Misconception
6 Aritmancia
Notas iniciais
Dormitório da Sonserina, segunda-feira, 1:35 a.m.
— Charlie, é você? – a voz de Beatrice me flagrou no momento em que eu ia me esconder debaixo das cobertas.
— Sim, sou eu. – respondi fingindo uma voz de sono – Amanhã nos falamos Beatrice, eu preciso descansar, boa noite.
Me escondi debaixo das cobertas e fechei os olhos pedindo a quem estivesse disposto a ouvir, que Beatrice não insistisse em me cobrar explicações, mas bufando logo em seguida quando a luz do dormitório se acendeu e meus pedidos foram em vão.
— A Charlie apareceu, Pansy. – Beatrice gritou bem alto para que a outra garota despertasse de uma vez. – Charlotte, se você acha que vai sumir o dia inteiro e voltar de madrugada e eu vou engolir essa história de sono você está muito enganada. Você está sóbria?
— Sim Beatrice, eu estou. – falei me sentando brava na cama e afastando a cortina para que Pansy se sentasse ao meu lado. – Eu só precisava de um tempo.
— Aconteceu alguma coisa na sua casa? – Pansy questionou – Está tudo bem com o seu avô?
— Aconteceu. – respondi olhando pro teto e sentindo todo o peso que eu não sentia desde que a conversa na sala precisa – A nossa casa em Londres foi invadida por comensais na madrugada passada, os aurores suspeitam serem os mesmos que causaram tumultuo no Ministério. Eles estão inconscientes e internados no St. Mungus.
— E o seu avô? – perguntou Beatrice em um tom preocupado.
— Ele está bem, e consciente na medida do possível. – suspirei ao lembrar esse detalhe – Está em um local mais apropriado para ele.
— E onde você passou o dia? Procuramos você pela escola interia. – Pansy perguntou com cautela.
— Eu quis ficar sozinha, então passei umas horas no banheiro dos monitores. – menti – E quando a fome bateu eu resolvi ir jantar em Hogsmeade.
— Não engoli esse desfecho. – Beatrice protestou e eu apoiei a testa entre as mãos – Sua bolsa ficou aqui, você comeu o que? Grama?
— Eu só tomei uma cerveja amanteigada e comi umas coisinhas no Cabeça de Javali – respondi rápido – fiquei de pagar da próxima vez, oras.
Ela me lançou um olhar desconfiado, mas não disse o que pensava provavelmente porque iria me perguntar em outra oportunidade. Apenas me deu um abraço caloroso.
— Fique bem, Charlie, qualquer coisa estaremos aqui. – ela concluiu.
— Durma bem, Charlie. – Pansy me deu um rápido abraço antes de voltar para sua cama.
— Boa noite, meninas. – falei depois que Beatrice apagou a luz – E obrigada pela preocupação, mas vocês não precisam se esgotar por isso. Terão momentos em que eu vou preferir ficar sozinha. – falei com cautela para que elas entendessem que eu não queria afastar ninguém.
O silencio tomou conta do quarto e eu esperei que fosse uma confirmação de que elas entenderam o que eu pedi. E mais uma vez, depois de várias distrações, o peso tomou conta de mim, como se algo estivesse me empurrando fortemente travesseiro abaixo, e o aperto no peito cada vez maior, não deixava com que as lágrimas ficassem onde estavam. Uma hora elas teriam que sair outra vez, e não seria toda a distração do mundo que as fariam secarem permanentemente. Era um medo inexplicável. Um medo de ficar sozinha para sempre.
[...]
Grande Salão, segunda-feira, 07:20 a.m.
— Bom dia. – falei forçando uma melhor expressão do que poderia oferecer.
— Para quem? – Beatrice perguntou – Charlie, você não pode me pedir para não me preocupar com você e acordar com uma carinha de choro dessas!
— E aliás, temos uma boa notícia para você! – Pansy começou – Trarão notícias de seus pais hoje! Dumbledore irá mandar alguém para o St. Mungus, provavelmente você terá algum retorno.
— Por que você não pede para ir vê-los? – fui questionada pela minha melhor amiga.
— Porque eu não sei se quero. – falei dando de ombros.
— Como assim? São seus pais, Charlotte! – ela me repreendeu em um tom de muita ordem, o que me irritou profundamente.
