Misguided Angels
1 Prologue
Notas iniciais
Take pictures in your mind of your childhood room
(Tire fotos mentais do seu quarto de infância)
Memorize what is sounded like what your dad gets home
(Memorize o som de seu pai chegando em casa)
Remember the footsteps, remember the words said
(Relembre os passos, relembre as palavras ditas)
And all your brother's favorite songs
(E todas as músicas preferidas dos seus irmãos)
Never Grow Up – Taylor Swift
Londres, Inglaterra 22 de novembro de 1935
Era manhã, e um sol brilhante fixara-se no céu, seu brilho cintilando as folhas das imensas árvores que cercavam a casa azul clara. A mulher na varanda acomodou-se melhor na cadeira, movendo-se o mínimo possível para não acordar a pequenina que dormia em seu colo. Ao mesmo tempo, assistia com olhos de águia seus gêmeos correrem pelo gramado, aproveitando um dos poucos dias ensolarados daquela cidade sombria.
— Mamãe, achei uma flor! – Annabelle, sua doce Annabelle, correu até ela com uma pequena margarida em mãos, o sorriso de orelha a orelha. Colocou-a no cabelo cor de cobre de Rose, que ainda dormia no colo da mãe. – É uma daisy, mamãe! É o que a Rosie deveria ser!
A mulher sorriu, carinhosa, passando a mão pelos cabelos ondulados da filha mais velha, tão ou até mais acobreados que o da pequena, que já dava sinais de que acordaria.
— Filha, se três anos antes você tivesse me dito para chama-la de Daisy eu juro que teria te atendido. – Ela sorriu novamente, dessa vez ajeitando melhor a menorzinha no colo.
Annabelle revirou os olhos, cruzando os braços e fazendo bico. Ao mesmo tempo, Nathaniel corria em direção à mãe e as irmãs.
— Mamãe, também achei uma daisy! – Ele sorriu para a irmã gêmea, que já começava a desfazer o bico. – Você pode ter outro bebê, e chamar de Daisy! Assim a Belle vai parar de encher e nós vamos ter mais companhia!
A mulher gargalhou, corando, enquanto agradecia internamente pela inocência de seus filhos. Sentou a Rose, que já acordara, em seu colo, aliviada pela pequena não ter começado a chorar, e voltou a olhar para os filhos mais velhos.
— Talvez um dia, crianças. Mas por enquanto o mundo está bagunçado demais para um novo bebê, não acham?
A expressão dos gêmeos assumiu um brilho maduro demais para crianças de apenas oito anos, e eles deram-se as mãos em sincronia, ao mesmo tempo segurando as da pequena Rose, que encarava-os com os enormes olhos azuis.
— Nós vamos ficar bem, mamãe? – Nathaniel encarou a mulher, e ela não conseguiu evitar um suspiro. – Mudar de continente vai realmente nos proteger do que está vindo?
A mulher passou a mão nos cabelos castanhos do filho, idênticos aos seus, e sorriu.
— Não se preocupe, meu amor. Eu e seu pai sempre os protegeremos. – Ela levantou-se, vendo ao longe os cabelos ruivos do marido, descendo a estrada de terra na motocicleta que ela tanto odiava. – Agora vamos tomar banho, sim? Papai já está chegando e hoje é dia de todos fazermos o jantar.
E então, rápido demais para olhos que não fossem maternos, o brilho de maturidade do olhar das crianças sumiu, voltando àquele cheio de alegria e sem nenhuma preocupação, enquanto os gêmeos seguiam a mãe para dentro de casa gritando coisas como “você que vai ajudar a lavar a louça, eu ajudei ontem”.
Após um jantar carregado de risadas e disfarçados olhares de preocupação por parte dos pais, as crianças foram dormir. A mãe, silenciosa, sentou-se ao lado do marido na mesa de jantar, suspirante. Ambos carregavam o mesmo peso nas costas: o medo pelo futuro dos filhos.
— Temos que partir logo, querida. – Ele passou a mão pelos curtos fios ruivos, e em seguida pela barba. Os olhos azuis faiscavam de preocupação, refletindo as chamas da lareira enquanto uma chuva torrencial caía, tremendo as janelas da casa com seus trovões. – A guerra está se aproximando.
