Miss Simpatia
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POV. Daphne
Abri a porta de meu apartamento e joguei as chaves em cima mesa. Despenquei no sofá. Que dia estressante! Não basta receber lotes e mais lotes de roupa, ainda tenho que atender gente mal-educada. Bufei. Tirei meus sapatos para relaxar. Olhei no relógio e ainda eram apenas seis e meia da tarde. Fechei os olhos desejando ter um segundo de descanso. Mas não. Meu celular tocou e tive que caçá-lo em minha bolsa.
– Alô?- atendi impacientemente o celular.
– Não esqueceu de hoje, não né? – disse Eliza no outro lado da linha.
– Não. – fechei os olhos querendo esquecer, pois não tinha a mínima disposição para sair hoje.
– Você vai, né?
– Não to muito afim, não. – falei espreguiçando-me no sofá.
– Você vai. Quero você pronta 19:50. Vou passar aí de táxi para irmos juntas.
– Mas...- não tive nem tempo de argumentar.
– Sem “mas”. 19:50. Beijos. Até daqui a pouco. – ela desligou sem me dar a chance de falar.
Enterrei meu rosto na almofada. A preguiça estava quase me consumindo. Demorou no mínimo quinze minutos para que eu tivesse vontade de levantar. No banheiro enchi a banheira com uma água morna e relaxante.
Depois do banho, de lavar o cabelo, aplicar algumas loções de beleza, fui para o closet escolher minha roupa. Sentei no banco estofado, tentando imaginar que roupa eu vestiria. Minha mente estava lenta.
Apenas dez minutos depois consegui escolher que roupa iria vestir. Um vestido estampado bronze, de mangas longas, sem decotes e com a costa um pouco nua e bem ajustado ao meu corpo. Aprendi com minha mãe que um vestido curto só é sofisticado quando está no máximo a quatro dedos acima do joelho. Junto ao vestido escolhi um par de sapatos peep toe preto do Jimmy Choo. Minha maquiagem foi básica. Um batom de cor nude, uma sombra dourada e delineador preto. Em relação ao cabelo, prendi pequenas mechas da frente.
Demorei para me aprontar, mas ao meu ver valeu a pena. Dou uma última olhada em minha aparência no espelho da entrada. Perfeito! Não era para arrasar com os caras, apenas para passa algumas horas com as amigas.
Arrumo minha casa para não ficar uma bagunça quando eu chegar. Tenho meio que um ataque se ver minha casa bagunçada. Passo um pano em cima de meu piano vermelho. Um de meus talentos para os concursos é o canto. Minha mãe alguns anos atrás me deu o piano para que eu praticasse. Quando me mudei o trouxe comigo, pois adoro tocá-lo em minhas horas vagas. Não foi nada fácil colocá-lo aqui. Lembro bem do dia da mudança.
Paro com a limpeza ao receber uma mensagem de Eliza. “Desce logo. Já estou aqui em baixo.”. Peguei minha bolsa e chaves e saí de casa. Entrei no táxi que estava parado em frente ao prédio.
– Até que enfim. – disse Eliza para mim, mais concentrada em seu celular. – Pode ir já, moço.
– Você tem sorte que eu vim, pois eu não estava com a mínima vontade.
– Ah, mas ia vir de qualquer jeito. Imagina se eu não encontro alguém que nem da última vez e fico lá que nem idiota sem ninguém.
– Eu sirvo apenas para dar apoio moral.
– E para encontrar alguém também para você que eu sei.
– Se fosse outro dia, até ia lá. Mas hoje eu to muito cansada pra fazer algo. Estou indo apenas pra encher a cara.
– Sei... E eu não conheço dona Daphne.
Passamos o resto da viagem caladas. Eliza é uma dessas pessoas fixadas pelo celular e pelas redes sociais. Sempre quis ter mais de mil seguidores em casa rede social. Em dez minutos já estávamos no pub.
Música alta, gente bêbada já no início da noite. Só sai doideira das festas de universitários.
– Aquele dali não é seu primo ? – pergunto para Eliza.
– Sim, sim. Parece que ele também veio. – fomos até Philp, o primo de Eliza, e o cumprimentamos.
– Ah!- Eliza deu um berro ao ver o restante de nossas amigas no restaurante.
– Menos. Bem menos, Eliza.- falei, pois grande parte da multidão olhava para nós.
