Misery Business

10 Capítulo 9 - Amor cego


Notas iniciais
Esse capítulo é carinhosamente dedicado a Ana Carolina C., que mesmo em outro estado e outra região ainda é uma das pessoas mais importantes do meu mundo. Obrigada, meu amor, por tudo o que você faz por mim, longe ou perto. Me desculpa se não consigo te tratar de nenhum jeito que não seja a pior forma, mas saiba que há uma linha tênue entre o amor e o ódio quando se fala de irmãos. O post é dedicado também ao Gabriel (vulgo "amiguinho novo"), amigo da Ana que concordou tão gentilmente em ler a FIC! Espero que goste (:

— Sabe... -começou Jonas, interrompendo o longo silêncio que parecia se estender entre nós, seus olhos continuavam presos em sua tarefa. — Eu não costumava falar muito com você.

— Pois é. —foi a coisa mais inteligente que eu pude imaginar para responder.

— O pessoal vai sair essa sexta para o shopping, você está afim de ir? —perguntou, ainda sem me olhar. Preferia assim, talvez não fosse aguentar não enrubescer ao tê-lo me encarando tão de perto.

Mas, ele estava me convidando para sair? Era isso que eu tinha ouvido? Sim, devia ser. Por isso meu cérebro demorou tanto para processar as palavras, tempo demais até para Jonas, que logo tentou se adiantar:

— Tessa e o resto das suas amigas vão, vou chamar Thiago mais tarde também.

— T-tudo bem, eu vou. —sorri meio abobada e deixei o lápis cair de minha mão. —Desculpe.

E então ele me desculpou, envergou-se para pegar meu lápis, pediu para casar comigo e fomos felizes para sempre. Ou não. Ele só agarrou o lápis e me entregou mesmo.

— Que foi, você está bem? — Jonas arqueou as sobrancelhas um tanto preocupado pelo fato d'eu estar falando como uma vaca com cólica. Mas espero que ele não cite esse caso. — Parece que está... Sei lá, passando mal. Gaguejando.

Já parei para falar que meninos são muito ingênuos? Pelo menos ele não me chamou de vaca com cólica.

— Deve ser o mal de Parkinson? —murmurei, virando-me envergonhada.

Jonas riu e mordeu os lábios.

— Deve ser o biscoito de mel e aveia. —brincou.

— É. Deixou sequela.

E então, enquanto escrevíamos nossos trabalhos e discutíamos alguns pontos, ele tocou em um assunto ao qual eu não queria muito falar, muito menos perto dele.

— Você viu o que aconteceu esses dias?

— Não. O quê? — estava já quase no fim da minha redação sobre política. Crônica argumentativa era meu estilo favorito. Talvez, porque eu gostasse de textos onde eu pudesse escrever livremente e simplesmente deixar que as ideias que surgiam se expressassem sem problemas, gostava de viajar nas palavras, criticar e me enrolar nos períodos e frases durante o desenrolar da crônica. Por isso não estava exatamente ligada no que Jonas dizia. Mas só até aquele momento.

— O presente da Hell Girl para a Marcela.

— Ah, o sapo? —sorri de canto. —Hell Girl é uma garota bem engraçada, não é?

Jonas concordou. O assunto pareceu agradá-lo, por isso largou um pouco a caneta para virar-se para mim.

— Gosto do jeito como ela brinca, as pegadinhas e como faz tudo sorrateiramente... Mente brilhante não é mesmo? —ele me encarou com aqueles olhos azuis incandescentes, do jeito que eu desejei tanto que ele não fizesse. Com o sorriso por cima dos dentes brancos, meu coração fraquejou antes mesmo que eu pudesse responder.

Jonas havia acabado de me chamar de "mente brilhante"! Você sabe o quão incrível é um elogio desses? Mas eu não poderia agradecer pessoalmente como desejei, por isso meus lábios se separaram de leve e eu dei um suspiro, me contendo a dar de ombros.

