Mirrors
4 The Race.
Os pais de Emily moravam ao lado de uma pista ilegal para corridas antes de fugirem para o Brasil. O local onde morava atualmente é uma espécie de fazenda, bem afastada da cidade, o que facilitou para que eles a ensinassem tudo que sabia sobre corridas. Não demorou muito para que ela compartilhasse a paixão por carros como os pais. Aprendeu sobre aquele mundo em segundos e sempre competia com sua família no Brasil até se mudar para Chicago.
Já estava quase depressiva por não encontrar nenhuma pista de corrida na cidade, mas ela descobriu cedo que aquele lugar escondia mais coisas ilegais do que pensava e não era muito difícil encontrar. Aquele mundo era a vida de Emily, não conseguia se imaginar longe daquilo tudo. Ter que esperar os finais de semana era um tormento, mas valia muito a pena.
Ela usava um short preto de cós alto e uma blusa de manga da mesma cor rendado deixando a mostra seu sutiã. Um salto destacava seus pés e todas admiravam a maneira como ela conseguia andar perfeitamente sobre aquele calçado que, a maior parte do tempo, é desconfortável para mulheres. Sua avó, Blair, ensinou tudo a ela quanto a essa questão.
Andar e se portar com graciosidade era seu forte. No final, cada membro de sua família teve uma influência sobre seus gostos e aprendizados. Joe, o cara que comandava os rachas sorri malicioso ao ver Emily se aproximar enquanto as garotas em sua volta a encaram com nojo. Aquilo aumentava o ego dela, por mais que odiasse admitir.
— Como está a minha garota favorita? – Pergunta ele tentando alguma investida nela, que sorri o afastando apenas com a palma da mão.
— Tira esse pronome possessivo aí... Já está sonhando demais. – Diz ela arrancando uma risada alta dele.
— Sonhar não paga imposto. – Ironizou voltando ao seu posto. – Vai correr hoje?
— Vou vencer hoje. – Emily é firme sorrindo diabolicamente. – Quanto está o racha dessa vez?
— O pessoal anda meio pobre... – Joe revira os olhos estendendo a mão. – Dois mil dólares.
— Já serve para uma ida diária ao The Club. – Conclui ela entregando as notas vivas nas mãos dele.
Enquanto seu vício era as corridas, o de Joe era ter toda aquela grana nas mãos. Mesmo que o dinheiro não fosse dele, como o próprio diz... Sonhar não paga imposto. E o mesmo adorava sonhar que tudo aquilo era de sua total propriedade. Ela caminha em direção ao seu carro novamente, entrando e se preparando para quando tudo começasse depois de olhar em volta, observando os seus adversários. Os de sempre. Chegava a ser entediante, eles mal sabiam correr.
**
Ian havia pedido que seu motorista pegasse folga esta noite. Era a primeira vez que ele cede um privilégio como esse ao funcionário, mas não queria que o mesmo pensasse que ele é um daqueles stalkers obcecados na garota. Só estava tentando se aproximar de forma natural como na primeira vez, entretanto temia que ela desconfiasse de algo. Emily parecia captar de longe a mentira de alguém. Chegava a ser irônico, pois nunca temeu nem mesmo o cano da arma de um inimigo, e lá estava ele temendo a segunda impressão que uma garota teria dele. Lorenzo estava ao seu lado já entediado dentro do carro.
— O que viemos fazer aqui mesmo? – Pergunta bufando depois de horas naquele automóvel. Queria sair, beber horrores e ficar com alguma garota bonita por aí.
— Quando vai aprender a parar de me questionar? Sei o que estou fazendo, relaxa... – Murmura Ian seriamente procurando Emily no meio da multidão.
— Não vai me dizer que veio aqui para correr? – Lorenzo tinha um milhão de perguntas formuladas em sua cabeça e era notável que seu primo começava a se irritar com todas elas quando foca sua atenção na garota que conheceu. Lá estava ela, dentro do mesmo Zenvo ST1 preto checando algumas coisas para o racha.
— Só queria ver Emily. –Sussurra saindo do carro e Lorenzo desce confuso o seguindo.
— Emily? Quem é...? – A pergunta dele prende em seus lábios ao ver a garota com quem o primo trombou noite passada e um sorriso malicioso saiu de seu rosto. – Sabia que você não puxaria papo com a garota se não quisesse levá-la para a cama.
— Eu vou correr. Procure quem está organizando a corrida, me coloque na lista e pague o preço necessário. – Exige saindo e deixando Lorenzo ali sozinho, já voltando para o carro.
Emily volta a entrar no carro colocando o cinto de segurança e aproveitando o tempo que sobrava para retocar o batom vermelho. Uma última olhada no espelho e sua visão se focaliza na mulher em frente aos carros. Estava na hora. Quando ela guarda os objetos de maquiagem, nota um carro alaranjado ao seu lado. Algum novato despreparado, pensou, apesar do carro ser um Toyota Supra. E aquilo era prova suficiente de que, seja lá quem fosse, tinha bom gosto.
— Preparados? – A mulher loira de olhos extremamente escuros pergunta aos competidores e todos respondem ligando os motores. – Vai!
Ian pisa fundo no acelerador como se sua vida dependesse disso, ao contrário do que Emily pensava, de despreparado, o novato não tinha nada. Em questão de segundos, somente os dois dominavam as pistas. Ela o surpreendia cada vez mais. Seu carro não estava preparado como o dela e apesar de só estar ali para tentar alguma aproximação com ela, não podia deixar o lado competitivo de lado então quando ia usar uma tática infalível, Emily desaparece de vista.
