Misery Business
16 Capítulo 15 - Mamma Mia
Notas iniciais
O capítulo que postarei hoje já foi escrito há um tempinho, pois estive muito positivamente inspirada por algumas coisas, inspirações românticas e inspirações dramáticas, tive algumas ideias e, não aguentei, fui logo adiantando um capítulo. Estava pensando em começar um pequeno assunto para se discutir nas reviews, sobre livros que vocês já leram. E dar, aqui, a minha recomendação em cada um dos posts! O primeiro livro que recomendo é um clássico moderno e, acredito eu, logo será como "O Diário de Anne Frank" (se bem que... já é). Se chama "A menina que roubava livros", e , por Deus, me apaixonei por esse livro. E vocês? Já leram? Gostam desse tipo de leitura? Qual livro vocês me recomendam? Estou precisando renovar minha estante!
Não sei quanto tempo eu fiquei em silêncio depois daquilo, mas falar era quase impossível. A raiva que me tomou subitamente foi incontrolável e eu sabia que não podia deixar isso a limpo. Mas como eu poderia imaginar que os problemas de Jonas eram ainda mais complicados? E, pior, como eu pude acreditar que ele realmente tivesse sido completamente honesto?
A vida realmente é uma caixinha de surpresas. Há horas atrás eu mal poderia imaginar que Jonas era, na verdade, um negligenciado, revoltado, mentiroso e, ainda por cima, falso. Provavelmente ele havia inventado todo papo de me amar para que eu abaixasse a guarda e foi exatamente o que eu fiz. Permiti que ele me dominasse, que me tirasse todas as informações que lhe interessavam, que me beijasse, que me fizesse acreditar que ele estava realmente lutando pelo meu coração.
— Emily? —chamou-me Vitória, ela havia chegado mais perto de mim sem que eu percebesse e agora acenava em frente ao meu rosto freneticamente. — Você está se sentindo bem? Eu posso chamar o elevador para te levar até a enfermaria se você quiser.
Tive que me esforçar um pouco até encontrar minha voz, até forçar o refluxo que me atravessava, e ameaçava colocar para fora a maçã que eu havia comido ainda pouco, a parar. Foi tão difícil quanto qualquer coisa que eu tivesse feito antes.
— Não, V. Obrigada, mesmo! — sorri com toda a força de vontade que tinha, mas pude sentir os cantos de meus lábios tremerem ainda assim. — Volto aí amanhã para dar aquela entrevista para o jornal do colégio.
— Ah, é mesmo! — Vic exclamou, afastando-se para sua mesa outra vez — Não esqueça sua prancheta. E, se vai revisar os materiais, é melhor se apressar. Faltam dez minutos para o fim do intervalo.
Peguei minhas coisas e agradeci mais uma vez antes de sair da sala. Pude sentir meu coração batendo rapidamente em meu peito, a medida que minhas emoções endureciam por dentro. Eu sabia exatamente onde encontrá-lo e não esperaria nem mais um segundo para isso.
Abri a porta da sala de materiais esportivos e a fechei atrás de mim, usando a chave reserva que havia roubado do treinador para trancá-la. Guardei-a antes que ele. sentado na única mesa de escritório dali em frente a um laptop aberto, pudesse me ver do outro lado da sala. Ele estava, assim como eu pretendia, contabilizando os equipamentos para seu time. A surpresa em seus olhos ao me ver era completamente aparente, mas logo se desmanchou em uma expressão de calma e até indiferença.
— Você não é exatamente a pessoa que eu mais quero ver nesse momento. — soltou Jonas, quebrando o silêncio entre nós — O que está fazendo aqui?
— O mesmo que você. Mas, convenientemente, o encontrei aqui. Então vou poder adiantar algo que planejava para mais tarde.
— Emily, melhor não. Imagina o que pensariam de mim se abrissem essa porta e nos flagrassem? — brincou, largando-se na cadeira giratória.
Ignorei-o e me aproximei dele lentamente, tendo certeza de esconder a chave no bolso de trás da calça.
— Você estava com a minha câmera perdida, aquela com as fotos da Hell Girl. Posso saber o que fazia com ela?
Jonas suspirou e virou o rosto para a parede do seu lado, demorou muito até me responder:
— Eu não espero que você entenda os meus motivos.
— Não, eu não espero entender, porque você vai me explicar exatamente o que está acontecendo e o porque de você ter roubado uma máquina fotográfica com fotos da Hell Girl, que me pertence! — puxei a cadeira ao lado dele e me sentei o mais próxima possível, para poder encará-lo sem que ele desviasse o olhar a cada segundo. — Estou esperando.