Sentamos junto com as garotas. Todas fofocando e analisando os garotos que estavam na social. Minha cabeça latejava, então nem se quer liguei para a conversa delas. Tomei todas as vodkas que me eram servidas.
Já bebi muito antigamente, principalmente com meu irmão . Temos uma idade próxima e nos possibilitou que sempre saíssemos para beber. Minha mãe odiava. Cerveja principalmente. Ela dizia que se eu não me cuidasse ficaria com “barriga de cachaça”. Então passei a beber escondido.
Bolo e salgadinhos foram servidos em todas as mesas. Eu já havia visto o aniversariante algumas vezes no campus da faculdade. Até o tenho no Facebook. Mas, para resistir a tentação de comer essas besteiras de aniversário, saio da mesa e vou até o bar. Acabo esbarrando com uma pessoa, quando tentei sentar-me no banco.
– Desculpe. – ambos falamos. Só então tenho a chance de olhar para a pessoa. Ou melhor, um cara com quase dois metros de altura e um sorriso lindo.
– Não queria esbarrar em você. Eu... eu – desculpei-me um pouco sem graça e sem jeito.
– Está tudo bem. – ele sorriu e sentou-se no banco ao meu lado. Ah, não. Ele não pode se aproximar muito. – Uma água com gás, por favor. – ele pede para o garçom. Bebiba sem álcool? Que homem é esse?
– Um martine de maçã com vodka. – ficamos em silêncio até o garçom trazer nossas respectivas bebidas.
– E aí? Você também é uma estudante da Columbia? – perguntou o homem.
– Sou e você?
– Também. Qual curso?
– Jornalismo.
– Eu também. Como nunca te vi antes?
– Minhas aulas são a noite. E pego poucas matérias por semestre.
– Interessante. As vezes nunca fizemos grades de horários iguais.
– Pois é. – digo e bebo um pouco da minha taça. – Então, me fez todas essas perguntas, mas ainda não me disse seu nome, estranho. – ele riu.
– Sou Joshua Parker. – disse um pouco nervoso. – E da senhorita?
– Daphne Elizabeth Campbell.
– Bonito o nome.
– Obrigada. – agradeci. Comecei a me sentir mais a vontade com a situação, então senti que poderia me soltar um pouco. – Tem quantos anos?
– Vinte e seis. E você?
– Vinte e quatro. — digo. — Conhece o aniversariante?
– Nem. Vim aqui só para não passar uma sexta à noite sem fazer nada.
– Entendo. Você trabalha?
– Sim. Trabalho em meio expediente na revista Poise, como fotógrafo.
– Um fotógrafo fazendo jornalismo? – estranhei.
– Meus pais achavam que a faculdade de Fotografia era perda de tempo. Fiz apenas um curso antes de entrar na faculdade. – ele bebe um pouco de sua água e fica concentrado nas bebidas colocas na prateleira atrás do balcão. – tenho meio que uma paixão por capturar os momentos. Mas e você? Trabalha em algo?
– Trabalho como atendente na So Chic Boutique. É apenas para conseguir uma grana e não ficar zerada.
– Faz sentido. – ficamos um tempo sem dizer absolutamente nada e olhando em nosso redor. – Sabe, é a primeira vez tenho uma conversa de verdade com uma garota num bar? A maioria parte logo para cima. Não que eu esteja com alguma intenção com você. De forma alguma. É que me surpreendeu.
– Eu também não tenho intenção nenhuma de fazer algo. Também estou admirada de você não me cantar como todos os outros.
– Se fosse qualquer dia dona Daphne, eu cantaria, mas hoje... não, não. – disse balançando a cabeça me fazendo rir, pois conseguia vir um “quê” de verdade naquilo. – Estou com uma ressaca braba de ontem.
– Por isso está bebendo só uma água com gás?
– Talvez. – ele deu de ombros, terminado sua garrafa. – E você teve um dia estressante? Para beber desse jeito.
– Estressante acho que é pouco. – o álcool começava a fazer efeito e me deixar um pouco delirada. Era interessante passar os dedos no bocal da taça.
– Você não acha que devia parar um pouco de beber?
– Não. Só mais um pouquinho. – disse virando a taça em minha boca. – Ah... bem melhor. Eu não iria vir, minha amiga Eliza que me arrastou para cá. – respondi.
– Que Eliza?
– Eliza Collins.
– Aquela que está sentada ali, com um vestido vermelho?
– Sim, você a conhece?