— Eu sei quem eles são, Beatrice! – devolvi no mesmo tom – Se eu não quero vê-los é porque eu tenho meus motivos.
— E quais são seus motivos? – ela perguntou como quem saberia que não teria uma resposta. – Eles sofreram um ataque muito maior do que a maioria poderia sobreviver.
Ela falou e eu percebi Pansy recuar e se virar para conversar com Millicent, que estava mais perto de seu grupo de amigos. Eu cerrei os punhos abaixo da mesa irritada com os comentários de Beatrice.
— Qual maioria? A maioria trouxa, você quis dizer? – eu perguntei exalando sarcasmo – De fato, eles são sortudos por conseguirem um cuidado bruxo sendo trouxas, uau, de verdade, e eu sou mais sortuda ainda porque afinal, eles estão vivos. Não abrem nem os olhos mas estão vivos. Realmente é maravilhoso isso e eu preciso ver eles passando por isso, como se já não fosse ruim o suficiente não poder fazer nada.
Quando percebi que sua expressão se suavizou e ela não diria nada, apenas balançou a cabeça e eu engoli o resto do meu suco.
— Qual a sua primeira aula de hoje? – eu perguntei.
— Adivinhação. – ela respondeu indiferente.
— Não temos o mesmo horário por hoje. – dei de ombros – Use esse tempo longe de mim para pensar na privacidade que eu pedi ontem à noite, e largue essa mania de achar que todas as minhas decisões são birra.
Me levantei mais brava do que o comum mas decidida de que essa briga não me atrapalharia quando eu passasse da grande porta do Salão em direção a sala de aula que eu teria Aritmancia em poucos minutos.
Quando cheguei ao corredor certo, adentrei a sala e ocupei meu lugar ao fundo, antes que a mesma se enchesse. Abri o livro da matéria e comecei a folhear o que teríamos no dia de hoje. Eu de fato estava lendo, mas ao mesmo tempo estava a refletir sobre o que acabara de acontecer no café da manhã. Dessa vez eu não conseguia ver que fui grossa por birra, por mais que conseguisse justificar minha grosseria com o medo que eu estava sentindo. De fato eu não queria ver meus pais da maneira como eles estão, e eu não quero que fiquem batendo nessa tecla comigo como se eu não pudesse sozinha me corroer para saber notícias dele. A realidade é que eu já me sentia culpada o suficiente por eles só estarem passando por isso pelo fato de morarem em um local onde acharam mais seguro para mim depois que vim para Hogwarts. Um lugar mais distante da família e de muitos movimentos que chamariam a atenção para o que se passa na vida pessoal deles. Por minha causa eles mudaram a vida deles toda já montada antes de eu nascer, e ainda assim por minha causa eles foram para um lugar onde seria melhor para ter-se uma filha bruxa. Um vilarejo onde ninguém fora do mundo mágico poderia imaginar que viviam dois trouxas responsáveis por uma bruxa. Uma pena que os comensais não estavam de fora do mundo mágico.
Um barulho da porta se abrindo e de passos rápidos à frente da sala de aula me desconcentrou da culpa interna e de meu monólogo, quando fui questionada.
— Senhorida Ledger? Não deveria estar saindo do Salão Principal somente agora? – perguntou a professora Vector ao checar mais uma vez as horas.
— Sim professora, mas eu não estava com muita fome, então resolvi subir logo. – me justifiquei.
— Entendo, querida. Acomode-se onde preferir, os alunos já estão subindo. – ela falou lançando-me um olhar meio piedoso.
Eu estava recebendo muito esses olhares ultimamente, e era algo que eu detestava: pena.
Logo os alunos foram entrando na sala e ocupando seus lugares em mesas postas em duplas, por fim, as mesas não foram todas lotadas e ninguém se sentou ao meu lado. Em seguida, a professora deu inicio a aula e todos se puseram a copiar e anotar atentamente o que ela dizia e demonstrava. Vendo aqueles números tomando uma complexidade cada vez maior, eu pude finalmente compreender o motivo pelo qual a sua sala não era muito cheia, mas segundos depois uma voz não mais tão atípica me chamou a atenção ao se manifestar depois de duas batidas na porta.
