Mirror, tell me can a heart be turned to stone?
1 Capítulo 1
Sirius não se lembrava quando foi a última vez que conversou com Regulus.
Mesmo antes de cortar laços com a família Black e ir morar com James, ele não prestava muita atenção em seu irmão. Regulus não entendia a Sirius e, como uma criança obediente aos pais, nunca viria a entender. Era o que pensava – e não é como se tivesse muita paciência para lidar com o irmão mais novo, tomado pela urgência e imediatismo característico de seu sangue quente e eufórico pela realidade que os novos amigos e sua nova casa lhe proporcionaram, deveras distinta da que conhecia.
Desde que fugiu do Largo Grimmauld, no entanto, Hogwarts lhe forçava a reconhecer como seu irmão havia crescido. Ele não viu quando aconteceu: suas interações se limitavam a se ignorarem veementemente pelos corredores, ele espelhando o comportamento do mais novo, que provavelmente estava furioso assim como seus pais ficaram por deixar para trás seu papel. Típico, Sirius pensou em algum momento, afinal Regulus sempre foi o filho quieto e obediente de seus pais. Gentil e também covarde. Sirius também não queria se misturar com esse tipo de pessoa. Era diferente – e faria o que fosse necessário para mostrar que não era um deles.
No entanto, tendo em vista a chegada de sua formatura e a certeza do que faria após sair de Hogwarts um incômodo era gerado em seu peito. Sirius iria lutar: era um guerreiro, era corajoso, sempre foi. Se Regulus era o que pensava, Sirius era o que agia. Não poderia simplesmente fingir que não havia uma guerra acontecendo, mesmo que fosse uma guerra na qual não parecia haver qualquer esperança de vitória.
Sabia que era inevitável seu irmão aliar-se aos inimigos. Isso se já não houvesse o feito. O estopim para sua fuga foi justamente porque os Black iriam se aliar ao “Lorde das Trevas”, e ele não estava disposto a compactuar com isso. Mas a perspectiva de lutar com Regulus o incomodava. Nunca admitiria em voz alta — nem para si mesmo, nem para James, a quem confiava sua vida. Mas pesava seu coração, especialmente quando se lembrava de como a relação deles havia se deteriorado, muito por sua própria culpa. Estava pronto para lutar até a morte – mas não com as coisas como estavam.
Aproximar-se de Regulus não era tão difícil desde que soubesse quando ele tinha tempo livre. Ele se envolvia em várias atividades. Havia crescido e se tornado bastante popular: era um jovem bonito, inteligente e a estrela do time de quadribol da Sonserina. Tinha um brilho magnético, mas ao mesmo tempo mantinha sua personalidade introvertida, então também gostava de ter seus momentos sozinho. E foi em um desses momentos que Sirius escolheu para se aproximar — tinha certeza de que Regulus não queria ser visto com um traidor do sangue e, de todo jeito, a recíproca era verdadeira. Sirius também não queria ser visto com uma cobra.
— Regulus.
Quando chamou, não sabia se seu irmão responderia, sequer se o olharia. Mas ele ergueu o fitou, e Sirius se incomodava com como não conseguia lê-lo. Era como se não o conhecesse mais – havia algum dia o conhecido de fato?
— Podemos conversar?
Odiava ter que falar aquilo, mas tinha impressão de que era necessário, caso contrário seria sumariamente ignorado. Regulus levou alguns segundos olhando em volta, uma das sobrancelhas arqueadas em busca da presença do bando com que seu irmão andava. Imaginou se tratar de alguma pegadinha, mas como não havia nem sinal de Potter e dos outros, acabou por silenciosamente assentir com a cabeça, seguindo o mais velho a uma distância segura e o mantendo sempre em seu campo de visão. A desconfiança vinha quase em reflexo involuntário após tanto tempo em que a relação deles estava longe da amigável. Sirius poderia se sentir ofendido com tanta cautela ou até mesmo fazer uma piada, no entanto não queria correr risco de fazer o muro que os distanciava crescer ainda mais.
Sirius guiou o caminho, andando um pouco à frente. Mesmo o seguindo, Regulus manteve-se um pouco afastado por precaução. Não conseguia adivinhar onde ele estava o levando enquanto caminhavam pelos corredores vazios. Já era noite, então a chance de serem avistados juntos era pouca. A princípio, Regulus se perguntou: o que ele está planejando? No entanto, estranhamente, Sirius não parecia ter algum plano e assim resolveu se arriscar a segui-lo.
Sentia falta do irmão.
Mesmo que fosse um tópico proibido.
Regulus nunca havia estado naquela parte do castelo. Sirius aproximou-se no final do corredor, a porta de madeira maciça parecia pesada, porém ele sinalizou para que o mais novo se aproximasse enquanto a destrancava com um feitiço. Foi inevitável estreitar os olhos mediante a visão do que ele fazia: ainda era um monitor e poderia facilmente dar um alerta ao irmão porque tinha certeza de que ele estava quebrando algumas regras, mas a curiosidade de ter Sirius o procurando após tanto tempo — tanto tempo mal encarando um ao outro — vencia.
