De smoking e com o cabelo cuidadosamente arrumado, ele parecia um verdadeiro Lord. Não que fosse dizer isso em voz alta. – Hathaway, eu poderia te perguntar a mesma coisa. Estava passando e pensei...-

- Que Lissa deixou alguma coisa no meu quarto? – Estava com muita raiva e magoada, e quando isso acontecia, costumava descontar nos outros.

-... que o jantar dos Szelsky seria chato sem a sua ilustre presença, e quis saber mesmo se você estaria lá.

- Oh, que amigável. – Revirei meus olhos e fechei a porta.

- Por falar nisso, onde está Dimitri? Achei que você indo num jantar da realeza significava que Belikov estaria ao seu lado. – Ele disse, franzindo o rosto. Dimitri era o guardião de Christian, e fiquei surpresa por Ozera não saber onde ele estava.

- Você me diga. Ele me enrolou, e não vou perder um jantar por causa dele. – Minha voz soou cheia de veneno, assim como a minha alma se sentia. Nunca tinha me sentido tão traída. Dimitri simplesmente desapareceu sem dar uma explicação. Ok, eu sabia que ele tinha saído com Karen para resolverem umas coisas, mas mesmo assim eu me preocupava com ele, mas na Corte, nada de mais teria acontecido a um Guardião tão bom quanto Dimitri. O que levava a minha outra teoria: ele tinha decidido que não me acompanharia mais. Obrigada, camarada.

- Problemas no paraíso? – Quando não respondi, ele me ofereceu seu braço, sorrindo. – Bem, duas pessoas sozinhas e uma festa à disposição. Sabe o resultado, Hathaway? – Ele perguntou. Lissa estava em reunião naquela noite, então Christian estava sem companhia.

- Hmm... Um idiota me acompanhando para o jantar?

- Nunca te disseram que suas palavras machucam? – Eu revirei os olhos, mas passei meu braço pelo o dele, e descansei minha mão no seu antebraço.

- E meus punhos podem matar, Lord, então cuidado com o que pede. – Ele fingiu terror, colocando a mão esquerda sobre o cabelo e arfando. Surpreendentemente, eu ri.

Juntos, andamos pela Corte o mais rápido que pudemos, até a casa dos Szelsky, que mais parecia uma mansão. Eram quase 20h40min quando Christian bateu na porta, e para a minha surpresa, Ariana atendeu.

Ela estava em um vestido cor de creme simples, que ia até o chão, e seus cabelos louros arrumados em um coque. Ela praticamente exalava realeza, com seus gestos delicados e feições neutras. Porém, ela sorriu para nós, especialmente para mim, e disse — Boa noite Guardiã Hathaway, Lorde Ozera. Fico feliz que tenham vindo.

- Obrigada. – Eu respondi, e entramos em um saguão com piso de mármore, e um lustre de cristal brilhava acima de nossas cabeças. Nas paredes ao lado da porta, vários quadros com honras da família Szelsky estavam pendurados, demonstrando o quanto Rupert era orgulhoso do sobrenome e sangue. Ariana apontou para um sofá de couro pequeno. – Coloque seus casacos ali, se quiserem e me sigam. A mesa está pronta.

Essa era a primeira vez que eu via um Moroi da realeza nos recebendo na porta e não um servo. Era totalmente diferente de quando eu havia jantado nos Ivashkov, que tinham uma servente chamada Torrie.

Admito, eu estava admirada com esse detalhe. Especialmente porque esta era uma das famílias mais poderosas da realeza.

Nenhum de nós tirou o casaco, e Ariana nos conduziu à sala de jantar. O cheio de comida assaltou meu nariz, e fiquei com água na boca. Cheiro de frango, rico e um pouco apimentado. Camarão, arroz com os mais nobres temperos, e vinho da mais fina qualidade me recepcionaram assim nos deparamos com o banquete. Um grande peru estava servido, e ao seu redor, tudo que se podia imaginar, da degustação mais simples, à mais complexa, com molhos indianos, massas e três bebidas diferentes – vinho tinto, vinho branco, e champagne.