Ela não era idiota, notou fácil o perigo e principalmente o quanto ele era bom, afinal, todos já estavam para trás e ele era o último. Pensou rápido, entrando em uma das ruas estreitas que havia na pista e dava para a cidade. Era uma pequena estrada de pedra, mas que cortava caminho. O sorriso vitorioso já percorria seu rosto quando vê o carro alaranjado pelo retrovisor e resmunga ao contrário de Ian, que ria curtindo toda a situação.
Era a última curva que tinha que fazer para ganhar do idiota atrás dela, enquanto pisa no freio virando o volante com facilidade. Entretanto ele não freou para a curva. “Por que ele não freou?” Gritou Emily mentalmente sendo obrigada a parar o carro rapidamente para não ser atingida pelo homem que agora corria a toda velocidade até a chegada. Todos os xingamentos do mundo passaram pela sua cabeça quando ouviu os gritos das pessoas comemorando a vitória dele e não a dela. Liga o carro somente para sair daquela estrada e estaciona em um lugar mais afastado dali, somente para ter a chance de ver o rosto do indivíduo.
Ian resmungava dentro do carro ao ver a multidão se amontoar próximo ao automóvel. Não queria que Emily o visse ali, mas se obrigou a sair vendo várias garotas se aproximarem enquanto os homens apenas o parabenizavam com um aperto de mão. Uma das garotas coloca um cartão em seu bolso da calça jeans, avisando ser seu número de telefone em meio a um sussurro próximo ao seu ouvido. Ian já iria arrastá-la para o carro com o sorriso tão malicioso quanto o dela quando vê Emily encostada sobe seu carro com os braços cruzados encarando ele ao longe. Não conseguia acreditar que era ele ali, ao mesmo tempo que sorria aliviada por poder vê-lo de novo, queria batia nele de tanta raiva. Se tinha algo que odiava, era perder.
— Seu idiota... – As palavras somem dos lábios de Emily quando ele já estava bem próximo a encarando com intensidade.
— Você freou antes da hora. – Sussurra Ian observando os movimentos dela atentamente.
— Que ótimo! Agora está querendo apontar os meus erros... Você teria batido o carro em mim! – Grita ela pasma.
— Agora está me culpando por ter perdido? Quem sabe um pouco de treino ajuda você, adoraria me oferecer... – Ironiza ele.
— Eu passo.
Ian sorri sem que Emily veja. Ela está tão irritada por ter perdido que parecia ter esquecido completamente o quanto estava alegre por ver ele novamente. A conversa que eles tiveram no The Club foi realmente interessante, e queria a oportunidade de conversar mais de novo. Fora o quanto se considerava sortuda por poder estar tão próxima dele a ponto de ter a chance de observar com cuidado aqueles olhos azuis.
— Se serve de consolo ninguém nunca ganhou de mim antes. – Ele se gaba quando Emily abre a porta do carro pronta para entrar.
Ela para subitamente e se vira para encará-lo. Estava realmente muito irritada e ele não ajudava em nada. Ian estava parado no maior estilo. Vestia uma calça preta surrada e uma camiseta branca. A jaqueta da mesma cor que a calça jogada sobre os ombros. Então sorri abertamente fazendo com que Emily se esquecesse por alguns segundos a raiva que sentia.
— Você se acha, não é? – Vocifera.
— Tenho os meus motivos. – Diz calmamente.
— Tem seus motivos? Ah, por favor, quais seriam? Ser um idiota, patético, mesquinho e... – Emily pensava em algo mais para dizer, mas nada vinha em sua mente. Ian se divertia com a situação.
— E gostoso? – Completa fazendo ela fuzilá-lo com o olhar, respirando fundo e voltando para o carro quando ele a para. Não podia deixá-la ir. Precisava de mais. Conversar com ela naquela distância parecia não ser o bastante, mas ficaria ali por horas só por ter a presença dela. – Não sei por que você está tão irritada por ter perdido. Se for pelo dinheiro da corrida, eu posso dá-lo a você.
— Estou pouco me lixando para o dinheiro. – Emily gritou sem encará-lo. – Meu pai me ensinou a ser a melhor em corridas como essa.
— Ah, então seu pai sabe que você participa de rachas? – Ian acelera o passo quando a mesma abre a porta de seu carro e ele a fecha com uma rapidez espantosa a prensando contra o automóvel. Os olhos de Emily, que cuspiam fogo, agora se suavizavam. – Eu não sei como são as coisas no Brasil, mas aqui você pode ser presa se for pega.
Ela dá um sorriso convencido.
— Eu nunca sou pega. – Ele sorri com sua resposta e todo seu nervosismo parece desaparecer. Estavam tão próximos que Emily podia sentir seu hálito de menta. Seu coração começou a bater rápido e ela se pegou pensando em como seria beijá-lo.
— Tome cuidado nessas corridas. O pessoal costuma jogar sujo aqui, o que eu fiz com você não se compara com as coisas que ele fazem para ganhar uma corrida. – Ian avisa e se afasta, voltando a caminhar em direção ao seu carro.
— Eu sei me cuidar. – Emily grita para ele enquanto o mesmo acena de costas com a mão entrando no automóvel.
Ian espera por Lorenzo que observara tudo do lado de fora, no meio da multidão. Entra no carro assim que nota que seu primo já havia parado de conversar com a garota que conheceram noite passada. Era estranho vê-lo se aproximar da tal Emily sem que ela estivesse em seus pés implorando por isso. Principalmente, porque sabia muito bem que Ian não era o tipo de cara que corre atrás de alguém. Supôs por fim, que ele estava apenas querendo levar a pobre garota para a cama... Entretanto, isso não o impedia de zoar o primo. Lorenzo o encara segurando uma risada.
— Essa garota é uma fera! – Ironiza ele e Ian lhe dá um murro fraco nos ombros.
— Cala a boca. – Murmura antes de ligar o carro e sair dali.
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