— Esset ainda não foi totalmente destruído. A parte japonesa foi, mas não por completo. Depois do dia em que aniquilamos Berger, Geisel e Layla, o quartel-general da Rosenkreuz começou a procurar pelos responsáveis. E eles descobriram que nós e vocês fomos os culpados.

Por \"nós\" e \"vocês\", Ken entendeu que era ao Schwarz e ao Weiß que o irlandês se referia. Mas por que Rosenkreuz tinha interesse em simples humanos?

\"Simples humanos em parte, Siberian. Vocês conseguiram de alguma forma, participar na derrota de indivíduos poderosos.\"

\"Mas nós...\"

\"Não diga que não fizeram nada. Se essa fosse a verdade, Esset não estaria atrás dos pescoços de vocês.\"

Schuldig suspirou, mudando de posição no banco.

— Como você sabe disso? Como sabe de Berger e os outros?

— Eu estava lá.

Essa resposta fez alemão e japonês arquearem as sobrancelhas, enquanto um leve sorriso torcia os lábios do irlandês. Lentamente, a confusão no rosto de Schuldig mudou para compreensão, e ele também sorria. Ken estava se sentindo por fora. Na verdade, ele estava se sentindo assim desde o aparecimento de Farfarello.

— Então Crawford estava certo.

— Estava. — Farfarello confirmou com a cabeça — Estive no hotel de vocês hoje cedo. Apropriada a escolha do quarto, Schuldig.

— Danke! — agradeceu o ruivo, virando para Ken logo depois — Eu sei que você não está entendendo nada. Bom, Farfie tem um poder que nós apenas suspeitávamos... Mas agora sabemos que é verdadeiro. Crawford sabia antes de nós.

Ken arregalou os olhos. A idéia de um assassino louco que não sentia dor já era bastante ruim; ele não achava que o irlandês precisasse de mais poderes.

\"Farfie é um viajante astral. Ele consegue separar a alma dele e visitar outros lugares e tempos.\"

\"Incluindo o mundo interior de Crawford. Foi como soube do que estava acontecendo.\"

Ken confirmou devagar com a cabeça. Ele já havia ouvido sobre aquilo antes... E parecia muito assustador. De qualquer forma, fazia muito sentido Farfarello ter algum tipo de poder psíquico, já que os outros três integrantes do Schwarz possuíam alguma habilidade assim também.

\"Bom, interessa que eu descobri que Rosenkreuz está atrás de nós e de vocês, Weiß. Eles conseguiram capturar Crawford.\"

\"O QUÊ?\"

Ken e Farfarello instintivamente levaram as mãos aos ouvidos.

\"Schuldig, mais baixo!\"

\"Você diz isso porque sabe que seu amigo está são e salvo!\"

\"Mastermind, acalme-se. Ou pessoas vão olhar para você.\"

O tom de voz do irlandês era sempre tão calmo e racional que surpreendia o moreno. O ruivo pareceu se controlar e respirou fundo algumas vezes, encostando-se contra o banco e fitando o teto da igreja por alguns segundos.

Naquele momento, o ex-jogador de futebol percebeu o perigo que todos eles corriam.

\"Exatamente por isso chamei vocês para a Inglaterra. Rosenkreuz estava no rastro de vocês no Japão, e não era mais seguro deixá-los lá. Eles vão demorar algum tempo para descobrir que vocês já mudaram de lugar.\"

\"Entendi... Mas... E Yohji? Omi? Aya?\"

\"Abyssinian passou a integrar outro grupo de assassinos em Londres. Vou levá-los até lá mais tarde. Balinese ainda não recuperou sua memória, então não acho que vão procurá-lo imediatamente. E Bombay está sendo protegido por Nagi. Rosenkreuz não vai querer outro combate com Nagi por enquanto.\"

\"Ou seja, Ken e eu estávamos em risco imediato.\"

Farfarello apenas confirmou com a cabeça, deixando que os outros dois digerissem as informações recebidas. Ken notou como tudo fazia sentido agora: o Berserker do Schwarz havia manipulado Schuldig de forma a conseguir que o telepata e ele viessem até Londres. Sem contar que Aya agora era parte de outro time... Alguma coisa parecida com o Weiß?

— Você acredita em coincidências, Ken?

Os olhos turquesa do moreno se arregalaram ao ouvir seu verdadeiro nome ser pronunciado pelo irlandês.

— Por quê?

— Porque Fujimiya acaba de entrar pela porta principal da igreja.

Espantado com o anúncio, o moreno não notou o tom estranhamente amargo na voz do alemão.

Continua...