Mirror Myself In You
12 Medicine.
Notas iniciais
Três meses depois — Residência Pamdin – 20h:21min – Galateia Pov.
Ajudei Sara arrumar todas as coisas na mesa e ela me olhou divertida, mexendo ambas as sobrancelhas. O fato é que nos três meses que se passaram, ela e Liane meio que começaram a namorar e isso foi muito divertido por vários motivos, mas o maior deles é porque Sara é uma pessoa muito engraçada e ela faz a Lily rir de praticamente tudo que fala. Também tem o fato de que Liane acaba que passando um tempinho a mais comigo e todo mundo, já que agora Vicent e Sam começaram a namorar de uma maneira oficial. Eu não entendi muito bem como começou esse namoro, porque estava todo mundo junto e tia Cass falou pra ele levar a “namorada” dele em casa, desde então eles começaram a se chamar de namorados. São tempos bem divertidos, tirando o fato de Liane aparecer bêbada as vezes, mas tento não pensar muito nesse fato, porque não é sempre que ocorre e os momentos bons camuflam os ruins.
Mês passado até saiu todo mundo para jogar boliche, até mesmo tia Cass e o tio Jason foram. Nós rimos muito da falta de jeito do Vicent e das jogadas perfeitas da Sam, o que foi um pouco estranho, já que ela era a única que não conseguia mover o corpo tão bem para jogar, mas deixou todo mundo de boca aberta por fazer um strike atrás do outro. Os três meses para o aniversário da Liane passaram tão rápidos que agora que está realmente acontecendo, eu estou um pouco insegura de dar o meu presente. Todo aniversário meu ela se empenha em me dar algo bom, que lhe deu trabalho para fazer, então esse ano tentei fazer a mesma coisa. Demorei quase que onze dias para terminar, mas acho que está no mínimo bom.
— Eu vou ir lá buscar os lanches, por que não vai apressar a sua irmã? – Sara perguntou e assenti saindo da varanda para ir em direção ao meu quarto, onde Liane ficou de tomar banho, mas que estava demorando uma eternidade.
— Você vai acabar com a água do planeta. – Alertei dando leves batidas na porta do banheiro e ela riu lá de dentro.
— Eu já acabei, só estou arrumando o meu cabelo. – Alertou e abrindo a porta e sorriu para mim. – Fica com saudades de mim tão rápido assim?
— Mas é obvio! Você é a aniversariante, se não chegar logo eu vou morrer de fome. – Brinquei e ela riu divertida.
— Não tema, eu já estou indo. – Começou a andar em direção a porta do quarto e segurei seu braço a impedindo de continuar andando. – O que foi?
— Eu quero te entregar o seu presente, mas não quero fazer isso na frente de todo mundo. Pode esperar um pouco? – Pedi e ela se virou para mim sorrindo.
— Me pede pra sentar e rolar que eu faço. – Brincou e ri a puxando para se sentar na cama.
— Larga de ser idiota e espera aí que vou pegar. – Corri até meu guarda-roupa e peguei o embrulho que havia guardado ali, voltando para seu lado. – Não é nada grande, ou muito extraordinário, mas foi eu que fiz. – Contei lhe entregando o pequeno envelope e ela sorriu o pegando curiosa.
— Parece que é uma caixinha de joia. – Chutou tateando a embalagem e ri por ela ser tão esperta.
— Só a caixinha. Abra pra ver o que tem dentro.
— Tá bem. – Desfez o laço e abriu o envelope em curiosidade, tirando de lá a caixinha preta que realmente era usada para guarda joias. – Uuuuh, o que será que é? – Perguntou divertida e abriu a caixinha fazendo suspense. Neguei com a cabeça mantendo meus braços cruzados e sua atenção focou no presente por um tempo.
— O que achou? – Perguntei curiosa e ela piscou várias vezes pegando o pingente na mão. – Como a mamãe pegou o seu baixo, eu achei que talvez fosse gostar. Não ficou perfeito, mas eu tentei fazer no mínimo bonitinho. O tio Jason me ajudou também, ele entende dessas coisas de moldes e... Não sei, ficou legal? – Perguntei receosa dela não ter gostado e arregalei os olhos por ela se levantar e pular em mim me abraçando apertado.
— Isso está muito lindo, extremamente. – Beijou meu rosto várias vezes lhe abracei de volta. – Quanto tempo gastou para fazer? – Perguntou encantada e sorri.
— Quase onze dias. – Contei e ela me olhou perplexa. – Eu não tenho talento algum pra fazer isso, então tive de fazer bem devagar para não estragar tudo, fora que eu não me lembrava exatamente como era o que o papai te deu. Ele também é tão pequenino que precisei desenhar o molde e levar em uma loja pra eles fazer um daquele jeito. – Expliquei e ela colocou o colar no pescoço, beijando sobre o pingente de 6cm.