Abe estava sentado ao lado de Janine, na metade direita da mesa, vestido formalmente. Minha mãe estava linda, toda de roxo, e provavelmente foi a primeira vez que a vi com maquiagem.

Tentei ignorar o quanto eles pareciam bem juntos, como se seus devidos lugares fossem bem ali. Rupert estava em uma ponta da mesa, e a outra ponta estava vazia – Ariana, presumi. Um Moroi com mais ou menos quarenta anos, uma Moroi ruiva ao seu lado, e uma garotinha parecida com uma princesa, levantaram os rostos quando entramos.

- Rose, seja bem-vinda. — Rupert disse, sorrindo para mim de modo genuíno.

- Já estava na hora — eu ouvi Abe murmurar, e um momento depois, perguntou — Onde está Belikov?

- Não pode vir — eu respondi sinceramente.

Janine estreitou os olhos, provavelmente percebendo a mentira. Ela não disse nada sobre o assunto e, além disso, se levantou e gesticulou em direção ao homem Moroi. – Esse é Andrew Szelsky, meu protegido. Sua esposa, Sophie, e filha, Lucy.

Eu assenti e sorri a cada um deles. Então esse era o famoso protegido de minha mãe, aquele por quem ela me deixou. Devia ter sentido uma onda de inveja, mas agora entendia a necessidade dela de proteger os Moroi. Eu tinha o mesmo impulso e seria mesquinho condená-la por isso. – Senhores, essa é Rose, minha filha.

Lucy arregalou os olhos. – A Rose Hathaway? Aquela que derrotou um exército de Strigoi?

A mãe, Sophie, repreendeu a garotinha — Lucy! Isso não se fala!

Dimitri tinha me falado que eu era praticamente uma lenda entre as crianças – a primeira Guardiã a desafiar tudo e todos e acabar com tantos inimigos – mas mesmo assim, era uma surpresa saber que eu era um tipo de ícone.

Um momento de desconforto passou pela sala, e então Abe pigarreou. – Agora que a hora de tensão acabou, podemos comer? Estou faminto, Rupert.

Todos rimos, e nos sentamos em duas cadeiras, lado a lado. A comida foi servida, e me deixei levar no sabor de tudo que provei por alguns minutos.

- E então, minha filha, você está com Christian? Lissa ficará furiosa, não? – Abe perguntou, mas nem olhou para mim e continuou cortando um pedaço do frango.

- O quê? Não estamos juntos! – Christian foi mais rápido que eu na resposta, e bem mais educado. – Lissa está em reunião, e Dimitri... err, teve que fazer um trabalho com Hans. Por isso decidimos aproveitar a companhia do outro. Com todo o respeito, Abe, eu nunca namoraria Rose.

Eu arfei de surpresa e pisei no seu pé com o salto do scarpin debaixo da mesa. Christian gritou de dor, Sophie pulou de susto, e Lucy começou a gargalhar. Janine tossiu e olhou apontadamente para mim, como se dissesse: Se controle! Como eu era uma guardiã treinada e ela era minha mãe, pegaria muito mal para mim se levasse uma bronca na frente de todos esses Moroi.

- E para deixar claro, eu também não chegaria perto de você, Ozera... Digamos que você não faz o meu tipo.

Christian bufou. – Oh, claro, ela curte russos. Eu me esqueci.

E com isso, eu me lembrei do porquê de Christian estar aqui comigo... E não Dimitri. Lancei um olhar assassino a Christian.

- E ainda assim, Belikov não está aqui. – Abe disse.

- Ele não veio porque está ocupado, velho. Dimitri é um guardião, e precisa agir como um algumas vezes. – Mesmo estando com raiva e magoada, eu sentia a necessidade de proteger Dimitri de meu pai. Porque se eu deixasse Abe acabar com Dimitri nesse jantar, qualquer chance de amizade entre eles iria para o inferno.

Minha mãe revirou os olhos. – Ele não veio mesmo assim, e é uma falta de educação. – Senti meus olhos se arregalarem. Falta de educação? Ela não tinha razão para desmentir o que eu tinha dito, e suas palavras me deixaram com a impressão de que ela não entendia nada sobre o trabalho que Dimitri precisava exercer, mesmo que eu tivesse mentido.

