Notas iniciais
Hey, guys! :)
Tenho esse texto no meu computador há muito tempo. Hoje, por algum motivo, me lembrei dele e pensei que não custaria nada postar.
Eu sinceramente gosto bastante dessa one. Eu nem sei porque a escrevi, ou o que me motivou a escrever, mas enfim.
Inspirado na Mulher Maravilha? Pode apostar! Eu amo a Wondy desesperadamente e não pude perder a oportunidade de homenagear, singelamente, a melhor super-heroína de todos os tempos. Mas a minha personagem, por mais inspirada em Diana Prince, é bem diferente.
Sem mais, boa leitura :)

Eu tinha que salvar o mundo.

Certo, tudo bem, não é um problema. Sou uma heroína – uma super heroína – e é isso o que eu faço. Eu salvo milhares de pessoas pela manhã e vou tomar um café com biscoitos amanteigados à tarde. De verdade, salvar o mundo não é um problema. Você sabe o que é um problema? Ter que aguentar vilão chato enquanto estou de TPM. Ou impedir que uma cidade inteira vá pelos ares por causa de uma bomba nuclear feita por um maníaco com problemas de autoestima quando estou naqueles dias – que eu chamo de Vermelhos Cruéis. Sabe o que também é um problema? Ser uma super heroína muita mais eficiente do que uns homens por aí, mas ainda assim ser rebaixada a uma mocinha de cabelo brilhante – não que eu me incomode, tenho muito orgulho do meu cabelo – que de vez em quando se comporta como uma vadia controladora. Eu tenho meus fãs, mas grande parte das pessoas idiotas – vulgo homens – ainda acham que eu sou apenas uma mulher querendo chamar atenção. As revistas falam de mim quando salvo suas bundas, mas sabe qual é o tópico principal da matéria? “O look de pretinho poderoso e dourado glamour da Miss Wonder deixa sempre a gente ba-ban-do!”. Dá para acreditar numa coisa dessas? Eu salvo centenas de milhares de pessoas e suas futuras gerações para que elas falem sobre o meu traje! Não quero que me entenda mal, eu sei que meu traje é realmente fabuloso, mas sério mesmo? E a criança que eu salvei de um prédio em chamas? E a senhora que estava caindo de um edifício de vinte e sete andares que eu resgatei em pleno ar? E a bomba que estava presa à filha do prefeito que eu desarmei? E o ataque alienígena que eu impedi de atacar a Terra? Ah, quem se importa com tudo isso, hein? Se eu visto um traje bonitinho, danem-se meus atos heroicos.

Não estou tentando parecer ingrata. As pessoas são agradecidas por mim, sei disso, mas eu gostaria de um pouco mais de reconhecimento. Superman é venerado em Metropolis e Batman é um deus em Gotham City. O que eu sou? A menina de preto e dourado que salva gatinhos de árvores. O meu feminismo pode estar tomando conta da minha cabeça, mas isso é atitude de homens misóginos socialmente estranhos que tratam mulheres como manequins, empregadas domésticas e prostitutas. Sexismo puro.

Mas eu me desviei do assunto. Não vim aqui dar discursos sobre igualdade de gênero – por mais que deveria; tem gente que precisa aprender.

Como ia dizendo, tenho que salvar o mundo. Tudo bem, legal, salvar o mundo é de boa. Quer dizer, dá um pouco de trabalho, me custam algumas noites de sono, uns hematomas no rosto, algumas dores musculares, às vezes um pouquinho de choro e desanimo, mas sempre acontece. Sempre salvo o mundo. Não é um evento exatamente raro pra mim. Não é todo dia que acontece, claro, mas não é a primeira vez e certamente não será a última. Às vezes eu tenho de pedir ajuda – à polícia local, ao exército, à população, a algum cientista maluco que tem um coração generoso, a outros heróis –, mas sempre acontece. Sempre salvo o mundo.

Então qual é o grande problema?, aposto que você perguntou.

O problema, o grande problema, é que não sei se quero salvar o mundo.

Nada heroico de minha parte, eu sei. Mas eu tenho que ser sincera. Não tenho certeza se quero salvar o mundo, se devo salvar o mundo. Eu provavelmente deveria – estou aqui pra isso, afinal de contas –, mas não consigo parar de pensar em como seria esforço jogado fora. Venho salvando a mesma cidade há anos, e parece nunca acabar. Eu gosto de salvá-los, sei que é meu dever, mas não posso fingir que sou cega. Eu vejo as coisas e sei que, muitas vezes, a tragédia é mera consequência de seus atos.

