Aqueles olhos azuis cor de gelo. Aqueles mesmos olhos azuis que eram a marca registrada dos Ozera e que um dia eu confiara neles. Assim como meus amigos. Aqueles olhos que pareciam inocentes, mas que por traz guardavam uma história sangrenta de assassinato, traição e ciúmes.
- Rose Hathaway. Você era a última pessoa quem eu esperava ver por aqui depois de tudo. – ela estava me estudando cuidadosamente, como se estivesse planejando algo.
Eu cruzei os braços. – Yeah, eu meio que também esperava que você fosse a última pessoa que eu quisesse ver no mundo.
- E ainda assim, você está aqui. – ela disse, sorrindo falsamente. – No que posso ser útil? Lissa precisa de algo?
- Vindo de você? Eu duvido muito – eu dei um passo a mais para que estivesse olhando diretamente para ela. Eu não tinha medo da proximidade, porque as barras de prata a deixava fraca demais para tentar me atacar. Isso adicionado ao pouco sangue que era fornecido a ela. – E você não tem mais o direito de chamá-la de Lissa. Não depois do que você fez.
Isso pareceu não afetar Tasha, o que me deixou irritada. Especialmente pela cara que ela fez.
- Você tem certeza de que eu realmente queria matá-la? De que ela era o meu alvo? – perguntou arqueando uma sobrancelha. Ela sabia que eu sabia a resposta e estava tentando me provocar. Eu não ia cair no joguinho dela.
- Eu sei que eu era o alvo. Não queria acreditar nisso, mas, você queria Dimitri. Ainda o quer. – mencionar sobre o amor da vida de Tasha a fez ficar atordoada por um momento. Eu sabia que tinha cutucado na ferida. — Vocês eram bons amigos, e mesmo assim, você não desperdiçou a oportunidade de me matar, não é?
- Bons amigos nunca foi o bastante, pelo menos para mim. Eu via como ele olhava pra você, mesmo comigo bem ao seu lado. — O olhar de Tasha se tornou mais distante, como se estivesse mesmo se lembrando dos meus momentos com Dimitri. — Eu via como ele te queria, mesmo sendo impossível. Diga-me que você não faria a mesma coisa se a situação estivesse invertida
- Matar outra mulher por um homem? Acredite, eu fui educada de maneira diferente. — Respondi, mas mesmo assim uma onda de insegurança passou por mim. Mesmo pensando que Tasha estava com Dimitri, nunca tentei matá-la ou nada do tipo, mas fui grossa a ponto de Dimitri perceber meus ciúmes. Eu seria mesmo capaz de ir embora sem o homem que amava, só porque ele queria outra?
Não , pensei. Não sou baixa o bastante para isso.
- E eu também. Por isso quis que Lissa fosse ao poder. Para que houvesse mais justiça na sociedade.
- Justiça? Como você pode me falar de justiça depois de ter me acusado de algo que não fiz? — tentei manter minha voz controlada, mas Tasha deve ter percebido a nota de incredulidade que assumi, porque ela ergueu uma sobrancelha.
- Foi diferente. Você não entenderia.
- Então me explique, por favor. Eu já estou cansada de ficar no escuro durante todas essas semanas – falei sarcasticamente esperando que ela me xingasse. Mas eu sabia que Tasha era boa demais para isso.
- Depois da morte dos pais de Christian, eu precisava de alguém, Rose. E quando me apaixonei por Dimitri, sabia que ele era esse alguém. Passei anos tentando mostrar a ele o que poderia oferecer. E em menos de um mês, ele se apaixonou por você. Por quê? Por que você merece Dimitri, sendo que tem tudo?
- Eu tenho tudo? – perguntei surpresa. – Do mesmo jeito que você não tem família, eu também não tenho. – Essa última parte era mentira, mas eu fui privada de meus pais ma maior parte da minha vida. E Lissa era como uma família para mim.
- Você tem amigos, Rose. – Tasha disse. – Coisa que nunca tive.
