Mirrors
6 The Drunk One.
Ian acordou com os raios de sol esquentando o seu rosto. Esfregou os olhos e aos poucos, o lugar onde está foi formando forma e ele se viu em um quarto. Tentou se mexer, mas seu braço estava imobilizado por uma loira deitada sobre ele. Katherine dormia calmamente sobre seu peito um sono leve. Assim que Ian tenta se desvencilhar de seus braços, a acorda.
— Bom dia. – ela diz sonolenta se espreguiçando.
— Bom dia. – responde ele educado. – Desculpe, não quis te acordar, mas já está na minha hora. – ele diz tentando soar o mais educado possível.
Katherine riu secamente e murmurou um ‘ok’ para ele, se levantando e indo tomar banho. Ian também se levantou e começou a procurar por suas peças de roupa espalhadas pelo apartamento da loira. Achou seu par de calças na sala, seus sapatos na cozinha, casaco na lavanderia... Mas o que não consegue achar é sua blusa. Ian volta para o quarto e começa a revira-lo, mas nada. Abaixa-se então para olhar de baixo da cama.
— Creio que o que está procurando é isso aqui. – Katherine o surpreende.
Ian, ainda agachado, olha para o lado e observa com atenção as belas pernas paradas ao seu lado. Levanta o olhar bem lentamente até encontrar o rosto fino da jovem onde um sorriso simples se instalava. Em suas mãos está a camisa social azul marinho exibindo algumas manchas de batons.
— Acertou em cheio. – diz ele se levantando por fim do chão.
Ian puxa a camiseta da mão dela, mas ela hesita, sorrindo, e a segura por alguns segundos. Katherine é uma jovem bonita e isso ele não pode negar. Ela tem o rosto fino que combina perfeitamente com seu cabelo loiro volumoso. Sua pele branca é macia e sem nenhuma mancha, a não ser pelo chupão deixado por Ian em seu peito esquerdo. E vendo ela agora, sem maquiagem, sem o vestido apertado e o salto alto, ela parece ser bem mais jovem do que aparentava na noite anterior, fazendo Ian se questionar de sua idade.
Por fim, ela solta a camiseta, dando meia volta e voltando novamente para dentro do banheiro, onde volta a tomar seu banho. Ian tomou isso como sua deixa, pegou as chaves de seu carro e partiu, dirigindo diretamente para sua casa, onde tomou banho e dormiu o resto do dia. Acordou no meio da tarde com ligações de seu primo, Lorenzo, avisando sobre algumas reuniões e contratos relacionados com a máfia japonesa. Ian apenas pediu que deixasse esses papéis sobre sua mesa em seu escritório e que ele resolveria aquilo outro dia.
— Bom dia senhor, quer que eu prepare algo para comer? – uma de suas inúmeras empregadas o abordou enquanto ele descia as escadas saltitando feito criança.
— Sim, por favor. – pediu ele.
A empregada assentiu e foi em direção à cozinha, desaparecendo logo depois. Ian se jogou no sofá em sua sala e ligou a televisão, em um canal de noticias qualquer. Como é sexta-feira, Ian decidiu se ausentar no trabalho e premeditar seu final de semana, afinal, o chefe é ele e ele faz o que bem entende. Porém Ian odeia se ausentar no trabalho para ficar em casa e, agora, ele se lembra do por que: o tédio! Ian já está começando a ficar entediado de ver aquelas notícias chatas e monotomas que estão passando a cerca de meia hora em sua tevê. Já estava quase desligando quando uma noticia de última hora chamou sua atenção.
Uma reportagem sobre rachas recentes de uma gangue qualquer estava passando e foi impossível não se lembrar de Emily naquele momento. Um sorrisinho se forma no canto dos lábios de Ian e como um click, ele já sabe o que fará para passar o tempo no resto do dia: seguir, novamente, a morena.
(...)