- Eu, por exemplo, nunca deixei sua mãe na mão quando estávamos namorando — Abe murmurou, e foi a vez de Janine arregalar os olhos. Andrew gargalhou e Christian segurou a risada do meu lado. Eu podia jurar que isso tinha sido um flerte.

- Então... Espero que a comida esteja boa — Ariana disse pela primeira vez desde que começamos a conversar. – Não sabíamos quem viria, portanto fizemos o melhor.

- Está delicioso, obrigada. – Sophie disse. – Ouvi algumas histórias interessantes sobre os planos do Conselho.

- Deve ser algum boato — ofereci. – O Conselho não tem permissão de divulgar nada. Pelo menos, eu acho — complementei, não querendo soar muito dura.

A boca de Sophie se abriu em um pequeno O de surpresa, e Abe respondeu, ainda sem olhar para ninguém. – Não, é verdade. Se alguém soltar por aí algum plano oficial, está morto. Literalmente.

Janine fez uma careta, desconfortável. Conforme o jantar prosseguia, falamos mais sobre política, as escolhas do Conselho e algumas idéias para Lissa. Ariana era uma ótima estrategista, e sugeriu criarmos uma divisão especializada em descobrir os principais líderes dos Strigoi.

Embora requeresse Guardiões altamente treinados e eficazes, prometi que conversaria com Lissa mais tarde sobre o assunto. Os Strigoi, embora fosse improvável, às vezes faziam alianças frágeis, e até quartéis-generais. Como o que Dimitri ficou quando era um deles. Ele havia se unido com Galina, sua antiga mentora. Acabar com esse tipo de união os deixava mais desorganizados.

De fato, Sophie e Andrew falaram muito pouco em toda a refeição, só oferecendo comentários ocasionais e não entrando muito no clima político. Eu me sentia do mesmo jeito, mas Lissa era a rainha, portanto achava importante participar desse tipo de discussões.

A inteligência de Ariana podia ser muito útil a Lissa, e fiz uma nota mental para recomendar Ariana como conselheira real. Um posto muito alto, mas acho que ela agüentaria.

Depois do jantar, foram servidas as sobremesas: pudim, torta holandesa, mousse de maracujá e brownie, pavê com frutas e chocolate, e sorvete de creme com pedaços de morango coberto por cauda. Também foi servida uma taça de água a cada um. Eu queria pular na mesa e devorar tudo, mas como uma educada convidada, comi e repeti apenas uma vez. E depois das sobremesas, ainda tinha café com creme e açúcar. Vou ter de malhar por três meses, foi o que pensei enquanto tomava um gole do café.

Conversamos por algumas horas, e embora o papo tenha sido meio vago, percebi como Abe e Janine flertavam de vez e quando e ficavam olhando um para o outro. Além disso, Sophie e Andrew sempre prestavam atenção em Lucy, que mantinha seus olhos curiosos em mim quase o tempo todo.

Quando chegou a hora de irmos, enquanto Ariana e Rupert estavam se despedindo de Andrew e sua família, Abe me chamou em um canto da sala de jantar. Janine tinha ido se arrumar no banheiro, e Christian estava olhando os quadros, então estávamos a sós.

Abe abaixou a cabeça e falou baixo — Rose, eu sei que não estive muito presente na sua vida, e por isso, eu sinto muito.

Nunca vi Abe falar dessa maneira comigo. Por isso, como sempre, comecei a interromper. – Escute, velho-

- Cale a boca e me deixe terminar. – Eu me calei. E me surpreendi com esse palavreado vindo dele. – Como estava dizendo, me desculpe por isso. E, como tenho vários recursos... Olhe, aqui está um presentinho.

Era um envelope vermelho-sangue, com um selo dourado na abertura. Eu cuidadosamente enfiei minha mão lá dentro, e senti algo frio e de plástico tocar meus dedos. Parecia... – Um cartão de crédito? – perguntei, exasperada.