— Isso aqui é especial de tantas formas. – Falou encantada e foquei no pequeno contrabaixo amarelo em seu pescoço com um detalhe em preto no meio, que fiz usando de resina e fios, que tio Jason fez o favor de me ajudar a moldar para que não ficasse feio. – Eu não acredito que você fez algo tão fofinho assim pra mim. – Sussurrou e sorri.
— Você é especial pra mim e eu achei que deveria ter a lembrança do que o papai te deu.
— É a coisa mais bonita que já fez pra mim. – Falou e lhe abracei com carinho.
— Você sempre fez coisas bonitas pra mim, quis fazer o mesmo por você. – Confessei e olhei em direção aporta ao ouvir batidas nela. – Acho que agora devemos ir. – Chamei e ela sorriu me seguindo para que saíssemos do quarto.
XxX
Sorri olhando para todos que estavam na mesa, que se resumiam a Liane, Sara, Sam e Vicent, porque tia Cass e tio Jason acabaram que indo comemorar na casa da mãe do tio o aniversário dele, então só ficamos nós em casa, o que não é nem um pouco ruim.
— Um brinde a maior idade. – Liane falou erguendo seu copo, que diferente do meu, Sam e Vicent, que tinha suco, estava cheio de algo alcoólico. – Esse ano farei as coisas que sempre quis. – Falou esperançosa e sorri.
— Como a tocar na bandinha da sua amiga, certo? – Sara perguntou e ela assentiu lhe dando um selinho.
— Mas é claro! Eu vou ser super incrível. – Concordou animada e desviei a atenção para Sam quando ela chamou nossa atenção com um bater de palmas, dizendo que faria uma imitação. Vicent logo entrou no meio a ajudando e começamos a rir do quanto os dois juntos conseguiam ser idiotas. O tempo que passamos fazendo idiotices foi grande, mas a cada momento eu não podia deixar de notar que Liane bebia um pouco mais a cada risada que dava, o que se tornou uma grande quantidade para quase uma hora de brincadeiras da parte de Sara, Sam e Vicent.
— O que acham de cortarmos o bolo agora? – Sara propôs e sorri.
— Meu Deus, calma que eu preciso fazer xixi antes. Vicent, me ajuda a correr aqui. – Sam pediu virando a cadeira e Vicent rapidamente se ergueu para empurra-la para dentro. Ri divertida por vê-los correr e Sara negou com a cabeça.
— Eu irei buscar o bolo então. Vou demorar porque não sei onde enfiei as velas, qualquer coisa peço ajuda dos boiolas. – Saiu e olhei para Liane, que encheu o copo vazio outra vez.
— Lily... – Chamei receosa e ela me olhou. – Já está bom, não bebe mais. – Pedi e ela olhou para o copo que segurava.
— Por que não?
— Você já bebeu muito. – Alertei preocupada de seu humor mudar, o que já se provou acontecer sempre. — É hora de parar. – Falei olhando em direção a cozinha, onde Sara tinha ido buscar o bolo e Vicent ajudar a Sam. – Ninguém mais está bebendo. – Alertei e ela largou o copo sobre a mesa.
— Eu nem estou bebendo tanto assim. – Reclamou cruzando os braços e suspirei.
— Você já virou esse copo mais de seis vezes. – Informei e seus olhos se arregalaram.
— Você está contando? – Perguntou perplexa e olhei para mesa.
— Não... Você está sentada na minha frente e eu estou vendo. É só que... Eu não gosto quando você bebe. – Sussurrei um pouco retraída, porque sua voz parecia séria e eu não gosto quando ela começa a usar esse tom, o que só acontece quando bebe.
— Por que não?
— Me incomoda. – Murmurei, me preparando para entrar em um assunto mais delicado. Sei que é aniversário dela, mas acho que deveríamos falar sobre isso.
— Você está fazendo de novo. – Acusou e ergui a cabeça em confusão. Fazendo o quê?
— Fazendo o quê? – Perguntei confusa e ela negou com a cabeça várias vezes antes de se levantar da mesa. Arregalei os olhos e me levantei também para lhe acompanhar, porque ela deu a entender que queria se afastar de mim.
— Tentando me controlar, como o meu pai e nossa mãe. – Falou um pouco mais firme e me encolhi.
— Lily, não! – Neguei prontamente. – Nós já tivemos essa conversa antes. Você está exagerando outra vez. Eu não quero te ver assim, porque não é justo, por favor. – Pedi segurando seu braço, sem forçar o aperto ou lhe impedir de caminhar, apenas lhe seguindo. – Você é a pessoa mais especial que eu tenho, não quero que perca isso.
— Então agora eu sou uma perdida? – Perguntou e neguei com a cabeça várias vezes.