— Com licença professora, eu precisei me atrasar. – Malfoy disse da porta de maneira rápida e fria – O professor Snape estava ciente de meu atraso.
— Pode ocupar um lugar, senhor Malfoy. – ela falou sem muitos rodeios e ele correu os olhos pela sala.
Seu olhar cruzou com o meu, mas logo me virei para acabar de fazer as anotações que eu tinha em mãos, e antes que eu concluísse o que fazia, a mesma voz me interrompeu mais uma vez.
— Se importa? – ele perguntou colocando os livros ao meu lado e se sentando.
— Mesmo se eu não me importasse você já se sentou. – falei com uma expressão sarcástica sem desviar os olhos do que estava anotando.
— Você já foi mais intolerante, Ledger. – ele falou baixinho sorrindo de canto.
— E você já foi mais intolerável. – rebati no mesmo tom.
Ele apenas balançou a cabeça e pôs-se a anotar os números em seu pergaminho, com uma facilidade muito maior de compreensão do que eu aparentemente. Quando chegou a certo ponto, eu precisei chegar mais perto e perguntá-lo baixinho:
— Desde quando você estuda Aritmancia ? – sussurrei.
— Desde quando virou uma matéria opcional. – ele deu de ombros enquanto acabava os cálculos e virou-se pra mim abandonando a pena sobre o pergaminho – E você não está entendendo nada, não é?
— Não diria que é nada, mas que pouquíssima coisa – fiz uma cara séria e ele riu.
—Não é tão difícil, uma hora você aprende a gostar. – deu de ombros – Mas por que resolveu fazer só no sexto ano?
— Empurrei Adivinhação com a barriga até não agüentar mais. – falei revirando os olhos – Eu acho uma matéria chata demais.
— E qual você gosta mais? – ele me questionou parcialmente interessado.
— Voo? – falei como se fosse uma resposta obvia e ele riu.
— Boa resposta, artilheira. – ele disse por fim.
— Não me lembro de ser artilheira mais... – comentei vagamente voltando a copiar o que quer que fosse.
— Você quer que eu faça o que? – ele perguntou retoricamente – Implore de joelhos na frente de todo time para você voltar? Qual foi Ledger, você nem saiu do time de verdade.
— Eu saí de verdade sim! – falei cética para ele por ter duvidado de mim – E não vou voltar até você admitir que eu fui a melhor artilheira com quem você já jogou.
— Foi ótimo ter você no time, Ledger, temos uma vaga sobrando agora. – ele confirmou como quem não iria nunca admitir que eu era boa no esporte e eu o empurrei para o lado de leve fingindo estar irritada.
Continuamos em um silêncio longo para que Vector não reclamasse de nosso falatório e anotei tudo o que foi pedido para que apresentássemos feito na próxima aula, ela nos liberou e eu confirmei em meus horários que teria um tempo de Estudo dos Trouxas antes de dois horários ainda não preenchidos antes do almoço. Quando me levantei para sair, Malfoy me chamou mais uma vez.
— Ledger, qual é o seu horário agora? – ele me questionou.
— Estudo dos Trouxas, por quê? – perguntei.
— Tenho Adivinhação, mas depois disso estarei com dois tempos não preenchidos até o horário do almoço, se você quiser... – ele fez uma pausa pegando os livros e coçando a nuca timidamente – Eu posso te ajudar com o que você perdeu de Artmancia.
— Seria ótimo! – falei por fim – Te encontro na biblioteca em uma hora.
— Se importa se não formos à biblioteca? – ele perguntou um pouco sem graça, pensei em questionar, mas não estava muito interessada em seus motivos.
— Tudo bem, onde então? – questionei.
— Eu te espero em frente a sua sala, é no primeiro andar, não é?
— Isso. – falei por fim.
— Até mais. – ele se despediu.
— Até, e obrigada. – respondi e saí da sala.
Enquanto eu dobrava os corredores a caminho da pequena sala de aula, comecei a refletir sobre o que eu tinha acabado de fazer: eu tinha acabado de topar estudar com um garoto que semanas atrás eu daria qualquer coisa para socá-lo bem no meio do rosto. E não parava por aí, na noite anterior eu tinha jantado com a mesma companhia e por fim ele já não me parecia tão ruim assim.