- Oh, você teve sim. Dimitri era seu melhor amigo, e tentando me matar, você acabou com essa amizade.
Essa conversa estava andando em círculos, e não iríamos a lugar nenhum com isso. Quando Tasha abriu a boca para me responder, eu a interrompi. – Por que você fez isso, Tasha? Por que jogou na cara de Christian a data do seu julgamento?
Sua expressão ficou cuidadosamente neutra, e eu sabia que estava certa sobre o que tinha assumido. Tasha tinha dito aquilo a Christian sabendo a confusão que causaria. – Estava simplesmente comunicando meu sobrinho — ela respondeu, com a voz também sem emoção.
- Você sabia que Christian iria com mil pedras para cima de Lissa. – apontei — Isso foi tão baixo quanto sua tentativa de me incriminar.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e por trás do azul de seus olhos, eu pude ver a cobra pronta para dar o bote. – Eu só fiz o que podia para adiar o meu julgamento — ela disse, afinal.
- Não importa o que você fizer ou o quanto tentar adiar seu julgamento, ainda vai ser considerada culpada, Tasha. Traição real e tentativa de homicídio são crimes graves, e será um milagre se você só for para Tarasov. – Eu murmurei, olhando-a desafiadoramente. Por mais que a parte egoísta de mim me dizia que ela seria condenada a morte ao invés de ir para uma cadeia me vingaria um pouco, a minha outra parte tinha pena dela. E de Christian, especialmente dele, que era a sua única família.
O olhar que ela me deu de volta deixou claro que estava tentando ser corajosa, mas a ideia de ser morta a assustava tanto quanto a mim.
– Você nunca sabe o que pode acontecer — Sua voz era fria, mas antes que pudesse perguntar o que ela quis dizer, Tasha continuou – E Vasilisa? Ouvi que há vários protestantes lá fora.
Saiu antes que eu conseguisse impedir, seguido com um suspiro cansado. Eu estava ficando amigável demais com meus inimigos. Qual era o meu problema afinal de contas?
– O usual. Mas você não precisa se preocupar. Não é como se você fosse o alvo deles. – Não ia dizer a ela que Lissa tinha tantos protestantes a ponto de enviarem uma carta ameaçando sua vida.
Tasha me deu um meio sorriso. – Isso é verdade. Ela é o alvo deles. Quem sabe até Jill, já que o quorum limita o trono de Lissa a ela.
Isso me fez hesitar. Tasha mencionando Lissa e Jill logo depois de uma carta daquelas, que praticamente dizia a mesma coisa? Que na verdade, Jill também era um alvo, a “base da pirâmide de cristal que era o governo de Lissa”? A princípio, considerei a ideia de que Tasha fosse quem tivesse mandado a carta, mas simplesmente não fazia sentido. Tudo o que Tasha fez, inclusive o assassinato de Tatiana, foi para que Lissa virasse Rainha. Matá-la agora seria colocar tudo a perder. Mesmo assim, sua indireta não passou despercebida, embora eu só tenha estreitado os olhos em desconfiança.
Essa conversa sobre Lissa me fez lembrar a que tive há muito tempo com Victor. Só que naquela época, ao invés de ser fria e controlada como agora, eu já havia me jogado nas barras da cela e gritado para que ele explicasse suas intenções. Dimitri havia estado comigo lá, e mesmo sabendo que seria impossível – para não dizer desconfortável – ele estar comigo aqui, ainda senti sua falta.
- Elas podem ser o alvo, mas isso não significa que terão ataques. – Eu disse.
- Oh, sim. Por que você a defenderá com a sua vida? Sabe, Rose, isso é uma das coisas que mais admirava em você. – Tasha disse, seu tom de voz pesado com sarcasmo.
- E uma das coisas que mais admirava em você era sua coragem. Mas somente um covarde incrimina um inocente. – Eu murmurei. – E somente uma pessoa sem escrúpulos não se arrepende disso.
Foi a vez de Tasha de estreitar os olhos, e eu pude ver a raiva neles. – Você era um obstáculo na minha vida, e eu fiz o necessário para tirá-lo do caminho. Você quer falar de coragem? Aí está ela.
