Missing

2 Capítulo 2


Ken bocejou e espreguiçou-se ao mesmo tempo. Contendo outro bocejo, ouviu alguém bater à porta.

Era a primeira vez que alguém batia na sua porta. Os funcionários do presídio geralmente entravam sem se anunciarem. Isso era novo.

Piscou algumas vezes, sem saber se deveria dizer alguma coisa. Quem quer que estivesse do lado de fora bateu de novo, com mais força e mais alto também.

— ... Entre.

Ele ouviu o barulho da porta sendo destrancada, e o mesmo rapaz da administração do dia anterior abriu a porta, segurando-a aberta.

— Pode sair, número 1257. Você está livre.

Livre? Por que eles estavam deixando que saísse da prisão sem perguntar nada, nem ao menos seu nome? Por que?

"Esquecido, não?"

"Schuldig?"

"Quem mais, gatinho?"

De repente, ele lembrou. Schuldig havia visitado-o, e disse alguma coisa sobre sair da prisão porque precisavam encontrar... Quem ele tinha que encontrar mesmo?

"Meu Deus, Ken. Você é realmente esquecido pelas manhãs."

"Obrigado."

"Okay, eu vou ajudar. Pele clara. Olhos cor de ametista. Cabelo vermelho. Uma katana muito, muito afiada."

"Ran!"

"Gênio."

Ken saiu dos seus devaneios. O outro homem estava olhando para ele de uma maneira engraçada. O ex-jogador imaginava se ele estava fazendo caretas enquanto \\\"conversava\\\" com Schuldig.

— Vai sair ou não?

Ken piscou novamente e saiu da sua cela. Correção: antiga cela. Ele não era mais um prisioneiro. Aquilo era... Bom. Ele já tinha pasado muito tempo ali. Tempo suficiente para pensar e organizar seus sentimentos.

Pelo menos, ele esperava isso.

"Gatinho. Mexa-se. Siga o cara. Precisamos sair daqui ainda hoje."

Mais uma vez, Ken encontrou o funcionário olhando estranhamente para ele. Suspirando, ele foi atrás do homem, que o conduziu até onde Schuldig estava.

Ken não conseguiu evitar um sorriso. O alemão estava vestindo um terno preto de novo, e seu cabelo preso em um longo rabo de cavalo, justamente como no dia anterior. Schuldig sorriu.

"Pensei que você fosse gostar."

"Por quê?"

"O jeito que me vesti ontem pareceu atrair sua atenção, Kätzchen."

Ken controlou um impulso feroz para não mostrar a língua para Schuldig. Sabia que era muito infantil. Revirando os olhos, dirigiu-se para um balcão, onde lhe deram seus pertences.

Estranho... Não lembrava de ter pertence algum. Apenas a roupa que estava quando chegou na prisão. Franzindo a testa, pegou a sacola esportiva que lhe estenderam. Engraçado, a sacola era mesmo dele.

Abriu devagar, e encontrou uma camisa branca com uma cruz vermelha desenhada em cima. Uma camisa assustadoramente familiar. Não tinha dúvidas que se continuasse mexendo na mala, acharia sua arma e o resto do seu uniforme.

"Feche isso. Não queremos os guardas perguntando sobre suas garras, queremos?"

O assassino mais jovem apenas concordou com a cabeça e fechou o zíper da sacola. Olhou para o funcionário que havia entregue a sacola.

— Quem deixou isso aqui?

— Um homem alto, que disse ser seu conhecido. Disse para que não tocássemos na mala... — o policial parou de falar por um momento, como se recobrasse mais detalhes — E foi embora.

Ken não acreditava que não haviam tocado na sua sacola.

— Ninguém mexeu? Ninguém?

— Não, senhor. O seu caso de prisão é especial.

"Especial, hein?"

"Quieto, Schuldig. Estou tentando entender."

"Como quiser."

O homem da administração voltou, parecendo contra-feito em deixar Ken sair. Sinalizou para que Ken viesse mais para perto, dando uma caneta para assinar um formulário.