— O que está fazendo? — enfim sua voz se fez audível, enquanto seguia Sirius para dentro da sala. — Por que me trouxe aqui?
— Eu quero te mostrar uma coisa.
Sirius esboçou um meio sorriso misterioso, como quem estava prestes a fazer uma travessura. Mas não de modo ruim: lembrou a Regulus de quando eram crianças, seus olhos brilhando com entusiasmo que beirava ao infantil.
A visão de Regulus aos poucos se ajustou à luz suave da luz que iluminava o cômodo através das janelas altas. Era uma noite escura, mas os astros brilhavam no firmamento, destacando-se em meio ao véu negro.
Algum dia brilharia tão intensamente também? Assemelhavam-se às estrelas, mas a comparação ia muito além de seus nomes. A família Black era como aquele véu escuro, envolvendo-os, engolindo-os, embraçando-os. Sirius era como as estrelas daquela noite: despia a escuridão em seu entorno, utilizando-a de combustível para brilhar ainda mais.
E ele, como seria? Também poderia brilhar? Ou seria tragado pela noite eterna?
A voz de Sirius quem o tirou da espiral de pensamentos. Ao fundo da sala, Regulus ouviu o farfalhar de um tecido e chegou a tempo de ver o irmão mais velho puxando um pano da frente de um grande espelho.
— Encontramos isso outro dia. Queria te mostrar. Vem cá.
Sirius fez um gesto com a cabeça, incentivando o mais novo a se aproximar. Regulus o fez, embora crispasse os lábios mediante a informação recém adquirida. Não que devesse estar surpreso: Sirius e seus tão queridos amigos andavam constantemente juntos, embora nunca tivesse entendido o que eles tinham de tão especial.
O que eles tinham para Sirius preferir estar com eles.
— Um espelho? — questionou com as sobrancelhas arqueadas, descrente, parando ao lado de Sirius em frente ao espelho, de modo que refletia a ambos. — O que tem nele?
Regulus adivinhava que não deveria ser um espelho comum, estavam em Hogwarts afinal, e Sirius não se incomodaria de fazer todo aquele caminho para lhe mostrar algo ordinário. O espelho parecia deveras antigo, a moldura dourada mal se fazendo perceber no escuro.
— O que você vê?
Ao invés de responder, Sirius devolveu com outra pergunta, olhando para o irmão com expectativa.
— Nada.
— Vamos lá, Reg — insistiu, a voz possuindo um quê de humor forçado. — Você tem que estar vendo alguma coisa!
Regulus torceu os lábios. Olhou para o espelho com mais atenção, reparando primeiro em seus detalhes. Havia uma inscrição no espelho que o deixou curioso, mas precisou estreitar os olhos para ler devido a iluminação limitada do cômodo. A princípio, não encontrou sentido nas palavras embora de algum jeito aquela língua parecesse familiar. Ainda assim, não via nada. Nada além daquele presente momento. Ambos, juntos, refletidos no espelho. Mas talvez suas expressões fossem mais felizes dentro do reflexo, como se Sirius nunca tivesse o deixado. Não havia nada que ele desejava mais do que ter seu irmão de volta. Quando eram apenas os dois e nada mais importava. Seus destinos precisavam mesmo se separar assim?
Quando percebeu a mão de Sirius se aproximando, sobressaltou-se. Não era o reflexo se movendo mediante sua imaginação, mas a realidade. O dorso da mão de Sirius roçava-se ao seu e em um gesto lento, quase hesitante, suas mãos buscaram uma à outra e os dedos se entrelaçaram com força.
— Eu vejo nós dois, Reg. Felizes.
Sirius murmurou e era como se vissem a mesma coisa refletida no espelho. Regulus não conseguiu conter a vontade de desviar o olhar, seus dentes pressionados com força mediante a raiva contida que borbulhava em seu estômago. Seus cabelos caíam em frente aos olhos, escondendo a mágoa que verdadeiramente sentia.
—... Eu te odeio — sussurrou, fraco, quase inaudível.
— Eu sei.
— Você é um covarde.
—… Eu sei.
— Idiota.
— Eu sei.
—… Por que você teve que me deixar pra trás? Eu me senti sozinho, sabia?
A voz de Regulus se quebrou ao fim. Sirius quis dizer eu sinto muito, mas não é como se estivesse arrependido. Ele não sentia muito. Não por ter ido embora. Talvez pudesse ter feito as coisas diferentes e lá no fundo talvez gostaria disso; sabia que era impulsivo, e justamente por isso estava tentando — ao menos naquele breve instante — não ser assim. Suas palavras soariam vazias e serviriam apenas para magoá-lo ainda mais.
