Mirtilo
65 IV - Ômega
Ryeowook encolheu-se no abraço de Heechul, fechou os olhos por um momento e aspirou o cheiro do marido com força. As mãos fecharam-se no tecido da sua camisa, com força ele segurou-se ali como se temesse ser arrastado por uma onda para longe do outro ômega. Heechul apertou mais os braços a sua volta quando notou o jeito que ele agia, os lábios encontraram um pedaço da sua tempora e deixaram um beijo simples sobre a pele. Ryeowook suspirou e sentiu-se relaxar, os batimentos cardíacos foram se tornando mais baixos e o sangue parou de rugir nos seus ouvidos, de repente, tudo o que havia era o som da respiração de Heechul e o calor do corpo dele contra o seu, calmante assim.
— Aconteceu alguma coisa? — Heechul sussurrou e Ryeowook apertou os olhos por um momento, então balançou a cabeça em negação enquanto ainda a tinha enterrada no peito do mais velho.
O Kim pareceu desconfiado, mas não deu sinal de que o pressionaria para saber o motivo real. Ryeowook preferia assim, não estava pronto para mentir ainda, então, era preferível que permanecesse em silêncio até saber o que faria com aquela informação. Agora que sabia onde o filho, Minseok, estava tudo parecia ter se tornado mais complicado. Se Junmyeon ou Hangeng desconfiasse de si, as coisas podiam se tornar ainda piores.
— Eu só preciso de um banho. — Ryeowook afastou-se do marido e Heechul piscou os olhos em sua direção, mas não o impediu de ir.
Estava profundamente desconfiado, mas não via razão para insistir atrás de informação com Ryeowook, em parte porque o ômega não fazia o tipo que mentia para si. Eventualmente, ele acabaria contando o que lhe incomodava, era preciso apenas lhe dar espaço. Por isso, só observou ele se afastar em direção ao quarto. Heechul suspirou e foi em direção ao corredor, iria direto para o quarto de Kyungsoo para saber se o filho precisava de alguma ajuda com o bebê, mas ao chegar lá notou que ambos dormiam. Soltou uma risadinha baixa.
Havia se tornado normal encontrar Kyungsoo cochilando pela casa em qualquer posição possível, principalmente quando não estava com Dohyeon nos braços. Heechul achava uma gracinha e sentia um pouco de pena, afinal bem sabia por experiência própria o quanto o primeiro filho sugava uma energia alta nos primeiros meses. Dohyeon estava se aproximando dos cinco meses, estava maiorzinho, mais gordinho e cada vez mais parecido com Kyungsoo. Heechul achava adorável a forma dos seus olhos e as bochechas gorduchas.
Ele entrou no quarto devagar, o barulho da porta abrindo despertou Kyungsoo. Rápido, o ômega sentou-se na cama e piscou os olhos sonolentos em direção ao bebê, que ainda dormia. Kyungsoo bocejou e olhou em direção ao pai. Heechul deu a ele um sorrisinho compreensivo antes de parar ao seu lado e erguer a mão para acariciar o topo da sua cabeça.
— Não me deixe ter outro filho. — o ômega resmungou enterrando o rosto na barriga do pai. Heechul riu mais alto enquanto acariciava seus cabelos.
— Quando ele crescer, vai sentir falta. — Heechul disse e Kyungsoo resmungou qualquer coisa que foi abafada por conta da forma como seu rosto estava. — Estou falando sério. — Kyungsoo levantou o rosto para encarar o pai.
— Você não parece sentir falta de mim chorando na madrugada. — rebateu e Heechul riu.
— Ok. Me pegou. — Kyungsoo riu e desviou o olhar para o filho, que ainda dormia.
Dohyeon era um bebê particularmente calmo, com olhos curiosos e uma animação que sempre aparecia quando Chanyeol estava por perto. Kyungsoo já havia notado o jeito como o filho soltava gritinhos fofos todas as vezes que o alfa aparecia. Era engraçadinho. Mal podia esperar para ver o filho andando, quem sabe, ele corresse desajeitadamente em direção ao pai alfa, mas, por enquanto, tinha apenas que lidar com a forma como o pequeno jogava-se em direção ao outro. Ao menos, aquela preferência lhe dava alguma folga.
— Quer que eu tome conta dele? — o pai ômega perguntou e Kyungsoo balançou a cabeça em negação.
Ele estava bem, tinha conseguido cochilar por bastante tempo. Dohyeon estava com quase cinco meses, o que significava que seu tempo dormindo havia dobrado. Agora Kyungsoo quase conseguia ter uma noite de sono completa, a ansiedade ainda o atrapalhava, mas, de vez em quando, Chanyeol dormia ali e tomava conta do bebê até a hora de sair para o trabalho. Eram nesses momentos, que Kyungsoo costumava ter aquela sensação no peito; uma coisa doce se espalhava por suas veias e tudo parecia incrivelmente certo, tudo no lugar. Era só estranho não saber de onde tudo aquilo vinha.
Ele sabia que havia tido uma história com Chanyeol, que eles haviam feito planos, trocados beijos e que Dohyeon era o fruto de todo um amor que não conseguia colocar em palavras, mas Kyungsoo havia perdido esses momentos, tudo parecia ter acontecido em um sonho, uma vida da qual o ômega não conseguia se lembrar completamente. Ele tinha alguns flashs, por mais vezes do que gostaria de admitir, era bombardeado por sensações e desejos, que o faziam se pegar pensando em Chanyeol por mais tempo do que gostaria.
— Chanyeol vem hoje? — Heechul sentou-se na beira da cama do filho e lançou um olhar carinhoso para o neto dormindo.
— Sim. — Kyungsoo desviou o olhar para o colo, segurou as mãos ali. — Ele disse que tem algo para me mostrar.
O pai ergueu uma sobrancelha, um sorrisinho malicioso apareceu no canto da boca e Kyungsoo sentiu as bochechas tornando-se quentes.
— Não começa. — resmungou virando o rosto para esconder as bochechas vermelhas.
— Eu não disse nada. — Heechul levantou as mãos em rendição e Kyungsoo bufou enquanto ria.
O pai ficou de pé e acariciou a cabeça do filho.
— Não esquece de usar proteção dessa vez. — ele riu e Kyungsoo o empurrou, mas o filho estava rindo também.
Heechul saiu do quarto e foi em direção ao seu próprio, o sorriso ainda preso nos lábios. Gostava de Chanyeol e esperava que ele e o filho se acertassem de uma vez, afinal estava mais do que na cara o quanto eles se gostavam. Kyungsoo podia não lembrar de tudo, mas o sentimento ainda estava presente no seu peito, tão malditamente presente que era difícil não ver.
Quando o Kim chegou no seu quarto, Ryeowook terminava de se trocar em frente ao espelho. O cabelo castanho molhado, espalhava fios de água pelo pescoço e nuca. Heechul apanhou a toalha sobre a cama e se aproximou, começou a secar os cabelos do companheiro. Ryeowook sorriu através do espelho e quando Heechul terminou, aproximou os lábios para deixar um beijo simples sobre seu ombro nu.
— Ainda vai trabalhar hoje? — o ômega perguntou e Ryeowook assentiu.
Ele havia trocado o turno da noite no hospital com um colega para poder ter a manhã livre e ir até o clã Byun, mas Heechul não sabia disso. Achava que ele havia apenas saído do território Kim para resolver qualquer outra coisa, Ryeowook preferia que continuasse assim, afinal não sabia se contaria ao marido sobre o paradeiro de Minseok. Ainda tinha muito o que pensar sobre isso, na verdade.
— Eu entro as 18h. — falou.
Heechul lançou um olhar para o relógio sobre o criado mudo ao lado da cama e resmungou, estava perto. 17:30h. Eles não tinham muito tempo para namorar, mas ainda havia alguns minutos para trocar beijos, por isso, não se conteve em virar Ryewoook nos seus braços e o beijou por bastante tempo. Se separaram apenas por conta da insistência do outro Kim, que precisava terminar de se arrumar. Heechul deitou-se na cama e ficou observando o ômega se movimentar pelo quarto, eles se despediram com um beijo e Heechul o observou sair pela porta do quarto com um olhar carinhoso.
Então, ele virou-se de peito para baixo na cama e enfiou a mão embaixo do colchão, puxou um pequeno envelope vermelho dali e enfiou no bolso da calça. Ele ficou de pé, procurou seu casaco e avisou Kyungsoo da sua saída. Pegou o carro de Junmyeon emprestado e saiu do clã. No primeiro sinal vermelho que parou, tratou de apanhar o envelope do bolso e acendeu o isqueiro atrás da folha em branco. O calor fez a mensagem se revelar, havia apenas um endereço ali. Heechul suspirou antes de atear fogo no papel e joga-lo janela a fora, o sinal abriu e ele acelerou em direção a Hongdae.
O Hwaye era mais familiar do que Heechul gostaria de admitir. Nos seus tempos de ouro, costumava frequentar o lugar como quem vai a igreja, tinha dias marcados que não eram adiados jamais. Leeteuk nunca desconfiou, apesar do ômega não ter feito tanto para esconder. Tinha que agradecer a Ryeowook por isso, pois o marido alfa havia se tornado um tanto desatento por conta da sua presença. Era sempre engraçado de ver, um pouco doloroso também mas Heechul não gostava de pensar nisso.
Agora, por outro lado, tinha sempre que se manter atento. Junmyeon havia herdado seu lado observador e desconfiado e depois da fuga de Minseok, havia aumentado a segurança da alcateia. Era preciso sempre ter um passe para entrar e sair, isso o frustrava um pouco, e se não fosse pelos próprios problemas do filho que o deixavam desatento, Heechul poderia ter tido mais dificuldade em realizar suas fugas mensais.
Ser um Ômega Vermelho tinha dessas, no fim das contas. As reuniões mensais eram obrigatórias para a entrega de relatório além de servir para manter a aparente amizade entre eles. Heechul odiava as reuniões, mas não havia como fugir disso, era tipo de coisa que se aceitava quando se entrava para a Organização, mas aquela reunião era diferente. Heechul soube disso no momento em que entrou na sala e encontrou Hyuna sentada na ponta da mesa.
