Missing

1 Capítulo 1


— Direita! Passe para a direita!

Hidaka Ken gritava freneticamente, quase pulando do lado do campo improvisado dentro da prisão. O assassino, durante sua temporada na cadeia, havia se tornado uma espécie de técnico dos outros prisioneiros, ensinando-os a jogar futebol.

Quase todo dia, Ken organizava dois times, que jogavam entre si. Geralmente o time que ganhava cedia a sua sobremesa para o outro; no entanto, ninguém realmente ligava. A diversão era o que realmente contava na vida de todos ali.

Ken afastou algumas mechas de cabelo castanho da frente do seu rosto, que teimavam em ficar na frente dos seus olhos. Três guardas prestavam atenção no jovem: como era possível que ele conseguisse dirigir dois times ao mesmo tempo?

— Satoshi! Pule para o centro!

O goleiro seguiu o conselho de Ken, e conseguiu evitar o gol a tempo. Os jogadores do time adversário suspiraram, frustrados.

— Muito bem, acabou o tempo! Todos para dentro, já!

Os guardas saíram do seu posto de observação e juntaram-se a outros, que começaram a escoltar a maioria dos prisioneiros de volta para as suas celas. Ken sentou-se em um banco, apanhando uma toalha que havia deixado ali para enxugar o rosto. Parecia que ele próprio havia jogado, não apenas dirigido os times.

— Ei, você! Não vai vir?

Ken levantou os olhos e encontrou um último guarda, esperando que ele se juntasse aos outros. O ex-jogador se levantou, e voltou à sua cela, não sem antes tomar banho. Antes que sua cela fosse trancada, ouviu passos do lado de fora, e a cara de um dos responsáveis pela administração do presídio apareceu.

— Número 1257? Seu advogado acaba de chegar e está requerindo sua presença. Vá até a área para visitas.

— Meu... Advogado? — os olhos azuis de Ken se alargaram. Desde quando ele tinha um advogado? — Mas eu...

"Apenas venha."

— Sim?

— Nada, nada... — Ken levantou-se, saindo da sala. Aquela voz... Aquela voz só poderia ser de uma pessoa. Schuldig.

"Muito esperto. Agora venha, Kätzchen."

O prisioneiro seguiu o funcionário do presídio, intrigado. Não era possível que depois de meses do incidente com os três membros da Rosenkreuz, Schuldig estivesse vivo. Pensando bem, não era tão absurdo assim, já que Nagi continuava servindo como um agente da Kritiker, portanto... Crowford e Schuldig bem que poderiam estar vivos.

Ken sentou-se em um banco com um vidro na frente, que possibilitava a visão do outro lado. Quando focou os olhos no banco que estava do outro lado, não viu ninguém, apenas uma maleta preta sobre a bancada.

Ergueu a cabeça, aumentando seu campo de visão, e viu uma pessoa. Um homem, melhor dizendo, vestido completamente de preto, virado de costas para ele. Um longo rabo de cavalo de cor laranja liso destacava-se no monte de preto.

— Schuldig? — Ken não conteve o tom de surpresa na sua voz.

O homem virou-se, com o clássico sorriso nos lábios. Se não fosse o alemão em pessoa, seria um clone.

— O único. Sem clones... Por enquanto. — o sorriso de Schuldig sumiu durante alguns segundos, para depois voltar — Como tem passado, Ken?

O jogador ainda não conseguia falar, ignorando a pergunta feita pelo outro totalmente, tamanho susto ver o alemão na sua frente. E ainda como seu advogado.

Suspirando, o telepata sentou-se.

"Lembre-se que ouço seus pensamentos."

"Me conte uma novidade. Desde quando é advogado?"

Schuldig sorriu.

— Kätzchen... Sabe muito pouco de mim.

Ken cruzou os braços.

— Notei.

O alemão riu mais uma vez, e abriu a maleta, passando um cartão branco por baixo do vidro. Ken pegou o mesmo.