- É sem limites. Só não compre acima de 5 milhões de dólares, mas o resto, eu dou conta. – Ele disse, presunçoso. Eu só consegui olhar para ele, surpresa e sem fala. – Considere um presente por tudo o que você fez.

- Por... Por tudo que eu fiz? Droga, pai, se você tivesse me avisado, eu teria jogado uma bomba atômica na Corte. Você me daria o que, se eu fizesse isso? Um continente?

Ele riu, mas não me respondeu. E isso me assustou. E se resposta fosse sim?

- Hathaway? Hora de ir. – Christian me chamou. Minha mãe já estava na porta, esperando por Abe, e conversando com Ariana. – Se lembre que eu ainda tenho que te colocar na cama.

- Haha, muito engraçado, Ozera. – Eu murmurei, mas acabei indo até ele do mesmo jeito. – O jantar foi maravilhoso, Rupert, Ariana. Obrigada pelo convite.

Rupert sorriu suavemente. – O prazer foi nosso, Guardiã Hathaway.

Eu estava surpresa pelo comportamento deles. Tão aceitável e amigável. Eu estava esperando ser odiada durante todo o jantar, e não ser tratada como uma amiga da família. Bem, não que eu fosse reclamar.

- Se cuide — Abe disse e repentinamente uma brisa forte, muito forte, soprou sobre nós. Na verdade, só sobre Rupert. O cabelo dele ficou quase da forma da polpa de um navio, de tão bagunçado, e Ariana riu. – E penteie esse cabelo, homem. Você é realeza.

Rupert revirou os olhos, e eu vi algo se movendo na minha visão periférica. Uma... bolha de água? Saindo de uma poça? Oh, sim. Abe ia ter retaliação.

Mas o velho foi mais rápido, e antes que ficasse molhado, um vento explodiu a bolha, e várias gotículas de água caíram pelo jardim ao lado da casa.

– Você continua o mesmo sem graça — Rupert disse, balançando a cabeça.

Christian e Janine se despediram, também, e eu observei meus pais irem cada um para o seu lado, embora tenham se despedido com um abraço hesitante. Hmm, esses dois estavam ficando cada vez mais próximos.

Christian e eu voltamos para o prédio onde o dormitório da Rainha – e o meu – estavam. Não estava tão tarde, mas sem muitos Moroi nas ruas, e poucos Guardiões faziam patrulha. O perigo que eles viam era os humanos e qualquer um louco o suficiente para tentar alguma coisa. Nenhum Strigoi atacaria agora, estando perto do amanhecer. Eles fritariam, porque não há cobertura suficiente ao redor da Corte.

Chequei meu celular. Nada de Dimitri. Fiquei cada vez mais preocupada com ele conforme nos aproximamos da porta da minha suíte. E se estivesse machucado? Não suportaria a ideia dele se ferindo enquanto eu estava em um jantar de gala.

- Aqui estamos — Christian anunciou e eu suspirei. – Escute, Lissa me mandou uma mensagem, e disse que Dimitri tinha saído para algum lugar, ela não sabia onde, e que voltaria logo.

- Oh, claro... eu vejo como ele voltou rápido — murmurei, abrindo a porta.

- Dê uma folga a Belikov. Quem sabe não foi o trânsito.

- Boa noite, Christian. E... obrigada pela companhia. – Eu disse.

Christian tocou sua cabeça como se estivesse tocando a ponta de um chapéu, e me deu um sorriso torto. – De nada, Rose. Sua presença não foi ruim, eu admito. – Dei um tapa em seu braço, e ele riu. – Sério... se cuida, e sim sim, eu mando um beijo para a Liss.

- Acho que você vai dar bem mais a ela do que só um beijo — murmurei baixinho, e ele arqueou uma sobrancelha. Revirei os olhos e fechei a porta na cara dele.

O fato de Dimitri ter me deixado na mão não era somente desapontador, era de me deixar magoada. Eu sempre estive lá por ele, sempre o ajudei no que podia, e mesmo com todas as suas promessas, eu ainda tive que ir à um jantar cheio de Moroi sozinha. O que me chateava, entretanto, também era porque ele não tinha nem se incomodado a me mandar uma mensagem. Algo como, “Rose, não posso ir no jantar. Emergência” ou alguma coisa assim. Mas não.