Seus pés se moviam rapidamente em direção ao seu amado. O medo e a tensão percorriam lado a lado, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas prontas para serem derramadas pelo seu rosto a qualquer momento. Sentia todo o seu corpo querer fraquejar, mas não podia. De modo algum. Ela então o alcança, envolvendo seus braços naquele corpo tão familiar. Por alguns segundos pôde sentir a paz e a calmaria em seu interior, além do alivio ao tê-lo ali, tão perto. Aquele momento podia ser congelado para sempre, porque somente um simples gesto vindo dele poderia deixá-la assim. Hesitou antes de sorrir, ao se deparar com a realidade: ele apontava a arma para seu agressor. O homem que tentara a agarrar a força estava agora sobre a mira de seu namorado que soltava faísca pelos olhos.
— Por favor, não faça isso! – Implora em desespero, temendo o pior e deixando o medo se alastrar por todo o seu corpo mais uma vez. Medo do que pudesse acontecer com quem ela mais amava.
— Jamais me perdoarei se esse verme infeliz sair dessa impune. – Murmura tentando afastá-la, mas a mesma nunca permitiria se soltar dele.
— Podemos ligar para a polícia... – Sugere já perdendo todas as esperanças.
— Não mesmo! As autoridades não fariam ele pagar pelo que fez. – Grita ele mirando no homem que ela mais repugnava na Terra, que estava estirado no chão completamente machucado.
— Faça! Consigo sentir de longe que já fez sua escolha... – Resmunga o agressor machucado sem tirar os olhos da garota que tentou abusar, mas aquilo não a intimidava. Não agora que o medo de perder aquele que amava tomava conta de si.
— Não, por favor, não! – Grita ela se jogando em frente ao homem e levando o tiro por ele enquanto seu amado foca a atenção naquilo que havia acabado de fazer. Como ela pôde fazer isso com ele? Um ato de desespero para salvá-lo das grades, já que o homem que tentou fazer dela um mero brinquedo era filho do famoso delegado da cidade... E o homem que ela amava? Um mero camponês.
— É isso, meus amigos, é o melhor exemplo de dramatização. Obrigado pela ajuda Emily. – Balbucia o professor e ela se levanta enxugando as lágrimas falsas que fez rolar pelo seu rosto.
O sinal que tocava apenas duas vezes ao dia toca anunciando o término das aulas na universidade. Artes cênicas, por mais divertido e incrível que seja, era também bastante cansativo. Todos saem da sala tão rápido quanto entraram e Emily vai até sua mesa com cuidado guardando seu pequeno caderno de anotações onde escrevia algumas explicações dadas pelo professor. Guarda tudo com calma, sem toda aquela pressa rotineira. Era sexta-feira e definitivamente não havia nada para fazer durante o resto do dia. Fechou sua pequena mochila e a jogou sobre as costas, saindo da sala e indo em direção ao pátio, onde se sentou no gramado e colocou seus fones de ouvido e escutou a sua música favorita no maior volume, sem se importar com outros que pudessem ouvir. Seus olhos aos poucos se fecham e sua mente viaja em um mundo só dela, mas ela rapidamente os abre ao ver que seus pensamentos voaram em direção a Ian. Emily não precisava entender o que sentia por ele, principalmente por temer onde aquilo a levaria. Simplesmente precisava esquecê-lo e pronto. Aliás, fica brava só de imaginar ele com Katherine. E odiava muito sentir raiva dele por isso. Era como se tivessem algum compromisso ou coisa relacionada.
— Boa tarde princesa. – Emily desperta ficando alerta rapidamente ao ouvir a voz de Bryan. Ele havia tirado seus fones de ouvido e sorria para ela de modo presunçoso.
— O que você quer? – Pergunta secamente, se levantando e pegando suas coisas. Infelizmente ele a segue, transformando o seu sorriso em uma risada.
— Acho que mereço a sua grosseria...
— Acha? – Ela ergue as sobrancelhas bem feitas se virando para ele por alguns segundos e voltando a fazer seu caminho até o carro que estava do outro lado da rua, atravessando o vasto pátio.