- Você não tem moral para falar de coragem, nem de obstáculos. Já tive muitos obstáculos na minha frente e nunca precisei matar para ultrapassá-los.
Com isso, me virei para ir embora, disposta a deixar isso no ar. Não ficaria aqui e brigaria com Tasha sobre suas ações, ou como ela estava errada ao tentar me matar. Havia maldade nela agora, maldade que eu nunca havia sentido antes, mas que deveria ser vista com cuidado. Eu não deixaria Tasha me machucar novamente, fisicamente ou psicologicamente.
A voz dela me fez parar, cheia de ameaça, tão fria a ponto de congelar o Sol. – Uma última coisa, Rose — ela disse. – Você já passou pelos seus obstáculos, mas quem disse que eles não podem voltar para te assombrar?
Olhei pelo meu ombro, calafrios subindo pela minha espinha e arrepiando minha nuca. Alarmes de aviso dispararam na minha mente, mas eu os ignorei. Tasha estava aqui, presa, e não poderia me machucar. Suas palavras eram vazias, mas um sentimento de desconforto tomou conta de mim. Suspirei, e dando um último olhar a ela, me dirigi a saída.
Quando finalmente voltei às ruas da Corte, percebi que o Sol já estava começando a nascer. Meu encontro com Tasha demorou mais do que eu gostaria, percebi. Mas para a minha sorte, eu não tinha turno nas próximas doze horas – eu iria repor o que faltei numa outra hora.
A prisão não era longe da minha suíte, mas minha cabeça estava cheia com a conversa que tive com Tasha. Queria encontrar Lissa e saber como a conversa com Christian tinha ido, e se ela precisava do meu apoio, mas o cansaço bateu, e a única coisa que eu queria era cair na cama e esquecer sobre meus problemas – pelo menos por umas sete horas.
Passei na cafeteria, e não pude deixar de olhar a mesa onde Christian e eu havíamos nos sentado. Nunca havia visto Christian tão vulnerável daquele jeito, e isso só me deixava mais determinada a ajudar Lissa a ele.
Peguei um croissant para viagem e o comi no caminho, mal sentindo o gosto. Com meu trabalho exigindo mais e mais de mim, dificilmente tinha tempo de comer, e quando o fazia, era porque estava tão faminta que não podia esperar mais um pouco.
Foi um alívio não encontrar um guardião esperando para falar comigo, então fui rapidamente ao meu quarto. Dimitri estava trabalhando, protegendo Lissa e Christian. Embora quisesse ele ao meu lado, e seus braços ao meu redor, me obriguei a tomar um banho rápido, deslizar na minha cama e tentar esvaziar minha mente.
Novamente, os problemas vieram, detonando qualquer possibilidade de descanso, e só depois de muito tempo revirando entre as cobertas e bufando na escuridão, eu consegui dormir.
Naquela noite, porém, eu sonhei.
* Sonho*
Eu ouvi o barulho do meu soco, e observei o sangue de Victor cair de seu nariz, deixando uma linha vermelha em seu rosto pálido. – Muito bem — ele arfou, tentando inutilmente sair debaixo de mim. Sua força, porém, era patética se comparada à minha.
- Eu estive esperando por isso durante muito tempo, — eu disse, fúria tornando minhas palavras afiadas como facas.
- É claro que estava — Victor disse com um sorriso – Eu achava que Belikov era o selvagem, mas é você, não é? Você é animal fora de controle, sem nenhum pensamento a não ser lutar a matar.
Eu estava tão furiosa com o que Victor tinha feito que não me segurei, e dei outro soco no seu maxilar, e quando ouvi um crack sorri satisfatoriamente. Ter capturado Jill foi inaceitável, e eu o faria pagar por isso.
Para minha surpresa, porém, ele começou a rir. Seu pescoço se mexia de modo estranho, veias saltando em contraste com seu maxilar quebrado, e eu recuei momentaneamente, assustada pela bizarra visão.