Tirei toda a minha roupa, furiosa com o trabalho e tempo que levou, e que no final, ninguém esteve lá para apreciar o que tinha feito, e tomei um banho de 40 minutos. Sequei meu cabelo lentamente, passando as mãos por cada mecha e me demorando na parte de trás. E ainda, Dimitri não apareceu.

Arrumei a cama, coloquei os pijamas, e fiz chocolate quente na minúscula cozinha americana, no canto da suíte, e me sentei no carpete, com um cobertor ao meu redor. Encostei-me a um dossel da cama, estranhamente confortável, e respirei fundo.

Não sei quando tempo passou depois disso. O suficiente para o carpete começar a adormecer minhas pernas. O suficiente para o chocolate quente ficar gelado. E então, eu ouvi a porta se abrindo suavemente, e a forma de Dimitri se esgueirando na escuridão. Eu tinha me certificado de que todas as luzes estavam apagadas, mas, como sempre, no momento que ele se virou, me avistou no chão.

E mesmo sem luz, eu pude ver sua expressão despencando. – Rose...

- Nem uma mensagem? – Eu perguntei, a voz macia como seda e afiada como uma faca. – Nem uma única ligação?

Dimitri recuou. – Me desculpe — ele disse e eu quase acreditei. – Eu não conseguia te ligar. Meu celular-

- Me poupe! – Me levantei rapidamente e deixei a caneca no chão. – Você acha que eu me formei ontem? Que eu não te conheço? Eu sei quando você está mentindo, Dimitri.

- Então você sabe que-

Levantei uma mão para silenciá-lo, tão fula que meus olhos se encheram de lágrimas. – Não se atreva a inventar uma desculpa. Foi você que sempre me falou o valor da honestidade. Então se você não quer falar a verdade, por mais estúpida que seja, eu falo: Tive que ir a um jantar, com os Moroi da realeza e os meus pais, que por sinal, estavam esperando por você. E eu tive que fazer isso sozinha. – Minha voz tremia com dor e mágoa, e os olhos de Dimitri se encheram de culpa.

- Rose, eu juro que não foi minha culpa.

- Interessante, mas não muda nada. Eu ainda não sei se você está mentindo ou não. Por falar em mentira, eu tive que mentir por você quando meu pai ficou me questionando sobre o porquê do meu namorado não estar comigo em um evento daqueles. E eu fiquei sem resposta. – Eu disse, e Dimitri recuou ainda mais.

- Eu disse que não foi minha culpa. Eu tentei chegar a tempo, mas houve um acidente na estrada, e não consegui desviar. E você está sendo hipócrita. Está me culpando por algo que não foi minha culpa, mesmo com todo aquele papo de não levar o que aconteceu com Ivan para o lado pessoal e se encher de culpa.

Eu ri, mas o som mais pareceu um soluço. – São situações diferentes, camarada. Mesmo não sendo sua culpa, você deveria ter me ligado e me avisado. Fiquei esperando que nem uma idiota. Que pena, não? Mas qualquer chance de amizade entre você, Abe e Janine provavelmente está arruinada. Tudo por causa do acidente.

- Isso é loucura! E se vai fazer você se sentir melhor, eu falo com eles amanhã, explico o que aconteceu.

- É bem capaz de Abe te matar pelo o que aconteceu. Ele viu como eu estava no jantar. Então poupe seu fôlego e o tempo do meu pai. Quer saber? Não é ele que precisa ser convencido da sua inocência. Me pareceu que todas as suas palavras e lições de vida zen na Academia foram somente parte da fachada que você mantinha, aquela que sempre estava no controle. Eu me pergunto se suas promessas também fazem parte dessa fachada.

Mesmo na escuridão, eu pude ver os olhos de Dimitri se arregalando. – Roza, você está exagerando. Muito. E já disse que sinto muito por não ter te avisado e você ter ficado me esperando. Não foi a minha intenção. Você nem sabe o que aconteceu, e já me crucificou.