— Johann Christian Schön... Schönthaler? — Ken engasgou no final do nome, atraindo a atenção do telepata.

— Ja.

"Achou que Schuldig fosse meu nome verdadeiro?"

"Achei."

Ken ergueu uma sobrancelha:

— Formado pela Universidade de Munique?

— Eu disse que sabe pouco sobre mim. Agora, aos negócios.

Schuldig inclinou-se para frente, e duas mechas de cabelo laranja soltaram-se, caindo graciosamente ao lado de seu rosto. Ken observou Schuldig durante algum tempo: era muito, muito diferente vê-lo daquele jeito, vestido como alguém sério e sem cabelos estranhos. Sem contar que o contraste com os olhos azuis era fortíssimo. O alemão estava... Bonito?

"Obrigado pelos elogios. Podemos prosseguir?"

Ken assustou-se. Esquecia com freqüência que Schuldig ouvia tudo o que pensava.

"Ja, exato. E quem diria que seu uniforme iria combinar com seus olhos?"

Ken ficou estático, sem entender o comentário do telepata, enquanto este sorria mais uma vez. Piscou uma vez para o prisioneiro, antes de assumir uma postura estranhamente séria.

"Siberian."

O ex-jogador remexeu-se um pouco desconfortável no banco. Estava usando seu codenome. Isso significava apenas uma coisa: problemas.

"Exato. Todo este tempo na prisão melhorou a rapidez de raciocínio, ao que parece."

— O que aconteceu, Schuldig?

O alemão, baixou os olhos estonteantemente azuis antes de erguer a cabeça e encarar outras duas orbes, igualmente azuladas.

— Ken... Crawford sumiu. E...

Antes que o assassino pudesse esboçar qualquer reação, Schuldig continuou.

"Abyssinian também."

Ken praticamente caiu para trás.

— Ran? Sumiu?

Schuldig balançou a cabeça, afirmativamente.

— Vai precisar sair, Ken. Se quiser encontrá-lo... — os lábios de Schuldig se curvaram para cima, no seu sorriso clássico. Ken sentiu sua face esquentar.

— Presumo que o fato de Crawford ter sumido também o interessa?

O telepata piscou, pego de surpresa.

— Ja. Mas mesmo assim... Vamos ter que formar uma parceria. Se quiser encontrar Ran — Schuldig mencionou o verdadeiro nome de Aya vagarosamente — novamente, Ken. Não é isso que está esperando? Reencontrá-lo?

Ken concordou com a cabeça.

— E você quer Crawford...

"Ja."

— Certo. Eu o ajudarei.

"Na verdade, é ao contrário. Quem está ajudando aqui sou eu."

— Então por que veio até aqui?

Schuldig ficou calado.

"Amanhã eu venho tirar você daqui. Aproveite sua última noite na cadeia, Siberian."

"Como se eu não pudesse sair sozinho."

"Você me entendeu. A propósito, como conseguiu manter a forma?"

Ken sentiu sua face esquentar de novo. Schuldig estava examinando-o através do uniforme.

"Se você fosse o técnico de dois times de futebol todos os dias, e durante períodos de tédio organizasse séries de exercícios na cela... Saberia."

"Entendo."

— Até amanhã então, Ken.

— Até, Schuldig.

O sinal que indicava o final do tempo de visitas tocou, justamente após terem terminado seus assuntos. Schuldig piscou mais uma vez para Ken antes de ir embora.

O ex-jogador deixou-se conduzir para sua cela. Ao ser trancando, passou a observar o teto.

— Ran...

Imagens do seu antigo parceiro vagavam pela sua mente. Havia visto Ran pela última vez no aeroporto, quando palavras nem foram trocadas propriamente. Curiosamente, o rosto de Schuldig, vestido de um jeito tão diferente, também apareciam na sua mente.

"Ora ora. Alguém ficou impressionado."

"Convencido."

"Claro..."

"Saia da minha mente!"

"Quando eu quiser."

— SCHULDIG!

Continua...