Meus pensamentos divertidos logo se esvaíram para a preocupação que pesava em meu peito ultimamente e senti um desânimo tomar conta de mim por completo, e foi assim que segui pelos próximos cinquenta e cinco minutos de aula: remoendo a culpa que me cabia a todo o momento em que não interagia com alguém.
Quando a professora Burbage nos liberou guardei rápido meus materiais e saí da sala, indo a encontro dos cabelos platinados que logo avistei. Malfoy já me aguardava debruçado sob o muro entre as pilastras que davam para o jardim quando eu cheguei ao seu lado.
— Oi, vamos? – falei e ri quando ele levou um pequeno susto.
— Vamos sim. – ele falou caminhando.
Andamos em direção ao jardim, onde ainda havia muita gente conversando e rumando para suas aulas ou biblioteca, mas Malfoy não ficaria por ali com tanta gente falando muito, e nem eu conseguiria entender coisa alguma naquele ambiente.
— Está devendo algo para alguém? – perguntei divertida enquanto andávamos pela grama nos afastando dos corredores da escola.
— Como? – ele perguntou com o cenho franzido.
— É uma expressão que usamos quando alguém leva um susto do nada. – expliquei revirando os olhos.
— Ah sim. – ele respondeu parecendo ponderar sobre minha explicação – Não, me assustei com você mesmo.
Ele disse rindo de lado meio desanimado e levando um empurrão meu.
— A onde estamos indo? – perguntei já cansada – Eu estou com fome, não vou aguentar andar mais sem desmaiar.
— Quanto drama. – foi sua vez de revirar os olhos – Você acabou de tomar café, não deveria estar com fome.
— Não tomei. – respondi – Discuti com Beatrice e saí do salão antes mesmo de fazer uma refeição decente.
— Com ela você não fez escândalo? – ele perguntou fazendo alusão as vezes em que discutimos em locais públicos – Estou impressionado, você está evoluindo mesmo.
— E você está cada vez mais implorando por um chute bem certeiro, não é mesmo? – perguntei irritada apertando meus passos.
— Toma. – ele me jogou uma maçã verde – Não que eu me importe, mas acho que uma fera alimentada é mais mansa. – ele brincou e levou outro empurrão.
– Não fode, Malfoy. – respondi cética mordendo minha maçã.
—Chegamos, senta aí. – ele falou se sentando debaixo da sombra de uma árvore e eu o acompanhei.
— Sério que você me fez andar até a beirada do lago para estudar? A biblioteca é silenciosa igual. – falei enquanto acabava de comer a maçã verde.
— Aqui é bem melhor que a biblioteca. – ele respondeu dando de ombros e abrindo o livro e os nossos pergaminhos – Agora preste a atenção.
Ele começou a explicar bem do princípio, todos os conceitos básicos do estudo numérico na magia, e muito do que anotei começou a ficar menos complexo e cada vez mais claro, tratei de prestar muita a atenção em cada tópico que ele mostrou anotado com sua caligrafia legível e cuidadosa, e ainda assim fazendo mais anotações no canto do meu pergaminho para que eu me lembrasse quando fosse rever. Sempre tive facilidade de aprender tudo que me explicam com calma, e por mais que ele não tivesse tanta paciência assim, sua precisão nas explicações eram o suficiente para me fazer memorizar de uma vez por todas o que me faltava aprender.
— Você estava certo. – falei no momento em que acabamos de estudar – Aqui é um bom lugar para se concentrar.
— Eu sei das coisas. – ele disse dando de ombros – Faltam alguns minutos para o almoço. Nós podemos ficar aqui até lá, assim você não corre o risco de encontrar sua amiga e ter uma briga deselegante.
— Eu só dei a ela um tempo de mim, não ao contrário como você pensa. – falei rindo pelo nariz – Eu também me importo com a paciência das pessoas comigo.
— Sério? – ele me perguntou e eu o olhei cética.
— Seríssimo. – respondi indignada – Você deveria reconhecer o meu esforço para não te socar as vezes.
— Por que você resolveu ser mais tolerante? – ele perguntou sério dessa vez.
— Lembra nossas conversas sobre respeito mutuo? – perguntei e ele assentiu concentrado – Percebi que se não partisse de mim você continuaria sendo infantil para caralho.