— Sim, acho. E também acredito que estava equivocada ao terminar comigo. Talvez eu mereça uma chance... Nós merecemos uma chance, Emy.
— Não me chama mais assim. Perdeu esse direito assim que me tratou daquela maneira como se eu fosse sua propriedade. – Vocifera o fazendo erguer as mãos na defensiva.
— Tudo bem. Emily. – Bryan murmura e assim que ela abre as portas de seu carro, ele a fecha, prensando seu corpo no automóvel. – Sinto sua falta.
— Eu não.
— Qual é... Não dê uma de difícil agora. Sei que sentiu minha falta também. – Seu rosto está tão perto do dela, que ela sente vontade de vomitar, mas simplesmente o afasta com facilidade abrindo a porta do carro. – Emy.
Bryan coloca as mãos no ombro da ex, acreditando que aquele simples ato fosse acalmá-la. Emily sentiu a raiva subir para sua cabeça e esqueceu os ensinamentos de sua família, segurando a mão do garoto e a torcendo com facilidade o virando de costas e usando a outra mão para puxar seu ombro com força em direção ao chão.
— Já disse que perdeu o direito de me chamar assim. – Sussurra antes de entrar no carro e pisar fundo no acelerador.
Depois de ligar para a prima Chloe e descobrir que iria mesmo passar o resto da tarde — e da noite, completamente sozinha, viu que esse dia seria o maior tédio da sua vida, mas já estava acostumada em noites assim. Pensou em ir para a academia onde treinava naquele gigante saco de areia, afinal, precisava mesmo dar um murro em algo antes de ficar louca de vez. Decidiu, por fim, assistir algum filme, já que fazia tempo que não via um. Seus favoritos eram de ação. E logicamente, os que envolviam máfia entravam na lista. Assistir aquilo era como ver seu próprio filme ser passado pela televisão, ou pelo menos, o seu futuro quando assumir a máfia. Emily, no começo, odiava essa ideia. Queria ter controle sobre sua própria vida. Queria, sei lá, escolher uma profissão e seguir ela do modo como desejasse, sem negociações ilegais, crimes e mortes. Entretanto, com o tempo, ela soube que aquilo era sua vida e aquela organização política se tornou parte dela. Estacionou seu carro na porta da locadora, saindo do automóvel e entrando já em direção as categorias de filme que mais gostava.
— Que curioso te encontrar aqui. — Ian dispara, sorrindo.
Emily, sem que ele veja, fecha os olhos assim que ouve o tom da sua voz, ela está tão irritada que às vezes é difícil se lembrar do por que. E ao ouvir a voz dele, ela se lembra e seu consciente grita "Ele estava com Katherine... Ele estava com Katherine...".
— É uma locadora, pessoas vem e vão. — dispara demonstrando o nervosismo que sentia.
Ian percebe isso rapidamente e se pergunta se algo havia acontecido com a moça, mas não faz nada, apenas continua a persegui-la entre as prateleiras de filmes de diversos gêneros diferentes.
— Quanta originalidade... — começa ele. — Sexta à noite e as moças saem à procura de um bom filme de comédia romântica junto com um gigante pote de sorvete de chocolate. — zomba enquanto pega um filme qualquer e lê sua resenha ridiculamente melosa.
Emily se vira para ele bruscamente, mostrando os títulos dos três filmes que havia escolhido.
Ian se surpreende com a escolha feito pela morena. Nenhum filme ali parecia ter cenas fofas ou melosas. Muito pelo contrário. Sangue, tiros e mortes é o que preenche o conteúdo dos filmes. Meio boquiaberto e surpreso, Ian pega um dos filmes para se certificar que é de fato, um filme sanguinário.
— Não sei se ainda não notou, mas eu não sou como a maioria das garotas. — ela diz.
“Ah, e você não é!” Ian pensa dando um sorriso de lado. Emily se encanta pelo gesto e quase sorri junto, mas logo se lembra do que viu na noite passada e, já tomada novamente pela raiva, pega sem cuidado o DVD das mãos de Ian e se vira, voltando a andar pelos corredores da locadora.