Os outros ômegas do seu esquadrão estavam sentados também, todos quietos. Havia um único lugar vago ao lado esquerdo da mulher e Heechul engoliu em seco antes de se aproximar, estava óbvio que era para si. Havia se atrasado.
— É bom, finalmente, vê-lo, Heechul. — Hyuna disse assim que o avistou perto da mesa.
Heechul sorriu, envergonhado. Não era bobo o suficiente para não notar a acidez na fala da mulher.
— O trânsito estava uma loucura. — disse e puxou a cadeira para se sentar.
— Posso imaginar. — Hyuna encarou as próprias unhas, bem feitas. — A Sra. Park apostou que você não apareceria por conta da vergonha, mas eu disse que você era mais forte do que isso. Parece que ganhei. — a mulher riu para a outra, que teve a decência de abaixar os olhos.
Heechul apertou as mãos no colo, irritado. Mas manteve o semblante neutro enquanto repuxava os lábios em um sorriso simples, direcionou-o para a senhora Park.
— Talvez, tenha mais sorte na próxima. — disse.
Kims e Parks nunca foram um exemplo de companheirismo, até mesmo entre os ômegas da Organização a rivalidade entre os clãs se mantia presente. Mas Heechul sempre teve seus motivos particulares para não gostar de se misturar com aquele tipo de lobo. A mulher olhou-o de volta, o castanho frio enquanto assentia, meio sorrindo. Ao menos ambos, pensou, sabiam manter as aparências.
Heechul tornou a encarar Hyuna, que levantou o braço e fez sinal para a servente parada perto da porta. A comida foi servida logo em seguida. Era um verdadeiro banquete, uma pena que o Kim não estava com tanta fome assim. Mas se viu arriscando uma mordida aqui e ali no que podia, só para não fazer desfeita e demonstrar o quanto se sentia acuado no meio de todos aqueles olhares julgadores. Hyuna se empenhou em falar sobre isso e aquilo, dava risadas esporádicas que eram seguidas forçadamente pelo resto dos ômegas na mesa.
Olhando de longe, eles pareciam apenas um grande grupo de homens e mulheres sentados, tendo uma agradável refeição. Contudo, os que estavam ali sabiam mais, tão mais que era uma surpresa que nenhum deles tivesse vacilado na sua pose. Heechul lançou um olhar para Oh Chaerik, uma das novas aquisições do esquadrão vermelho. Se o Kim não se enganava, ele havia feito parte da classe de Minseok e pensar nisso, fez uma ponta de desconfiança rondar suas emoções. Ele olhou discretamente para cada um na mesa, só então reparando em suas feições e foi com horror que notou a presença de Jiwoo e Seonho.
Ômegas Negros eram inconfundíveis, ainda mais por fazerem parte de uma parcela mínima na Organização, por isso, ver dois deles ali, no meio de um jantar para Ômegas Vermelhos deixou Heechul levemente preocupado. Ele apanhou o hashi da mesa e escondeu-os embaixo do guardanapo sobre suas coxas. Seja lá o que fosse acontecer, queria ao menos ter uma arma em mãos. Contudo, Hyuna era esperta. A mão dela deslizou sobre as suas, por baixo da mesa e quando os olhos de Heechul encontraram os dela, a mulher sorria.
— Não precisa ficar tão preocupado. — ela lhe disse, baixo, só queria que ele escutasse. — Jiwoo e Seonho estão aqui para manter a ordem.
O aperto de Heechul nos hashi não vacilou, mas a forma como a mão da mulher apertou a sua deixou claro que era melhor para sua saúde que desistisse daquela ideia. O Kim sustentou o olhar dela, confuso e desconfiado. Ele nunca fez o tipo que desconfia dos seus superiores ômegas, ele não fazia o tipo que ia contra a Organização mas era um fato que desde que Hyuna assumiu a liderança, as coisas não andavam mais as mesmas.
Jihye, a ômega que veio antes dela, tinha uma maneira melhor de lidar com os assuntos da Organização. Heechul gostava mais dela, mas quando a Jihye foi assassinada, todos os seus planos de expansão foram deixados de lado e Hyuna assumiu com seus próprios planos. Foi quando a rixa com os lobos do Conselho se tornou maior. E agora, havia isso, ômegas negros em meio a reuniões vermelhas. Se Jihye vissse isso, morreria.
Heechul colocou o hashi de volta na mesa e engoliu em seco, daria um voto de confiança para a chefe. A conversa na mesa continuava, ninguém parecia ter notado o pequeno impasse entre ele e Hyuna, e uma parte sua achou isso bom. Sua imagem não andava sendo uma das melhores desde que descobriram as infrações de Minseok, seu filho.
Era um fato entre eles, que os pais eram responsáveis pelos erros dos seus filhos. Se uma criança ômega não recebia a carta de convocação significava que os pais não haviam criado um filho bom o suficiente para orgulhar a Organização; se seu filho não sobrevivia ao treinamento, então significava que ele não era forte o suficiente; se seu filho cometesse erros e se tornasse um ômega desgarrado, sua linhagem era banida da matriz e nenhum outro ômega dessa família seria convocado novamente. Heechul não era o primeiro ômega da sua família a ser convocado, sua linhagem era longa e bem vista e agora... agora, ele só conseguia pensar em todos os seus ancestrais se revirando nos túmulos diante da forma como Minseok se comportou.
— Não é, Heechul? — alguém disse e Heechul ergueu os olhos para fitar a pessoa. A mesa inteira o encarava, esperando alguma coisa que o Kim não sabia o que era. Havia perdido o começo da conversa e sequer tinha ideia de como seu nome havia ido parar ali, mas a forma como Aeran o encarou, suplicante, o fez perceber que era importante. Então, ele concordou, rindo forçado. — Eu disse! — Aeran riu enquanto bebia um pouco do seu soju.
A mesa explodiu em gargalhadas. Heechul viu Chaerik brindar com Jiwoo, apesar de não ter visto esse segundo bebendo nada. O copo de soju estava cheio na sua frente, sobre a mesa, completamente intocado. Heechul serviu para si um pouco da bebida e bebeu tudo em uma virada só, o álcool desceu amargo pela sua garganta. Estava cada vez mais nervoso com aquela situação.
Em algum momento, os ômegas começaram a se despedir. Mas Heechul não se mexeu porque tinha a leve intuição de que Hyuna queria que ficasse. Quando Chaerik foi o último a ir embora, Heechul virou o rosto para a mulher e Hyuna lhe sorria ao mesmo tempo que a porta foi fechada quando mais dois ômegas negros entravam.
Yuna e Minji colocaram-se ao lado da porta fechada, as mãos para trás do uniforme escuro. Heechul lançou um olhar deles para Hyuna, visivelmente nervoso. Estava mais do que certo que aqueles quatro ômegas negros ali não eram para a segurança de Hyuna, eram para contê-lo caso se mostrasse difícil de lidar. Voltou a colocar a mão sobre o hashi, sobre a mesa e Hyuna sorriu na sua direção ao terminar de limpar os cantos da boca.
— Agora podemos conversar. — ela colocou o guardanapo sobre a mesa, ao lado da sua tijela vazia.
Heechul lançou um olhar para Jiwoo e Seonho, ambos sentados em lados opostos na mesa. Mesmo se o Kim tentasse fugir, sabia que não conseguiria. Hyuna havia feito um bom trabalho em encurrala-lo.
— Espero que não tenha nenhum outro compromisso, porque isso pode demorar. — ela continuou falando enquanto ajeitava a própria roupa, arrumou a postura contra o encosto da cadeira e virou o rosto na sua direção. — Então, sugiro que sejamos breves.
— Como desejar. — achou seguro responder
— O que eu desejo, — ela começou a se servir de um pouco de soju. — é saber onde está Kim Minseok.
Heechul desviou o olhar para a mesa, a bagunça de tijelas vazias e copos abandonados era estranhamente reconfortante.
— Se eu soubesse, já teria reportado isso para os supervisores. — reuniu coragem para falar e Hyuna ergueu uma sobrancelha na sua direção, completamente desacreditada. Quase bufou em resposta, sua lealdade não deveria estar sendo colocada a prova assim. — Não pode estar duvidando da minha lealdade. — irritou-se.
— Estou. — ela o confrontou. — Principalmente, porque Minseok é seu filho e foi uma recomendação sua.
Heechul comprimiu os lábios.
— Estou tão decepcionado com ele quanto qualquer um da Organização.
— Não mais do que eu. — Hyuna bebeu o soju. — Eu lhe dei chances para se redimir[I], mas Minseok se achava bom demais para servir a Organização. Na verdade, ele preferiu se submeter a um alfa. — ela abaixou os olhos, como se estivesse triste, fitou seu copo vazio e tornou a enchê-lo. — Um disperdício de potencial, se quer saber.
Hyuna viu o copo vazio do ômega e se apressou em servi-lo. Heechul se sentiu estranho com a atenção, mas pegou o copo e aproximou dos lábios mesmo assim.
— Quem sabe, teria sido melhor se tivesse cedido o outro. — se referiu a Kyungsoo e Heechul mordeu a parte interna da bochecha. — Ele parecia o tipo que se encaixaria, não acha?
— Kyungsoo não combina com isso. Ele é dócil demais. — deixou-a saber e Hyuna riu.
— Ômegas dóceis são os melhores. É sempre engraçado ver o modo como eles quebram depois do primeiro baque. — o tom sádico o assustou, mas forçou-se a não transparecer. — Mas ainda assim, Minseok também era dócil, não lembra? Foi uma surpresa vê-lo durar tanto e chegar tão alto. — ela suspirou. — Realmente me chateia que ele tenha feito tão pouco de tudo. Eu era uma ômega de elite, lembro bem da felicidade dos meus pais ao saberem da minha graduação. Você teria ficado feliz por ele?
O Kim assentiu, o soju era amargo sobre sua língua.