Sirius sentiu vontade de abraçar o irmão. Se palavras não adiantariam, talvez pudesse ao menos oferecer um pouco de consolo — mas era péssimo nisso. Podia ser corajoso, ousado, flertar por aí e muito mais, mas parecia que nas horas que mais importava, nunca conseguia ser gentil ou sincero. Faltava-lhe tato. Ou talvez fosse o orgulho falando mais alto. Não podia se mostrar vulnerável e sentimentos lhe deixariam vulnerável. Sabia disso. E Regulus também sabia disso, por isso criou uma imagem distante, quase fria, que agora ruía em pedaços. A verdade é que Regulus sempre foi o mais gentil dos dois. E por isso também o mais fraco, como Sirius julgou por muito tempo.
No fim, Sirius não fez nada. Não se moveu de onde estava e qualquer vestígio de palavras morreram antes de sequer tomar forma em sua mente. Mediante o silêncio, os punhos de Regulus se cerraram com força, fazendo os dedos de Sirius doerem pelo modo que estavam sendo pressionados.
— Eu sempre te admirei, sabia? Pensava quanto meu irmão era legal. Eu queria ser corajoso como você. Eu queria ser como você. Mas… eu nunca conseguiria, não é? É impossível.
Aquelas palavras, junto ao sorriso amargo que Regulus esboçava, foi o ponto de ruptura que fez Sirius puxá-lo para que ficassem frente a frente. Sirius o forçou a encará-lo, mesmo que a tristeza em seus olhos fizesse seu coração se apertar.
— Não é impossível, Reg. Você ainda pode mudar — ele disse de modo firme, mesmo que duvidasse das próprias palavras. — Sempre há uma escolha.
— É? — sorriu cínico, a raiva se misturando ao turbilhão de emoções. Em um gesto brusco, soltou as mãos, afastando-se de Sirius. — Desde quando?
Sirius engoliu a seco. Ele nunca havia parado para pensar como foi sortudo por encontrar James e os outros. Como foi sortudo de ir para a Grifinória. Regulus era o reflexo do que ele mesmo poderia ser, sujeitado à influência da família Black e exigências dos pais. Por mais que gostasse de clamar como era diferente, sabia que lá no fundo não era tão bom assim.
Regulus era sempre o mais gentil e obediente. Tratava até aquele elfo sujo bem. Como ele iria se opor aos pais, aos colegas e a toda a vida que conhecia?
Sirius foi apresentado a um novo caminho. Regulus não tinha nada. E, ainda assim, havia tido coragem de lhe dar as costas e o deixar para trás.
A realização lhe atingiu tarde. Apenas agora, ao vê-lo desabotoando a manga da camisa social, subindo-a e revelando à luz da lua a marca negra.
— Mas quer saber, Sirius? Eu não preciso ser igual a você. Eu estou destinado à grandeza. E eu vou ser grande. De algum jeito.
— Regulus… Por quê? Você é apenas uma criança!
Só conseguia pensar se não era influência dos pais. Talvez de sua prima louca. Regulus não havia feito ainda nem dezessete anos. Como puderam permitir aquilo? Sirius sabia do poder de Voldemort. Como até Dumbledore tinha problemas com o avanço do poder dele. Devia ser fácil iludir pessoas para sua causa. Mas… Mas Regulus ainda era uma criança.
— Eu cresci, Sirius — Regulus sentenciou o óbvio enquanto voltava a descer a manga da camisa. Devia ser óbvio, mas Sirius não conseguia deixar de vê-lo como seu irmãozinho bobo, como quando ele se iludia com suas histórias fantasiosas. — E agora é tarde.
— Não… Não! Não precisa ser tarde! Podemos dar um jeito!
Sirius Black soando desesperado? Definitivamente não parecia ele falando. A culpa pesava. Devia ser ele a servir Voldemort como o filho mais velho. Era o que seus pais iriam querer. Devia ser ele a ser o herdeiro e também ele a proteger Regulus. Mas havia falhado.
E ele também não soube ler o sorriso irônico que se delineou nos lábios alheios. Regulus entendeu que Sirius era um idealista e não entendia como o mundo funcionava. Cada dia mais, o mundo sucumbia do lado de fora dos muros da escola. Mesmo os tolos sabiam que a resistência era inútil — apenas se um milagre acontecesse. E, acima de tudo: a traição à Voldemort se pagava com a morte.
Não havia escapatória. Não mais.
— Isso é um adeus, Sirius.
Regulus lhe deu as costas e, em um último olhar de relance, a inscrição que havia no espelho finalmente fez sentido. Não mostro o seu rosto, mas o desejo em seu coração. E Regulus decidiu não olhar novamente para o espelho, temendo fraquejar com a realidade doce que o reflexo lhe mostrava. Sirius, por sua vez, só pode se voltar para o espelho. Se a visão daquele rosto sorridente, protegido em seu abraço, não podia se tornar real… Ele temia pela realidade que os aguardava.
Sirius cerrou os punhos, irritado consigo mesmo. Era sua culpa.
— Regulus…
Chamou mais uma vez, a voz o mais amena que conseguiu, ouvindo o som dos passos dele pararem. Sirius precisou respirar fundo, soltando o ar lentamente.
— Fique vivo, irmãozinho. Fique vivo.
Regulus assentiu fraco, de modo quase imperceptível, em uma promessa silenciosa antes que seus caminhos se separassem para sempre.
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