Viu que era sua ficha. Apenas sua foto constava, nada mais. Nem nome, idade, local de nascimento. Branco total. Apenas por uma pequena observação embaixo:

\\\"Deixe-e o ficar o tempo que quiser. Assim que desejar sair, não o impeça.\\\"

Aquilo era novidade. Assinou rapidamente a linha que indicava ter saído da cadeia, não estando mais sob responsabilidade do presídio. Virou-se para Schuldig, entregando-lhe a sacola esportiva.

— Segure. Vou me trocar. Não saia daqui.

O alemão apenas concordou silenciosamente, e Ken foi para o banheiro mais próximo. Sentiu algo engraçado na sua mente, enquanto trocava-se.

"Schuldig?"

"Sim?"

"Você estava na minha mente?"

"Ja. Por quê?"

"Nada, nada. Totalmente normal ter seus pensamentos invadidos pelo seu inimigo."

"Ken. Pela última vez: não sou seu inimigo. Não existe mais Schwarz ou Weiß há bastante tempo, ainda não entendeu?"

"... É complicado aceitar isso."

Schuldig se viu obrigado a concordar.

"Tem razão. Vai demorar muito?"

"Você está com tanta pressa assim?"

"Kätzchen, duas pessoas sumiram sem deixar sinal. É motivo suficiente?"

Ken deu de ombros e saiu do banheiro, arrumando a gola do casaco vermelho que usava. Sentiu os olhos de Schuldig nele, olhando-o da cabeça aos pés. Ken apenas usava a roupa que estava acostumado: um casaco com gorro de moletom vermelho, ligeiramente desbotado. Uma calça preta, simples. A roupa que usava enquanto estivera trabalhando disfarçado na Academia Koua.

Sem um segundo olhar para os guardas, Ken e Schuldig deixaram a prisão de Tokyo. E o ex-prisioneiro esperava que não tivesse que voltar lá tão cedo.

"Ken? Pare aqui, por favor."

O moreno obedeceu, e encontrou-se ao lado de um carro preto brilhante. Parecia novo.

— E é... Um Audi novo em folha. Entre.

Ken ainda se assustava com freqüência quando o telepata lia seus pensamentos.

— Na verdade... — Schuldig continuou, enquanto colocava sua mala no banco traseiro, ajudando Ken com a dele depois — Eu não leio seus pensamentos. Eu os ouço. As pessoas têm essa idéia errada dos telepatas.

— E é você que vai fazê-las mudarem de idéia? — perguntou o ex-jogador, colocando o cinto.

— Não. Pouco me importa o que as pessoas pensam, na verdade.

— Contraditório isso, vindo de você.

— Eu sou um paradoxo, Ken. — Schuldig piscou para o assassino ao seu lado, ligando o carro. Ken notou que ele não tinha colocado o cinto.

— O cinto, Schuldig.

A resposta que o jovem assassino recebeu foi um olhar gelado.

— Cinto.

— Quer parar?

— Não vai dirigir comigo aqui dentro sem cinto.

Schuldig deu um longo suspiro, olhando para a frente. Prendeu o cinto devidamente, soltando o longo cabelo no final. Balançou a cabeça de leve para soltar melhor os fios.

— Schuldig?

O telepata virou-se para encarar Ken, os olhos estonteantemente azuis presos no rosto do jogador. O moreno sentiu sua boca secar. Lembrava muito pouco da última vez que encontrara Schuldig. Definitivamente, vendo de perto, os olhos brilhantes e azuis do alemão eram lindos. Destacados pelo seu cabelo laranja.

Um sorriso se formou nos lábios do telepata. Ken se bateu mentalmente. Ele ouvira tudo.

"Exato, Kätzchen."

Ken virou-se para o lado oposto, sem olhar para Schuldig. Uma linha vermelha formara-se sobre o seu rosto.

"Conheço uma outra pessoa com lindos olhos azuis à minha esquerda."

Schuldig andou com o carro, e Ken sentiu que seu rosto esquentara mais ainda. Nisso, lembrou de perguntar o que tinha em mentes, antes de perder-se nos olhos do alemão.

— Para onde estamos indo, Schuldig?

— Para a Inglaterra.

Os olhos de Ken se arregalaram.

— De carro?

Schuldig riu com gosto.

"Não, gatinho. Estamos indo para o aeroporto de carro."

"Ahh."

"Você é realmente lerdo de manhã, não?"

A resposta foi um soco no braço mais próximo de Schuldig.

Continua...