— Mesmo sabendo que ele não poderia mais voltar para casa?
— É o preço que se paga para moldar o mundo.
— Ótimas palavras. — Hyuna afastou garrafa vazia de soju e encarou o copo vazio. — Quem sabe, você também tivesse dado um bom ômega negro.
— Estou feliz com a minha classificação.
— Claro que está. — ela alfinetou. — Como vai o casamento? Soube que Jungsoo e você não andam mais juntos.
— Alguns casamentos não foram feitos para durar.
— É, tem razão, mas ainda assim é uma pena. Pelo menos você conseguiu ser influente o bastante dentro daquele clã, isso me orgulha.
Heechul inclinou a cabeça em uma pequena reverência de agradecimento. Hyuna dispensou o ato com uma mão.
— Por isso, preciso que continue sendo influente. — disse. — Convença Junmyeon a aceitar Jiwoo como investigador no caso de Jaehyun. — Heechul olhou para o ômega negro sentado no lado oposto ao seu na mesa, quieto e misterioso. — Ele é bom em encontrar pessoas desaparecidas. — pontuou.
O Kim respirou fundo, de repente, muito nervoso.
— E o que... o que vai acontecer se...
— Se Jiwoo encontra-lo? Vai reportar para mim, é claro. Então, Minseok será julgado por suas transgressões e o Conselho pode ficar com o que sobrar. — Hyuna pareceu irritada ao falar sobre o Conselho.
Heechul sabia que ela e os lobos do Conselho não tinham uma boa relação.
— Mas... mas Minseok está grávido. — disse e Hyuna o olhou, irritada.
— Um mero detalhe. — ela puxou para perto uma garrafa abandonada de soju pela metade e encheu seu copo. — A criança será destinada a Baekhyun quando for a hora ou os Kims a preferem? — Hyuna o fitou e Heechul não soube o que responder, o tom que ela usava para se referir ao seu neto o fazia se sentir enjoado. — Vocês podem resolver isso mais tarde, não se preocupe. O importante é ter Minseok antes do Conselho. — ela bebeu. — Aqueles lobos podem usá-lo contra nós, sabe disso não?
O ômega assentiu.
— Ótimo. — ela empurrou a cadeira para trás e se pôs de pé. — Então, terminamos aqui.
Hyuna caminhou em direção a saída e os ômegas negros sentados — Jiwoo e Seonho — levantaram-se e a seguiram sem olhar para trás. Yuna e Minji abriram a porta de correr para a chefe passar, então os quatro ômegas negros a seguiram sem jamais olhar para trás. Heechul foi deixado sozinho na sala. Encarou as tijelas e garrafas vazias e sem pensar muito estendeu o braço sobre a mesa e arremessou tudo para o lado em uma raiva momentânea. As tijelas e as garrafas quebraram-se ao encontrar o chão, o som reverberou pela sala inteira e Heechul se perguntou se havia sido alto o suficiente para que os donos do lugar escutassem, mas como ninguém apareceu duvidava que alguém tivesse escutado.
Ele ficou de pé, jogou a franja escura do cabelo para trás e encarou a bagunça que havia feito. Fechou as mãos em punho e lutou contra a vontade de pegar os utensílios restantes e arremessar contra a parede. Estava tão frustrado e irritado com o andamento daquela conversa, que era capaz de se enfiar em uma briga só para tentar apaziguar aquele sentimento no fundo do seu peito.
Encarou a saída e andou até lá. O melhor a se fazer era simplesmente sair e voltar para o seu território. Lá, no silêncio do seu quarto podia pensar melhor no que fazer. Contudo, quanto mais se afastava do Hwaye mais tinha seus pensamentos se tornando agitados. Estava com tanta raiva que se encontrasse Minseok naquele momento, o colocaria de castigo pelo resto da vida. Mas sua raiva foi substituída por confusão quando notou que havia alguém esperando-o ao lado do seu carro.
Heechul apanhou a chave e enfiou entre os dedos, deixando a ponta da chave sobressalente. Se precisasse dar socos em alguém, era bom bater para tirar sangue. Mas quando chegou mais perto, reconheceu a figura. Era Park Aeran, a única do clã Park por quem tinha alguma consideração. Eles haviam sido colegas na época da Academia, ambos eram da mesma turma e incrivelmente tinham mais coisas em comum do que Heechul achou possível.
— Aeran. — chamou, baixo e mulher olhou para os lados como se soubesse que eles estavam sendo vigiados.
Heechul arrumou a postura e se aproximou mais, Aeran estendeu a mão na sua direção e o Kim notou que havia um par de brinco no meio da sua palma.
— Você deixou cair. — ela disse e Heechul a encarou, confuso.
Os olhos moveram-se para os lados e então, ele estendeu a mão sobre a dela e pegou o par de brinco. Aeran o puxou para perto, em um abraço desajeitado. Deixou um beijo de despedida na sua bochecha.
— Obrigado. — ele agradeceu pelo brinco que não era dele.
Aeran assentiu e se afastou sem olhar para trás. Heechul enfiou o brinco no bolso da calça e abriu a porta do carro, quando entrou, apalpou o bolso interno do casaco e sentiu que havia algo dentro. Apanhou o papel, depressa e na meia luz do estacionamento, leu a mensagem criptografada de Aeran.
2251996
Franzio a testa para o conjunto de números e virou o papel, no rodapé escrito em letras pequenas, quase apagadas, Heechul leu o conjunto de letras: rqsun vgrq. Mordeu o lábio, não demorou muito para um sorriso nervoso aparecer nos seus lábios. Não precisou pensar muito para decifrar a mensagem da antiga colega. Ele amassou o papel e deu partida no carro, fez o caminho oposto ao de casa. Acelerou em direção a Ponte Mapo[II].
***
Sehun observou o médico do seu clã, inclinar-se sobre o corpo adormecido de Henry. A mão do beta alcançou sua testa, verificou sua temperatura e depois, chegou um pouco mais perto para verificar o cheiro dos seus feromônios. Sehun não precisava chegar perto daquele jeito para sentir e saber que Henry já havia passado do pré-aquecimento há algumas horas. Tudo que ele era agora se resumia a uma bagunça de desejos e desejos.
O médico se afastou e lançou um olhar preocupado para o alfa e depois, para o irmão do ômega na cama, Jongin. O Lu passou a mão no cabelo, jogou a franja castanha para trás e suspirou, estava mais que óbvio pela expressão do beta que não havia nenhuma boa notícia a caminho.
— Então? — acabou sendo Sehun aquele que tomou a dianteira da cena inteira, Jongin apertou os dedos uns nos outros, nervoso.
O médico suspirou e puxou a maleta para perto, abriu-a e começou a vasculhar atrás das pílulas supressoras que sempre utilizava naquela situação. Estava acostumado a lidar com ômegas marcados solteiros — seja porque o alfa que o marcou o abandonou ou morreu. Era sua especialidade, era por isso que o líder Sehun havia o levado até ali. Se alguém podia lidar com aquele ômega, certamente era ele. Mas ainda assim o médico beta sabia que não podia operar milagres, o estado de Henry estava um pouco além do que esperava. A marca no seu pescoço parecia ter revivido com força total e agora, reivindicava o toque daquele que a fez e por conta dos anos em que o Lu passou tomando os supressores e a mistura apaziguadora[III] feita por si mesmo, o médico não sabia se a dose do supressor que tinha em mãos ia ajudar, mas esperava que sim.
— O senhor Lu está um pouco além do meu conhecimento. — começou a dizer e apanhou a cartela de pílulas brancas do seu arsenal, estendeu-as em direção a Jongin. — Isso é o que eu posso oferecer por enquanto, mas não sei quanto tempo o efeito vai durar, ele sempre pode voltar a ter uma recaída.
Jongin pegou a cartela de remédios com os dedos trêmulos. Ele aproximou-se do criado mudo, onde uma jarra de água e um copo estavam postos. Encheu o copo e destacou uma pílula, sentou-se na beira da cama ao lado do irmão mais velho e puxou seu queixo para baixo para ter a boca aberta, o fez engolir o remédio com a ajuda da água.
— Lutar contra a marca sempre trás suas consequências. — o médico continuou e Sehun fitou a figura suada e corada de Henry sobre a cama.
Ele parecia preso em um sonho agitado, as pálpebras se mexiam com frequência e o peito subia e descia como se estivesse correndo uma maratona. Gotículas de suor apareciam na sua testa e pescoço e as bochechas estavam tão coradas que Sehun se assustou. O alfa já havia visto ômegas no cio antes, era uma ocorrência comum, no final. No entanto, ele nunca chegara tão perto de um assim, não fazia o tipo que se deitava com ômegas apenas para apaziguar o calor. Não era à toa que até aquele momento havia tido apenas um ômega durante toda a vida[IV].
— E se... — Jongin mordeu o lábio inferior, nervoso com o que queria perguntar. Sehun o fitou já imaginando as palavras, a garganta ficou seca antes de escuta-las. — E se um alfa ajudar?
O médico fitou-o por baixo das lentes dos óculos, dali, Jongin pensou em como ele parecia mais velho do que pensara. Eram os olhos que denunciavam a idade, chegou a conclusão.
— Um ômega marcado só encontra alívio naquele que fez a marca, mas há estudos sobre como a necessidade do lobo pode ser maior do que a necessidade da marca, então, é possível, sim, que Henry se satisfaça com outro alfa.
Jongin fitou Sehun. Sehun desviou o olhar para Henry na cama. Ele não podia fazer isso, não se Henry estava daquele jeito, completamente inconsciente; preso em um patamar do calor que não podia alcançar. Apesar de tudo, Sehun era um alfa decente, jamais tocaria em um ômega naquele estado. Lançou um olhar para Jongin e umedeceu os lábios, a negação estava na ponta da língua quando escutaram passos no corredor e então, a figura irritada de Lu Han apareceu na porta.
— O que é isso? — ele se agitou para dentro, os olhos vacilando para o violeta quando notou a presença de Sehun ali.