— Quem sabe o que se passa na mente dela, não é mesmo? Gosto dessa garota. — foi aí que eu fiz uma pergunta perigosa — Você gostaria de conhecê-la, não é?

Jonas suspirou.

— Quem me dera.



Enruguei os lábios e deixei que o silêncio entre nós durasse mais um pouco, mas foi minha vez de interrompê-lo.
— Eu imagino como a Hell Girl faz tudo isso.
Jonas tencionou os ombros e se voltou para mim.
— Como?
Suspirei, talvez estivesse cometendo um grande erro. Mas o amor costuma nos deixar irracionais demais, confiantes demais. Eu sentia que poderia confiar em Jonas.
— Básicamente, o ser humano é uma massa de pensamentos. Somos seres racionais, que ocuparam um estado de governo no mundo animal, devido as capacidades mais desenvolvidas que aprimoramos ao longo da evolução. Claro que uns e outros se destacam em certas coisas, mas imagine-se em uma sociedade toda montada como a que vivemos, cercada com a opressão, ignorância, egocentrismo, como uma aristocracia política modernizada. Imagine-se engolindo tudo isso sem poder se expressar por ser muito jovem, não ter poder aquisitivo ou qualquer domínio da oratória? Só não somos robôs, pois, felizmente, fomos feito com sistemas adaptáveis ao ambiente, a situações e ao que chamamos de "sentimentos" e isso não nos torna estúpidos sacos de carne automatizados, mas "seres". Eu sou um ser, você é um ser e... a Hell Girl é... Uma voz ativa. Ela é tudo o que nós queríamos ser e não podemos, porque estamos cercados de opressão. E sabe por que essa limitação não a atinge? —sorri. — Porque ela é ninguém e todos ao mesmo tempo. Ninguém pode acusá-la de nada. Mas ela pode fazer o que quer e faz isso de forma impactante. Ela é o seu sonho e o seu pior pesadelo. A rainha e a plebéia. Nada a impede, porque ninguém sabe quem é essa garota e ninguém pode por o dedo na cara dela e dizer o que ela deve fazer. Seria patético falar isso para nada. Entende?
Pude ver os olhos espremidos de Jonas se fecharem, enquanto um sorriso alegre crescia ainda mais em seus lábios. O primeiro sorriso que o vi esboçar que me parecia verdadeiro. O tom agudo de tristeza em seus olhos pareceu sumir por alguns instantes.
— Posso dizer que acho ela mais incrível ainda agora? —disse Jonas, debruçando-se quase que inconscientemente em minha direção.
— Claro. E eu concordo com você, Jonas. —falei em um tom baixo — O dia em que eu entender o que se passa na cabeça dela, talvez eu aprenda a me entender.



— De verdade? —ele sussurrou, agora mais perto de minha orelha — Ela fica incrível de roupa preta.
— Você já viu?

Ah, era o que eu temia.

— Por fotos. —concordou, aparentemente tranquilo — Ela tem os olhos brilhantes, misteriosos e eles ficam miúdos iguais ao seus quando ela está pensando. Está no site de fofocas da escola como: "A revelação da imagem da Hell Girl".
Meu corpo não sabia se hiperventilava por ter recebido um elogio ou se meu coração disparava por saber que as tais fotos que estavam na minha câmera agora se encontravam pela internet.
— V-você... Gosta dela? —foi difícil dizer, porque no fundo eu sabia que estava falando de mim mesma. Era como se eu perguntasse se ele me amava na cara de pau. Pigarreei.
— Sinceramente? Acho que sim. —Jonas mordeu o lábio inferior. — Um dia eu ainda vou saber quem é... —seus olhos esperançosos fitaram o horizonte com uma pontada extra de esperança. Meu coração fraquejou outra vez e minhas bochechas rosaram e queimaram minha pele. Quando abaixei os olhos para a redação, senti que já estava na hora de entregá-la para me afastar um pouco de Jonas e respirar.
— Acho que vamos conseguir descobrir depois de terminar o trabalho... —brinquei, na tentativa de mudar de assunto.
Jonas pareceu não perceber o "nós" daquela frase, mas eu não estava me referindo a encontrar a verdadeira HG. Estava me referindo a se ele seria capaz de achá-la.