Ela repetiu o gesto do marido, jogando os cabelos castanhos para trás e suspirando.
— Eu sei, querido. Mas não queria me mudar com Rose tão nova. É uma viagem longa, mesmo para os gêmeos. E lá não é o lugar mais seguro do mundo, você sabe.
Ele sorriu, passando a mão pelos cabelos da esposa, o olhar repleto de amor.
— É mais perigoso ficar em Londres do que no interior da China. Sua viagem de lá pra cá foi horrível, mas isso faz anos. Fora que existe a chance de os gêmeos despertarem meus genes, e nós dois sabemos o que vai acontecer com eles se algum desses maníacos nos achar.
Ela fechou as mãos, apoiando o queixo, os dedos em frente à boca. Fechou também os olhos e estremeceu, lembrando-se da viagem que fizera à Londres quase uma vida atrás. E pensar que sonhara com uma nova realidade.
— Nós já temos o dinheiro para as cinco passagens?
Ele assentiu, e ela fechou os olhos novamente, dessa vez com força, como se controlasse lágrimas que não estavam ali. Era forte demais para chorar. E, afinal, estava voltando para casa. Mesmo que aquele não fosse seu lar.
— Para fevereiro, então. Rose merece comemorar seu aniversário em terra firme.
— Nós podemos tentar passagens de avião, querida. – Ele viu a expressão de terror da esposa e sorriu. – Foi só uma ideia, calma. Vamos de navio.
Ela assentiu, olhando para o corredor que dava para o quarto dos filhos. Suspirou novamente, já se irritando por fazer tanto isso.
— Vamos para a China, então.
Os meses passaram mais rápido do que todos gostariam, e nem as decorações de Natal conseguiram acalmar os corações ansiosos, tanto dos pais quanto das crianças. Todos se agitaram ainda mais quando, sem aviso, os genes que o pai tanto temia passar para os filhos acabaram despertando. Coisas quebradas e muita preocupação marcaram o dia a dia dos pais, enquanto tentavam ensinar os gêmeos a controlar as novas habilidades.
O aniversário de Rose chegou depressa, e a pequena não se deixou abalar, mesmo quando acordou em seu tão esperado dia com um trovão alto o suficiente para fazê-la pular da cama nas primeiras horas da manhã. Manhã essa que foi cheia de brincadeiras no interior da casa, bagunçando ainda mais as caixas de mudança e levando os adultos à loucura. A mudança seria em duas semanas, e o processo de encaixotamento já estava quase no final.
O bolo de Rose era colorido, e seu rosto melecado de glacê foi o suficiente para alegrar o resto da família. Entre latidos dos cachorros que haviam adotado a pouco tempo – mesmo com as reclamações da mãe, que não via vantagem em levar dois peludos no navio com eles – e as risadas das crianças, o dia parecia uma daquelas memórias maravilhosas que você nunca seria capaz de esquecer.
A noite chegou, e com ela o cansaço. Klaus deu banho na filha caçula, enquanto ouvia a esposa brigar com os gêmeos, que haviam começado a discutir quem escolheria o quarto primeiro quando chegassem na casa nova – mesmo que soubessem que dormiram juntos como sempre fizeram.
O homem foi até a sala com a filha quase adormecida nos braços, encostando-se na parede e rindo dos filhos. Colocou a pequena no chão, que correu na direção dos irmãos, seguida pelos dois cachorros, e recomeçaram a bagunça.
Klaus foi até a esposa, enlaçando sua cintura com um dos braços, um beijo na testa como gesto de carinho. A mulher sorriu, cansada.
— Vá tomar um banho, eu cuido dos pestinhas até eles dormirem. Amanhã o dia vai ser corrido.
Ela riu, assentindo e já indo em direção ao banheiro quando um trovão ecoou na parte de fora, forte o suficiente para vibrar as janelas da casa. As crianças correram até a mãe, desesperadas.
— Acalmem-se, meus amores. – Ela se abaixou, dando um beijo na testa de Rose, que começava a querer chorar. – É só um trovão.