Jongin ficou de pé, ergueu as mãos em direção ao irmão mais velho como que tentando apazigua-lo, mas era tarde demais. Han não era bobo, os pontos haviam se juntado na sua mente tão rápido que Sehun admirou.
— Se você se acalmar, eu posso explicar. — Jongin tentou, mas Han contornou sua forma e entrou mais no quarto, ele parou ao lado do corpo adormecido de Henry e começou a verifica-lo como se temesse que tivessem lhe feito mal.
Sehun ofendeu-se com o comportamento. Apesar de ter falhado com Henry antes, não significava que era um crápula. O que havia acontecido entre eles e Yifan não passava de uma mera coincidência. Ele jamais colocaria o Lu naquela situação se soubesse que era culpa de Yifan a marca que carregava na pele.
— E quem é você? — Han se dirigiu ao médico, que ergueu as sobrancelhas levemente surpreso pelo tom irritadiço do outro.
— Doutor Na Dongwook do clã Oh, sou especialista em casos como o de Henry. — apresentou-se.
— O que quer dizer? — Lu Han lançou um olhar mais do que raivoso em direção ao irmão mais novo.
O doutor se encolheu onde estava. Sehun comprimiu os lábios, também estava ficando irritado. A superproteção de Lu Han estava começando a sufoca-lo e devia sufocar Henry também.
— Bom, ômegas marcados solteiros. — o médico respondeu e Lu Han comprimiu os lábios.
— E qual a conclusão que chegou? — estranhamente, seu tom se tornou suave.
Sehun olhou para Jongin, que deu de ombros. O irmão podia ser cabeça dura e superprotetor, mas não era idiota. Sabia que Henry precisava de ajuda antes que fosse tarde demais, ambos sabiam que se Henry passasse tempo demais perdido na inconsciência com os calores do cio tão altos, ele poderia não voltar mais. Seu corpo se desligaria em algum momento, deixaria só o lobo tomando conta; esperando por aquele que o marcou.
— O supressor que o senhor Jongin lhe deu vai ajudar por alguns dias, mas pode perder o efeito rápido. Seria importante que o senhor Henry encontrasse alguém para apaziguar seu calor.
— Quer dizer um alfa?
— Se o senhor quiser colocar nesses termos, sim.
Han fechou as mãos em punho e afastou-se de Henry, andou até Sehun e parou na sua frente. A diferença de altura poderia ter arrancado uma risada de Jongin no passado, mas naquele momento só o fez engolir em seco. Lu Han não precisava ser alto para ser assustador, estava estampado em cada pedaço da sua expressão e no seu cheiro incrivelmente forte o quanto odiava a classe de Oh Sehun.
— Se acha que vou deixar tocá-lo apenas porque seu médico especialista disse, só pode estar ficando maluco.
— Não estou aqui para isso. — Sehun teve coragem de enfrentar.
— Não acredito em você. — Lu Han cruzou os braços e afastou-se um passo. — Agora, saia. — mandou e Sehun sustentou seu olhar sem se mexer. — Eu disse para sair. — olhou em volta. — Todos!
O médico estremeceu onde estava, mas ficou de pé rapidamente e saiu do quarto. Jongin encarou o irmão e fez menção de falar alguma coisa, mas o olhar do Lu cortou qualquer uma das suas falas. Sehun manteve o olhar em Lu Han, não era afetado pelo autoritarismo do outro, em parte por ele ser um ômega e em parte, por eles não serem companheiros. Um alfa só conseguia receber ordens através da voz ativa[V] do seu companheiro reconhecido pelo seu lobo interior.
— Sehun. — o tom suplicante de Jongin foi o que fez vacilar na sua pose.
O alfa encarou o Lu mais novo e encolheu os ombros. Não era certo puxar briga com Han daquela maneira, enquanto Henry estava passando por aquele momento difícil. Por isso, limitou-se a suspirar derrotado e seguir Jongin para fora do quarto. A porta foi fechada logo em seguida, um baque forte que assustou os três.
— Vamos apenas deixa-lo esfriar a cabeça. — Jongin falou visivelmente envergonhado do comportamento explosivo do irmão.
Sehun comprimiu os lábios e assentiu. Começou a seguir Jongin pelo corredor junto com o médico. Quando chegaram a cozinha, notaram que televisão estava ligada e que o pequeno Yixing estava ali, sentado no sofá assistindo desenho animado. O alfa se sentiu relaxar com a visão. O pequeno filhote de Lu Han era adorável demais para que não se deixasse afetar.
Yixing parecia concentrado no desenho e por isso, não parecia nenhum pouco abalado com a gritaria do pai de segundos atrás. Jongin suspirou quando fitou o sobrinho, mas não disse nada. Só continuou seguindo até a cozinha e ofereceu-lhes algo para beber. O médico parecia envergonhado, completamente sem graça por conta da situação e Sehun o dispensou. Disse que podia espera-lo no carro, que logo o levaria de volta para o território Oh. Ainda queria resolver algumas coisas com Jongin, quem sabe se desculpar mais um pouco com Han e diminuir o ódio que o outro tinha por si.
Ele sentou-se à bancada da cozinha e dali observou Yixing sorrir para a televisão. De vez em quando se perguntava como seria quando fosse sua vez, quando se tornasse pai. A criança se pareceria consigo? Herdaria os olhos dourados que eram a marca do seu clã? Sofreria da mesma doença que a sua? Suspirou no mesmo segundo que Jongin empurrou um copo de água na sua direção. Ele apanhou o copo e bebeu um pouco, Jongin sentou-se ao seu lado e observou Yixing também.
— Sinto muito por isso tudo. — o ômega se desculpou mas Sehun balançou a cabeça em negação.
— A culpa não é sua se seu irmão me odeia.
— Ele não odeia você, especificamente. — disse. — Ele odeia os alfas no geral.
— Ele odeia Junmyeon? — desconfiou.
— Não. — Jongin resmungou.
— Então, ele me odeia. — Sehun afastou o copo meio vazio. — Especificamente.
Jongin encolheu os ombros sem saber como sair daquilo, afinal era meio que um fato inegável que Han odiava Oh Sehun, seja ele alfa ou não. Mas Jongin achava que isso podia mudar se o irmão ao menos tentasse conviver um pouco com o Oh, principalmente quando ele estava ali, tentando ajudar Henry.
O barulho da porta no corredor abrindo foi o que tirou Jongin dos seus pensamentos. Sehun inclinou-se sobre a bancada e tentou espiar o corredor só para saber se era Han mesmo quem estava vindo e quando reconheceu a figura do mais velho dos Lu, ficou de pé e se preparou para se despedir de Jongin.
Lu Han avançou o mais devagar que conseguia pelo corredor e quando parou na entrada da cozinha, cruzou os braços e desviou o olhar do rosto de Jongin e Sehun. Não tinha coragem de olhar para nenhum dos dois no momento em que fosse dizer aquelas palavras.
— É melhor eu ir embora. — Sehun acabou sendo o primeiro a falar e começou a se afastar em direção a saída.
Han comprimiu os lábios e lançou um olhar para Jongin, que não retribuiu. Então, suspirou e abriu a boca:
— Espera.
Sehun parou onde estava, lançou um olhar questionador para o ômega Lu e esperou.
— Henry quer falar com você.
A sentença o pegou de surpresa, fez os olhos se arregalarem e as sobrancelhas se levantarem. Lu Han não o encarou por muito tempo, desviou sua atenção para qualquer coisa, parecia fazer de tudo para não dar o braço a torcer sobre aquilo, mas Sehun percebeu que já estava torcido. O que quer que ele e Henry tivessem conversado naquele meio tempo, envolvia seu nome e sua presença naquele lugar. Um desejo direto de Henry. Chegar nessa conclusão fez seu lobo se revirar no peito. Ele quase não conseguiu disfarçar a euforia.
Piscou os olhos em direção ao Lu e abriu a boca para pedir que repetisse, mas a expressão no rosto bonito de Han deixava claro que ele não falaria mais nada. Ou Sehun aceitava aquilo ou podia sair por aquela porta agora e não voltar mais, Sehun se viu indo pelo corredor em direção ao quarto de Henry depois de lançar um olhar nervoso para um Jongin meio risonho.
A porta estava destrancada, meio aberta e o cheiro de Henry acertava seu rosto com delicadeza. Era um fato que supressores tendiam a esconder o cheiro daqueles que o consumiam, era por isso que a grande maioria de ômegas os usava para sair no meio humano. Ficava mais fácil de se misturar entre a multidão. Sehun soubera que alfas espiões tendiam a usar supressores em suas missões, para evitar serem descobertos antes da hora e ele soubera também, que Henry os usava frequentemente, o que explicava porque quase nunca havia sido acertado por aquela deliciosa mistura de lírio-do-vale e magnólia. Era de enlouquecer qualquer alfa.
Ele balançou a cabeça antes de empurrar a porta, queria clarear os pensamentos, mas a visão do ômega sentado no meio da cama fez a coisa confusa dentro de si se embaçar mais um pouco. A camisa de Henry estava meio aberta, os botões casados erroneamente, fazendo uma gola ficar maior que a outra. Sehun se perguntou se ele havia fechado aquilo na pressa, afinal explicava o desleixo. As bochechas continuavam coradas, mas o tom de rosa era menor agora, beirava ao saudável; o cabelo continuava uma bagunça de fios escuros, o fazia sentir vontade de enfiar os dedos ali e arrumar.
O Oh parou em frente a cama depois de fechar a porta. Henry ergueu o rosto para fita-lo, lábios rosados presos em uma linha de apreensão. Ele parecia nervoso ao segurar os dedos uns nos outros, mas os olhos violeta eram bonitos demais para que Sehun conseguisse prestar atenção em qualquer outra coisa.
— Hannie me contou sobre o médico. — a voz dele chegou baixa aos seus ouvidos, suave de um modo que Sehun não estava acostumado a escutar.
— Jongin parecia desesperado quando me pediu ajuda. — falou. — Eu não podia dizer não.
— Obrigado. — agradeceu e lançou um olhar para a cartela de pílulas sobre o criado mudo, ao lado da jarra de água.
