Mirrors

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Esta pequena história foi baseada em um sonho que eu tive. Não vou dizer que sonhei com tudo até os mínimos detalhes, mas poucas coisas foram acrescentadas. Espero que gostem, e, seja para elogiar ou fazer críticas construtivas, qualquer comentário é bem-vindo :)

É noite. A floresta escura e fechada ao meu redor é algo ameaçador. Eu poderia dizer que elas queriam sussurrar em meu ouvido: “Não era pra você estar aqui”. Bem, isso era óbvio pra mim. Vejo uma grande casa de madeira a poucos metros dali. Não há luzes acesas nem nenhuma janela ou porta aberta. Paro em frente á casa. Alguma força desconhecida me faz querer entrar. A mesma que me fez sair de casa e vir até aqui, sem nem saber o porquê.

Subo dois degraus, agora só falta mais um. Junto toda a coragem que ainda me resta e cruzo a pequena distância entre o próximo degrau e a porta de entrada. Giro a maçaneta bem devagar, amaldiçoando baixinho quando penso no quão quente e confortável eu poderia estar em minha cama neste momento. Abro a porta. Tudo está escuro. Deixo a porta aberta e dou alguns passos para dentro da casa. A porta se fecha sozinha e por algum motivo isso não me pega de surpresa. Olho para trás e não há ninguém. Eu sabia disso. Porque eu sabia? Porque eu não conseguia controlar meus próprios pés? Olho para frente novamente e todas as luzes da casa se acendem no mesmo instante. De novo eu sei que não haverá ninguém na frente dos interruptores. E mais uma vez eu não sei como sei disso.

Ando mais um pouco e, quando me acostumo com a luz, percebo que estou no início de um enorme corredor. A pouca luz que há não consegue mostrar aonde o corredor leva, mas consigo ver muitos espelhos ao longo das paredes. A parte do corredor que é iluminada pela luz está coberta deles. Espelhos de tamanhos diversos e colocados de forma que todos os meus movimentos sejam refletidos. Eu não apareço neles, ainda. Não posso dar mais um passo se não quiser ver-me refletida neles. Eu sei que não é seguro e, bem, eu nunca gostei muito de espelhos. Mas como não sou eu quem está comandando meus pés, eles se movem involuntariamente.

Dou mais um passo e já é possível ver alguma parte do meu corpo refletida em um deles. Eu sinto isso, mas eu ainda não olhei o quanto de mim aparece. Minha respiração fica pesada e é como se eu não conseguisse mais ar suficiente. Eu viro devagar para olhar o espelho e por um segundo eu só enxergo o meu reflexo: uma mulher não muito alta, vestindo um sobretudo preto e com longos cabelos loiros escorrendo lisos pelas suas costas. Mas coisas começam a aparecer ao meu lado. Coisas horríveis e inexplicáveis. Humanos em corpos quase decompostos, usando roupas sem uma cor ou formato definido. Nem todos são humanos, alguns não têm uma definição. Eu nunca vi algo parecido. Eles se mexem constantemente e se movem como animais famintos vindo em minha direção no reflexo. Eu grito. Olho para trás e eles não estão ali, é só no espelho. Isso não me conforta.

Meus pés parecem estar sob meu controle novamente e eu começo a correr de volta para a porta de entrada, mas a porta está trancada e não há nada por perto para que eu pudesse quebrá-la. Faço o mesmo com as janelas e quando algo parecido com fumaça passa por mim, eu sou arremessada para trás. Não há opção a não ser passar por aquele corredor.

Comecei a correr. Uma corrida desesperada tentando fugir de todos aqueles espelhos que refletiam a mim e a todas aquelas criaturas apavorantes. Eu tentava não olhar para os lados, mas era impossível. Eu me pegava olhando para os espelhos freqüentemente, e todos eles refletiam imagens parecidas. A única diferença é que a cada novo espelho eu aparecia mais deformada e com mais daquelas coisas me cercando e me arranhando com aquelas mãos estranhas com partes pontudas que me lembravam dedos.

E então eu comecei a sentir. Sentia todas aquelas coisas me puxando e me arranhando, como acontecia nos espelhos. Eles estavam deformando-me e eu estava sentindo tudo. Não existia quase ar em meus pulmões para que eu pudesse gritar. Não importava o quão freneticamente eu mexesse meus braços porque eu não conseguia me livrar daquelas coisas. Eu olhei para minha frente e notei que o corredor estava chegando ao fim. Se eu pudesse ao menos alcançá-lo, talvez eu encontrasse uma saída. E então mesmo com a dor que tomava conta de mim e com meu próprio sangue escorrendo por minhas mãos, eu corri mais rápido com o objetivo de alcançar o fim do corredor.

Quando eu começo a achar que eu não conseguiria dar mais nenhum passo, olho á minha frente e vejo que consegui chegar lá. Mas o pânico atravessa meu peito como uma faca quando eu percebo que não há saída. Há apenas uma parede fechando o corredor, uma parede que tem um grande e antigo espelho cobrindo-a quase por completo. E é com pânico que eu vejo o que eu nunca esperaria ver. Em choque eu assisto o meu reflexo assustado e quase desfigurado enquanto aquelas coisas acabam com o resto de vida que ainda me sobra. Eu não tenho forças para correr, não tenho ar para respirar e meus pensamentos estão nublados. Eu sento no chão sujo com meu sangue e assisto á minha morte. Talvez eu me torne um deles. Mas neste momento eu estou certa apenas de que meu coração nunca mais irá bater.

Meus olhos se fecham e eu enxergo a floresta escura pela qual eu passei antes de chegar aqui. Como eu queria estar dormindo em minha quente e confortável cama, só esperando o dia começar novamente. Mas, pelo menos para mim, não haveria mais o dia seguinte.

Uma lágrima escapa por meus olhos fechados e eu me entrego à escuridão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!