Misery Business
15 Capítulo 14 - Câmera Perdida
Notas iniciais
Despedi-me das meninas antes de sair da quadra. Podia sentir a dor em meus músculos quase insuportável. Depois de tantos dias parada, estava mais do que mal aquecida. De qualquer forma, meu estado físico não era uma desculpa para escapar do que eu planejava para agora. Por isso pedi ao treinador um tempo maior no intervalo, para "checar os uniformes e coletes para os próximos treinos e jogos" e não precisei implorar muito. Logo depois, Dimas jogou-me a prancheta com a lista de todos os equipamentos que deveriam ser contados. No canto superior da ficha havia a localização da sala de objetos esportivos: "2º andar, 209". Uma coincidência? Foi nesse andar e em frente a essa sala que esbarrei com o menino mascarado de olhos castanhos daquela vez. E também é esse o andar, por muita sorte, do Clube de Fotografia e dos Achados e Perdidos, de onde, acredito eu, Vitória teria tirado minha câmera e colocado em seu armário.
O colégio ficava praticamente deserto no horário das atividades de clube, nem mesmo os funcionários de secretaria e coordenação ficavam por lá, apenas um segurança, os treinadores e professores responsáveis e os membros. Mas, na maioria das vezes, era difícil encontrar alguém pelos corredores, apenas na hora do intervalo, quando todos saem de suas tocas para beber água, lanchar e descansar. Era exatamente por isso que eu precisava ser o mais discreta possível ao andar por aí e, mesmo se me encontrassem, precisava de um álibi, por isso a desculpa de que precisava ir checar os equipamentos de vôlei.
Passei pelo clube de futebol no meu caminho até a escada, parando na porta para acenar para Thiago que saía da quadra com uma toalha pendurada no pescoço, o rosto vermelho e a respiração ofegante. Ele mancou até me alcançar e desabou no banco ao meu lado.
— Oi, Emily. — ele disse com dificuldade — Hoje o treinador resolveu pegar pesado e metade do time está morto antes do treino em jogo. O Jonas saiu daqui correndo assim que deu a hora do intervalo e não apareceu até agora.
— E ele jogou bem? — perguntei, sem saber muito o que falar.
— Aquele idiota sempre joga bem, por isso ele é o capitão. —resmungou Thiago, levantando-se novamente — Está indo lá na Vitória?
— Sim. Mas resolvi parar aqui para disfarçar um pouco e ver você.
— E ver o Jonas, claro.
— Eu não esperava vê-lo, Thiago! Por favor, não torne as coisas mais difíceis do que elas já são.
— Claro, Emily, eu torno as coisas difíceis. Fale comigo quando estiver em condições de aceitar os próprios sentimentos. — e então ele saiu, arrastando-se, passando por mim com um esbarrão para alcançar a porta e ir mancando em direção a cantina.
Eu não podia mentir que os instintos de Thiago eram afiadíssimos. Ele e Tessa me conheciam como ninguém, mas podiam muito bem estar errados. Até eu podia estar errada, assim como o meu coração também. Talvez toda essa agitação dentro de mim, em relação a Jonas, fosse apenas pelas novidades, por tudo o que descobri e tentava processar em minha mente.
Era errado em vários sentidos amá-lo, mas esse não era o meu primeiro maior problema no momento. Por isso, tentei mantê-lo longe da minha linha de pensamentos enquanto respirava fundo e montava, com todo cuidado, minha expressão para Vitória. Não tínhamos a história mais animadora e amigável de amizade, mas eu esperava que desavenças da infância ficassem no passado quando se tratava de negócios. Era hora de mostrar a minha melhor atuação e a prova de que eu havia ficado madura o suficiente desde a nossa última briga.
Quando entrei naquela sala, eu estava pronta para mostrar o motivo de eu, e mais ninguém, ser a Hell Girl.
— Vitória, me desculpe, mas acabei de passar nos achados e perdidos procurando pela minha câmera fotográfica e eles disseram que todos os equipamentos desse tipo eram deixados sob os cuidados de vocês.
Quando cheguei, um dos membros saía com um saco de fotografias na mão, me interrompeu repentinamente ao se despedir de Vitória. A mesma, agora já virada pela minha repentina aparição, sorriu para o garoto e voltou sua atenção a mim.
