Miss Simpatia
24 Concurso Parte 2
Notas iniciais
POV. Daphne
Tento não perder o foco, apesar do holofote em minha frente ofuscar um pouco minha visão. Continuo andando até o final da passarela. O sorriso não precisou ser esboçado, ele saiu involuntariamente. Alguma espécie de ansiedade agitava-se dentro de mim.
– Possui como hobby’s ler livro para crianças carentes, tocar piano e cozinhar. – diz Antony. Minha mãe mentia demais em meus dados.
Eu nunca li livros para crianças carentes. Não, que eu não ache uma atitude digna, é claro que acho. Porém nunca nem se quer passou pela minha cabeça fazer isto.
Chego ao final da passarela e retorno. A candidata seguinte já estava entrando. Paro em meu devido lugar no centro do palco. Olha para meus pais, que estão sentados no meio da platéia. Meu pai acena de modo feliz, fazendo positivo com a mão. Minha mãe apenas dá um leve sorriso. Olho para Josh que está com a câmera posicionada para mim. Após retirar uma foto, ele pisca.
Consigo esboçar um sorriso maior ao saber, ou pelo menos parecer, que tudo está bem entre nós. Espero eu.
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POV. Josh
Apesar de eu ter que ficar escondendo-me dos pais de Daphne, os concursos são agradáveis em si.
Pude notar que Daphne ficou um pouco espantada ao me ver. Eu também não avisei para ela que viria. Sinto uma culpa agora por ter sido um pouco rude com ela, por ter ficado com raiva por conta do concurso.
Isso me incomoda, pois sei que ela está se reprimindo. Deixa de fazer diversas coisas em prol disso. Ela reprime um relacionamento em prol disso.
Sei que Daphne não lê livros para crianças carentes. Ela é capaz, mas sei que não é verdade. Porém não deve ter sido ela que inventou esta mentira, mas sim a mãe. Isto não é do feitio de Daphne.
Depois que todas as candidatas já foram apresentadas, o concurso deu uma pequena pausa para que elas pudessem colocar seus trajes de banho. Os apresentadores continuaram entretendo a platéia. Fico analisando as fotos que retirei. Daphne estava simplesmente linda. Meu celular toca e saio do auditório para atender.
– Alô? – digo.
– Filho? Sou eu. Seu pai. – diz meu pai pelo outro lado da linha.
– Oi, pai. Está tudo bem? Aconteceu algo? – pergunto. Eu não costumo receber ligações de meus pais, então quando eu recebo preocupo-me o máximo.
– Sim. Sim. – diz ele, calmamente.
– Minha mãe e Jared estão bem? – pergunto apenas para confirmar.
– Sim, está tudo bem. – ele diz de volta. – Filho, eu só liguei para te dizer a dia e o horário da sua entrevista de emprego.
– Mas pai, me ofereceram outra proposta e ... – tento argumentar.
– Filho, eu tenho certeza que está que eu disse é mil vezes melhor. Você vai poder ficar em Nova York. E a outra? Você vai ter que ficar viajando além de ter que se mudar para Miami.
– Mas a sua proposta não é o que eu quero fazer! – explodi, pois já não agüento. – Para de tentar empurrar isso pra cima de mim.
– Ok. Vamos nos acalmar. Deixe eu te dizer de outra forma. Você terá um emprego com salário bom, continuará em Nova York ao lado de Daphne. Não é isso que você quer? Ficar perto dela? – diz meu pai.
Minha cabeça dá um nó. Eu não sei o que quero. Quero mais do que tudo ficar com Daphne, mas eu ainda não havia pensado o que aconteceria se eu aceitasse o emprego e fosse para Miami. Será que ela me seguiria? Desistiria de tudo? Mas o que ela quer de verdade? Será que ela já descobriu? Eu apenas suspiro e digo:
– Vou pensar, ok? Me dê um tempo.
– Está bem. Mas fique atento à data da entrevista. – diz ele.
– Vou ficar. – digo, friamente.
– Filho, eu te amo. Quero apenas seu bem. – diz ele.