— Cala a boca, Ledger, você é muito desbocada. – ele comentou rindo – E eu sou muito maduro.
— Com certeza é. – falei levantando as sobrancelhas em um tom sarcástico.
— Eu sou sim! – ele reclamou já mais irritado.
—Viu só? – falei o empurrando para o lado divertida – Não podem nem discordar de você que você já faz esse bico enorme de criança mimada.
— Mas eu fui uma criança mimada, ué – ele respondeu sem parecer ponderar sobre o que eu disse.
— Eu sei disso. – falei como se fosse óbvia sua contestação – Só não deixe isso te subir a cabeça, soa imaturo demais.
— E você parece uma criança rebelde, com toda essa pose, esses palavrões e esses discursos seus que arrebentam o ego de qualquer um. – ele falou tentando apontar um defeito meu.
— Mas isso não é um defeito! – exclamei e foi sua vez de me olhar cético – Isso faz de mim quem eu sou, antes arrebentar o ego de alguém do que ter o meu arrebentado.
— Esse mundo é muito pequeno para o ego de nós dois no mesmo ambiente, Ledger. – ele comentou rindo de lado um pouco desanimado.
— É por isso que estamos discutindo sobre isso ao ar livre e não em uma sala de aula vazia, porque eu sinto que sobraria para suas bolas de novo se meu ego não tivesse onde se propagar. – comentei rindo e ele me acompanhou.
— Quando criança você era assim também? Porque mimada você não parece ter sido. – ele perguntou e eu estranhei diante de sua curiosidade sobre minha infância.
— Mimada é claro que eu fui, na medida do possível e do dinheiro, afinal eu sou filha única, a princesinha da família. – comentei com um tom irônico e ele riu pelo nariz – Mas a questão é que eu nunca fui muito de ser princesinha, então meus pais diminuíram os mimos com o tempo e começaram a apoiar meu comportamento meio independente, mesmo não apoiando muito. – fiz uma pausa e sorri para o nada me lembrando de como eram as coisas nessa época – O meu avô achava um máximo! Uma vez a escola me mandou uma advertência por eu ter feito um escândalo após um menino ter dito que eu não poderia jogar futebol porque eu era fraca. É claro que eu entreguei a advertência para o meu avô, e ele foi todo orgulhoso na escola dizer que eu estava no meu direito.
No final ele deu uma risada um pouco mais convincente do que eu havia dito e eu o acompanhei, mesmo sentindo os olhos marejarem um pouco por conta da saudade e do medo constante que eu sentia de perder essas lembranças.
— Você não mudou nadinha pelo jeito. – ele comentou fazendo alusão ao meu comportamento no quadribol.
— Não mesmo, e você sentiu isso de perto também. – falei o lembrando das inúmeras confusões que isso remeteu.
— Só que você já não precisava mais do seu avô para te apoiar. – ele comentou vagamente e eu senti meus olhos inundados pela vontade de chorar.
— Infelizmente não precisei. – falei com a voz meio fraca e ele pousou os olhos sobre mim.
— Me desculpe, eu não quis... – ele começou mas eu o interrompi.
— Está tudo bem. – esfreguei meus olhos – Não se preocupe com isso.
Um silêncio invadiu o nosso ambiente, mas não de uma maneira desconfortável, eu sabia que ele estava tão perdido em meio ao barulho do vento como eu. Mas algo nos desconcentrou, mais precisamente barulhos de passos.
— Charlotte! – uma voz não tão estranha me gritou um pouco de longe e logo uma figura parou próximo a mim com as mãos nos joelhos ganhando ar novamente.
— Oi. – me espantei com a presença do mesmo garoto grifinório do Grande Salão. – Ethan, certo?
— Sim! – ele comentou um pouco mais recuperado de sua corrida – O professor Dumbledore pediu para que você vá a sala dele quando puder, ele tem notícias de seus pais.
— Tudo bem, Ethan. – agradeci com um sorriso ensaiado – Diga a ele que estarei lá depois do almoço.
— Charlotte, eles estão conscientes! – exclamou o menino empolgado e eu parei para assimilar o que ele estava falando. – Desculpa, eu não aguentei não escutar o que eles tinham a dizer, mas eles já estão bem e estarão voltando para casa nessa tarde.