— Era o mínimo que eu poderia fazer, na verdade. — Henry tornou a olhar na sua direção, os olhares se cruzaram e Sehun se desestabilizou mais um pouco.
— Aquilo, não foi culpa sua. — o ômega suspirou, a mão foi parar na nuca e esfregou a pele em nervosismo. — Você não sabia, não é?
Se referia ao fatídico dia, o dia da desgraça, quando foi posto cara a cara com seu agressor. O dia em que havia bebido demais e ido parar na casa de Sehun, e vivido um pesadelo total. Ainda lembrava do jeito como o havia ameaçado, a forma como mascarou seu medo com raiva, o olhar desamparado que Sehun tinha no rosto. Era incrível como só conseguia lembrar do alfa Oh. Sua mente havia apagado qualquer resquício do outro — aquele que o machucara — e deixou para trás, apenas Sehun. Os olhos apavorados de Sehun, o cheiro de Sehun, a forma como ele o escondeu em outro cômodo, como mandou Yifan embora da sua propriedade. Ele havia o protegido desde o início, Henry era quem tinha demorado a perceber.
— Não, mas ainda assim sinto muito.
Eles continuaram se encarando até o momento em que Henry desviou o olhar para suas próprias mãos sobre o colo. Era tão estranho estar naquela situação, fazia-o pensar em muitas coisas; coisas que não conseguia nomear ainda. Talvez, Han estivesse certo: o cio estava bagunçando sua percepção. Ele limpou a garganta.
— Hannie também me falou sobre... hum... a recomendação do médico. — se escutou dizer, nervoso demais para esconder.
Sehun arregalou os olhos e sentiu o próprio rosto tornando-se quente, contudo, conseguiu coragem para se aproximar do ômega. Ele sentou-se em frente ao Lu e quase estendeu as mãos em direção as dele.
— Eu não faria isso. — assegurou ao outro. — É uma recomendação boba, posso ir atrás de outro especialista, alguém que entenda sobre a fórmula que você usava.
Henry comprimiu os lábios, encarou a colcha da sua cama e depois, a forma das mãos nervosas de Sehun sobre a cama e sem pensar muito, estendeu suas próprias em direção as dele. Era sempre estranho quando cedia ao instinto. Não era muito familiarizado com a sensação, por conta do tempo que passou se entupindo de supressores. Sabia que seu lobo estava ali, mas quase nunca entravam em contato, era como se tudo o que o fazia ômega estivesse dormindo bem no interior de si e agora, estava de volta, acordado e desejando alguém para tocar. Talvez, fosse sorte que a pessoa com quem queria fazer isso fosse justamente Sehun.
Pensar que podia ceder a qualquer outro alfa, principalmente, a Yifan, lhe dava calafrios.
— Hey. Tudo bem? — Sehun aproximou-se, apertou as mãos do ômega nas suas.
Ele devia tê-lo visto estremecer e se preocupou, Henry pensou e sentiu vontade de se aproximar mais um pouco, se enfiar no meio dos seus braços, deitar a cabeça no seu peito e ficar ali até que seu medo passasse. O pensamento entrelaçado com o desejo o assustou, quase fez a vontade se dissipar, se não fosse o cheiro de eucalipto de Sehun nublando seus pensamentos, teria afastado aquela possibilidade no momento em que veio.
Sehun soltou uma mão das suas e levou-a em direção a sua testa. O alfa afastou a franja para trás e colocou a palma contra testa, pele contra a pele. Henry estava voltando a queimar em febre. Seus olhos se tornaram preocupados quando os desviou para o remédio sobre o criado mudo. Sabia que não era seguro dar mais uma dose em um espaço de tempo tão pouco, mas também sabia que Henry recairia novamente para seu estado de calor total se não fizesse alguma coisa. O Lu como se percebesse o dilema que o outro se encontrava, afastou-se o suficiente do seu toque apenas para voltar no segundo seguinte, segurando a mão do Oh contra sua bochecha corada.
— Vamos fazer isso. — os lábios se mexeram contra a palma da mão que alcançava e Sehun estremeceu, como se fosse ele quem estivesse sofrendo os sintomas do cio.
— Henry. — chamou, uma suplica mal executada que se tornou um pedido.
— Não me faça pensar muito. — Henry sussurrou contra sua palma, os lábios bonitos beijaram a pele dali.
Sehun suspirou e ergueu a outra mão, colocou-a contra a outra bochecha e segurou o rosto do ômega perto. Ele não conseguiu se impedir de se aproximar um pouco e aspirar o cheiro doce do outro mais de perto. Seu lobo não costumava ser levado pelo instinto por conta da doença que o assolava, mas isso não significava que não era afetado. Henry parecia do mesmo jeito quando soltou-se das suas mãos e enfiou o rosto na curva do seu pescoço. A bochecha esquerda esfregou-se contra a glândula de feromônio e Sehun cerrou os dentes para impedir o gemido rouco que quis sair pela garganta.
Ele nunca tinha experimentado aquele seu lado animal, sempre havia sido tão contido e mesmo nos seus cios, lutava contra a fera que vivia dentro de si, mas ali estava ele, cedendo a aquela parte animal só por conta dos feromônios que Henry liberava. Estava o deixando louco de tal forma, que sequer controlou a forma como segurava o ômega, com força e perto de si.
Henry gemeu, baixinho, contra o seu ombro. O corpo tremendo levemente, as mãos de Sehun, de repente, estavam em todos os lugares. Enfiando-se por baixo da sua camisa, tocando a barriga, descendo pela costa, apertando a cintura, segurando perigosamente o cós do seu short. A possibilidade o afetava mais do que o ato em si, fazia sua entrada escorrer e seu cheiro aumentar.
Sehun segurou-o mais perto e dessa vez, cedeu ao desejo de enfiar o rosto na curva do seu pescoço. Os lábios desceram delicados contra pele do ombro, o beijo foi mais cálido do que Henry esperava. O corpo tremendo em antecipação não o ajudava a relaxar. Seu lobo queria tudo o que Sehun estivesse disposto a oferecer, mas seu lado humano ainda se encolhia de medo, a sua hesitação trouxe um pouco de sanidade a Sehun.
— Ei. — ele chamou baixinho, a voz era rouca contra a pele pálida do Lu. Henry fechou os olhos, apreciando as vibrações no seu interior. — Eu preciso que tenha certeza. — ele descansou a testa sobre o ombro marcado do ômega e Henry fechou os olhos por um segundo.
Tudo o que sentia era o cheiro de Sehun, o eucalipto o envolvia tão bem em uma redoma de paz que não conseguia pensar em mais do que não estar ali e além do mais, o Oh não estava o tocando indevidamente. Ele era calmo e delicado a cada vez que dedilhava sua pele, nada agressivo, nada possessivo. Não havia nele a necessidade de domar, tudo o que conseguia captar dos movimentos do Oh era o puro desejo. O desejo de se afogar na sua presença.
As mãos do alfa não estavam mais no seu corpo, elas se apoiavam ao lado do seu corpo, sobre a cama. Estava lhe dando a chance de escapar, Henry sabia mas não queria. Incrivelmente seu lado humano concordava com a suplica baixa do seu lobo, ambos queriam Sehun perto. Por isso, deslizou as próprias mãos pelas laterais do corpo do alfa, alcançou-lhe os braços e conduziu as mãos até a sua cintura. Ele jogou-se para trás, puxando Sehun junto consigo, fazendo-o ficar por cima do seu corpo.
O alfa o fitou de cima, íris manchadas de dourado. Henry se surpreendeu pela cor do lobo interior de Sehun, nunca havia parado para pensar sobre aquilo, mas ali estava. O dourado derramava-se com carinho sobre si de tal forma que fez suas defesas se tornarem mais baixas, ele ergueu a mão e cobriu a bochecha direita do Oh e sem jamais pensar demais sobre tudo aquilo, ergueu-se desajeitadamente até que seus lábios encontrassem os de Sehun no caminho.
Sehun o segurou, os braços fecharam-se na sua cintura, o mantiveram perto de tal forma que Henry só conseguiu suspirar contra os seus lábios. A boca do alfa se abriu para deixar que o Lu tomasse a dianteira de tudo, afinal aquilo era sobre ele e não sobre si.
A língua dele era macia contra a sua, a cintura estreita sob seus dedos e os pequenos gemidos que soltava só serviam para deixa-lo mais excitado. Henry separou-se de si, voltou a deitar as costas na cama. Os lábios inchados combinados com as bochechas coradas fizeram Sehun descer em sua direção atrás de mais beijos. As mãos permaneciam na cintura, o aperto firme e seguro fazia Henry relaxar. Sehun não parecia apressado em aprofundar os toques e Henry apreciava isso, fazia-o pensar que eles tinham todo o tempo do mundo. Ninguém podia atrapalha-los, ninguém podia separa-los. Sehun não deixaria e Henry não queria que acontecesse.
Os lábios do alfa deslizaram para a sua bochecha e desceram para o pescoço. Ele farejou sua pele e o Lu sentiu-se arrepiar inteiro. A língua dele desceu sobre a pele, molhada e obscena de tal forma que Henry sentiu a parte de trás do seu short torna-se mais úmida e o gemido que saiu dos seus lábios foi mais alto do que imaginou. Sehun pareceu gostar, pois o sentiu sorrir contra sua pele. Estava sendo provocado, percebeu.
— Não... não faça isso. — ofegou, as mãos fecharam-se em um aperto firme nas laterais do tecido da camisa do Oh.
Sehun sorriu mais um pouco, as mãos deslizaram pelas laterais do corpo do ômega e se enfiaram por baixo da camisa. Henry ofegou, as mãos fecharam-se ao redor do alfa. Tinha as pontas dos dedos tremendo quando sentiu as mãos do alfa trabalharem em descasar os botões da sua camisa, o peito foi exposto e Sehun afastou o rosto do seu pescoço para observar a cena. Henry o soltou, cobriu os olhos com o antebraço, de repente, envergonhado demais da sua bagunça. Sehun o achou lindo.