– Eu sei. Também te amo pai. – digo. – Mande um beijo para todos. Estou com saudades. Tchau.
Desligo e bufo encostando na parede. Ando um pouco para espairecer, porém esbarro com uma pessoa. Tenho tendência a ser distraído. Boa parte das vezes, isso me auxilia, como quando eu esbarrei em Daphne no Central Park, no dia seguinte após nos conhecermos. Porém essa não foi uma das vezes que me auxiliou, pelo contrário.
– Desculpe-me. – digo segurando a pessoa para que ela não caia.
– Tudo bem. – diz a pessoa e olho direito para ela.
– Ei, eu conheço você. – diz a mãe de Daphne.
– Não. Eu me lembraria se conhecesse a senhora. Agora tenho que ir. – digo, desesperado, entrando correndo no auditório que estava movimentado com a entrada e saída das pessoas.
A porta estava lotada de pessoas. Com certeza ela não conseguiria me seguir. Retorno para meu lugar e fico com a cabeça abaixada até o concurso retornar.
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POV. Daphne
A segunda fase do concurso era o desfile com trajes de banho. Eu estava com um maiô rosa cintilante e uma faixa com meu nome escrito, que envolvia meu corpo. Minha maquiagem estava mais suave. Meus pés sambavam sobre os sapatos de salto, enquanto minhas pernas tremiam. Nunca gostei de me exibir deste modo em público.
Incomodou-me um pouco o desfile, mas acho que me saí bem, apesar da vergonha. O que será que Josh achou?
Retornamos ao camarim, onde minha mãe esperava-me. A próxima etapa seria o talento, na qual cada candidata deve exibir sua melhor habilidade. Eu cantaria, ela deve estar aqui para checar minha voz.
Minhas cordas vocais não são dignas de sucesso, ou de algum prêmio musical. Elas são apenas bem trabalhadas. Faço aulas de canto desde meus 10 anos.
– Você foi maravilhosa, querida! – diz minha mãe, quando adentro o camarim.
– Obrigada mãe! – digo e sento-me na cadeira em frente ao espelho.
– Vou pegar alguns lenços umedecidos. – diz Alejandro.
– Não demore. – diz minha mãe e então ele sai.
Estávamos sozinhas dentro do camarim. Pude sentir o clima pesar pelo olhar de minha mãe.
– Sabe quem eu vi na entrada do auditório? – diz ela, enquanto procura algo em sua bolsa.
– Não. Quem? – digo olhando meu reflexo no espelho.
– Seu vizinho. Estranho ele estar aqui, não é? No mesmo concurso que você?
– Não sei de quem você está falando. – digo. Eu não sabia mesmo.
– Aquele que foi entregar sua carteira. – diz ela se voltando para mim e lembro-me quando Josh disse-me que foi em minha casa devolver minha carteira e se deparou com minha mãe.
– Não tenho ideia de quem você está falando. – minto. Muito mal por sinal.
– Está bem. – ela diz fechando sua bolsa e vindo com uma escova para pentear meu cabelo. – Eu sei que você me contaria se estivesse em um relacionamento. – diz ela e pega uma mexa de meu cabelo e começa a passar a escova. – Nós duas lutamos muito para um homem vir e acabar com tudo. Mas pense que isso é até conseguirmos nosso sonho. Pense em você com aquela linda coroa.
– Claro, mãe. – digo engolindo seco e olhando para o reflexo dela através do espelho.
– Então vamos lá, querida! Animação! – ela dá uns tapinhas em meu braço. – Hora do talento!
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Eu era a próxima. A mulher que estava no palco sapateava. O público estava entediado, dando alguns bocejos. Os jurados não pareciam interessados. Acho que ela poderia ter feito uma performance melhor.
Quando sua dança agonizante terminou, fui chamada. Respirei fundo e caminhei em direção ao centro do palco, onde eles dispuseram se um microfone.
Nem sempre eu seguia as regras de minha mãe. “Combinamos” de eu cantar New York New York do Frank Sinatra. Porém eu não sou cem por cento obediente. Então pelo menos algo eu decidi para este concurso. Pode não ter sido a minha melhor escolha. Minha mãe ficaria furiosa, mas não custaria tentar. Tenho que fazer o que eu quero pelo menos uma vez.