Foi o bastante. Com uma onda de magia mais poderosa do que nunca, Victor me arremessou há cinco metros do chão, e eu cai duramente no asfalto, sentindo meu ombro se deslocar e minha cabeça bater contra o chão. Ele se aproximou como um predador, limpando o sangue de sua boca e cuspindo aos meus pés. Seus olhos brilhavam perigosamente, como se não pudesse esperar para me fazer gritar de desespero, e em resposta, senti medo apertando meu coração.
Nunca tinha sentido medo perante um Moroi antes, mas dessa vez, era como se tentáculos frios como gelo se apertassem ao redor do meu peito, me fazendo respirar mais rapidamente.
Victor percebeu isso e quando tentei me levantar, outra onda de magia fez a terra tremer tanto que cai de joelhos, recuando com a dor nas minhas pernas. Mais asfalto se ergueu, e eu percebi que ele estava tentando criar uma prisão de pedra. Não podia deixar isso acontecer.
Esperava que meu corpo fosse forte o bastante para dar um único soco e derrubá-lo, mas era como se uma onda sobrenatural – mais sinistra e surreal que a magia de Victor – me segurasse no lugar. Cobrindo-me completamente, o asfalto começou a se dividir, até criar as formas distintas de grades, e, se fechando ao meu redor, me fizeram prisioneira.
Tentei gritar para Dimitri me ajudar, já que Robert não podia ser tão forte quanto Victor, mas nenhum dos dois estava perto. Estava sozinha aqui, e nem mesmo minha força de dhampir conseguia superar o poder de Victor.
Uma das grades se separou das demais e sua ponta ficou tão afiada como uma agulha. Só tive um momento para perceber o que ia acontecer quando a lança se lançou na minha direção, se enterrando no meu ombro e saindo nas minhas costas. Arfei de dor, incapaz de gritar embora meus pulmões implorasse por uma saída, e tentei tirar meu corpo da lança. Como se alguém estivesse do outro lado puxando-a, a lança foi arrancada do meu ombro, e pude ver Victor parado na minha frente, sorrindo enquanto assistia e manipulava a tortura.
- Você realmente achou que ganharia de mim, Rose? – ele perguntou, bem antes de eu sentir dor insuportável no meu antebraço direito. Olhando para baixo vi que a antiga lança agora estava no formato de uma faca, que havia acabado de me cortar tão profundamente que fui capaz de ver o osso através da pele.
Dessa vez, gritei de dor e desespero, louca para me libertar, mas incapaz de me mexer.
- Oh, continue gritando — Victor murmurou, rindo baixinho. – Só torna as coisas mais interessantes. – Com cada frase que ele dizia, a faca fazia um corte tão profundo quanto o primeiro, até que meus dois antebraços e meu estômago estivessem pingando de sangue. O cheiro forte trouxe lágrimas aos meus olhos, e pude sentir seu gosto metálico na minha boca.
E ainda assim, a magia de Victor me mantinha paralisada, à sua mercê. Onde estava Dimitri? Pensei, desesperadamente. Será que Robert estava fazendo a mesma coisa com ele nesse exato momento? Medo, não por minha vida, mas pela vida de Dimitri, consumiu minha mente de tal modo a ponto de anestesiar a dor por alguns segundos.
Victor percebeu a mudança, e balançou a cabeça. A faca se separou em duas lanças, mais mortais que as primeiras, e uma lâmina, que ficaram suspendas no ar, como se esperando ordens.
- Você é fraca — Victor disse. – Tão fraca que chega a ser patética.
Com isso, as duas lanças perfuraram meu peito, me cegando com a dor que pulsava mais forte a cada respiração, e a lâmina voou em direção à minha garganta. Só tive um segundo para vê-la antes de começar a engasgar em sangue, e através da dor e o medo da morte, pude ver Victor rindo, como se a melhor piada do mundo estivesse bem diante dos seus olhos.