— Não! Para de distorcer as minhas palavras. Eu não quero te controlar ou acho que você seja uma perdida. É só essa situação, você não é a mesma pessoa as vezes e me assusta essa mudança toda. – Falei preocupada e ela puxou o braço que eu segurava.
— Eu sou a mesma pessoa de sempre! É você que está tentando me mudar do jeito que te convém, do mesmo jeito que nossa mãe faz. – Acusou.
— Liane! Olha o que está falando. Eu jamais faria isso com você, eu te amo e quero o seu melhor. – Tentei e ela andou de um lado para o outro irritada.
— Se quer o meu melhor, para de querer me controlar. – Bradou.
— Eu não quero controlar você, pelo amor de Deus! Eu só quero que pare de beber e volte a ser minha irmã.
— Eu não sou mais a porra da sua irmã? – Perguntou e massageei as têmporas por sua voz alterada. Eu sabia que isso ia acabar acontecendo.
— Lily, olha como está agindo. Você não é assim. Agora tudo te deixa brava.
— Eu não tenho motivos para ficar brava? Agora tenho que ficar calada e aceitar tudo e dizer “sim senhor e sim senhora”? – Bradou e me encolhi.
— Liane... Não é isso. Uma coisa não tem a ver com a outra. Eu me refiro a isso aqui. – Movi as mãos em nossas direções. – Você não me escuta e fica brava comigo, eu só quero que diminua a quantidade que bebe, não precisa parar ou se privar disso, só... Diminua.
— Eu não tenho que fazer isso. – Reclamou e suspirei.
— Não, mas... Eu estou te pedindo, por favor. Você pode beber menos? – Pedi.
— Por que eu tenho que fazer tudo que você quer? – Perguntou e neguei com a cabeça.
— Não é o que eu quero. – Alertei lhe seguindo por ela voltar a andar. – Você está se impondo sobre a sua vida e isso é maravilhoso, mas não precisa beber para fazer isso. Quando bebe você fica agressiva e de mau humor. Eu não gosto quando fica assim.
— Por quê? Tenho que ser flores o tempo todo pra você gostar de mim? – Reclamou e guiei ambas as mãos para segurar seu rosto com carinho.
— Eu amo você, não precisa ser só flores para ter o meu amor. Não me importo que seja de outro jeito quando isso vem de você mesma, não de algo que ingeriu. – Falei calma e foquei nos olhos azuis vidrados. — Beber tanto está te tornando em algo que você não é. – Acariciei sua bochecha com carinho. – Eu quero muito que se divirta, que brinque, toque ou faça qualquer outra coisa que desejar, mas por favor, não continue bebendo assim.
— Eu não estou bebendo tanto. – Falou com os olhos marejados. – Eu só me sinto melhor quando faço isso. – Sussurrou e suspirei. – Só estou me divertindo um pouco. – Limpou as lágrimas e afastou minhas mãos do seu rosto. – Não estou prejudicando ninguém. – Reclamou. – Você deveria me apoiar, não agir assim.
— Lily, eu estou apoiando você. A única coisa que peço é para beber menos. Olhe só agora, é como se não tivesse escutado uma palavra do que eu te disse. – Falei. – Você está bêbada agora mesmo.
— Eu não estou bêbada! – Negou irritada.
— Então repita o que eu disse. – Pedi.
— Sou a merda de um gravador agora? Não sou obrigada a repetir nada. – Reclamou.
— Outra vez, eu não estou te obrigando. Estou te pedindo para fazer algo simples, repetir o que eu disse e você não consegue. – Falei suavemente para que ela não se alterasse, mas o olhar irritado com o qual ela me olhou mostrou que eu tinha falhado na tentativa.
— Agora eu sou uma burra?
— Liane, não! Eu não estou te chamando de burra. Olha só essa situação, você está ficando brava com algo simples.
— Não estou brava. – Negou mais alterada e suspirei.
— Eu te digo A e você interpreta B. Estou tentando formar um diálogo calmo, mas você está levando-o para um lado agressivo, sendo que não tem agressividade alguma aqui.
— Não estou agressiva! Você que está me chamando de burra.
— Não! Em momento algum eu disse isso. Olha só como as coisas estão, olha o que você está dizendo, a bebida faz você ficar estranha.
— Eu não sou estranha. – Bradou andando um pouco para o lado e lhe segui soltando um suspiro.
— Você não é! Mas está agindo dessa forma.
— Que forma? – Perguntou irritada.
— Dessa forma! Parece como se eu estivesse te atacando e você precisasse se defender. Sou eu, Lily. Galateia, eu não atacaria você.
— Eu sei quem você é, caralho. – Xingou e fechei os olhos brevemente. A que ponto isso está chegando?
— Então por que está brava comigo? – Perguntei.