— Diferente das garotas que você está acostumado a sair, pelo menos. Seu gosto, se me permite dizer, é bem peculiar. – diz ela com desdém.
Ian confuso dá corda para a morena, notando que ela parece estar irritada com ele.
— Peculiar?
— É. — Emily diz parando em frente a uma prateleira e pegando um filme aleatório, fingindo estar lendo sua resenha para tentar afastar o frio na barriga. — Pelo o que eu pude ver ontem, você gosta daquelas com cérebro pequeno.
Emily olha para Ian e dá um sorriso falso. Ian por sua vez demora um pouco até se dar conta do que ela se referia. Ele havia passado a noite anterior com Katherine e, pelo visto, a mesma havia visto os dois juntos e de alguma maneira isso não a agradou nem o pouco. E para falar a verdade, nem mesmo ela sabe ao certo o porquê de toda essa raiva. Afinal, Ian não é nada dela e só o viu duas vezes. A primeira quando o mesmo a salvou da fúria de Bryan e a segunda quando ele ganhou dela no racha há alguns dias. E mesmo ele sendo lindo e a instigando com os seus sorrisos enigmáticos, e esse jeito metido de ser, não têm motivos para ela sentir ciúmes de alguém que nem se quer beijou! E é fazendo essa lógica que sua cabeça faz um nó, e a deixa brava consigo mesma. Estava se comportando feito uma adolescente e precisava parar de ficar pensando em Ian a todo instante. E foi por isso que ela veio à locadora essa noite, precisava de um pouco de ação. Mas é claro que nem tudo é perfeito e acabou dando de cara com a raiz dos seus problemas internos. Ian lhe causava muitas coisas, e ela está começando a se questionar se isso é algo bom, ou um sinal de alerta.
A risada curta de Ian faz Emily acordar de seus devaneios.
— Isso por acaso é ciúmes? — questiona ele com um sorriso pendendo dos lábios. Ian não podia negar que essa situação aumentava ainda mais o seu ego.
Chocada, Emily se enfurece.
— Ciúmes? De você? Ah, por favor, me poupe. — ri friamente. — Eu mal o conheço e, quer saber, nós andamos nos encontrando demais, isso pra mim só pode ser coisa...
— É o acaso. — diz ele rindo internamente. — Vai ver o destino está nos preparando alguma surpresa. Mas em caso dele não colaborar e você sentir minha falta, aqui está o meu número.
Até mesmo Ian fica impressionado com sua cara de pau nesse momento e entrega para a morena o pequeno cartão com seu número gravado nele. Emily respira fundo e parece contar até cinco, depois, abre os olhos parecendo estar mais calma e dá um sorriso fraco para ele.
— Até nunca mais, Ian. — diz ela a ele, jogando o cartão que havia ganhando no chão e se virando e indo até o caixa pagar pelos filmes.
— Até o próximo acaso, Emily. — sussurra ele sorrindo.
Quando Ian sai do estabelecimento, e Emily se certifica de que ele não está mais de olho nela, tomada por uma coragem interior e por algo pulsante em seu coração, ela caminha indecisa até o pequeno cartão jogado no chão e se abaixa, o recolhendo e o guardando rapidamente no bolso.
"OK, Emily, nem pense, nem ouse considerar em discar o número desse egocêntrico, apenas guarde caso... Caso... Bom, apenas guarde. Isso."
Os filmes não foram os melhores que assistiu em sua vida, mas eram bons e valeu a pena o tempo assistindo. Um balde de pipoca a acompanhou do início ao fim, e ela sempre verificava o celular para ver se recebia a mensagem da prima avisando que estava voltando para casa. Respira fundo, desligando a televisão e indo em direção ao seu quarto. Emily toma um banho rápido, colocando uma roupa qualquer e indo para o bar mais próximo beber. Era sexta, o que ela menos queria era ficar em casa como aquelas garotas que não tem o que fazer. Tudo bem que ela não tinha nada para fazer, mas que arranjasse algo então. Não faz nem questão de ir dirigindo, já que o local não era muito longe e não queria beber demais, apenas algumas doses.
