Notas iniciais
(N/A: aproveitem o presente de Halloween!)



Em certas datas do ano, o véu que separa a nossa realidade do mundo sobrenatural fica mais fino. Tem pessoas que estão mais sujeitas a esses eventos, principalmente as pessoas que estão vivendo um luto.




A lenda em Doncaster diz que, ao acender uma vela em frente a um espelho, na mesma casa onde o fantasma viveu, e chamar pelo seu nome três vezes, você verá esse fantasma mais uma vez.




Louis e Harry eram um casal perfeito. Eles se conheceram na escola, durante o ensino fundamental, e os meninos nunca se desgrudaram. Eles foram o primeiro tudo um do outro, a primeira paixão, o primeiro beijo, a primeira vez, tudo foi compartilhado entre os meninos.




Harry o pediu em casamento na noite em que Louis fez 18. O Styles ainda tinha somente 16, mas ele já tinha certeza de como queria viver o seu futuro, e era com Louis ao seu lado.




Eles estavam com 18 e 20 anos agora, e a data do casamento foi há 26 dias. 28 de setembro, o dia em que eles escolheram se casar e o dia que mudou completamente a vida de Louis.




Harry disse que tinha uma surpresa para seu noivo naquela manhã, antes de eles começarem a se arrumar para a cerimônia. Louis apenas sorriu e aceitou esperar em casa enquanto organizava as coisas da "despedida de solteiro" deles. A data envolveu muito chocolate a chantilly entre o casal, e eles se divertiram durante a noite e madrugada toda.




Harry estava voltando para a casa onde ele vivia com Louis trazendo um filhotinho de labradoodle, que Louis sempre quis ter. O cachorrinho ia completar a família perfeita deles, ser o primeiro filhotinho dos dois, e em coisa de cinco anos eles planejavam adotar pelo menos uma criança.




Mas um caminhão sem freio e invadindo a contra-mão acabou com os sonhos dos meninos.




E agora Louis estava ali, naquela mesma casa, há 26 dias sem o amor da sua vida.




Ele tentava viver uma vida "normal", mas Louis tinha pedido demissão do seu emprego e não conseguia ter forças nem para sair de casa. Sua mãe vinha passar todos os fins de semana com ele para cozinhar com o menino e ajudar ele a manter a casa em ordem, já que tudo que Louis conseguia fazer era chorar.




Ele ainda estava na fase de negação do luto, e procurava explicações em tudo para entender o porque seu futuro tinha sido arrancado de suas mãos.




E nesse dia Louis cruzou com alguns sites de bruxaria, que prometiam feitiços para fazer contato com os mortos. Alí estava Louis, no quarto do casal, sentado em frente ao espelho de corpo todo, com uma vela nas mãos. Era meia noite, e o quarto iluminado apenas pela luz do corredor.




Louis respirou fundo, acendeu a vela e sussurou "Harry Edward Styles" três vezes, como o feitiço mandava.




Imediatamente o quarto estava mais gelado que o normal, apesar de Louis não ter nada ligado, e ele sentiu como se uma névoa o abraçasse, além de ouvir a luz falhando no corredor.




Ele manteve os olhos fechados por mais alguns segundos, juntando coragem, e finalmente abriu seus olhinhos azuis, sentindo seu coração acelerar.




Era Harry. Os cachinhos, as covinhas, o sorriso perfeitamente branco.




— Faltou o Tomlinson, Lou.




O puro choque no rosto de Louis se misturava com uma saudade imensa que apertava o peito do menino a cada respirar.




— H-Harry... É mesmo você, meu amor?




Ele piscou algumas vezes, com medo de ser uma alucinação. Louis conhecia cada pedacinho daquele menino, cada textura da pele dele, cada expressão, cada pequeno detalhe quando ele sorria. Naquele momento, tudo que importava para Louis era aquela figura no espelho.




Harry inclinou a cabeça, como sempre fazia quando queria provocar Louis, e respondeu com aquela calma que sempre o deixava derretido.




— Sim, boo. Eu acho que só não da maneira que você esperava. Eu tenho algumas regras pra estar aqui.




Louis sentiu um frio percorrer sua espinha, mas não de medo. Era a mistura de saudade, amor e uma pitada de desespero que o consumia. Ele estendeu a mão, quase como se quisesse atravessar o vidro do espelho, tocar o rosto de Harry, sentir o calor da pele que Louis conhecia melhor do que a própria.




— Eu preciso de você. Me leva embora, Harry, é uma tortura todo momento que eu tenho que passar sem você.




Harry sorriu triste, se inclinando para mais perto.




— Eu... Eu posso te trazer, amor. Mas eu preciso que você pense muito bem antes disso. -Louis imediatamente concordou com a cabeça- Eu não consigo atravessar essa barreira e voltar para você, Lou. Mas... Exatamente no Halloween, no dia 31, eu sei que o véu vai estar fino o suficiente e você consegue atravessar pra cá.




— Eu vou, Harry. Não me importam as regras nem as consequências, eu só quero você.




Louis sempre foi muito teimoso e decidido, e mesmo quebrado com o luto e a perda, ele não tinha perdido isso.




— Pensa primeiro, amor. Você tá terminando a sua faculdade e a sua mãe te ama mais que tudo no mundo, você realmente quer deixar tudo isso pra trás?




Harry sustentou o olhar fixamente, com a mesma calma que ele sempre carregou em tudo que fazia.




Eles se completavam muito bem exatamente por serem assim. Harry era completamente racional, ele cuidava de tudo com calma e paciência, já Louis era emocional e impulsivo, sempre criando problemas e novas aventuras para eles.




O reflexo do mais novo enfraqueceu um pouco e o quarto esquentou, mostrando que talvez eles tivessem pouco tempo.




