Miss You - One Shot
1 Inicio, meio e fim.
Notas iniciais
Toda sexta, quando em casa eu chegava a encontrava dormindo sobre algum de seus mil romances. A luminária acesa virada para seu rosto lhe dava uma áurea tão angelical quanto à de um querubim. Alguma das minhas camisas cobria-lhe o corpo e uma música de fundo embalava seus sonhos. E ali estava exposta a contradição que era a minha pequena, um anjo que escutava e dormia ao som de Amy Winehouse.
Eu apenas desligava a luz e lhe puxava para meu peito como quem diz “me deixa cuidar do teu sono nesse fim de noite, início de madrugada e pelo resto que nossa vida seguir”.
Pela manhã ela acordava com aqueles olhos famintos de criança pedindo pra comer o doce antes do café da manhã.
Eu apenas a devorava.
Era sábado e assim seguia nosso final de semana. Vivíamos em constantes refeições de nós mesmos. Devorávamos-nos no café, almoço e jantar. Ou até fora de hora, pouco nos importava o mundo sem cor que havia lá fora e mal saíamos do nosso quarto/restaurante/santuário.
Até que chegou o dia nublado, e eu diria até fúnebre, que a pequena se queixou dos meus pratos principais, das minhas camisetas, tatuagens e da minha fatídica desorganização. Eu tentei seguir em frente, tentei esquecer o perfume luxuriante que ela tinha, mas ele fincou em toda casa, em todas as camisas e até nas cuecas. Aquela depravada alcoólatra viciada em Poe¹ havia transformado meu mundo e ele, de tão meu que era, acabou se moldando sobre as curvas dela. Tudo ali parecia ser dela. Até a minha escova dental. Até meus órgãos vitais.
Eu passei a beber mais, fumar mais e dormi com mais mulheres do que eu realmente queria, mas tudo era consequência de uma doença chamada saudade. Eu, fraco que estava, me questionava todos os dias o que eu havia feito de errado, onde eu havia magoado-a e tirado-a de mim. "Será que a culpa foi das várias vezes que eu pisei no seu pé quando dançávamos? Ou foram aqueles bilhetes e cartões idiotas tão clichês que eu a enviava acompanhados por flores?!" Fadigado pela espera de resposta que nunca vieram eu desejei desesperadamente odia-la. E como desejei. Queria sentir raiva, queria não mais ouvir sua gargalhada soando em minha cabeça, queria gritar para o mundo que não sentia a falta daquelas mãos pequenas e macias e dos cafunés e dos chás que ela me fazia.
E por um tempo eu realmente acreditei que poderia odia-la, até certa noite, em uma balada qualquer onde eu a encontrei, na realidade ela quem me encontrou e sinto, até hoje, pena da menina com qual eu estava dançando. Ela chegou imponente como sempre e arrancou à garota de mim, quando eu finalmente a vi e contemplei depois de tanto tempo aqueles cabelos curtos e rebeldes que combinavam perfeitamente com o piercing em seus lábios macios e convidativos, meu coração bateu forte e depois de alguns segundos sem reação eu tomei a atitude de arrasta-la pra fora do lugar. Ela logo que percebeu minha ação tratou de gritar e me bater e quem via de longe não me olhava com bons olhos, principalmente por causa dos adjetivos que ela me atribuía. Quando chegamos ao estacionamento vazio, exceto pelos carros, ela parou de esbravejar e começou a chorar compulsivamente, me virou as costas e segurou forte em seus próprios braços como quem pede mentalmente para se acalmar.
Eu queria toma-la em meus braços e fazê-la parar de chorar, mas também queria gritar com ela! ELA havia me deixado!
Nada fiz. Apenas tremi todo enquanto ela travava uma luta interna ainda de costas pra mim.
Quando ela se virou raiva e uma tristeza descomunal lhes descia dos olhos a face e eu me amaldiçoei por ser o culpado por seu sofrimento, mas mesmo assim não a entendia.
—Você é um idiota, Parker! — ela vociferou e passou por mim com raiva. "Ela me odeia?". A segurei pelo braço e voltei seu corpo pra encara-la, ela iria me ouvir.