*Sonho OFF*
Acordei ofegante, me sentando tão rápido na cama que minha cabeça girou. Coloquei uma mão no meu peito, respirando rápido demais e ainda sentindo os efeitos do pesadelo. Foi a pior coisa que já experimentei na minha vida. Nunca tinha sentido uma dor tão intensa como a do sonho, nem tinha me sentido tão à mercê de alguém assim. Nem em Spokane eu estava desse jeito. Nem quando Dimitri era um Strigoi. Ambas às vezes tinham sido horríveis, mas isso... Isso foi muito pior.
Minha cabeça estava um turbilhão de emoções: medo, terror, desespero. E eu não sabia como me acalmar. Ainda não.
- Rose? – uma voz familiar, cheia de preocupação, perguntou. Pulei, assustada, e me encontrei cara a cara com os olhos castanhos de Dimitri, igualmente preocupados. – Você está bem?
Meu coração ainda estava disparado, mas assenti e tentei respirar fundo, sem muito sucesso. Depois de algumas tentativas, consegui me acalmar um pouco, o bastante para não parecer tão louca. Só podia imaginar o que Dimitri devia estar pensando sobre tudo isso. Eu acordando no meio da noite, tão aterrorizada a ponto de estar fora de controle, não era algo comum.
O que me levava a outra pergunta. O que ele estava fazendo aqui? Dimitri estava vestido com calças – geralmente usadas durante o trabalho – e uma camiseta vermelha. Ele estava sentado na beira da cama, e parecia que estava lá há algum tempo. Como se estivesse me observando.
Eu me perguntava o quanto ele tinha me visto contorcer na cama.
- O que está fazendo aqui? – perguntei. – Achei que você estivesse trabalhando.
- Saí mais cedo. Ouvi Lissa conversando com Christian sobre o julgamento de Tasha e -
- Você ouviu ele dizendo a ela que conversou comigo? E veio aqui fazer controle de danos? – pensei em voz alta, e um olhar quase culpado passou pelo rosto dele. – Você sabia, não é? – perguntei. – Sobre a data do julgamento?
Ele assentiu, mas não tive energia o suficiente para brigar com ele. Primeiro, o sonho tinha me drenado muito, e eu me sentia mais cansada do que quando fui para a cama. A tortura de Victor me deixou meio fragilizada – não que fosse admitir isso – e não estava procurando outra briga com Dimitri. E segundo, já passávamos tanto tempo separados, que talvez ele não tivesse tido tempo de me contar. Embora soubesse que era mentira, realmente não queria discutir.
- Deveria ter me contado — eu murmurei e Dimitri suspirou.
- Eu sei, mas não queria te preocupar com mais uma coisa. – ele disse e eu dei de ombros. As sobrancelhas de Dimitri se ergueram em confusão, como se ele esperasse que eu discutisse mais.
- Da próxima vez, é melhor você me contar, camarada — eu ameacei, tentando soar mais como se tudo estivesse bem. – E isso é uma desculpa esfarrapada. Eu sou uma guardiã, preciso ser capaz de lidar com meus problemas.
- E ainda assim, você tem pesadelos tão fortes a ponto de te deixarem desse jeito — Dimitri murmurou, e eu revirei meus olhos. – Quer me contar sobre o que era? Eu sei que tem algo de errado, Rose.
- Então você está vendo coisas. Não aconteceu nada, é só stress combinado com uma vida agitada de Guardiã Real. Nada que Rose Hathaway não consiga lidar. – Eu disse e ele estreitou os olhos, procurando por uma mentira. Olhei diretamente para ele, sabendo que contato visual ajudaria. – É sério. Não é nada.
Não consegui tirar a preocupação do seu rosto mesmo com essas palavras, mas ele suspirou mesmo assim, sabendo que não tiraria nada de mim naquela manhã. Ok, eu podia admitir que meu comportamento estava bem estranho, mas não ia admitir que estava prestes a enlouquecer com pesadelos sobre Victor. Provavelmente só tive esses sonhos por conta do que ouvi de Tasha, sobre meus inimigos voltarem para me pegar.