O aperto no peito do mais velho só aumentou pensando nisso. Ele se formava em dois semestres, e realmente sua mãe não vivia sem o primeiro bebê, ela sempre amou e cuidou muito bem dele. Existiam alguns motivos para Louis seguir em frente, mas eles não eram tão fortes quanto o seu motivo para ir embora.




— Nada disso importa sem você, Harry.




Lousi disse, a voz quebrada, seus olhinhos marejados. E Harry queria tanto poder o abraçar nesse momento.




— Eu te entendo, meu amor. Mas… Atravessar pra cá não é como dormir e acordar de novo. É... Deixar tudo. -Ele abaixou o olhar por um momento para suas mãos em seu colo.- O mundo dos vivos esquece rápido. O seu rosto… O seu nome… Tudo o que você é, que você fez e viveu vai desaparecer com o tempo. Só nós dois vamos lembrar.




Louis sentiu um nó se formar no estômago, mas, ao mesmo tempo, uma estranha paz o invadiu.




— Então que seja só nós dois, Harry. Pra sempre. Eu preciso de você.




Durante o restante do seu tempo juntos, os meninos compartilhavam suas memórias favoritas um do outro. As alianças brilhavam dos dois lados do espelho, como os meninos nunca as tiraram, e eles continuavam tendo a mesma conexão de sempre.




Na primeira noite, eles tiveram apenas uma hora juntos. Mas conforme os dias iam passando, eles conseguiam passar mais tempo conversando.




A cada noite parecia que eles estavam mais próximos de se tocar. E faltavam somente dois dias para o Halloween agora, 31 dias desde que Louis perdeu o amor da sua vida, e ele jurava que já podia sentir o toque do outro menino.




— Você sente isso também?




Louis perguntou, sorrindo ao ver o sorriso de covinhas do seu quase marido.




— Eu sinto, amor. O véu tá ficando cada vez mais fino, eu quase consigo te tocar. Sinto tanta falta do seu calor.




Eles sentiam uma imensa falta um do outro. Afinal, eles estavam há 10 anos juntos, e eles moravam juntos, então conheciam absolutamente tudo um do outro.




Harry sabia que Louis não conseguia dormir sem uma xícara de chá e que ele amava ser a conchinha maior, abraçando seu noivo como se fosse seu ursinho de pelúcia favorito. O garoto de olhos azuis amava animais e crianças, e constante falava sobre como a família deles ia ser, com dois cachorros e três ou quatro filhos. E Harry não ficava atrás, comentando sempre sobre as listinhas de nomes que ele fazia para eles escolherem quando tivessem seus cachorros e as crianças. E Harry também tinha suas manias, como a de cozinhar o jantar deles todas as noites e cantar no banho, mesmo quando estava junto com Louis.




— Você vai estar me esperando?




— Eu já estou, há 31 dias. Eu te esperaria por mais 100 anos se você decidisse esperar. Eu sempre vou estar aqui, junto com você.




E finalmente faltava menos de um dia para Louis atravessar o espelho. Ele se sentou naquela madrugada na frente do espelho, escrevendo algumas cartas para sua família junto com Harry, escrevendo também para a família dele.




— Você ainda tem tempo de mudar de ideia, meu amor. Eu sempre vou te esperar, e enquanto você tiver a minha memória, isso vai ser possível.




— Eu sei, amor. Mas eu não quero nada além de você.




Harry sorriu, colocando sua mão no vidro. Ela atravessou um pouco dessa vez, considerando que já era dia 31. Faltavam apenas horas para Louis realizar seu ritual.




Louis encostou sua mão na dele, se arrepiando com o contato frio.




— Eu preciso te explicar o que fazer. Você não precisa esperar a meia noite de hoje, depois das onze e meia você pode começar. Você vai fazer quase tudo igual, mas dessa vez, você vai me chamar apenas duas vezes. Eu venho te buscar.




— Tudo bem, amor. Eu mal posso esperar pra estar com você.




Exatamente no horário, Louis estava de volta na frente do espelho. Ele conferiu mais uma vez se todas as cartas estavam em um lugar de fácil acesso junto com seu celular, e finalmente respirou fundo para tentar se acalmar.




Ele acendeu a vela e chamou pelo nome do seu noivo duas vezes, assim como ele instruiu.




E Harry apareceu, com o mesmo sorriso doce de sempre.




O vidro parecia líquido quando Louis o tocou, assustando um pouco o garoto.




— Vem, amor. Está tudo bem.




Harry estendeu a mão, atravessando o vidro.




Louis o tocou pela primeira vez depois desse tempo, finalmente juntando a coragem para atravessar o espelho, que não apresentou resistência alguma.




Finalmente, depois de longos 33 dias separados, Louis estava de frente para seu noivo. Ele imediatamente envolveu Louis em um abraço, beijando a testa dele.




— Oi, meu amor...




— Eu senti tanta falta disso, H.




— Eu também, meu anjo. Você também é a melhor parte da minha vida.




Louis se separou um pouco do abraço só para colocar suas mãos nas bochechas do mais alto e roubar um beijo.




A vela continuava queimando no chão e ia queimar até o final, o portal só estava aberto por mais alguns minutos, e Louis não ia sair dali.




— Esse é o começo do nosso pra sempre. Vem ver o que eu preparei pra você.




Os boatos de feitiços iam continuar na cid

ade, o sumiço de Louis seria explicado somente pelas cartas, e eles tinham sua versão do paraíso.




O cachorrinho que Harry tinha comprado fazia companhia para os dias dos dois amantes vivendo seu para sempre.




Era realmente o melhor Halloween da vida de Louis.




Fim.