— Por que você está falando comigo como se eu fosse uma acéfala? – Rebateu e neguei com a cabeça.
— Eu não estou fazendo isso. Olha só pra essa situação.
— O que diabos tem essa situação? – Bradou alto e me encolhi no lugar por seu tom se elevar e ela segurar a cadeira ao seu lado com força.
— Você está alterada, deixa pra lá. Nós... Conversamos sobre isso amanhã, tudo bem? – Pedi e ela riu negando com a cabeça várias vezes. – Você não está no seu normal e conversar com você assim é muito difícil. – Confessei e seu olhar focou em mim.
— Por que é difícil? – Perguntou irritada e me encolhi mais.
— Só deixa para amanhã. – Pedi.
— Não! Agora me responde. Por que é difícil? – Perguntou chegando um pouco mais perto e suspirei por seu tom irritado.
— Por que você fica agressiva. – Sussurrei.
— Eu NÃO estou agressiva. – Falou o “Não” alto e me encolhi. A ultima vez que ela falou nesse tom comigo foi quando as coisas aconteceram com a Sara e eu a deixei chateada.
— Olha só pra isso, Lily. – Comecei sentindo vontade de chorar por ela parecer estar com raiva de mim. – Beber está te tornando agre-.
— ESTÁ ME TORNANDO O QUÊ? – Gritou chutando a cadeira ao seu lado e o som de algo pesado caindo na água tão audível imediatamente me fez ficar em alerta de perigo, mas uma quantidade considerável de água espirrar em minhas pernas me fez arregalar os olhos em pânico e travar no lugar. – Galateia? – Liane chamou e olhei para minhas pernas molhadas, virando o rosto levemente para o lado, já sentindo lágrimas se acumularem nos meus olhos. Meu coração aumentou o ritmo cardíaco e minha respiração se fechou em ver a grande quantidade de água refletindo no azulejo tão perto de mim. “vou morrer” O pensamento veio em minha mente e levei uma das mãos ao pescoço por não estar conseguindo respirar e a outra ao peito por um calafrio correr por todo o meu corpo.
— Eu vou morrer. – Sussurrei não conseguindo enxergar direito por causa das lágrimas e dei um sobressalto por Liane segurar ambos os meus ombros. Apertei o tecido de sua blusa por meu corpo ficar trêmulo e a imagem que tinha dela ficou cada vez mais embaçada por eu não conseguir controlar as lágrimas por medo. – Eu vou morrer. – Sussurrei por ter a sensação de que estava saindo do meu corpo aos poucos e mesmo que Liane estivesse falando em desespero eu não conseguia ouvir nada. – Lily. – Tentei chamar, começando a chorar mais por minha voz parecer não ter saído. Me encolhi mais e deitei a cabeça em seu peito tentando respirar de alguma forma. Eu não quero morrer. Não quero morrer como meu pai, não quero.
XxX
Abri os olhos um pouco confusa e me sentei no susto, olhando em volta em desespero, vendo tia Cass sentada na cama ao meu lado. Eu estava sonhando?
— Hey, tá tudo bem. – Falou calma e foquei minha atenção ao meu redor, vendo que era o quarto dela e que eu estava em sua cama. Espera, o que eu estou fazendo aqui?
— O que aconteceu? – Perguntei confusa se tinha ou não sido um sonho ruim.
— Você entrou em pânico por ter chegado perto da piscina e desmaiou. – Contou preocupada e engoli em seco. Então não foi um sonho? – Tá tudo bem? Lembra do que aconteceu?
— Eu... Acho que sim. – Sussurrei colocando a mão sobre o peito e puxando o ar de leve, aliviada por estar conseguindo respirar direito e por meus batimentos estarem regulados.
— O que aconteceu? – Perguntou e lhe olhei em silêncio. — Liane não soube explicar porque não parou de chorar. – Falou preocupada e me encolhi no lugar.
— Eu não percebi que estava indo para perto da piscina. – Contei ao me lembrar e comecei a tremer por isso. — Quando notei já era tarde demais. – Continuei a contar, apertando minhas mãos trêmulas no forro da cama. – Onde está a Liane? – Perguntei preocupada e ela se levantou da cama soltando um suspiro.
— Eu vou chamar ela. – Saiu do quarto e olhei para minhas mãos que ainda tremiam um pouco, usando a direita para apertar a esquerda e parar a tremedeira.
— Hey. – Ouvi a voz de Liane e ergui a cabeça para lhe olhar, vendo que seus olhos estavam marejados. – Você está bem? – Perguntou preocupada e veio em minha direção, se sentando de frente para mim sobre a cama.
— Eu estou bem. – Garanti e suas mãos agarraram as minhas ao perceber que tremiam de leve.
— Me perdoa, foi culpa minha. – Falou começando a chorar e neguei com a cabeça.