Talvez a culpa não seja sua de que um furacão esteja devastando a parte leste do país, ou talvez a culpa não seja sua de que um assassino terrorista esteja metendo uma bala na cabeça de todo mundo.

Será mesmo?

A culpa pode não ser única e exclusivamente sua, mas a probabilidade de você estar metido nisso é bem grande.

Você não deveria interferir no clima e na atmosfera e destruir toda a natureza. Você não deveria desrespeitar a religião ou a cultura de alguém.

Você não deveria fazer um monte de coisas, mas mesmo assim faz.

E então você enfurece as pessoas/coisas e sou eu quem tem de salvá-lo.

Mais uma vez, não me entenda mal. Eu sou uma super heroína e estou aqui para isso, mas tem muita coisa que acontece que pode muito bem ser evitada. Tente não acabar com os recursos naturais, tente não provocar uma guerra civil, tente ser respeitoso e tolerante, tente não explorar os pobres, tente pensar em quem você coloca no poder, tente não matar, tente não roubar, tente não agredir. Tente não ser um desgraçado.

É simples assim. Só não faça o que é errado que você não correrá o risco de morrer de uma maneira mais dolorosa do que deveria. Do que adianta salvar o mundo se as pessoas não estão salvas? Eu posso manter a casa delas intacta, posso ajudar a reconstruir a economia, posso impedir que sejam mortas por um vilão com um parafuso a menos. Mas não posso salvar as pessoas que são.

Eu falo de caráter – vou dar uma de moralista. De que adianta salvar a vida de “fulano” hoje, se amanhã ele coloca a vida de “ciclano” na linha do trem? De que adianta salvar um país inteiro de uma invasão violenta, se o próprio governo é quem mata sua população? Já salvei várias pessoas da mão de um psicótico sanguinário que tinha uma faca em suas gargantas, para vê-las mortas depois por falta de assistência social.

Venho fazendo justiça por muito tempo, mas às vezes me pergunto se estou combatendo às pessoas certas. Talvez eu devesse me tornar uma dessas que vai contra o sistema, que ao invés de combater vilões que se julgam os reis do universo, que chegam aqui eventualmente com um plano diabólico, eu deveria combater os que estão sempre presentes, que se misturam devagarzinho, que chegam com jeito bondoso, que se entrelaçam nas pernas das pessoas como um gato manhoso, apenas para se mostrar um monstro sedento de poder que causa muito mais danos do que meus vilões com traumas de infância.

Talvez eu devesse me tornar uma heroína de casos sociais, uma heroína dos fracos e oprimidos – que seria chamada de rebelde socialista pela mídia (ou será que eles ainda falariam das minhas roupas?).

Mas todos meus anos de experiência como justiceira me ensinaram uma coisa: Existem pessoas que não querem ser salvas. Pessoas que se contentam em sustentar qualquer um que lhe dê algum benefício, seja ele qual for. Pessoas que clamam por mudanças, mas que são preguiçosas demais para mudar a si mesmas. Pessoas que nunca fazem o que pregam. Pessoas facilmente manipuladas e compradas, que não hesitam em se aproveitar de algo que possa lhes trazem um segundo de conforto ou prazer. Às vezes, as pessoas são seus próprios vilões.

E o que é que eu posso fazer por isso? Eu dou surras em caras maus e esmago máquinas explosivas que ameaçam a vida do planeta, mas o que é que eu posso fazer com pessoas autodestrutivas que não zelam pelo próprio bem estar? Pelo bem estar de seus futuros filhos e netos? Sou uma heroína, não Jesus Cristo.

Mas vai ver estou sendo só uma vagabunda falsa, que procura motivos para justificar o fato de estar cansada de salvar o mundo. Talvez seja verdade – eu realmente estou cansada. Heróis não tiram férias e não têm recesso de final de ano. Estou sempre por aí, salvando as pessoas ou tentando não ferrar com meu disfarce de mulher normal. Isso é exaustivo. Por mais que eu claramente não seja alguém comum, eu sinto tudo o que pessoas comuns sentem: raiva, tristeza, cansaço, paixõezinhas por gente que não merece, saco cheio.

Uma vez me descreveram da seguinte forma: Miss Wonder é tipo a Mulher-Maravilha, só que bêbada. Isso não está errado – pelo menos não a parte do “bêbada”. Gostaria de esclarecer, primeiramente, que eu só apareci levemente alterada uma única vez, há uns dois anos, quando eu estava na minha rotina de mulher normal, bebendo um pouco com colegas de trabalho. Mas o perigo não marca horário e lá estava eu, dando desculpas esfarrapadas para o pessoal e correndo para o beco mais próximo, vestindo meu “pretinho poderoso e dourado glamour”. Alguns fotógrafos me pegaram no meio da coisa, enquanto eu tinha uma luta corpo-a-corpo com um cara que se fantasiava de soldado espacial. Notaram que eu não estava na minha melhor performance e logo publicaram nas redes de multimídia que eu estava bêbada. Eles estavam certos, mas, em minha defesa, eu salvei a cidade novamente.