Um sorriso tomou conta de meu rosto e o meu peito se aqueceu de maneira imensurável, eu senti o alívio percorrer minha espinha. Uma felicidade meio inexplicável que eu já não sentia há tempos me invadiu, devolvendo a sensação de liberdade que eu sempre fui dona. Eu não sei o motivo e nem como o meu cérebro teve essa ideia, mas ao olhar pro lado e ver Malfoy observando atentamente minhas reações com um meio sorriso quase imperceptível, eu não tive outra reação a não ser lançar meus braços em seu pescoço e o puxar para um abraço, que eu não entendia o porquê, mas acalmou meus batimentos e me fez suspirar de felicidade por saber que meus pais estavam bem.
Senti sua falta de reação e só enfim caiu a ficha do que eu estava fazendo, mas no momento que eu estava a me desvencilhar dele, senti seus braços me apertando um pouco de volta, correspondendo o meu abraço. Quando por fim determinei que já tinha mais tempo do que eu considerava normal abraçar alguém, me desvencilhei por completo dele e falei sorrindo ainda meio aérea:
– Preciso ter mais detalhes sobre eles. – me levantei da grama e limpei o que poderia ser uma lágrima no canto dos meus olhos – Obrigada pelo seu tempo, Malfoy! E obrigada pela notícia, Ethan – disse lançando-lhe um olhar grato e apertando seu antebraço carinhosamente.
Saí correndo em direção à entrada mais próxima dos corredores do castelo e me direcionei rapidamente a sala da direção. Dessa vez eu estava com a mesma urgência de antes, mas uma calma irredutível.
P.O.V Draco Malfoy
Confesso que quando toquei no assunto do avô dela e ela se sentiu aparentemente mal, eu me senti uma droga por não ter analisado suas expressões enquanto ela contava suas histórias da infância. E aquele silêncio que aconteceu depois foi um meio termo entre confortável e torturante. Pois eu parei para analisar que as pessoas ao meu redor sofriam também. Todos têm seus sofrimentos e preocupações, e de ver Charlotte amedrontada desde o momento em que seus pais foram atacados, me fez pensar o quanto pessoas inocentes temem o mal, e o quanto o mal é irracional ao ponto de ferir essas pessoas. Ela era uma garota muito inteligente, e esse pensamento vem me rodeando desde quando a convivência dela passou a ser – mesmo que inoportuna – mais presente no meu cotidiano. Ela tinha respostas pra tudo, todas muito elaboradas e coerentes, tinha uma maneira de analisar todo mundo de forma tão sutil e tão exata. Fora aquele espírito revolucionário que ela tem de uma hora para outra.
O fato é: depois que ela ficou tão extasiada pela notícia que recebeu e lançou seus braços em meu pescoço como uma forma de abraço reconfortante para si, eu pude sentir todo o conforto em mim também. Como se uma parte de mim precisasse ser reconfortada da mesma forma que ela acabara de ser. E agora, vendo aquela pequena garota correndo de volta para o castelo com seus fios de cabelo loiros esvoaçantes, eu consegui refletir um pouco mais sobre o que ela falou na Sala Precisa. Existe o bem em todos. E inexplicavelmente, naquele momento, o bem que poderia existir em mim, queria o bem dela.
— Senhor Malfoy? – a voz irritante e já conhecida de Snape soou atrás de mim como um barulho irritante.
— O que foi dessa vez? – perguntei irritado me levantando e pegando meus livros.
— Eu espero que você não esteja perdendo muito do seu tempo com a Senhorita Ledger... – ele falou sugestivamente me irritando.
— Não acho que estudar seja perda de tempo. – respondi sério – É meio contraditório de sua parte achar isso também.
— Estou dizendo que você tem mais coisas para se preocupar além de ficar se preocupando com o desenvolvimento acadêmico dessa garota. – ele disse pausadamente me irritando de vez.
— Por que você não me esquece? – perguntei sem controlar minha irritação na voz – Você não é o meu pai.
— Porque eu fiz um voto para te proteger! – ele respondeu gélido e sem pausas, o que fez a minha raiva subir.