— Não foi culpa sua, Liane. Eu devia ter percebido para onde estava indo, mas não fiz isso e tudo aconteceu. A culpa não é sua.
— Não! Eu devia estar ligada, mas não estava, pelo contrário, estava brigando com você ao invés de te proteger. Eu devia ter percebido que estávamos perto da piscina e ter tirado você de lá, mas não percebi porquê... – Se encolheu e se aproximou deitando a testa em meu ombro. – Porque eu bebi e estava sendo agressiva. – Seus ombros tremeram e lhe abracei por isso iniciar seu choro. – Eu gritei com você e te assustei, bem antes de perceber que estava perto da piscina. Eu sinto muito, tanto. – Sussurrou e me abraçou de volta. – Eu nunca te vi tão desesperada e em pânico daquele jeito. Eu realmente achei que você fosse morrer, Galateia.
— Está tudo bem agora. – Garanti lhe abraçando mais forte.
— Eu nunca mais vou te assustar desse jeito, não quero te ver assim de novo.
— Lily, a culpa não foi sua.
— Não! A culpa foi completamente minha. Eu chutei a cadeira, por minha causa caiu água em você. É culpa minha, a partir do momento que não me preocupei em olhar em volta, que ignorei o que estava tentando me dizer. – Falou e ergueu a cabeça para me olhar. — Eu não estou bem, Galateia. – Disse baixo e arregalei os olhos. – Eu sempre fui muito explosiva, mas dessa vez está diferente e, estou sim bebendo muito. Eu estou chateando você e te decepcionando. – Sussurrou.
— Liane, tá tudo bem.
— Não está. Você tentou falar comigo hoje e isso aconteceu. Eu não estou bem pra ficar com você. – Sussurrou e me aproximei encostando a testa na sua. – O dia que estávamos jogando beisebol e começou a chover, eu não reclamei porque estava achando a chuva fria, é porque não estava bem. Esses meses estão fodendo com a minha cabeça e estou guardando tudo pra mim, tentando camuflar saindo com meus amigos, mas não está adiantando. – Voltou a chorar e fechei os olhos. – Quando eu me sinto mais ou menos é quando bebo algo, mas isso revela meu pior lado, como hoje. Eu não quero que isso aconteça outra vez.
— Lily...
— Eu não quero nunca mais te ver chorando daquele jeito. Doeu mais do que tudo te ver naquele estado e saber que foi por minha causa... Preciso de um tratamento para tentar controlar esse meu lado explosivo. Eu sabia que não era das melhores pessoas, mas depois de hoje... Você tendo um ataque de pânico me acertou forte demais. Não posso perder você, não a única pessoa que se importa tão verdadeiramente comigo.
— Você não vai me perder. Está tudo bem, nós esquecemos o que aconteceu hoje. – Garanti limpando suas lágrimas.
— Galateia, não é desse jeito. – Afastou a testa da minha e acariciou meu queixo com o indicador. – Você é muito paciente e aceita as coisas muito fácil e, eu sinto que se ficar aqui, vou te machucar.
— Como assim se ficar aqui? O que isso significa? – Perguntei assustada com suas palavras e ela se levantou da cama.
— Eu vou para Itália com a Kate e irei procurar tratamento para essa minha raiva. – Alertou e arregalei os olhos.
— Não, Liane. A culpa não foi sua! Sou eu que tenho essa fobia idiota. Não vai embora não, por favor. – Pedi me levantando para ir até ela. – Eu vou começar minha terapia como já devia ter começado, então por favor. – Lhe abracei. – Não vai embora, não me deixa sozinha. – Sussurrei e ela me abraçou de volta. – Eu não quero perder você.
Um ano depois – Residência Pamdin – Galateia Pov.
Olhei as horas em meu celular e suspirei arrumando o terno do uniforme da escola, abotoando todos os botões em seu devido lugar. Hoje completa um ano que a Liane foi embora para Itália e que não me mandou nenhuma mensagem além de datas comemorativas, mas deixando especificado que não responderia qualquer outra mensagem minha para não me magoar, não percebendo que já estava fazendo isso. No dia do seu aniversário nós conversamos e eu jurava que ela não iria lugar algum, mas no dia seguinte ela não estava mais na casa da tia, nem na da nossa mãe, muito menos na mesma cidade. Ela saiu sem se despedir de mim, porque sabia que eu iria chorar. Agora faz um ano que não vejo minha irmã e ontem lhe mandei mensagem desejando um feliz aniversário, mas ela ainda não me respondeu e para ser sincera, não acho que vá.