Ela se senta em uma mesa do lado de fora e aos poucos pede mais e mais bebidas, exagerando demais em cada dose que exigia. Precisava daquela adrenalina que o álcool trazia para o cérebro. Não havia nada melhor para fazer você esquecer de seus problemas – e arrumar outros para amanhecer pior do que no dia anterior. Emily já havia perdido a conta de quantos havia bebido, mas fora o suficiente para chegar ao ponto que ela queria, onde não se lembrava nem do próprio nome. Aos poucos, o bar se aglomerava de pessoas loucas para fazer o mesmo que a morena. Bryan entra no local ao lado dos amigos, e seus olhos rapidamente se encontram com os dela. Não que ele fosse apaixonado por ela, mas a garota era linda. Provavelmente mais linda do que todas as garotas que já pegou e ele precisava de mais. Todos os momentos que tiveram quando estavam juntos não pareciam ser o suficiente. Nada daquilo parecia ser suficiente. Ele acorda de seus devaneios ao ouvir a risada escandalosa dela, deixando claro que a mesma já não estava tão consciente quanto parecia.
— Eu bebi demais? Garoto, você não manda em mim não! Eu quero falar com o gerente. – Exige tentando ficar séria, mas acaba rindo do próprio sermão que havia dado ao funcionário.
— Eu sou o gerente. – Murmura o homem revirando os olhos.
— Então quero falar com o dono! – Diz o óbvio, dando tapinhas amigáveis no cara o empurrando para longe dali. – Aproveita e traz uma bebida para mim quando for chamá-lo.
— Deixa que eu cuido dela. – Emily escuta a voz do ex e o homem assentiu saindo dali, deixando Bryan a sós com ela. O mesmo se aproxima com um sorriso no rosto.
— Não acha que já bebeu demais querida? – Pergunta afastando os copos dela e se sentando ao seu lado.
— Querida? Pensei que tivéssemos terminado. – Murmura soltando uma risadinha quando ele coloca alguns fios de seu cabelo atrás de sua orelha.
— Mas acho que você disse que iria pensar melhor.
— Eu disse isso? Ah, é... Não me lembro. – Diz depois de alguns minutos tentando se lembrar do ocorrido.
— Oh! Talvez seja porque bebeu demais... – Sugere Bryan e ela fica séria. Ou pelo menos tenta ficar séria.
— Eu não bebi demais.
— O que acha de te levar para minha casa? – Pergunta ele a puxando pelo braço e ela vai de encontro ao seu corpo.
— Não sei não...
— Vamos. Talvez você só precise descansar. – Balbucia já a arrastando para seu carro, mas ela se afasta. – O que foi, Emy?
— É que eu preciso fazer xixi. – Diz ela dando pulinhos feito uma maluca.
— Espero você aqui, mas se demorar vou atrás de você.
— Você não pode.
— Por que não?
— É um banheiro feminino. – Murmura o óbvio dando risadas e saltitando até o banheiro.
(...)
O celular de Ian toca sem parar e por sorte, ele ainda está acordado. Aproxima-se do aparelho já se perguntando o que seu primo queria, já que apenas ele liga em horários tão absurdos. Só que não é nome de seu primo que pisca na tela do celular, mas sim um desconhecido. Desconfiado, Ian atende.
— Quem é? – dispara.
— Até pelo telefone é metido, senhor cheio-de-si-apaixonante. – uma mulher murmura do outro lado da linha.
Ian já estava quase desligando, achando que podia ser alguma das inúmeras mulheres que já levou para cama, mas algo havia chamado sua atenção, “senhor-cheio-de-si-apaixonante”. Ian só se lembra de uma pessoa que já havia o chamado assim, e essa pessoa foi...
— Emily? – indaga confuso. – Você está bêbada? — Ele ouve vozes e músicas abafadas além da voz rouca e embriagada da morena.