Jonas era uma garoto realmente esperto, o tipo de pessoa que eu preferia não subestimar. Por isso não podia simplesmente me deixar levar por meus impulsos de paixão e entregar os pontos tão fácil. Foi isso que pensei ao deixar a folha sobre a mesa da professora e respirar. Dali, de longe, fiquei enconstada na parede da sala, ignorando a gritaria insandecida, as risadas e um Thiago que me olhava de soslaio, com um sorriso no rosto, parecendo realmente feliz ao lado de minha arquinimiga Paula Bjork. Nada mais me interessava naquele momento, apenas Vitória Garcia, a garota que roubara minha câmera.

Vitória estava sentada com Devon, provavelmente ela era a próxima presa fácil dele e parecia estar caindo direitinho no charme do garoto. A menina se insinuava para D., rindo forçadamente e jogando os cabelos negros para os ombros de vez em quando. Percebi que ela usava rímel e lápis de olho, assim como um batom rosa claro que não lhe era costumeiro. Sua expressão dizia: "Por favor, me leve para sua cama", assim como toda sua movimentação corporal. Ela estava, definitivamente, vestida para matar. Sem saber que, na verdade, a caça era ela. Devon parecia o mesmo de sempre, com seus cabelos castanhos claros, a calça do tamanho certo, o jeito descolado e o piercing na orelha. O violão estava sempre do seu lado, reservado para os ensaios de sua banda depois da escola. Ele observava Vitória com o interesse de um conquistador. Ela não me parecia suspeita, mas eu precisaria investigá-la e, por isso, era minha hora de visitar a sala do Clube de Fotografia.

Desviei o olhar de Vitória e encarei Marcela. A mesma, convenientemente, também me olhava. Mesmo assim não se deu ao trabalho de desviar o olhar. Apenas apontou para Jonas e, sem dizer, formou com seus lábios o que eu entendi como: "Ele já é meu" , depois simulou um selinho em sua própria mão e sorriu venenosamente.

Marcela tinha várias problemas com a Hell Girl e não deixava de ter com Emily Hellsmith, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Nem com duas vidas eu consigo gostar dessa garota.

Desencostei da parede, já estava cheia de tanta idiotice e precisava me concentrar em minhas missões para mais tarde. Voltei para a mesa, junto a Jonas e o mesmo me recebeu com mais um de seus doces e repetidos sorrisos. Eu não cansava deles, claro. Mas algo doía em mim ao vê-los.

— Parece preocupada, Emily, o que foi? —perguntou, parando sua mão no caminho de colocá-la em minha testa. Eu não deixei. Segurei seu pulso com firmeza e o coloquei ao lado de seu corpo.

— Pare de se preocupar com os outros, Jonas, se você não sabe nem ao menos cuidar de si mesmo. —berrei, tapando a boca logo depois para ver se alguém havia nos escutado. Mas estava tudo barulhento demais para que alguém pudesse prestar atenção logo em nós dois. Virei-me para Jonas outra vez, dessa vez um pouco mais séria e menos assustada. Levemente arrependida, mas pronta para encará-lo.

Mas... Como posso dizer? É assim que você percebe que falou algo errado. Quando a pessoa, em milésimos de segundos, destrói o perfeito rosto da alegria. Seus olhos claros escurecem, seu sorriso desmancha e a aura negra a sua volta fica quase tateável. E então, ele parece horrível e tudo isso por um simples comentário.

E então eu perguntei algo que, com certeza, ele não ouvia há muito tempo:

— Por que você está triste, Jonas?



Notas finais
Vish. O que será que vai rolar, em?