— Você é perfeito.
O alfa desceu o rosto sobre seu dorso, os lábios encontraram a clavícula, o pomo de adão, passaram perigosamente perto dos mamilos e beijaram toda a pele da barriga que encontrou. Henry manteve os olhos escondidos, suspirava a cada pequeno movimento que Sehun fazia contra sua pele. Não lembrava-se da última vez que algo como aquilo havia acontecido. Ele já havia ajudado outros ômegas do seu clã no cio, também havia tido ajuda nos seus momentos de calor, no entanto, aquilo tudo havia acontecido de forma automática. Era feito para aliviar e não para adorar. Ninguém havia perdido tempo tocando-o daquela forma, deslizando os lábios por seus detalhes e fazendo tanto esforço para transforma-lo numa bagunça.
Sehun ajudou-o a se livrar das roupas, o short e a cueca foram parar em algum lugar do quarto junto com a camisa. Henry quis se encolher diante do olhar que recebia, mas estava necessitado demais para se deixar levar pela vergonha do seu lado humano. Seu lobo rugia dentro de si, completamente louco para se submeter a qualquer que fosse os planos de Sehun. Era assustador. Não estava acostumado com o desejo, muito menos com as ordens do seu lado animal.
— Está tudo bem. — o alfa beijou-lhe cada uma das bochechas demoradamente. — Eu posso parar, se você quiser. – o fitou.
— Não, eu... — Henry resmungou, era difícil colocar em palavras quando se sentia tão preso nos próprios instintos. — Eu quero. — conseguiu dizer e Sehun tornou a descer os lábios contra os seus.
Era doce, extremamente delicado e calmo. Henry não lembrava de ter recebido um beijo como aquele alguma vez, sequer lembrava de ter sido tão íntimo de alguém como estava sendo de Sehun. Ele ergueu os braços e os fechou em volta do pescoço do alfa, aprofundou o beijo do jeito que pôde. O gosto que ele tinha no centro da língua estava o enlouquecendo. Sehun gemeu contra seus lábios e separou-se de si devagar, Henry sentiu as pernas sendo separadas e a mão do alfa parar sobre a virilha. Eles se encararam, havia ali um pedido implícito para seguir em frente, uma coisa que Henry concordou com um leve acenar.
A mão de Sehun fechou-se em volta do seu pênis, o polegar parou sobre a fenda molhada. O ômega gemeu quando ele começou a bombear para cima e para baixo, devagar. O som molhado que aquilo fazia, só servia para nublar mais seus pensamentos. Ele estava consciente da forma como jogava o quadril em direção a mão de Sehun, um pouco desesperado demais para se conter e estava consciente também do olhar no rosto do alfa, da luxúria que escorria dos seus nervos. O líder Oh voltou a vir para cima do seu corpo, os lábios encontraram seus mamilos com pressa. Ele prendeu um entre os dentes e Henry gemeu terrivelmente alto.
Quando estivesse de volta ao seu estado normal, provavelmente morreria de vergonha, mas agora, só conseguia desejar e desejar aquilo. Tanto tanto e tanto, que sequer percebeu que implorava por aquilo com palavras, pequenos pedidos feitos entre um gemido e outro. E Sehun lhe dava tudo o que queria, derramava sobre si toda a atenção que Henry não sabia que gostava.
Não demorou muito até que o Lu chegasse no ápice, que tivesse seu próprio gozo espalhado sobre sua barriga e respingado no tecido da camisa de Sehun. Ele surpreendeu-se com a rapidez, mesmo assim. Sehun sorriu contra sua bochecha antes de deixar um beijo no canto da sua boca, Henry fechou os olhos com o carinho repentino. A vibração no baixo ventre foi passando aos poucos, o nervosismo na base do estômago também. Ele expirou de boca aberta, Sehun afastou-se de si e sentou ao seu lado na cama. Henry virou-se de lado para observa-lo, sentia o rosto quente e não sabia se isso era culpa do cio ou da vergonha que o abatia ao notar a forma como havia sujado a roupa do outro.
Sehun não parecia se importar, porque tirou a camisa em um movimento só. O ômega encarou o que conseguiu do seu abdome, dos ombros e costas largas. Sehun olhou-o por sobre o ombro, os olhos ainda estavam pintados de dourado e o volume na calça deixava claro o seu desejo por mais. Henry mordeu o lábio inferior e sem pensar muito, ficou sobre os joelhos e abraçou as costas dele, deixou pequenos beijos sobre o ombro e pescoço. A mão do Oh procurou a sua, enlaçou seus dedos e Henry descansou a testa contra a sua nuca, quieto, respirou contra sua pele.
Sehun era maior que si, com braços longos, mãos grandes que se combinavam com todo o resto. Henry gostou da fisionomia do seu corpo, da possibilidade de apenas perder-se no seu abraço, ficar ali pelo resto dos seus dias, completamente envolvido naquele calor.
— Não precisamos continuar. — a voz do alfa chegou rouca aos seus ouvidos.
— Tudo bem. — Henry molhou os lábios com a ponta da língua, lutou contra o desejo de esfregar a bochecha contra a nuca de Sehun e ter mais do seu cheiro preso na sua pele. A ideia de cheirar como ele estava o deixando um pouco zonzo, desejoso demais. Malditos sejam os instintos ômegas! — Eu ainda quero. — o assegurou.
Num movimento rápido, Sehun puxou-o para frente, o sentou sobre suas coxas. Henry fechou as pernas em torno da sua cintura, queria olhar em seus olhos e constatar a veracidade daquelas palavras. Mas o Lu não era de mentir, nunca havia sido. O alfa encostou a testa na sua, os olhos abertos — dourado contra violeta —, Henry fechou os braços no seu pescoço e o puxou para mais perto, juntou seus peitos e os lábios. O beijo foi se tornando gradualmente mais faminto com o passar dos segundos e com a adição das mãos de Sehun nas bandas da sua bunda, Henry soube que não tinha mais forças para lutar contra o inevitável.
O alfa deitou o Lu na cama novamente e antes de deitar-se sobre seu corpo, tratou de tirar os sapatos e chutar o resto das suas roupas para qualquer lugar longe de si. E de repente, nu contra o corpo pequeno de Henry, ele percebeu o quanto aquele ômega o afetava. Não da forma como Minseok um dia fez, mas de uma forma nova e mais potente. Era o jeito como ele o olhava, como suspirava a cada pequeno toque e como o desejava. Sehun não queria fazer papel de bobo novamente, não queria se enganar de novo com alguém que estava consigo só por conveniência, mas era difícil olhar nos olhos de Henry e pensar que o quer que ele estivesse sentindo, era por si. Todo aquele sentimento era dedicado a si.
Em uma outra vida, quem sabe, eles tivessem filhotes com olhos violeta. Mas naquele momento, naquela vida, Sehun tinha que se contentar com aquilo: o desejo. Henry estava cedendo ao seu toque apenas por conta do desejo, por culpa dos hormônios do cio. Não havia nada de mágico nisso. E quanto mais rápido entendesse, menos se machucaria.
O sol estava se pondo lá fora quando Sehun enfiou o rosto entre as pernas de Henry e beijou-lhe toda pele da virilha que conseguia ver. Os tons de laranja entravam pela janela e derramavam-se sobre o teto e as paredes, a luz parava um pouco acima da cabeceira da cama, deixava o cômodo inteiro mergulhado naquela meia luz laranja e rósea, que fazia a beleza de Henry se destacar. Daquele jeito, Lu Henry parecia quase etéreo, uma figura emergida de um conto de fadas. Os olhos violeta profundo, cabelo escuro e pele clara. Os dedos delgados enfiaram no meio dos cabelos do alfa, em algum tipo de carinho sutil que Sehun se deixou aproveitar. Ele beijou-lhe por entre as coxas, nos joelhos e panturrilha. Ergueu suas pernas sobre seus ombros só para alcançar mais detalhes da sua pele com os lábios.
Seus atos eram vagarosos, mas estava tudo bem. Henry não tinha mais pressa, apesar da forma como se tornava um pouco mais carente a cada pedaço de tempo, seu ômega interior havia entendido que uma hora ou outra receberia o que queria. Precisava apenas de paciência. E além do mais, não era nenhum sacrifício ter Sehun daquela maneira, adorando-o como se fosse a própria personificação da deusa Dal.
Ele o virou de peito para baixo, colocou uma almofada embaixo da sua barriga para que ficasse empinado na sua direção. Sehun beijou-lhe a linha da coluna, desceu até sua bunda, separou as bandas e sem nenhuma hesitação, enfiou a língua na sua entrada úmida. Henry segurou os lençóis com força e fechou os olhos, a boca se abriu e o gemido saiu estrangulado. Sehun chupou-lhe como se estivesse faminto, bebeu da sua lubrificação com pressa. A língua cutucou a borda, enfiou-se para dentro e trouxe para fora mais do seu gosto. Sehun não se importou com a bagunça que causava, com a forma como resumiu Henry a um louco, alguém completamente louco por prazer.
Ele enfiou a mão por baixo da barriga do ômega, o fez firmar o quadril, ficar de joelhos, de quatro, completamente aberto para receber mais da sua língua. Henry tremia enquanto Sehun o chupava e gemia, gemia, gemia cada vez mais alto. A mão do alfa fechou-se mais uma vez em volta do seu pênis, desceu e subiu-a ali por bastante tempo antes de esfregar o dedo indicador entre as bolas num carinho bom demais para que Henry conseguisse se impedir de vazar mais lubrificação.
Foi daquele jeito, segurando os lençóis com força e com o nome de Sehun preso nos lábios, que gozou pela segunda vez. Sehun rastejou por sobre suas costas, deixando beijos onde conseguia e Henry não conseguia pensar em nada. Estava tudo muito nublado no seu pensamento, os sentimentos eram uma bagunça e não ajudava a forma como sentia o pênis de Sehun ereto, grosso, tocando nas suas costas. Ele ainda queria aquilo, se surpreendeu.