Olhei de relance para Josh. Ele sorria para mim e fazia sinal de positivo com a mão. Senti-me confiante para assumir meu risco. A banda começou a tocar e as palavras começaram a fluir de minha boca.
I was a little girl alone in my little world
who dreamed of a little home for me.
I played pretend between the trees,
and fed my houseguests bark and leaves,
and laughed in my pretty bed of green.
I had a dream
That I could fly
from the highest swing.
I had a dream
Now I'm old and feeling grey.
I don't know what's left to say about this life
I'm willing to leave.
I lived it full and I lived it well,
there's many tales I've lived to tell.
I'm ready now, I'm ready now,
I'm ready now to fly from the highest wing.
I had a dream
A platéia aplaudia de pé. Eu não acreditava. Os jurados pareciam terem gostado. Josh tirava fotos de mim, mas por um momento me mandou um beijo. Meu pai estava gritando de felicidade no lugar dele. Já minha mãe, estava com uma cara emburrada. Certamente eu levarei grande bronca.
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Cada etapa do concurso eliminou um determinado numero de garotas. No final restavam apenas dez. Contando comigo, é claro. Formamos uma fila no palco. Antony estava em sua eambromação para anunciar a campeã.
Depois de cinco longos minutos de uma entrevista com perguntas que só interessavam mulheres fúteis, eu havia chegado à final. Meu sorriso era de nervoso. Eu estava cansada. Não sei como eu conseguia me sustentar com aquele salto enorme, apesar de já estar acostumada. Eu não aguentava olhar para ninguém que me esperava na plateia.
– E agora, sem mais delongas... – diz Antony. – ...Vamos anunciar os três primeiros lugares. – ele abre um envelope e faz um pequeno suspense. – Em terceiro lugar... de Albany, Nova York. Bridget Hudson.
A menina de cabelos escuros e pele clara, caminhou até Antony e recebeu um pequeno buquê e uma pequena coroa. Sua expressão era de nojo.
Minhas mãos suavam frio. Haviam mais nove mulheres que poderiam ganhar o segundo e primeiro lugar, e eu ficar sem nada. Como minha mãe reagiria a isso? Ficaria destroçada, mas me obrigaria a participar até eu ganhar. Respirei fundo. Ai Deus! Não me faça perder mais um ano. Isto é tudo que eu te peço!
– Nove belas moças! Uma pena só uma poder ganhar. Mas sei que todas representarão muito bem o estado de Nova York. Então, em segundo lugar... – ele abriu outro envelope. – de South Hill, Nova York. Penelope Adams.
A mulher de cabelos ruivos com incríveis olhos verdes, recebeu um buquê de flores e uma coroa um pouco maior. Como ela não ganhou o primeiro lugar? Se eu fosse jurada eu daria o primeiro lugar à ela. Isso me dá menos chances ainda para ganhar. Não sou bonita como ela.
– E agora, o primeiro lugar. Quem representará nosso estado no concurso de Miss Estados Unidos é... – ele abriu o envelope e fez uma pausa. Meu coração quase saltava pela minha boca. Por favor, que seja eu! Eu olhava para minhas concorrentes e via que era impossível. Que seja eu! Fechei os olhos.- ... Do Queens, Long Island, Nova York. Daphne Elizabeth Campbell.
– O quê? – digo, não acreditando.
Todos na plateia aplaudiram. Minhas, agora, ex-concorrentes me olhavam com nojo e inveja. Nem todas podem vencer. Sinto um pouco de dó, pois todas se esforçaram.
Josh tirava inúmeras fotos e gritava ao mesmo tempo. Minha mãe estava eufórica, agarrando meu pai e beijando-o. Lágrimas brotavam de meus olhos. Uma ajudante de palco colocou a faixa de Miss Nova York e uma coroa em minha cabeça. Grito levando a mão para o alto.
É... parece que meu futuro não está tão longe assim.
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