Não que Victor pudesse fazer isso, porque ele estava morto. Isso combinado com o stress que mencionei a Dimitri poderia muito bem me dar esses pesadelos, então tentei não me preocupar.
Dimitri se inclinou e me beijou suavemente, me abraçando exatamente do jeito que queria enquanto estava visitando Tasha. Uma das suas mãos esbarrou nas minhas costas, bem no lugar onde a lança, no sonho, tinha penetrado. Tremi com a memória, e Dimitri, pensando que era efeito do seu beijo – o que poderia ser, em outras circunstâncias – me deitou gentilmente na cama.
- Agora não – ele disse se afastando para me olhar e então afagar minha bochecha com seu polegar. – Nós temos uma tarefa importante para fazer primeiro.
Eu fechei meus olhos, tanto me sentindo cansada quanto me deliciando com a sensação de seus dedos tracejando o contorno do meu rosto. – Proteger Lissa. Yeah, o de sempre.
- Não por agora. – isso me fez abrir os olhos e encará-lo confusa. Ele viu que eu estava prestes a protestar sobre que um de nós deveria estar lá mantendo um olho nela e continuou. – Lissa está segura com quinze guardiões, incluindo sua mãe, tomando chá com uma família da realeza. Nosso trabalho vai ser um pouco mais movimentado do que apenas ficar de vigia o tempo todo.
Oh cara, agora sim eu estava mais confusa do que irritada. Mas o pensamento de pelo menos eu estar ao lado de Dimitri me animava um pouco. E mais...
- Quando você diz algo ‘mais movimentado’, você quer dizer...
Ele de repente adquiriu aquela postura profissional que ele mantinha quando foi meu mentor em St. Vladmir, mas ainda sorriu ao ver que tinha fisgado a minha atenção.
- Eu quero dizer que vamos ter uma aula de combate.
***
Depois de um banho rápido, Dimitri e eu tomamos um pequeno café da manhã antes de irmos para o nosso destino. Eu de repente passei a me sentir ansiosa.
Fazia um bom tempo que eu não tinha treinos de combate na Corte por causa da minha agenda lotada. Claro que os guardiões faziam exercícios periódicos para manter a forma, inclusive aqueles que tinham trabalho administrativo, mas é que essa opção não se aplicava a mim naquele momento.
Eu me sentia cada vez mais agitada quando entramos no quartel general dos guardiões. Então, a coisa era realmente séria. Eu apostava que -
- Rose? – uma voz masculina muito familiar me interrompeu de meus pensamentos. Eu voltei a mim mesma e vi Mikhail Tanner me encarando.
- Hey – eu disse sorrindo.
Mikhail Tanner era o amante de Sonya Karp, a minha antiga professora em St. Vladmir. Ela era outra usuária de espírito que acabou enlouquecendo e se transformando em Strigoi antes que Lissa e eu escapássemos de St. Vladmir. Recentemente ela tinha sido restaurada por Robert quando eu estava fugindo da corte. Ela era uma prima de Emily e a dona da conta que Eric Dragomir criou para depositar uma boa quantia de dinheiro para garantir o futuro de Jill.
Mas, voltando a Mikhail, eu e ele nos tornamos bons amigos. E tudo começou quando nossa dor de ter perdido alguém que amávamos para o mal nos fez criar um plano louco com resultados impossíveis. Ou melhor dizendo, eu inventei o plano e ele apenas me ajudou, esperando que isso também ajudasse sua preciosa Sonya. E no final, ajudou. Ela exalava vida assim como Dimitri.
- Onde está Dorian? – perguntou Dimitri depois de ter avaliado o salão onde estávamos.
- Ele tinha ido atender um telefonema importante – ele olhou para a porta que se abria e sorriu. – Ali vem ele.
O dhampir que se chamava Dorian parecia um daqueles xerifes que víamos em filmes de faroeste. Cabelo grisalho, barbicha igualmente grisalha e uma pança. Ele usava calças de combate assim como o resto de nós e eu suspeitava que ela tinha sido feita sob tamanho especial.