— Seu cheiro continua forte. — Sehun sussurrou no seu ouvido e Henry expirou, virou o rosto em direção a voz e procurou a boca do alfa em um beijo desajeitado.
Seu coração batia tão rápido, que tudo o que conseguia escutar era o sangue rugindo nos seus ouvidos. Ele deve ter dito alguma coisa ao alfa, porque sentiu-se ser virado e as pernas sendo abertas. Sehun enfiou-se entre elas com pressa, ansioso por alguma coisa que Henry não precisou externar. Estava estampado nos olhares dos dois, nenhuma palavra precisava ser dita para que enfim aquilo acontecesse.
O corpo do ômega sabia o que fazer. Ele empurrou-se contra Sehun, os quadris mexendo obscenamente atrás de qualquer reação mais possessiva do outro. Não precisou muito, no final. Sehun segurou-lhe os quadris e simulou uma estocada certeira. Henry engoliu a saliva só para sorrir em resposta, os cantos dos lábios se repuxaram de um jeito tão bonito que o alfa não resistiu em puxa-lo na sua direção e tomar sua boca em um beijo sujo.
O Lu provou o próprio gosto na língua do alfa, doce.
— Sehun. — Henry segurou o seu rosto e olhou bem dentro dos seus olhos.
— Diga. — o alfa passou a língua por sobre seu lábio inferior, um tipo de estranho de beijo que nunca tinha recebido.
— Eu quero você.
Sehun não fazia o tipo que negava aquele tipo de pedido, ainda mais quando era feito por alguém tão bonito quanto Henry. Ele sorriu antes de beija-lo e tornar a deita-lo na cama. Henry apoiou-se nos cotovelos para ver o que o alfa faria, apesar de tudo o que já haviam feito, ainda sentia um pouco de nervosismo vagando por sua corrente sanguínea, mas apesar do visível desejo nos olhos do Oh, ele ainda foi com calma. Parecia ter medo de ultrapassar os limites, mas eles já não haviam chegado longe o suficiente?
Foi com diversão que o alfa notou a impaciência no rosto do Lu, nem mesmo seus beijos pareceram acalmar o lobo de Henry. Eles estavam tão perto do ato final, que mesmo Sehun sentia-se despreparado, por isso decidiu confiar no seu instinto.
Ele cutucou a borda da entrada de Henry com polegar, o ômega se contorceu e mordeu o lábio inferior. Os olhos pareceram faiscar naquela semi-escuridão do começo de noite. A boca do Lu se abriu para pedir que fosse mais rápido, que lhe desse logo o que precisava, mas Sehun ignorou tudo o que escutou e brincou mais um pouco na borda, testou a resistência sobre seu dedo. Esfregou o dedo na entrada, lambuzou-o na lubrificação antes de enfiar com cuidado. Henry mastigou mais um pouco o lábio, não queria gemer tão alto, não queria parecer tão desesperado mas quando o segundo dedo entrou o mais fundo que Sehun conseguia, foi impossível controlar o movimento do seu quadril.
O ômega mexeu-se contra os dedos, fodeu-se do melhor jeito que conseguia. Sehun veio para cima do seu corpo e aproximou a boca dos seus mamilos. Os dentes encontraram a carne mais rápido do que os lábios só para fazer Henry soltar mais daqueles gemidos manhosos. O alfa chupou o mamilo, lambeu e mordeu, deixou-o molhado de saliva e numa brincadeira um pouco cruel, afastou a boca dali e soprou sobre a pele, apenas para ver o Lu se contorcer mais um pouco com o arrepio que arremeteu o seu corpo.
Os dedos curvaram-se dentro do ômega, perto o suficiente da sua próstata. Henry mexeu o quadril de forma mais desesperada e Sehun soube que havia encontrado o ponto certo. Ele enfiou mais um dedo e socou-os o mais fundo que conseguia. O ômega gemeu mais alto, as mãos subiram para segurar os ombros do Oh em uma suplica bonita demais para que Sehun conseguisse ignorar. Sabia que se insistisse mais um pouco, teria Henry gozando novamente, pois ele estava tão terrivelmente sensível depois de tudo o que haviam feito, por isso tirou os dedos de dentro dele. A sensação de vazio acometeu o ômega por um momento, quis protestar mas Sehun não lhe deu tempo, quando puxou seu quadril para perto, segurou seu próprio pau e colocou na entrada do ômega.
Henry estava tão molhado que foi fácil deslizar para dentro, e era tão quente e apertado que Sehun precisou ficar parado por um tempo para não perder o controle. Quando, enfim, começou a se mexer, notou que o quarto inteiro estava mergulhado em escuridão. Ele não conseguia ver muito de Henry embaixo de si, a visão tinha sido prejudicada para que o tato se elevasse.
Sehun sentia a respiração dele contra seu peito e pescoço, a ponta dos dedos passeando pelas laterais do seu corpo, as pernas dele bem fechadas na sua cintura e o cheiro dele — delicioso — espalhado por todos os cantos daquele lugar. Começou a se mexer só para ter mais dos gemidos baixinhos dele, ofegos e suspiros soltos no pé do seu ouvido. Era a primeira vez que tinha alguém tão entregue aos seus toques assim.
Ele segurou as mãos de Henry sobre sua cabeça, aumentou o ritmo das estocadas. Seu rosto estava sério ao fitava o ômega, fazia o Lu se contorcer inteiro. Nunca havia visto olhos tão escuros de desejo como aqueles, fazia-o ter certeza de que estava na mira de um alfa, que estava preso sob seu controle e que não se incomodava nenhum pouco com aquilo. Não havia mais medo, havia só prazer. Tanto prazer que quando Sehun deitou-se sobre seu corpo para lamber seu pescoço, a pressão feita no seu pênis foi boa demais para que conseguisse pensar sobre as implicâncias daquilo.
Sentiu os dentes dele rasparem contra sua pele, bem sobre a sua marca, apertou mais os braços do alfa, fazendo as unhas se enfiarem na pele. A mera possibilidade de ser marcado novamente enquanto se mergulhava em prazer foi tanta que se viu expondo o pescoço mais um pouco. Seu lado ômega estava completamente no controle, estava dando a Sehun tudo o que era, tudo o que tinha e queria tanto, mais tanto, que ele o aceitasse, que o tornasse seu. Somente seu ômega, que gemeu baixinho, implorando pela coisa de que mais tinha vergonha.
Sehun pressionou os dentes contra a pele do ômega ao mesmo tempo que sentiu o quanto estava perto do seu ápice, já podia sentir a cabeça do seu pênis tornando-se inchada. Henry choramingou com o jeito como seu membro se tornava maior dentro de si, o nó pressionando de um jeito delicioso a sua próstata. Os olhos se encheram de lágrimas quando Sehun mexeu os quadris contra os seus mais um pouco, empurrando o nó mais fundo que conseguia. A pessão era tão boa que Henry não conseguiu mais se segurar e gozou uma terceira vez. Sehun sorriu contra sua pele, a respiração quente levando arrepios para o resto seu corpo.
Henry fechou os olhos enquanto o corpo tremia, as mãos muito bem fechadas nos braços de Sehun, o impedindo de se afastar. Os dedos dos pés se enrolaram e o seu ômega interior sentiu-se malditamente satisfeito com a forma como estava preenchido. O Oh gozou logo em seguida, o nó tornou-se maior no espaço apertado fazendo-o rosnar baixinho e satisfeito contra o pescoço do ômega. Sehun não estava pensando quando passou a língua sobre a marca do Lu, tudo o que conseguia se concentrar era no cheiro que ele tinha, no gosto dele ainda preso na sua boca e pele e em como os cheiros deles se misturavam naquele cômodo. Estava tão preso nisso, completamente dominado por seu lado animal.
Logo ele que sempre tinha sentido orgulho do modo como era capaz de se controlar, de manter seu instinto alfa um pouco abaixo de si, estava ali, se deixando dominar. Cada parte do seu corpo pedia por aquilo. Pegue o que é seu, seu lobo sussurrava. Sentiu as presas crescerem, raspou-as perigosamente contra a pele do ômega embaixo de si. Henry choramingou e expôs o pescoço mais um pouco.
— Por favor, por favor, por favor. — o Lu implorou e Sehun não sabia o que fazer com aquilo. — Faça.
Os braços do alfa enfiaram-se por baixo do Lu e o aproximaram mais de si, os dentes afundaram contra a pele. No local exato onde uma marca deveria ficar. Henry fechou os olhos, lágrimas não derramas presas nos cílios. Sehun afastou-se e passou a língua sobre a ferida até que o sangramento parasse, beijos também foram deixados sobre a pele por tempo bastante para que o nó do alfa regredisse e Sehun pudesse sair de dentro do outro. Henry manteve-se agarrado ao Oh, eles fitaram-se na penumbra do quarto.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Era tudo escuro, seu ombro latejava e seu peito estava completamente cheio de um sentimento tão bom que fazia parecer que o sangue havia se transformado em água quente correndo nas suas veias. Henry não conseguia ver nada da expressão de Sehun, por isso ergueu a mão e tocou com a ponta dos dedos o seu rosto, descobriu cada um dos seus detalhes. As sobrancelhas juntas, um vinco engraçadinho entre elas, a linha da boca relaxada apesar disso. Ele parecia estar tentando enxerga-lo através de todo o breu. Chegar a essa constatação fez seu coração bater forte. Ele empertigou-se em direção ao alfa e beijou-lhe os lábios devagar.
Sehun retribuiu com a mesma delicadeza.
Eles não falaram sobre nada. Só aconchegaram-se um sobre o outro e aproveitaram o resto da noite em silêncio.