Uma semana depois que ela foi embora eu comecei a fazer terapia, então toda sexta-feira vou para uma sessão, mas para que ninguém aqui em casa saiba disso, eu comecei a pegar o metrô para só depois chamar meu motorista. Acabei que dizendo para tia que estou fazendo aulas de karatê a noite também. O engraçado em decidir fazer isso, é que sem querer descobri que a Vick também pega o mesmo metrô que eu, o que é um pouco estranho, já que recentemente ela começou a me olhar como se quisesse vir falar comigo, mas nunca vem. Isso meio que me deixa bastante confusa, porque vira e mexe ela sorri na minha direção e eu não sei se devo sorrir de volta ou fingir que não estou lhe vendo. O que ela pretende fazer?
Ajeitei a saia vermelha na cintura e olhei para meu celular por ele vibrar sobre a cômoda. Abotoei o botão da manga em meu pulso e fui até o aparelho o desbloqueando para ver do que se tratava, vendo que era uma notificação da Liane. Arregalei os olhos e abri rapidamente a mensagem, vendo que era o anexo de uma foto e um áudio logo abaixo. Baixei a mídia e sorri por vê-la usando um terno feminino com gravata borboleta e erguendo uma bandeja de prata no alto.
Obrigada por me desejar feliz aniversário, maninha! Eu o passei trabalhando no meu novo bico. Vorresti effettuare il tuo ordine? Hahahaha, acredita que isso significa “Você gostaria de fazer seu pedido”? Eu acho isso tãooo legal. Estou a oito meses sem beber nadinha. Desculpa não te responder ontem, eu cheguei bem cansada e acabei dormindo no sofá. Hoje acordei atrasada e quase não chego a tempo. Eu te amo muito, tá bom?
Sorri para mensagem e bloqueei o celular o enfiando em minha mochila. Se eu responder ela vai ignorar minha mensagem até meu aniversário, então prefiro não mandar nada e não ficar na expectativa dela me responder. Das primeiras vezes ela até fazia isso, mas acabava chorando, então acho que foi por isso que decidiu que não continuaria. Neguei com a cabeça repetindo a frase italiana em minha cabeça e puxei minhas ultimas provas feitas que deixei separada em uma parte da minha mochila.
— Vorresti effettuare il tuo ordine? – Repeti a frase em um sussurro e saí do quarto indo em direção a cozinha, vendo que tia Cass lavava a louça do almoço. – Tia. – Chamei e ela me olhou.
— Já está arrumada tão cedo? – Perguntou e sorri.
— Não é tão cedo assim. A senhora pode ir na escola hoje? – Perguntei e ela parou de lavar o prato para erguer uma sobrancelha.
— Posso, mas por quê? – Questionou confusa e ergui minhas provas, todas com nota máxima.
— Meus professores querem falar com algum responsável. – Expliquei e me assustei dando um sobressalto por ela dar um grito animado.
— MEU DEUS! JASOON. – Gritou pelo marido que entrou correndo na cozinha com as mãos sujas de terra.
— Pelo amor de Deus, Cassandra! Não me mata do coração. O que foi? – Perguntou assustado e arregalei os olhos por tia segurar meu rosto com as mãos cheias de sabão e beijar minha testa várias vezes.
— Olha as provas da Galateia! Olha os resultados. – Voltou a beijar minha testa com carinho. – A coisinha mais linda da tia. Titia ama e titia cuida. – Ri divertida e me afastei um pouco tentando limpar o rosto.
— Eu acabei de me arrumar. – Resmunguei e foi a vez dela rir.
— E aí? O que tem as provas dela? – Tio perguntou preocupado. – Tá indo no caminho do Vicent? Por favor, eu não aguento outro filho burro. – Brincou e me encolhi no lugar por sua frase sair carinhosa, o que significava que ele foi sincero ao me comparar com uma filha.
— Essa linda tirou nota máxima em tudo, tem o cérebro mais inteligente do mundo. – Tia comemorou dando pulinhos e neguei com a cabeça pela empolgação. – Claro que eu posso ir na escola. Que horas?
— É na primeira aula, então a senhora poderia ir comigo? – Pedi receosa e ela secou as mãos no pano de prato.
— CLARO. Eu vou só tomar um banho rapidinho e me vestir para tentar chegar perto do nível da sua beleza. – Estendeu a mão para limpar um lado da minha bochecha antes de começar a sair da cozinha e ri.
— E eu faço o quê? – Tio perguntou curioso e ela parou o caminho que fazia para olhar por sobre o ombro.
— Nada! Vai lá cuidar das minhas plantas. – Mandou.
— Tudo bem. Me conta as fofocas depois. – Pediu voltando para o jardim e neguei com a cabeça por eles serem pessoas maravilhosas.
XxX
Desci do carro junto da tia e fomos em direção a entrada da escola, desviando dos vários alunos que provavelmente iam para sala de aula, já que as aulas começariam em alguns segundos. O professor Adolf disse para passarmos na sala da diretora que ela se encarregaria de nos avisar onde esperar.