Klaus talvez tenha sido o primeiro a reparar nos cachorros, que começaram a rosnar para a porta. Quando o segundo trovão ecoou, fazendo cair a louça que secava na pia, Annabelle e Nathaniel seguraram a mão da irmã, que já começara a chorar, assumindo uma posição protetora ao redor da menor. A mãe levantou-se, olhando para o marido, a preocupação evidente.
— Não é só um trovão, mamãe.
Ela assentiu para a filha, correndo até o mais alto armário da cozinha e puxando uma caixa preta de lá.
Um terceiro trovão explodiu as janelas, e os latidos dos cachorros misturaram-se com os gritos das crianças.
— Leve-os até nosso ponto de encontro! – A mais velha gritou para o marido, virando-se em direção à porta. – Eles não podem me matar, mas se vocês estiverem aqui eu não vou conseguir me concentrar. Vão, ande!
Klaus beijou a esposa, fazendo-a se calar. Afastou-se, já pegando a filha mais nova nos braços, e seu olhar dizia tudo: me encontre, eu te amo.
O ruivo flexionou as costas, e imensas asas prateadas abriram-se ao seu redor. Observou, com tristeza, enquanto os filhos faziam o mesmo, suas asas brancas como neve abrindo-se, tão novas, tão sem experiência.
Percebeu que as três crianças se machucaram com os cacos de vidro, mas não teve tempo para raciocinar. Com um sinal, os gêmeos levantaram voo em sua frente, atravessando a janela dos fundos, seguidos pelo pai. Rose agarrava seu pescoço com força, tremendo, e ele segurou-a mais perto, tentando acalmá-la.
Não chegaram a ir muito alto. O barulho de gritos, tiros e coisas quebrando era alto, e logo a maioria das balas foram em sua direção, mesmo com os esforços da matriarca em proteger seus pequenos. O ganido dos cães distraiu as crianças, e ambos gritaram de dor e medo quando uma bala atravessou uma das asas de Nathaniel. Klaus mal teve tempo de jogar Rose nos braços de Annabelle, gritando contra o vento para que a menina os encontrasse no lugar combinado. Atirou-se como uma bala em direção ao filho que caía, segurando-o antes que atingisse o chão, rolando juntos para dentro da floresta.
Annabelle agarrou a irmã com força e continuou voando o mais rápido que podia. Sentia fisicamente a dor do irmão, o medo de Rose e seu próprio desespero. Os três sentiam, e a mescla de medo e terror era quase o suficiente para fazê-la congelar no ar. Ela ouviu as hélices de algo que parecia um helicóptero, e, imitando o movimento do pai, disparou em direção ao chão. Não tinha prática com as asas, e os pequenos braços doíam com o peso da irmã.
Caiu no chão com força, levantou-se rápido e correu, praticamente arrastando Rose pelo braço. Corriam sem enxergar a o caminho, a chuva e as lágrimas turvando sua visão. Sentiu o desespero aumentar ao perceber que não estavam sozinhas, e um medo quase dez vezes maior golpeou seu coração logo em seguida. Nathaniel também estava em perigo. Onde estavam seus pais? Ela não podia voltar atrás, não podia ir em direção ao irmão. Tinha que proteger Rose.
Olhou para a frente, e imediatamente parou, quase rolando no chão com a irmã. Estavam cercadas. Homens de uniforme preto as encaravam, o símbolo vermelho de suas roupas parecia escorrer com a água da chuva. Chorou, vendo-os apontar as armas em sua direção. Sem pensar, abraçou a irmã, as asas brancas cobrindo-as como um casulo protetor. E então os gritos tomaram sua mente, não só seus, mas de seus irmãos. Tudo doía, e ela sentiu um aperto no estômago. Dor, tanta dor. Rose gritava em seus braços.
Tudo parou, e elas se encararam enquanto o mundo parecia cada vez mais escuro. Uma constatação dura demais para duas crianças: Nathaniel se fora, e provavelmente seus pais também. Estavam sozinhas.
E então, o escuro.
Fale com o autor