— Eu só bebi uma dose. Quer dizer, uma dúzia. Nem me lembro mais. – Diz dando uma risada longa, daquelas que fazem a barriga doer.
— Onde você está? – Pergunta Ian de modo autoritário.
— No banheiro. Senti vontade de fazer xixi. – Sussurra como se o que tivesse acabado de dizer não pudesse ser pronunciado em voz alta. – Quer saber... Eu nem deveria ter te contado, afinal, você não manda em mim e eu sei me cuidar.
— Não parece. Diz logo onde você está. – Insiste já correndo até seu notebook e tentando encontrar a localização de onde Emily estava.
— Ai Ian, por que você tem que ser tão grosso, cínico e... Lindo! Isso me irrita mesmo. – Ela quase grita e ele ousa sorrir por alguns segundos.
— É, você definitivamente está bêbada.
— Já disse que não estou, para de me deixar brava. Está vendo o efeito que você tem sobre mim? Ás vezes não sei se gosto de você ou se te odeio. Se bem que odiar é o melhor termo no momento.
— Emily? Você demorou! — Ele ouve uma voz ao fundo e a reconhece de imediato. Bryan.
— Espere! Estou falando com um amigo. – Emily resmunga.
— O que você está fazendo com esse cara?
— Ciúmes senhor cheio-de-si-apaixonante? – Ela ri achando tudo aquilo engraçado.
— Não é hora para graças agora. – Avisa Ian, já desligando seu notebook ao localizá-la.
— Não estou brincando, foi uma perguntinha só. Está vendo como você adora confundir as coisas? E a gente se conhece tem pouco tempo... Muito pouco tempo. – Grita ela chateada. Ian desligou o celular e quase que de imediato já pegou sua jaqueta preta e as chaves do carro, saindo em disparada atrás de Emily.
E lá estava Ian, indo atrás dela às três da manhã em um barzinho no subúrbio da cidade. O que diabos ela está fazendo lá? É o que ele se pergunta enquanto dirige possesso por entres as ruas agitadas de Chicago. Quando estaciona no estacionamento exclusivo do bar, ele bate com força a porta do carro e entra pisando duro na boate. Ele passa pelo mar de pessoas que dançam e bebem, se pegam e se abraçam, tudo ao mesmo tempo, e corre para o banheiro, arrombando a porta do mesmo.
— Tá ocupado, cara! — Bryan grita sem tirar a boca do pescoço de Emily.
Ela por sua vez, estava totalmente chapada, com certeza não deve ter noção de nada que está acontecendo, muito menos deve se lembrar quem é. Isso deixa Ian muito mais furioso. Ele está se aproveitando dela.
— Tira as mãos dela, seu desgraçado. – Vocifera de modo autoritário.
— Quem é você? – Pergunta Emily arrancando uma risada de Bryan.
— Um idiota que você conheceu, mas não se preocupe, ele está de saída. – Diz seu ex pronto para voltar a dar atenção a morena, mas ao invés de sentir os lábios da garota grudados ao seus, sentiu apenas o chão sujo e o sangue que escorreu com facilidade pelo seu nariz.
— O único idiota que ela conheceu aqui foi você! – Grita arrastando Emily para fora do banheiro enquanto ela tenta se desvencilhar de seus braços.
— Espere, eu quero terminar de ver a briga. – Murmura irritada, mas ele não dá ouvidos a garota.
— Ei, você não pode sair daqui assim cara. – Bryan reaparece e os amigos que haviam o acompanhado no local já se aproximam dele, se virando em direção a Ian.
— Quem vai me impedir? Você e seu grupinho? Achava que fosse homem o suficiente para me enfrentar sozinho. – Pergunta ele com naturalidade deixando o garoto possesso.
— Uh! Essa eu não deixava! – Emily diz piorando ainda mais a situação, mas ela pouco se importava. Queria mesmo ver as coisas no ponto mais alto do termo pior.