— Então, onde estão seus colegas? – Tia perguntou divertida enquanto arrumava a bolsa em seu ombro e sorri miúdo.
— Eu não tenho nenhum, tia. – Revelei arrumando a gravata do meu uniforme.
— Sério? Uma menina tão bonita e carinhosa como você. – Lamentou e peguei sua mão quando chegamos no local de drenagem da água da chuva, já que ela estava de salto alto e eu não queria que caísse.
— Eu não gosto muito de fazer amigos. – Murmurei. – Quer que eu te leve na diretoria? Ainda tenho um tempinho antes das aulas e nem sei se devo ir ou ficar com você. – Falei e ela sorriu.
— Eu adoraria. – Continuou segurando minha mão quando entramos no corredor e lhe guiei até a sala da diretoria, dando duas batidas até ouvir o “entre” soar do outro lado. Abri a porta com cuidado e entrei, indo direto para uma das cadeiras enquanto a diretora procurava algo na estante.
— Boa tarde, eu trouxe minha tia como meus professores pediram. – Alertei e tia Cass se sentou ao meu lado.
— Tenho certeza que Galateia será indicada para avançar um ano, porque ela é muito esperta. – Tia falou orgulhosa e franzi o cenho pela diretora parecer congelar na posição que estava de procurar algo entre os livros na estante.
— Creio que nenhum professor estará disponível no momento, então pedirei para que voltem mais tarde. – Falou voltando a procurar e olhei para tia em confusão.
— Mas eles disseram no primeiro horário de aula. – Alertei e os ombros dela se encolheram.
— Foi?
— Sim, e que você se encarregaria de nos orientar. – Contei.
— Eu... Meio que estou muito ocupada no momento. – Falou e tia olhou para mim e depois focou na diretora.
— E eu pelo resto do dia. Tinha coisas para fazer e cancelei porque disseram nesse horário. – Falou séria, claramente mentindo sobre ter coisas para fazer, no carro ela estava dizendo que salvei ela de um dia tedioso. – E você não pode nem sequer olhar na nossa direção? Essa é a educação que sua mãe te deu? – Perguntou um pouco irritada e a diretora suspirou antes de deixar o livro de lado e se virar para nós com uma expressão sem graça.
— Não senhora. – Falou baixo. – Minha mãe me deu uma ótima educação. – Sussurrou e olhei para tia, assustada por suas mãos começarem a tremer sobre a madeira da mesa.
— Tia? – Chamei preocupada e me ergui em pânico por ela cobrir o rosto com ambas as mãos e se encolher no lugar. – Meu Deus! Tia? O que foi? – Passei o braço por suas costas e olhei em desespero para diretora ao perceber que ela chorava. – Você não vai fazer nada? – Perguntei perplexa e ela deu a volta na mesa para vir até nós e se abaixar ao lado da minha tia, colocando as mãos em suas pernas.
— Vamos lá, não é para tanto. – Falou suavemente acariciando seus braços. – É sério, você é tão dramática as vezes. – Falou divertida e pisquei confusa. Espera, elas se conhecem? – Mãe, qual é. – Chamou e dei um sobressalto pelo susto. A diretora Vanessa... É a filha da tia Cass? – Mãe...
— Doze anos... – Tia começou com a voz baixa e se encolheu. – Você não me deu notícias por doze anos, Vanessa! – Tirou as mãos do rosto e a olhou. – Doze anos, filha. – Voltou a chorar e a diretora se inclinou para cima a abraçando apertado.
— Eu sei. – Sussurrou beijando o rosto dela em vários lugares. – Me perdoa por isso, eu estava com medo. – Pediu e olhei para os lados ao perceber que ali não era o lugar que eu deveria estar no momento e que precisaria dar a elas o espaço que precisavam. Com esse pensamento me afastei e saí da diretoria me encaminhando para sala de aula.
— Quando as coisas se resolverem elas podem ir me chamar. - Falei para mim mesma ao chegar frente à sala de aula e arregalei os olhos por sentir um baque em meu ombro, quase caí por ser pega de surpresa e olhei para cima irritada, pronta para xingar quem era o retardado parado no meio do caminho, mas fazer contato direto com os olhos verdes de Vick me fez piscar algumas vezes em confusão. De novo? É a sexta vez só esse ano que a gente se esbarra assim. – Hã... Desculpa. – Pedi confusa com a situação, sentindo meu rosto esquentar levemente por ela sorrir.
— Eu que peço, não te vi aí. – Falou bem humorada e assenti dando a volta em seu corpo para ir na direção do meu lugar. Se ela quer falar comigo... Por que não fala logo? Quer dizer, é de propósito, não é? Não tem como ela ser tão desatenta assim para se esbarrar em mim tantas vezes. Eu poderia me desviar facilmente, mas a ideia de que ela faz de propósito me deixa curiosa para saber o desfecho.