Ele sorriu para nós, expondo um dente que parecia ser de ouro e dois dentes tortos. – É uma grande honra finalmente conhecê-los, Guardiã Hathaway e Guardião Belikov.
- O mesmo para você, Dorian. – Dimitri disse educadamente, mas ainda sim eu pude notar uma certa rigidez em sua postura.
- Eu creio que já posso apresentar vocês ao seu novo local de treinamento.
- Que treinamento? – Dimitri me lançou o mesmo olhar que ele me lançava todas às vezes quando ele queria me dizer que eu deveria apenas me acalmar e esperar pelo momento certo. Eu cruzei os braços, demonstrando irritação. – Certo, eu vejo que não fui informada sobre o que vai acontecer enquanto todos vocês já sabem. Como sempre.
Dorian caiu na gargalhada e olhou para Dimitri, que estava me olhando em advertência. – Ela realmente é uma pérola. Todos dizem que ela é um espetáculo letal num campo de batalha. Eu me pergunto se ela já matou com uma arma.
- Claro que eu já matei com uma arma – respondi rispidamente. Yeah, eu não estava com um humor tolerante hoje. – O que você acha que uma estaca é? Palito de dente?
- Nós não fazemos treinamentos envolvendo armas – Dimitri disse duramente. – Você sabe que é proibido nas Academias.
Agora que a ficha caiu. Dorian não estava se referindo a qualquer tipo de arma. Ele estava querendo dizer armas de fogo. Um tipo de arma que eu sempre estive ansiosa para aprender a manusear e que quase nunca tive contato.
O sorriso de Dorian se alargou mais ainda quando ele viu que eu tinha processado o que ele disse. – Isso vai ser divertido.
- Não pense em mostrar a ela armas mais pesadas que uma pistola, Dorian. Hans só te disse para ensiná-la a usar uma pistola.
- Por que eu não posso tocar em uma metralhadora? Vocês têm medo que eu perca o controle e mate a corte inteira? — eu me senti ofendida de repente. Mas, ao me lembrar de metralhadora, eu me lembrava que Mason morreu tentando me salvar com uma delas. Eu fiz uma carranca com a lembrança dolorosa.
- Não se preocupe, criança. Se você souber manusear uma simples pistola, saberá usar qualquer tipo de arma. – piscou Dorian.
Dimitri revirou os olhos e murmurou alguma coisa em russo. Eu sabia que ele detestava quando não o obedeciam.
Dorian nos levou para um pequeno ginásio, um que eu nem tinha ideia que existia em um prédio administrativo. Mas quando se tratava do QG dos guardiões, tudo era possível. Uma porta discreta, parecida com uma para funcionários, nos levou a uma sala parecida com a que passei treinando por anos em St. Vladimir. A única coisa diferente era a linha de alvos de tiro espalhados no lado direito, e uma mesa transparente com várias armas de fogo – cinco pistolas, e duas metralhadoras.
De brincadeira, fui direto para as metralhadoras, e Dorian riu com o olhar que Dimitri me deu. Parece que ele realmente não quer que eu mexa com essas armas, pensei. Ao invés de deixá-lo mais irritado, peguei uma pistola, e testei o peso. Não era pesada, e eu definitivamente me sentia mais fodona usando-a.
Nunca fui muito fã de armas de fogo, mas podia ver os benefícios. Não havia com Strigoi, a não ser que você usasse balas de prata como munição e fosse rápido o bastante para atirar antes que ele avançasse para seu pescoço. Elas tinham mais efeitos em Strigoi jovens. Mas em um Strigoi adulto? Era como se fosse uma picada de pernilongo. Agora se ela fosse usada contra um Moroi ou alguém que não fosse Strigoi – e sim, era para esse tipo de ameaça que eu estaria treinando – elas poderiam machucar. Provavelmente até matar.
E Dimitri havia me dito um pouco antes que era por isso que eu estava aqui. Para aprender a usar uma arma para defender a rainha caso as coisas chegassem aos extremos.