— Acha que não dou conta de você sozinho? – Bryan ergue a sobrancelha entendendo que Ian o desafiava.
— Acho que você é burro demais por não saber quando se render a uma briga já ganha. – Diz simplesmente e Bryan tenta partir para cima dele, mas seus amigos o seguram ao notar a arma presa no cós da calça de Ian.
— Cara, eu acho que ele é policial. – Murmura um deles fazendo o garoto arregalar os olhos. Ian teve uma imensa vontade de rir.
— Isso não acabou, afinal, ela não disse que gosta de você ainda. – Bryan sorri se afastando covardemente.
— Mas eu já quis beijar ele, o que é alguma coisa. – Sussurra Emily cruzando os braços.
— Vamos embora! Você já me deu trabalho demais hoje. – Diz Ian já a arrastando para o lado de fora do bar.
Ian, mesmo estando puto com a garota, tenta ser o mais gentil possível ao avaliá-la, verificando se aquele idiota não havia a machucado. Depois de ver que tudo estava bem, retira seu casaco, dando para Emily se cobrir, e a leva até o seu carro. Ela começa, então, a gritar várias bobagens, como se fosse uma criança de cinco anos, enquanto ele a arrasta para seu carro. Ian não sabia se ficava preocupado, ou se ficava mais bravo. Ele sabe que não tem direito de ficar bravo, mas ele está. Afinal, por que diabos Emily tinha que se embebedar? Justo com o ex? Que estava pronto para abusar dela sem se importar se ela estaria ou não consciente? Ele não quer nem pensar no que teria acontecido com ela caso não tivesse chegado a tempo.
— Podemos ir tomar milk shake? — Emily pede fazendo biquinho.
Ian revira os olhos.
— Nada de milk shakes para meninas malvadas. — ele diz sério.
Segundos depois e Emily estava chorando.
— Por que você tem que ser tão mau? — diz entre um soluço e outro. Então para de chorar tão rápido quanto começou. — Tão malvado e tããão lindo!
Ian não se segura e acaba sorrindo. Emily nunca admitiria tal coisa sóbria, e ele vai usar isso contra ela o quanto puder. Uma vingança e tanto...
— Então você me acha lindo? — Provoca.
— Uhum, muito. E irritante. Deus Ian como você é irritante! — diz ela levando as mãos à cabeça e fechando os olhos com força. — Eu odeio você!
— Não parece.
— Mas é porque às vezes eu não odeio. É confuso explicar. – Murmura ela dando de ombros. – Talvez se...
— O quê? – Emily se aproxima de Ian com cuidado e era a primeira vez que ele não sabia o que fazer perto de uma mulher. Seus rostos estavam tão próximos e ele sentia vontade de agarrá-la ali mesmo. Mas não podia. Precisava colocar na cabeça que a morena estava bêbada e não tinha ideia do que estava fazendo. Quando a mesma fecha os olhos, abrindo os lábios, Ian quase se rende e a beija como queria desde a primeira vez que a viu, mas a afasta, fazendo ela abrir os olhos tão rápido quanto havia fechado.
— Você está bêbada e talvez eu prefira beijar você quando estiver lúcida. – Sussurra e ela suspira pesadamente.
— Viu? É tudo muito complexo, você é uma anomalia, um paranormal...
Emily continuou a falar coisa sem sentido, mas Ian não entendia uma só palavra, pois ela começou a falar em português. Ele apenas concordava com a cabeça. Ele estava dando voltas na cidade no intuito de fazer Emily pegar no sono, mas a garota estava ligada no 220 e não para de falar. Depois de quase uma hora e meia passeando de carro, Emily finalmente cai no sono e ele começa a dirigir em direção a sua casa. Ian a observa por uns instantes, no fundo, ele estava feliz por ela ter ligado para ele. A pega no colo e a retira do carro, a levando para dentro de casa, dando de cara com Lorenzo, que fica perplexo ao ver o primo com Emily nos braços.
— Você só pode estar de brincadeira!
— Cala a boca e me ajuda.
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