— Emily, não fui eu que encontrei a sua câmera. Marcela a achou um dia, embaixo da sua cadeira. Nós estávamos indo para a casa dela e eu a esperava no andar debaixo, quando de repente ela apareceu com a máquina e me disse que era sua, perguntei se ela ia devolver e ela disse que não. Disse que não gostava de você e que andava muito estressada ultimamente, irritada em como alguns garotos andavam reparando em você, inclusive eu — nessa hora Jonas se inclinou um pouco em minha direção, mas eu apenas me joguei no encosto da cadeira para me afastar. Ele suspirou — Marcela me disse que ninguém poderia tirar mais a atenção dos garotos do que ela e que pregaria uma pequena peça em você.
— E você era o santinho do pau oco, coitado, não podia fazer nada para impedir aquela maluca. As vezes eu não entendo como eu pude acreditar em você quando disse tudo aquilo no intervalo. O quão burra eu posso ser? Você é um capacho da Marcela afinal de contas.
— Eu não sou capacho de ninguém. — disse Jonas entredentes — E eu disse que não esperava que você entendesse os meus motivos.
Foi a minha vez de suspirar e revirar os olhos, cruzei os braços no peito e fiz uma contagem mental para não agarrar no pescoço dele. Eu sabia que se começasse a estrangulá-lo, não seria capaz de parar e, com a porta trancada, ninguém poderia me impedir. Então, era melhor eu manter meus braços em algum lugar seguro.
— Você já percebeu como as coisas com você são sempre muito complicadas, Jonas?
— Emily, a culpa não é minha se você é descuidada. Como você acha que a Marcela conseguiu essas fotos?
— Eu não sei, Viccine, como? — perguntei, com toda a minha acidez presa na ponta da língua.
— Lembra quando ela armou para a Tati e a humilhou? Bem, Marcela já sabia que o namorado dela não era o cara mais fiel do mundo. Por isso não estava nem aí, era parte do plano ficar só esperando que ele fizesse o óbvio e, então, Marcela poderia ter a atenção da Hell Girl.
— Você quer dizer que aquilo que ela fez com a Tati foi só para chamar a atenção da HG?
— Sim. E não deu outra — Jonas deu de ombros — Você foi lá e armou sua vingança. Enquanto isso, Marcela tirava fotos da sua chegada pelo muro do terreno ao lado. Ela disse que você é exatamente como um gato, pula em lugares inacreditáveis com muita facilidade, mas seu defeito é ser segura demais de si, acha que nunca pode ser pega.
— E ela sabe quem eu sou? Digo, sabe quem é a Hell Girl? — a dúvida me consumia. A última coisa de que eu precisava era o meu segredo nas mãos de Marcela. Ela ia me comer viva se soubesse de um terço da verdade, poderia me chantagear, poderia me entregar para qualquer um e se isso acontecesse, não interessava se meu tio era diretor-assistente. Porque certamente seria expulsa do colégio.
— Só eu sei, Emma. —ele esticou sua mão para tocar meu rosto, mas eu desviei — Eu e Thiago.
— Tessa também sabe. — encarei-o — Você pretende contar a Marcela ou algo assim?
— Não. — ele sorriu — Mas preciso que coopere também. Nada vem de graça, não é?
Jonas se levantou e andou até o meio de sala, depois parou e virou-se para mim outra vez.
— Sabe, Emily, o que eu tenho com Marcela é bem complicado. A história que te contei mais cedo é verdade, do começo ao fim. A família de Marcela tem salvado o pescoço da minha mãe há um bom tempo, somos amigos, minha mãe tem pagado o que deve trabalhando. Só que Marcela é a filha única mimada, os pais fazem tudo para compensar a ausência, você sabe... — ele riu — Sei que é uma garota inteligente, que lê e coisa e tal, com certeza já deve ter visto essa situação em um dos seus livros. É por culpa dessa submissão dos pais dela que eu estou atado.
— Sua mãe deve favores a família de Marcela?
— A família dela é italiana e tem um restaurante muito famoso por lá, que existe aqui no Brasil também há poucos anos. Minha mãe conhecia a dela das poucas vezes que ela quis saber de mim na creche e, em conversas, quando falaram sobre a Itália, concordaram em dar emprego a mamãe. — Jonas fez uma pequena pausa nesse ponto, pareceu pensar em algo antes de continuar — Regina, minha mãe, conheceu um cara, supostamente muito gentil, que me enviava presentes pelo correio todo ano e era rico. Mas em compensação era maluco e altamente ciumento, odiava que minha mãe saísse para qualquer lugar sem ele e obrigava ela a seguir a rotina: casa e trabalho, trabalho e casa.