— Oi, Emily. É uma surpresa vê-la por aqui. —ela sorriu, desabando em sua cadeira giratória — Você perdeu a sua câmera e agora está procurando-a?
— Sim. É uma câmera semi-profissional da Nikon. Na verdade, é meio que da minha mãe. Ela é jornalista e usava essa máquina para os seus artigos. Só que ela ganhou uma nova e me deu essa. E, acredite, perdê-la uma semana depois não a deixou nem um pouco satisfeita. — aproximei-me de sua mesa lentamente, não queria parecer ansiosa demais, não podia deixar o nervosismo subir minha cabeça e estragar tudo. — E então? Algum sinal de vida da minha máquina?
— Há quanto tempo você perdeu isso, Emily? — perguntou Vitória, arrastando sua cadeira até um armário de madeira no canto da sala.
— Um mês, mais ou menos. — dei de ombros — Estive tanto tempo procurando por ela em casa, que me rendi e resolvi procurá-la na escola.
— Sim, eu entendo. — ela subiu na cadeira para dar altura no armário e dele puxou uma caixa azul escura com várias câmeras novas. Colocou-a com todo cuidado sobre sua mesinha, depois de descer de cima da cadeira. — Fico surpresa de podermos ter uma conversa civilizada depois da última vez que nos falamos. Eu realmente me arrependo de tudo o que aconteceu entre nós, Emy.
— Não podemos nos culpar, V. Éramos crianças brigando pela lancheira mais estilosa.
Vitória riu e, do meio da caixa, puxou minha Nikon. Ela parecia exatamente como eu a deixei.
— Essa aqui esteve no meu armário por um tempo, Emily. Eu devia ter te dado antes, mas assumo que estive com um pouco de receio quanto a sua recepção.
Peguei-a fingindo absoluta felicidade. Deixei minha prancheta com as listas em cima de uma das bancadas e segurei minha câmera, ligando-a para conferir as fotos. Estavam todas lá. As antigas fotos de artigos da mamãe, fotos de família, fotos minhas com Thiago, fotos do meu irmão, mas... Nada das fotos da Hell Girl. As que, supostamente, haviam vazado na internet.
— Por que ela ficou no seu armário, Vitória? Algum problema? — perguntei, tentando parecer o menos desconfiada possível e mais assustada.
— Não sei se você sabia, Em, mas tinha umas fotos da Hell Girl na sua câmera. Uma não, várias. Mas nenhuma mostrando o rosto dela, apenas ela em um uniforme, pelas redondezas. Parecia exatamente como a mulher gato! Onde você as conseguiu?
— Fotos da Hell Girl? Na minha máquina? Mas não tem nenhuma aqui, Vic.
— Eu tirei todas, para poder analisar. Mas, assim que as vi, postei no site de fofocas do colégio. Era uma notícia bombástica! "A Revelação da Imagem da Hell Girl". Nunca consegui tantas visualizações em uma semana inteira! Nem mesmo quando Devon pegou aquela mulher de quarenta anos! —exclamou ela, girando em sua cadeira com a aparente animação.
— Desculpa, V, mas Devon não pegou aquela mulher de verdade. Ela estava bêbada e ele se aproveitou da situação para se aproximar, mas algum idiota tirou a foto quando ela caiu em cima dele. E, outra, estou realmente preocupada agora se você quer saber. Quem quer que seja roubou a minha câmera para tirar fotos da Hell Girl, fotos que poderiam ter caído nas mãos da coordenação e todos achariam que eu sou essa... menina super heroína aí. E do jeito que esse bando de gente pop odeia ela, eu não quero ter inimigos se nem mesmo mereço eles!
— Calma, Calma, Hellsmith, não precisava ficar irritada. — disse ela, em uma voz mais calma agora — Ninguém vai pensar que você é a Hell Girl, porque ninguém nem mesmo sabe de que câmera vieram as fotos. Por isso, eu tive o cuidado de tirá-las da sua máquina.
— Mas, você sabe pelo menos que inspetor pegou a minha câmera? Onde ele a achou?
— Não foi um inspetor que trouxe a câmera até nós, Emma. — brincou ela, usando o apelido carinhoso de Tessa.
— Não? Mas só eles tem acesso ao Achados e Perdidos, eu não...
— Foi Jonas, Emily. Ele me trouxe a sua câmera.
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