Meu psicólogo disse que eu não deveria me deixar afetar pelas coisas que ela faz sem vir conversar comigo, porque na segunda vez que ela se esbarrou eu perguntei se deveria mudar de sala e ele questionou se a Vick me afetava tanto a ponto de me fazer mudar para evitar sua presença. Eu fiquei tão confusa na hora que acabei falando sim e rapidamente troquei para não. Ela não me afeta tanto assim para me fazer sair da sala.
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Suspirei cansativa conferindo as horas no meu relógio de pulso, vendo que faltava vinte minutos para o intervalo e que até agora nem notícia da tia Cass. Será que as coisas estão dando certo com a diretora? Eu jamais ia imaginar que uma coisa dessas iria acontecer. Quais as chances de a Vick ser enteada da filha da minha tia? Quer dizer, isso significa que a diretora é minha prima! E ela é madrasta da Vick. Quais as chances?
— Galateia Merok. – A vice diretora apareceu na porta e olhei em sua direção. — Compareça a diretoria, por favor. – Avisou da porta e assenti me erguendo, deixando todos os meus materiais arrumados em um canto da mesa e passando pelos vários grupos formados pela sala, olhando na direção do da Vick, que arregalou os olhos se ocupando em recortar uma folha de caderno sem nenhum objetivo em particular, só começando a cortá-la em várias posições diferentes. Neguei com a cabeça saindo para o corredor e fui até a diretoria, onde tia Cass conversava animada com todos os meus professores e a diretora.
— Pois não? – Falei baixo ao chegar e tia Cass veio correndo em minha direção com um sorriso. – Meu amor, viu! Eu estava certa. Eles querem te avançar um ano. – Falou animada e me encolhi no lugar. Mas se eu avançar um ano, significa que vou mudar de sala e... A Vick não. Não terei mais aulas de educação física onde ela esteja, então provavelmente não vou poder me esbarrar nela as vezes.
— Eu não quero. – Neguei prontamente e tia franziu o cenho.
— Não? Mas por quê? Isso significa que vai terminar os estudos um ano mais cedo.
— Eu sei, mas... Não quero. Eu gosto da minha sala e quero continuar nela, se puder.
— Por isso eu amo essa menina, ela é adorável demais, mesmo que nunca fale na sala de aula, não é mesmo, Ninfa? – Professor Adolf falou animado e neguei com a cabeça me encolhendo. – Bom, nós tentamos, mas já que ela não quer, eu vou sair para almoçar. – Saiu animado e logo os outros professores seguiram seu exemplo.
— Tem certeza mesmo que não quer? – O professor de física perguntou parando na porta e sorri.
— Sim senhor. – Sorri de novo e ele ergueu o polegar se retirando. Voltei a atenção para tia Cass e ela olhava para diretora com um sorriso enorme, como se estivesse tão orgulhosa que não cabia em si de tanta felicidade.
— Vai nos visitar? – Perguntou e a diretora ergueu a cabeça, deixando uns papeis de lado para negar várias vezes com a cabeça.
— A senhora sabe onde trabalho agora e pode vir aqui quando quiser, mas eu não irei na casa de vocês. – Declarou e o sorriso da tia diminuiu.
— Mas...
— Mãe, nem era minha intenção fazer contato com vocês, mas agora que fiz, não posso desfazer. Não irei lhes visitar, assim como sei que papai não fará, então é simples. Eu fico aqui e vocês ficam lá. – Alertou e me encolhi no lugar. Isso é basicamente minha relação com a Liane no momento. Ela fala comigo as vezes, mas eu não posso visitar ela e nem ela vem me visitar.
— Tudo bem, o importante é que eu te vi, sei que está bem e saudável. No próximo ano irei matricular seu irmão nessa escola, vê se fala um pouco com ele. – Reclamou e a diretora riu negando com a cabeça.
— Sim senhora, faça como quiser. Agora vá para casa, está falando comigo desde que chegou aqui e eu tenho que trabalhar. Agora já sabe que estou aqui, te envio uma mensagem mais tarde. – Garantiu e tia se virou para mim, me abraçando apertado antes de beijar meu rosto várias vezes.
— Muito obrigada por estar na minha vida. Se não fosse por você eu nunca viria para essa escola e nunca reencontraria a minha filha. – Falou chorosa e arregalei os olhos. – Você foi a coisa mais especial que poderia ter surgido, me ajudou em um momento que eu estava quase em depressão e agora sem querer me trouxe até a minha filha. Eu amo você, Galateia. – Beijou minha testa e engoli em seco por suas palavras, retribuindo seu abraço com carinho. Desde que Liane foi embora que eu não abraço ninguém, exceto Sam, as vezes ainda. Eu não sabia que era tão importante assim para tia.
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