Levantei-me da cadeira e fui até Jonas. Se havia algo que eu não abria mão, era de olhar nos olhos de uma pessoa quando ela falava. Sentir cada emoção que passasse pela cabeça dela durante sua fala. Sempre acreditei que a chave da nossa alma está no nosso olhar, eles não mentem. Jonas fez questão de se aproximar ainda mais.
— Regina quis se separar e o meu padrasto ameaçava matá-la, era sempre aquelas discussões violentas. Até que ele resolveu bater nela. Foi assim que minha mãe fugiu de casa, correu para o trabalho para se esconder e o cara, ao sentir a falta dela, quebrou tudo em casa. Todos os pertences, rasgou roupas, retratos. Deixou apenas algumas poucas coisas, pois saiu e foi persegui-la, sabia onde ela estaria. Não havia muitos lugares onde ela poderia se refugiar de qualquer jeito. — Jonas se inclinou um pouco pro lado para apoiar-se na parede e deixou seus braços se largarem ao lado do corpo — Mas nisso a mãe da Marcela chegou antes do meu padrasto no restaurante e, na conversa, comprometeu-se a ajudá-la. Depois disso, foi aquilo que já se espera. Polícia, processo e todo o drama para se conseguir os bens perdidos na quebradeira. A família da Marcela deu um empréstimo a minha mãe para que ela refizesse a sua vida e, assim, ela está trabalhando até hoje para eles na Itália.
— E onde isso inclui você? —perguntei, sentindo toda a raiva e o rebuliço que antes tomavam conta de mim se aquietarem.
— Marcela disse que me amava e que sabia que havia chegado tarde demais para que o sentimento ainda fosse recíproco, disse que sabia que havia outra, pois eu não a tratava como antes. Mas que ela não aceitava que houvesse nenhuma outra a não ser ela, por isso, caso eu a decepcionasse, mandaria seu avô demitir a minha mãe e obrigá-la a pagar tudo o que devia a vista, tomando seus bens. —os olhos do Jonas eram agudos, imploravam pena, imploravam compreensão. Eu sentia dor ao encará-los.
— E desde quando o que uma pirralha fala faz alguma diferença na vida deles?
— Ela pode até ser uma pirralha, mas é uma pirralha herdeira. Aquilo tudo pertencerá a Marcela um dia, assim como os pais dela não são as pessoas mais tolerantes do mundo. Minha mãe tem uma queda para ser rebelde, mesmo que seja um mulher brilhante na cozinha, ainda assim discute muito com o chefe. Ela é 5 ou 50. Ou levará o restaurante a prosperidade ou a falência, por isso tê-la pode ser um risco. Nesse contexto, um pedido de Marcela pode ser mais poderoso do que imagina.
— Você ama muito a sua mãe, não é?
— Sabe, Emily, as vezes eu a odeio tanto que choro mais do que imagina todas as noites. A odeio tanto, porque não a entendo. A odeio tanto, porque ela não liga para mim como eu ligo para ela, mas eu não posso deixá-la. Não posso, nem por um segundo, abandoná-la como ela me abandonou, porque eu me importo muito com seu bem estar. Eu sei que, em algum lugar de seu coração, ela deve estar morrendo por não ter o filho dela ao lado. Sei que deve doer, pois eu sinto isso todo dia, toda hora. E é insuportável. Eu a amo tanto que a odeio por não poder amá-la tendo-a perto de mim.
Depois disso, não sei bem como tudo aconteceu, mas sei que em alguns segundos, ele começou a chorar e soluçar. Ainda falava de como amava a sua mãe em uma voz cada vez mais baixa, falava tudo que odiava e que amava nela, falava de toda a dor que sentia, falava de como tudo parecia pior a cada dia, falava que não ia desistir, nunca. Não ia desistir. E então suas lágrimas caíam incontroláveis de seus olhos, seu emocional altamente afetado, tanto que seus joelhos, já bambos, desabaram no chão e ele se debruçou em agonia. Seu corpo tremia, seus soluços balançava seus membros e ele chorava ainda mais a cada minuto. E então eu me agachei ao seu lado e o abracei, em silêncio, pois eu sabia que não havia nada a dizer naquele momento. Apenas escutei-o falar em uma voz ainda mais sussurrada: "Eu serei alguém de quem você terá orgulho, mãe. Tanto orgulho que você desejará voltar, você vai querer me ver. Você estará comigo. Regina, por favor... ".Depois continuei a abraçá-lo, tão forte quanto pude, até que o seu silêncio preencheu aquela sala.
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