—Eu sou um idiota?! Você me deixou! Você simplesmente foi embora depois da primeira briga! Não se preocupou comigo, com o meu sofrimento ou com tudo que eu tive que aguentar somente porque não tinha sua respiração em minha pele a noite. Você nem ligou pro meu choro ou para o abismo que minha vida se tornou. Você foi e é egoísta, Mariana! E mesmo assim eu não consegui te esquecer nem por dia, então talvez eu seja um grande idiota mesmo!- eu cuspi as palavras com toda a dor que eu vinha sentindo e desejei acrescentar o quanto ela estava linda aquela noite, mesmo com toda maquiagem borrada e ter visivelmente perdido alguns quilos. Ela se soltou de mim e pelo instinto eu a puxei mais, grudando seu corpo ao meu, unindo nossas testas e sentindo o turbilhão de sensações me invadirem. Sua pele colada na minha, seu cheiro, sua textura e sua boca a centímetros... A olhei fundo tentando achar respostas e vi no seu olhar o quanto ela se controlava, posso dizer fielmente que ela nunca fora boa com isso. Fitei sua boca tão bem desenhada e ela acabou com nossa distância, nos unimos em um beijo quase desesperado, toda a saudade daqueles três malditos meses estava ali, em nossas bocas oravam e pecavam ao mesmo tempo. E eu só pensava como conseguir viver sem aqueles lábios por tanto tempo!
Afastamos-nos por falta de ar.
— Por que você foi embora? — foi tudo que eu consegui dizer, ela me olhou fundo e mais lagrimas lhe escaparam.
—E-eu estava... – ela falou com a voz vacilante, fez uma pausa e respirou fundo. Naquele momento tudo que eu mais queria na vida era ouvir suas palavras, eu esqueceria os meses passados e até do resto do mundo se ela me pedisse, eu já havia perdoado-a só de olhar pra seus olhos e ver que não fui só eu que sofri por causa da nossa distancia. Ela respirou fundo mais algumas vezes e então continuou: — Eu estava com medo! Eu era a garota livre e descomplicada que não ligava para o mundo e não dava satisfação a ninguém, era a garota que não entendia nada de sentimentos e que realmente não me importava com quem eu iria dormir na noite seguinte... Até você aparecer com esse seu jeito “vem cá que eu curo tuas feridas e ouço tuas mancadas se você nos fizer um chá”, aquele teu ar romântico, intelectual e cômico, com aquela barba mal feita, o maldito óculos sexy e um par de olhos acolhedores e convidativos, daí eu fui com você... Até o restaurante, até a tua cama e até as tuas raízes. Quando eu dei por mim tua estante tinha mais romances do que livros de engenharia, e seus vinis do Chico já se misturavam com meus CDs do Nando. Eu tive uma crise. E depois de uma briga que acabou em você não me deixar comer Nutella com torradas no desjejum eu simplesmente explodi e fui embora. Mas sabe o que foi pior? Você não me procurou nem pra saber aonde eu ia, você me deixou livre e pela primeira vez em minha vida eu quis ser complicada, eu liguei até para a depressão gritante que é o mundo e quis insandecidamente dar satisfações a você. Eu quis ser só sua. Mas você sequer me ligou Arthur! – Meu coração se comprimiu a uma moeda e eu tive a resposta para todas as minhas perguntas, mas não interrompi a pequena, eu descobri da pior forma, vendo lagrimas e tristeza nos olhos dela, que eu havia errado, errado feio. Ela continuou:- Eu dormia com o celular na mão e parei de me alimentar direito e sair. Eu não quis te esquecer, eu quis que você lembrasse-se de mim. Até o infeliz dia que eu resolvo sair de casa e te esquecer de vez e te encontro roçando em uma loira qualquer, então sim, Arthur Parker esse é o verdadeiro motivo de você ser um completo idiota!- Ela pronunciou as ultimas palavras com ódio e tentou se desvencilhar de mim, eu a apertei mais contra meu corpo. Nunca mais iria deixa-la escapar de meus braços. Jurei naquele momento que aquela pequena, por mais controvérsia e louca que fosse, jamais sairia da minha vida!
E agora aqui estou eu, em uma noite de sexta depois de um dia de trabalho, parado em frente a um pote de Nutella, peguei e o levei pra casa. E lá estava minha pequena e sua áurea angelical, segui meu ritual e fui cuidar dos sonhos dela e pela manhã quando ela acordasse com seus olhos famintos eu iria lhe mostrar que Nutella cabe no nosso cardápio de cama também. E cara, quer um conselho? Nunca deixe sua pequena partir, se ela for teimosa e for mesmo assim, vá atrás, não tenha medo de parecer patético e diga antes que seja tarde que você a deixa comer Nutella no café da manhã e o quanto adora suas pequenas mãos macias.
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