– Ela é prima do meu colega de quarto. – Disse ele apontando para Philp com a garrafa. — Sim, eu sei, uma confusão. Ela já foi a várias de nossas festas no dormitório. Mas você eu nunca vi.
– Nunca curti em ir à festas de dormitório.
– Compreendo.
– Você tem namorada, Josh? – perguntei já em minha quarta taça. Ele me olhou e me expliquei. – Não que eu esteja interessada, é apenas para deixar a conversa fluir sabe. To sem nenhum assunto na cabeça. E também não quero voltar para lá e conversa sobre homens com elas, e... — fico nervosa.
– Eu entendi, esta tudo bem, mas respondendo a sua pergunta: Não, tenho. – ele respondeu, e riu um pouco. – Me dá mais uma água com gás, por favor. – pediu ele ao garçom. – Tive um relacionamento sério apenas uma vez no colegial. Durou dois meses, mas eu saí ferido na relação. A garota me traiu com outro mais popular. E você tem alguém?
– Deus. De quem mais eu preciso? – ri um pouco. – É sério, se tenho ele não preciso de ninguém. – assumi um tom sério por conta de minha religiosidade. — Mas eu não tenho namorado. Nem nunca tive um relacionamento sério. Minha mãe não deixava e continua não deixando.
– Mas por que sua mãe tem essa marcação cerrada?
– Por que minha mãe tem um sonho louco e muito bizarro. – começo a rir sem saber exatamente do quê. Olho para o relógio pregado na parede do bar e tudo começa a rodar. Balanço a cabeça para espantar essa sensação – Minha mãe teve dois filhos homens e o sonho dela era ter uma menina e prepará-la a vida toda para se tornar Miss Universo. A Miss Universo não pode ser casada, nem ter filhos, nem nada. Ta aí o motivo. E ai eu nasci.
– É, ta explicado. E você quer mesmo isso? – perguntou Josh. Voltei para sobriedade e não respondi. – Não sei como encaro o seu silêncio.
– É complicado. Parte de mim quer fazer isso, mas outra vê que já estou terminando a faculdade e não tenho nada. Daqui a alguns meses vou competir no concurso de Miss Nova York. Mas aí eu pergunto. E se eu não ganhar? Vou adiar mais um ano?
– Isso não faz sentido. Adiar um ano, adiar o começo de algo pelo concurso. Bom, se eu estivesse no seu lugar adiaria. Não quero tão cedo ter algo sério com alguém, me casar, ter filhos nem nada ainda.
– As coisas mudam rapidamente, Josh.
– Não mudo de opinião tão depressa assim, Daphne.
– Se você diz. – dei de ombros. E foi então que Eliza se aproximou de nós.
– Ora, ora. Então quer dizer que vocês já se conheceram?
– E vocês já se conhecem faz tempo. – falei acariciando minha taça.
– Sim, já que você não me acompanha nas festas no dormitório do meu primo.
– Faz sentido. – falei. – Mais uma, por favor. – pedi, pois minha garrafa havia chegado ao fim.
– Você devia vir a uma de nossas festas, Daphne. Iria ser divertido.- encaro seus olhos e não vejo ironia.
– Algum dia, quem sabe. Acho bem difícil. Mas antes disso te convenço de que seus pensamentos podem mudar rapidamente.
– Acho bem difícil também. – disse ele piscando para mim.
– Sem cantadas, senhor Parker.
– Nem cheguei a perto de uma, senhorita Campbell. Esse é apenas meu jeito de ser.
– Bom, meus caros, já que vocês estão neste papo ótimo vou me aproximar daquele gato ali. – disse Eliza e não pudemos deixar de rir.
Passamos o resto da noite conversando. Joshua me contou de como adorava ir ao Central Park e tirar fotos espontâneas, e que havia uma caixa em sua casa cheia delas. Contei a ele sobre meu gosto de tocar piano domingo pela manhã. Foi uma noite divertida. Conversamos como amigos e não duas pessoas que iriam para cama e agiriam como estranhos no dia seguinte. Mas sinceramente, eu achava muito perigosa essa aproximação Joshua, não por desconfiar dele, muito pelo contrário, mas pelo fato de não poder deixar que uma pessoa se aproxime de mim sentimentalmente. Então preferiria que agíssemos como estranhos. Mal conheço o cara. E ele não quer nada sério. Somos dois.
Depois de alguns martines com vodka, eu não sabia nem mais quem eu era. Eliza, depois de não conseguir nada com o tal cara, me levou para casa e apaguei.
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