- Vamos ver do que você é capaz — Dorian me disse. Ele me colocou na frente de um dos alvos, a uns bons 10 metros. – Separe as pernas um pouco e relaxe os joelhos. Se concentre no centro do alvo, mas preste atenção na trajetória que a bala fará, e se sua pistola está ou não reta no ar.
Fiz conforme o ordenado. – Posso atirar?
- Se você quiser ficar surda por uns três dias, claro, vá em frente. – Revirei os olhos. Ele inseriu um silenciador no fim do cano, e depois de me mostrar como fazê-lo, Dorian assentiu, me dando permissão.
Ajeitando minha mira mais uma vez, apertei o gatilho. Meu braço tremeu quando a arma tremeu ao soltar a bala, que se alojou quase no centro do alvo. Mikhail assobiou em apreciação, e Dimitri me deu um meio sorriso. – Acredito que isso é bom o bastante para uma principiante?
- Oh, sim, Rose — Dorian murmurou. – Eu estava esperando que você acertasse as bordas do alvo. Você vai se dar bem nesse treinamento. E você, Guardião Belikov? Também quer aprender a usar uma arma de fogo?
- Obrigado, mas já tenho experiência com esse tipo de arma — Dimitri respondeu.
Dorian analisou Dimitri de cima a baixo, como se vendo se era verdade ou não. – Hmm — ele murmurou — você parece que precisa de uma lição. O que acha?
Se eu aprendi uma coisa durante todo o meu treinamento com Dimitri, é que ele não gosta de ser desafiado, muito menos em algo que sabe. E o olhar de Dorian sugeria que ele queria se provar melhor que Dimitri nesse assunto. Cara, eu pensei, isso vai ser divertido de assistir.
Dimitri deu de ombros. – Se você insiste.
Caminhando com toda aquela glória e ar superior que tinha, Dimitri foi até uma a mesa, encaixou um silenciador em menos de três segundos, e parou em frente a um alvo, à minha direita. Observei a tensão de seus músculos conforme ele se preparava para tirar, seus olhos concentrados na tarefa à sua frente. Com uma puxada certeira do gatilho, Dimitri atirou, e ele mal recuou com o impacto. A bala foi parar exatamente no centro do alvo, e eu só pude assistir boquiaberta enquanto meu antigo mentor atirou mais três vezes – todas igualmente perfeitas. Eu não fui a única que encarava boquiaberta com suas habilidades.
Mikhail bateu palmas assim como eu quando Dimitri abaixou a arma e lançou um olhar altivo para Dorian, que demonstrava não estar surpreso com suas habilidades. Ou era isso ou ele sabia como esconder o choque.
Qualquer que fosse o motivo, eu sempre soube que Dimitri era um Deus em todos os detalhes, especialmente na luta. E nada poderia detê-lo, especialmente porque ele estava sempre pronto para enfrentar qualquer tipo de problema.
Ou pelo menos era isso o que eu achava – pela segunda vez seguida.
Spoilers do capítulo 09
#1 Ambos os advogados assentiram e Ethan continuou. – Entendam, eu não tinha ideia de que Natasha estava planejando um assassinato. Se soubesse, nunca teria permitido sua entrada. Eu não sou aliado de assassinos.
#2 Acho que minha boca bateu no chão. Não é possível, foi a primeira coisa que passou pela minha mente. Não era possível mesmo.
Notas finais
Espero que tenham gostado do próximo capítulo,pois o outro já será o tão esperado julgamento :) Se vocês estão ansiosos por uma cena hot de Romitri,aguentem só mais um pouquinho que a recompensa vai vir rsrs
Obrigada por comentarem e estamos hiper feliz em saber que estão gostando da fanfic *o* vocês não tem ideia de como um review nos anima! São eles que nos estimulam a escrever! E espero que já fechemos logo 50 pra poder a gente postar o próximo!
Enfim,acho que é isso. Prometo não sumir mais desse jeito!
Beijos ;*
- Feeh P.
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