Mulher-Maravilha jamais faria isso. Ela é elegante, centrada, destemida e tem as pernas mais bonitas que eu já vi. Ela jamais diria que está “de saco cheio de salvar as pessoas”, ou sairia bêbada por aí – eu nunca a conheci, mas acredito piamente que ela não bebe. Eu não sou uma heroína que você dá de exemplo para suas crianças. Eu faço o que deve ser feito, é verdade, mas eu sou emocionalmente instável e temperamental, orgulhosa e meio fútil. Dou surras em vilões e criminosos mais brutais do que necessário e não posso dizer que não me sinto satisfeita com isso. Sou do tipo que tem uma justiça meio cruel, que gosta de ouvir gritos de dor e ver lágrimas de humilhação daqueles que já fizeram mal. Gostaria de dizer que sou uma heroína honrada e memorável, que nunca perde o foco e que coloca a segurança do povo acima de tudo. Mas isso seria mentira – e eu posso ser tudo de ruim, menos mentirosa.

Talvez seja por isso que estou com essa dúvida, se devo ou não salvar o mundo. Porque sou uma pessoa ruim. É muita mais fácil os sentimentos obscuros tomarem conta de você do que aquela sensação de altruísmo que te faz querer salpicar o mundo a fora com alegria e purpurina cor-de-rosa.

Eu realmente gostaria de estar me contorcendo de vontade de salvar o mundo.

Mas não estou.

Não estou certa de quando foi que fiquei tão desgostosa com a vida. Antes, lá no começo, a minha alegria era resgatar pessoas do topo de penhascos, dar um discurso sobre bondade e paz para uma multidão, escolher reabilitar um vilão ao invés de lhe dar um soco no nariz. Mas conforme o tempo foi passando, conforme eu fui vendo coisas, aprendendo coisas, minha excitação pelo título que eu carregava diminuía cada vez mais. É como você ser um bom advogado, mas trabalhar em um escritório cansativo e injusto. É assim que me sinto: Uma profissional com um currículo pesado, mas que exerce a profissão em um local de trabalho ruim. Estou sendo presunçosa? Pode ser, mas é exatamente assim que me sinto. O lugar ruim não é minha cidade, o lugar ruim é o mundo.

Não estou particularmente animada em salvar um lugar que vem me colocando para baixo por tanto tempo.

Eu sou uma péssima heroína, eu sei! Me sinto mal por isso, mas não posso ignorar tudo o que eu venho vendo por todos esses anos. Pessoas sendo espancadas até a morte porque são pobres, ou negras, ou muçulmanas, cristãs, homossexuais. Adultos que nunca viram água limpa ou homens de honra morrendo em meio a guerras. Mulheres sendo estupradas – e sendo responsabilizadas por isso –, cidades inteiras sendo destruídas por ambição política, bombas matando milhares de pessoas ao mesmo tempo, assassinatos, latrocínios, violação, saqueamentos, sequestros, corrupção. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, coisas sérias que são ignoradas para dar lugar a coisas insignificantes – já te contei das matérias sobre meu traje? –, que são jogadas debaixo do tapete para não ameaçar fortunas construídas sobre corpos de inocentes e choro de crianças famintas.

Por que eu salvaria o mundo, só para tê-lo destruído pelos próprios habitantes?

E então, em um estalo, me veio a decisão: Não vou salvar o mundo.

Não vou me desgastar, me cansar, me ferir, possivelmente me matar, para salvar pessoas que se destruirão logo em seguida.

Pode me chamar de covarde, de insensível, de traidora. Vai ver sou tudo isso mesmo. Mas eu tentei. Tentei e tentei, por anos eu tentei, mas acho que meus esforços se perderam no ar.

Quando assumi o mando de Miss Wonder, meu objetivo era mudar o mundo, fazer dele um lugar melhor. Fracassei, miseravelmente fracassei, então me retiro de cena.

Vou me sentar aqui e assistir ao mundo queimar. Queimarei junto, mas não vejo motivo que valha à pena.

Nunca fui um exemplo de heroína, de qualquer maneira.

Notas finais
Muito obrigada por ler, comente se puder e vem me seguir no tumblr danversalexandras pra gente ser fangirl de Batman vs Superman e da Mulher Maravilha incrível da Gal Gadot ♥
Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!