— Eu não te pedi para fazer nada, eu posso fazer isso sozinho, eu não sou nenhuma criança! – respondi e saí andando em direção ao castelo já que o horário do almoço começaria a pouco.
P.O.V Charlotte Ledger
Sala do Dumbledore, segunda-feira, 12:10 p.m.
— Com licença, professor? – falei enquanto adentrava a porta entreaberta.
— Senhorita Ledger, sente-se! – ele falou amigavelmente apontando para a cadeira em sua frente.
— Soube que são notícias de meus pais... – falei tentando pular toda a cordialidade que teria se continuássemos nos cumprimentando.
— Ainda bem que notícias boas se espalham assim como as ruins, não é mesmo? – ele comentou simpático – Sim, senhorita, eles irão para casa no fim desta tarde.
— Que ótimo, obrigada por me manter informada, professor! – falei sorrindo e ele assentiu – Será que eu poderia te pedir uma coisa?
— Contanto que esteja ao meu alcance, Charlotte, você pode. – ele falou com uma cara de quem já imaginava o que poderia ser.
— Eu gostaria de vê-los. – falei por fim – Não precisa ser hoje, quem sabe em um final de semana, ou no feriado do Halloween, mas eu gostaria de me certificar como eles estão. – disse por fim.
— Daremos um jeito. – ele falou como quem ponderava sobre o meu pedido – Mas até então conte com o feriado do natal mesmo.
— Eu entendo que seja difícil, mas gostaria muito que abrissem uma exceção. – disse meio triste.
— Tenho uma ideia provisória mais segura... – ele falou vagamente – Na sua casa teria alguma lareira?
— Sim, raras vezes já fizemos comunicações por ela, mas através do salão comunal, onde nunca tenho muita liberdade de conversar com eles. – comentei esperando a solução que viria.
— Perfeito. – ele comentou com um sorrisinho – Quanto ao lugar, você encontrará em breve. – finalizou apontando para as escadas que me levariam aos andares abaixo da torre e eu sorri ao entender sua sugestão.
— Obrigada, professor. – me levantei apressada e deixei sua sala.
Sala Precisa, segunda-feira, 11:45 p.m
— Mãe? Pai? – Questionei diante de uma enorme lareira que foi posta em minha frente enquanto a porta da sala se tornava uma parede outra vez.
— Charl, querida, você está aí? – era a voz do meu pai, senti meus olhos marejarem.
— Papai! – exclamei sem conseguir conter muito bem as lágrimas. – Que ótimo poder falar com você outra vez. Como se sente?
— Querida, não chore... – ele me pediu, mas mesmo através de sua expressão não muito nítida no fogo, eu percebi que ele também chorava. – Eu estou ótimo, novo em folha. Essa coisa de magia é muito rápida mesmo.
Seu comentário me fez rir e imaginar o quanto tinha sido uma experiência diferente para ele.
— Onde está a mamãe? – perguntei preocupada.
— Ela está muito cansada, filha, está dormindo desde quando chegamos, não achei bom acordá-la... – ele fez uma pausa – A situação foi pior para ela.
— Como foi, pai? – perguntei sentindo um nó se formar em minha garganta.
— Não vamos falar disso por aqui, está bem? Quando você vier lhe diremos tudo. – ele falou um pouco mais baixo – Hogwarts não é mais tão segura, filha.
— De onde o senhor tirou isso? – perguntei me forçando a engolir o nó na minha garganta.
— Eu não sei bem se é verdade... – ele começou – Mas escutei curandeiros e aurores conversando sobre. Disseram que não se surpreenderiam se em breve comensais começassem a atacar Hogwarts.
— Isso é meio impossível, pai... – falei ponderando sobre as possibilidades de isso acontecer – A não ser que algum aluno seja um deles e pretenda fazer um ataque por conta própria. – falei rindo e ele me acompanhou.
— Filha, se cuide, por favor. – ele pediu com medo na voz.
— Me cuidarei. – garanti – E enquanto Dumbledore estiver aqui, Hogwarts será segura.
E assim o assunto se desmembrou em outros e outros, e a paz de ter o meu pai bem conversando comigo me aquecia o peito e me dava toda a tranquilidade que eu precisava para continuar bem, e eu não sei precisamente quanto tempo ficamos ali, mas e fez esquecer o medo que um momento já habitou em mim
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