- Que seja. Fale o quanto quiser, mas não vai mudar o que aconteceu hoje.

Levei a caneca até a pia, e o cobertor até a cama. Como estava de pijamas, me deitei, e me cobri. Dimitri me olhou o tempo todo, e quando eu virei as costas para ele uma última vez, o ouvi suspirar. – Rose... me desculpe.

- Boa noite, Dimitri.

Ouvi enquanto ele ia para o banheiro, se arrumava, porém quando ele deitou do meu lado, não esticou o braço e me abraçou como sempre fazia, ou me beijou no ombro. Ao invés disso, ele se virou para o outro lado, e fomos o mais longe que a cama permitia. Me senti tão mal por ter brigado com Dimitri. Era como se estivesse arrancando uma parte de mim mesma, e mesmo sendo uma briguinha boba, meu coração se sentiu pesado.

Pela primeira vez em semanas, eu não dormi com os braços de Dimitri ao meu redor.

***

- Você sabe o quê, — eu disse enquanto Lissa e eu passávamos por um saguão antes de voltar as ruas da Corte. “Você deveria sair assim mais vezes. Ninguém te reconheceu”

- Quase ninguém, — corrigiu Lissa, olhando para os lados. Ela tinha conseguido escapar dos deveres reais provavelmente usando um pouco de compulsão. Para que não houvesse problema de ser reconhecida em público e longe da guarda real, ela tinha arrumado um disfarce que a fazia parecer uma pessoa comum.

Bem, exceto que pessoas comuns não andavam de bermudas e um moletom verde com capuz erguido para esconder o rosto e o cabelo loiro. E também não usavam Ray-ban preto para esconder os olhos cor de jade que a denunciavam uma Dragomir e que a deixavam com cara de drogada ou algo do tipo.

Eu estava vestida normalmente, usando jeans e um moletom. Era meu dia de folga e Lissa decidiu que deveríamos fazer alguma coisa diferente. Claro, quem é que agüenta ficar praticamente vinte e quatro horas por dia ouvindo reclamação e brigando com Moroi que só sabem falar do próprio nariz e de coisas fúteis?

- Você não me disse o que aconteceu entre vocês dois, — cutucou ela.

Pressionei meus dedos nas têmporas, de repente me sentindo de mau humor. — Oh cara. Eu não quero falar sobre isso.

Lembrar da briga que tive com Dimitri na noite passada acabou estragando o momento. Ele podia ter me atirado aos tubarões ontem a noite, mas eu não tinha o direito de descontar toda a minha raiva nele. Especialmente porque ele não teve culpa de ter ficado preso no trânsito por causa de um acidente. Eu deveria ter me controlado e deixá-lo se defender.

Yeah, eu tinha sido uma hipócrita e uma vaca com ele. Tinha dito coisas que nunca diria se estivesse com a cabeça no lugar. Jogar na cara de Dimitri que seu amor por mim era somente uma fachada era cruel, e uma mentira ridícula. Ele já tinha provado o que sentia por mim de tantas maneiras — me defendendo, tomando conta de mim, me amando, me entendendo — e mesmo fazendo a mesma coisa por ele, foi como se eu tivesse dito que todos os sacrifícios que fizemos um pelo outro não era nada. E eu não tinha ideia de como começar a me desculpar. Palavras não poderiam apagar o que eu fiz.

E como conseqüência da minha explosão de ontem a noite, eu não o vi quando acordei esta manhã. Ele não tinha deixado nenhum bilhete com alguma mensagem fofa nem nada do tipo – não que ele tivesse costume de fazer isso. Era quase como se ele não tivesse dormido lá.

A única coisa que provava o contrário era o seu travesseiro amassado. O travesseiro que assim que me dei conta da merda que tinha feito, eu o abracei e fiquei inalando o perfume intoxicante e suave de Dimitri. E ao me lembrar daqueles olhos castanhos – os olhos que eu mais amava no mundo – ficarem doloridos depois que eu disse tudo aquilo, me fazia querer chorar. Eu realmente era uma vaca sem coração.