***
Hyukjae encarou a figura silenciosa de Wu Yifan da ponta oposta da mesa de jantar. Jeonghan, o fiel companheiro do Wu, estava em pé perto da porta, mãos em frente ao corpo, empoleirado e atento como um cão de guarda. Hyukjae acreditava que ele fosse um beta, por conta da ausência de cheiro, mas havia alguma coisa na forma como se ele se movia que sempre o fazia desconfiar disso. Ele sabia que Yifan estava metido em assuntos ilegais e que tinha seus próprios métodos de resolver as coisas, um pouco imprudente demais para os seus parâmetros, mas tentava não se meter. Queria só observar de longe, ver até onde o outro chegava sem quebrar a cara, afinal, bem sabia que o Conselho não deixaria tais transgressões passarem tão rápido. Eles estavam com os olhos bem abertos depois do que Kim Minseok e Kim Jongdae fizeram.
Yifan o encarou de volta, olhos sérios e um sorriso divertido nos lábios enquanto mastigava um pedaço de carne. Ele sabia que não era a melhor companhia para o Park, mas também sabia que ambos tinham coisa demais em comum para se ignorarem. Lançou um olhar para Park Dasom, sentada do lado direito do pai, quieta e bonita. Ela não lhe devolveu o olhar, limitou-se a continuar comendo como se estivesse sozinha.
O silêncio na mesa de jantar não era opressor, mas deixava Yifan um pouco inquieto ainda mais quando se via na mira dos pensamentos de Park Hyukjae.
— Então, Dasom, como andam as coisas no território Byun? — o líder Park perguntou à filha.
Dasom ergueu os olhos do seu prato e encarou pai. Com o cabelo curto daquele jeito, Yifan conseguia notar melhor a semelhança entre o alfa e a ômega, era a forma dos olhos e das maçãs do rosto, o queixo e a forma das mãos. Ambos eram mais parecidos do que se podia imaginar, Yifan se perguntou se o temperamento poderia ser o mesmo. Ele não conhecia Dasom realmente, tudo o que sabia dela era o que havia escutado da boca de outros lobos. Nada muito impressionante, quem sabe, ela fosse mais interessante se fosse um dos brinquedos da Organização.
— Bem. — ela respondeu e cortou mais um pedaço de carne, espetou-o com a ponta do garfo. — Baekhyun tem se saído bem em arrumar toda aquela bagunça. — levou o garfo com a carne à boca e mastigou vagarosamente.
— Siwon parece tê-lo ensinado bem. — Hyukjae disse, calmo.
Yifan olhou de Dasom para o alfa, não pareciam que eles iam começar a se enfrentar, mas a forma como os ombros da mulher tornaram-se rígidos entregava que ela estava pronta para caso fosse provocada.
— Bem o suficiente para que não precise ajuda-lo. — praticamente murmurou antes de beber um pouco do vinho na taça.
Dasom segurou a faca com força e encarou, irritada, o pai. Yifan ergueu uma sobrancelha, curioso para saber o que ia acontecer. Estava adorando o entreternimento.
— Não me venha com essa, sabe muito bem porque preciso estar lá. — ela rebateu e Hyukjae apoiou o queixo na mão ao mesmo tempo que revirava os olhos, ao que parecia eles já haviam tido aquela conversa antes. — Estou tentando resolver a burrada que você causou. — Dasom suspirou, o aperto na faca relaxou. — Estou tentando nos deixar em bons termos com Baekhyun novamente.
— Nunca estivemos em bons termos com Baekhyun ou com qualquer um da sua corja. — Hyukjae fitou a filha. — Não seja boba, não agora.
Dasom pareceu visivelmente ofendida, a boca se abriu levemente. Ela piscou os olhos fortemente antes de afastar a cadeira e se pôr de pé.
— Perdi a fome. — anunciou antes de se afastar da mesa e sair da sala de jantar.
Yifan encarou o caminho por onde ela passou antes de voltar seu olhar para Hyukjae, que bebericava o vinho da sua taça com calma. Nada em seu semblante denunciava que havia acabado de discutir com a filha.
— Crianças. — ergueu a mão como se espantasse alguma coisa e Yifan balançou a cabeça em concordância como se entendesse ao que o mais velho se referia. — Sempre acham que podem consertar tudo.
Hyuk voltou a comer e Yifan seguiu o exemplo. Ambos permaneceram em silêncio pelo resto do jantar. Quando os pratos foram recolhidos, o chinês curvou-se para o mais velho antes de sair da sala de jantar sendo seguido por Jeonghan. Yifan foi direto para o seu quarto, o humano trancou a porta atrás de si e ficou parado na entrada, esperando novas instruções. Ele observou a forma como o alfa abria a camisa e se livrava de toda a parte superior da roupa, deixando seu peito nu a mostra quando foi em direção a varanda e encostou-se lá. O alfa olhou para trás, direto para si e não foi necessárias palavras para que Jeonghan soubesse que devia se aproximar.
— Marque um encontro com Hyuna. — mandou.
Jeonghan afastou-se ao escutar as palavras, procurou o celular nas suas vestes e discou o número da mulher. Não demorou até que ela atendesse, a voz cálida do outro lado da linha dava nos nervos do humano de tal forma, que se viu mastigando o lábio inferior em ansiedade, enquanto isso, Yifan voltou para dentro do quarto, andou até o criado mudo ao lado da sua cama e abriu a primeira gaveta. Apanhou a cartela de comprimidos, destacou dois e colocou na boca. Masticou com uma careta, sequer bebeu água para ajudar a descer.
Odiava tomar supressores mas era o mínimo que podia fazer para apaziguar o seu lobo interior. Havia passado o dia agitado, a comoção dentro de si estava o deixando maluco, se não fosse seu autocontrole, já havia extravasado aquela agitação de algum jeito ruim. Ele havia ido ver o médico do clã Park e escutara da boca do homem que era possível que seu ômega estivesse no cio. A inquietação que sentia, não passava da marca chamando-o para perto, chamando-o para satisfazê-lo. Pensar nisso enchia-o de frustração, que só aumentava a cada vez que percebia como estava preso ali, preso do lado de fora do território daqueles malditos lobos Kim.
Se encontrasse Kim Junmyeon naquele momento, quebraria sua cara em mil pedaços, então tomaria Henry para si do jeito que seu lobo mandava. Lançou um olhar para Jeonghan, que ainda falava no telefone. O humano o olhou de volta, deu para perceber na forma como ele encolheu os ombros que estava com medo. Yifan quase sorriu com a visão, ser temido fazia-o se sentir um pouco maior do que era, alimentava seu ego alfa.
O humano terminou a ligação, lhe falou sobre o horário que havia conseguido para amanhã. Yifan o dispensou, Jeonghan saiu sem esperar que dissesse de novo. O alfa deitou-se na cama depois de tirar a roupa toda, a janela aberta deixava o vento da noite entrar, ajudava a apaziguar o seu calor. Ele desceu a mão por sua barriga, agarrou seu membro e começou a se acariciar. Fechou os olhos e puxou bem fundo da memória, o cheiro de Henry, o gosto da sua pele, a forma como que ele era apertado e quente, o som que ele fazia. Não demorou muito para que gozasse somente com aquilo, o formigamento no baixo ventre abrandou, não fez desaparecer apesar de tudo. Ainda estava ali, perturbando seu lobo alfa.
Ele ficou de pé e foi em direção ao banheiro, passou pela entrada e entrou no box, ligou o chuveiro e enfiou-se embaixo da água gelada. Esperava que aquilo ajudasse nos seus nervos, afinal precisava de uma boa noite de sono para amanhã. Tinha negócios urgentes para tratar com Hyuna, precisava convencê-la a acelerar aquele maldito plano de entrar nos Kims para recuperar Henry e resolver todo aquele calor.
Mas, por enquanto, tinha que se contentar com aquilo: masturbações sem graça embaixo do chuveiro e a certeza de que Henry estava se satisfazendo com outro alfa. Chegar a essa conclusão não era difícil, era preciso apenas se atentar a forma como a inquietação no seu interior parecia menor. Um ômega não satisfeito tendia a ficar mais e mais agitado, louco por prazer, mas Yifan havia percebido que não estava mais recebendo nenhuma parcela disso pela marca, tudo que vinha agora, era algo mais brando, um pouco de calor misturado a satisfação.
O Wu encostou a testa na parede de azulejos do banheiro e acertou-a em seguida com um soco. O azulejo trincou sobre sua mão e a dor subiu, gostosa, por seu pulso. Ele afastou a mão e saiu do banheiro, enxugou-se apressado. Vestiu as roupas de qualquer jeito e saiu do quarto. Jeonghan estava no corredor e fez menção de segui-lo, mas o olhar de Yifan o parou. O alfa enfiou-se no carro e dirigiu até o território Kim, fora da cidade.
Estava com tanta raiva, tanta frustração que a sensação de perda no seu peito só fazia aumentar. Odiava o modo como Henry o fazia se sentir, como se não tivesse controle sobre nada, mas sabia que no momento em que o tivesse perto tudo isso melhoraria. Ele seria consertado, voltaria a ser um lobo completo e aquela sensação de vazio se afastaria do seu peito. Eles viveriam bem no território Choi, teriam filhotes e construiriam um bom legado. Tudo o que precisava fazer era entrar nos Kims e pegá-lo.
Yifan encarou a entrada do território Kim. Os portões fechados e o aviso de propriedade privada não o assustava, poderia acelerar o carro e derrubar aquilo tudo em um piscar de olhos, mas não faria. Não podia. Infelizmente, tinha um trato com Hyuna, o tipo de coisa que o impedia de avançar. Precisava ser paciente, contudo, quanto mais paciente era mais Henry se sentia no direito de dormir com qualquer maldito lobo. Precisava que fosse rápido, para poder tê-lo, marcá-lo novamente e firma-lo como sua propriedade.
Observou o movimento dos guardas atrás dos portões, todos curiosos com sua presença. Quem sabe, podiam sentir o seu cheiro. Não seria uma surpresa. Estava tão bravo que liberava seus feromônios como um maluco, se qualquer alfa o encontrasse naquele momento acharia que o estava chamando para uma briga. Yifan socou o volante do carro e mordeu a parte interna da bochecha. Odiava aquilo, mas sabia melhor do que ninguém que o melhor se fazer era dar meia volta, de volta aos Parks.
Mas ele voltaria, prometeu. Sim, ele voltaria.
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