E de certo modo, eu quase podia sentir o espírito dentro de mim novamente. Era só coisa da minha cabeça, é claro — a ligação com Lissa tinha desaparecido para sempre — mas os sintomas ainda estavam ali, no fundo da minha mente. Sonya havia me dito que a escuridão na aura dos outros ia diminuindo aos poucos, mas na minha, era como se estivesse colada. E se os vestígios da escuridão que eu absorvi de Lissa enquanto era shadow-kissed ainda estivessem aqui?

- Parece que nada mudou, Liss — eu murmurei. — Eu continuo gritando e magoando quem eu amo, mesmo não tendo ligação com o espírito. Eu sinto como se uma parte de mim tivesse sido corrompida pela escuridão, e eu não possa restaurá-la.

Os olhos de Lissa me analisaram, concentrados, e eu percebi que ela estava vendo a minha aura. — Acho que está exagerando — ela disse, depois de alguns segundos. — Tudo o que eu vejo em você é arrependimento e tristeza. Não tem nada de escuridão, Rose. Aquilo já se foi, junto com a ligação.

E ela adquiriu uma expressão pensativa, como se refletisse que toda a escuridão que estava em mim agora estava dentro dela, devorando-a aos poucos. Era em momentos como esse que eu ficava insegura — o que valia mais a pena, proteger Lissa de si mesma, ou proteger minha sanidade e permanecer com quem amava?

Eu joguei esses pensamentos para fora e fiquei surpresa ao notar onde estávamos indo. Seriamente, eu não esperava que Lissa e eu viéssemos mais aqui depois de tudo.

O prédio construído no estilo medieval brilhava a nossa frente. Uma construção conhecida, especialmente o que ela abrigava. Um grupo de mulheres Moroi saiu do SPA rindo com alguma coisa. Eu olhei para Lissa.

- Então é assim que você decidiu passar seu dia de folga? Com massagens, manicure e pedicure?

Eu estava contando que ela dissesse que sim. Eu estava querendo um dia como garota comum para esquecer por um curto período de tempo meus deveres e problemas. A resposta dela, no entanto, me surpreendeu.

- Não. – ela tinha um sorriso misterioso no rosto. – É melhor.

Nós entramos e Lissa me conduziu para um dos corredores. Eu imediatamente o reconheci, as engrenagens rodando na minha cabeça. Para confirmar minhas suspeitas, Lissa tinha tirado os óculos e abaixado o capuz.

Ela parou de repente e abriu um enorme sorriso para um dhampir que tinha acabado de fechar uma porta. E este ficou paralisado por um segundo antes de se ajoelhar.

- Vossa majestade – Ambrose disse antes de Lissa fazer um gesto para que ele se levantasse. Ele nos olhou com curiosidade por um momento antes de voltar seu olhar para Lissa. – Os arranjos já foram feitos e –

- Que arranjos? – eu estava perdida e realmente não tinha ideia do que se tratavam esses arranjos.

Ambrose ia abrir a boca para me dizer algo quando Lissa balançou a cabeça.

- Não, ainda não. Vamos esperar os outros chegarem. – ela olhou para um relógio que tinha na parede e franziu os lábios. – Uns dez minutos.

- Oh, isso é perfeito. – sorriu Ambrose – Se não se importarem, eu estava conversando com tia Rhonda minutos atrás. Ela disse que gostaria de ver as duas, especialmente a rainha.

Notas Finais (novamente o nyah fica comendo as letras):

Aí está o tão esperado capítulo!Espero que estejam gostando da fanfic,especialmente desse capítulo,pois saibam que eu morri de rir com essa cena do jantar que a Bia Lins escreveu!

Queria agradecer a todos os maravilhosos comentários que recebemos de vocês! Saibam que isso só nos faz ficar mais entusiasmadas para escrever!O próximo capítulo sai em breve,com bastante coisa pra vocês pensarem! Comentem e faça alguma recomendação da fic se quiserem =D

Ah e se tiverem alguma sugestão,por favor nos digam!