Mirror

2 Capítulo 2


Era o verdadeiro inferno. Pessoas lutavam dos dois lados e pessoas morriam o tempo todo. A atmosfera era pesada. E eu estava sozinho. Faria meu caminho para a linha da frente, destruindo o que estivesse no caminho e o menor erro poderia me matar. Shi era franco-atirador, então estava em alguma árvore próxima. Separei-me dos outros dois que vieram comigo. Era cada um por si. E não podia fazer amigos, pois a dor de perdê-los poderia me tirar do controle.

Eu estava sozinho.

Respirei fundo e desembainhei a espada. Estava preparado e comecei a abrir meu caminho entre os Falsch da retaguarda. Os Wahr ali eram poucos, mas estavam presentes. Durante o caminho, matei alguns. A mentalidade que me fizeram desenvolver sobre os Wahr que facilitou o processo de sujar minhas mãos de sangue e tirar vidas.

Então é por isso que eles não queriam vir para a linha da frente. Manter as mãos limpas.

Fiz meu caminho. Eram os mais poderosos que ficavam nas linhas da frente, mas não podiam destruir tantos Wahr. Por isso, os flancos davam a cobertura necessária e lidávamos com os mais poderosos, procurando avançar. Mas os Wahr também eram resistentes e com os nossos mais poderosos no QG, eles conseguiram nos fazer recuar um pouco. Éramos menores em número.

Achei alguns dos nossos encurralados e logo os livrei e voltamos à luta principal. Por enquanto, eu poderia lidar sem usar meus poderes, aprendi a levantar o tapa-olho apenas quando necessário e durante pouco tempo.

Derrotando inimigo atrás de inimigo, você não sente o tempo passando. Você não se lembra de horário, até porque não há horário no campo de guerra. Estarei livre se for chamado ou quando os inimigos recuarem. Ou quando vencermos.

Mas, em geral, eles voltavam ao anoitecer. Era preferível recuar quando estava escuro já que não tínhamos nenhum tipo de visão noturna.

O Sol já estava no horizonte, os dois lados já se cansavam, mas nenhum demonstrava sinal de fraqueza.

Deparei-me com um oponente mais poderoso que os outros. Nossas espadas se chocavam, então recuávamos e voltávamos a atacar. Por menor que seja, qualquer brecha que eu abrisse poderia me matar ali. Resolvi que era hora de usar meus poderes. Enquanto outras pessoas se desgastavam usando-os o tempo todo, como eu não podia usar na mesma liberdade tinha essa vantagem sobre o inimigo.

Tirei o tapa-olho revelando meu olho esquerdo amarelo, que diferia do meu direito tão vermelho quanto meus cabelos.

E creio que tenha sido isso que desencadeou outra Visão. Parecia ser algo relacionado à última que tive. Eu pude ver a boca daquele que estava na defensiva, vi-o umedecendo os lábios com a língua num hábito conhecido.

Por pouco consegui me defender do próximo ataque. O inimigo tinha visto uma brecha quando a visão me atordoou. Brandi minha espada e cortei rapidamente o ar na minha frente, apesar do inimigo estar longe do alcance. E por pouco ele conseguiu desviar da espada combinada com minha Visão. Como lutávamos próximos, usar o alcance não seria tão útil. Ao invés, usei a habilidade de ver o futuro. A mesma que quase me matara segundos antes poderia me salvar agora.

Assim, vi seus movimentos antes e consegui desviar e contra-atacar com maior facilidade. Quando ele recuou, tentei novamente usar meu alcance, o que resultou em nada mais, nada menos, do que um corte que inutilizou seu braço direito. No entanto, era um oponente forte e não hesitou em pegar a espada com sua outra mão e voltar a atacar.

Como eu, lutava por sua nação e isso era mais que suficiente para o encorajar e o manter lutando.

Não tinha a mesma prática com o braço esquerdo, então seus golpes, apesar de ainda poderosos, eram meio desajeitados e facilitou que eu desviasse. Um pouco mais da minha habilidade de ver o futuro e eu consegui dar o golpe final.

Quando sua espada tiniu ao tocar o solo, as tropas inimigas ordenaram retirada temporária. Arrumei meu tapa-olho, mas não a tempo de impedir a terceira visão em tão curto espaço de tempo.

A visão era em primeira pessoa e vi uma flecha atravessando meu corpo. Meu olhar seguiu para uma figura ao longe e nossos olhares se encontraram. Os olhos claros mostravam uma profunda tristeza e foram a última coisa que vi antes de cair no chão.

Finquei minha própria espada no chão para que me impedisse de cair com a visão repentina e respirei fundo.

Todos estavam montando acampamento, lamentando as perdas e fazendo primeiros-socorros. Outros se preparavam para recuar para fora da zona, provavelmente para enviar relatórios ou lidar com ferimentos mais graves. Pessoas acamadas eram levadas de volta.

Localizei Shi correndo em minha direção. Ele parou na minha frente e disse:

— Pensei que fosse morrer. Você é louco?

Dei de ombros — Por quê?

— Ele era um dos mais poderosos Wahr, todos que lutavam contra ele perdiam.

Ele limpou suor que estava escorrendo por sua testa.

— Você estava fazendo o quê?

— Derrotando alguns que passavam para a retaguarda. Nada demais. De todo jeito, fomos chamados para o QG.

— O que é?

Foi a vez de Shi dar de ombros. — Algum tipo de missão. Melhor voltarmos para o prédio para recebermos as instruções.

— Está bem.

Embainhei a espada e começamos nosso caminho.

***

Acordei com a luz batendo no meu rosto. Ao abrir os olhos, localizei Shi abrindo as cortinas do quarto em que estava momentaneamente hospedado.

— Temos uma missão para ir, se você não se lembra.

— Bom dia para você também — resmunguei, sentando-me na cama e coçando os olhos.

— Posso ver seu outro olho?

Shi se sentou na cama, praticamente em cima de mim e com o rosto próximo. Engoli em seco e tirei a minha mão do olho esquerdo, abrindo-o.

— Por que usa um tapa-olho? Seus olhos são bonitos.

Virei o rosto envergonhado e me levantei da cama, já arrumando o tapa-olho no lugar.

— Temos que ir.

Deixe-o para trás no quarto, mas sabia que ele provavelmente chegaria antes de mim graças ao seu poder de controlar o espaço-tempo.

Quando cheguei na sala, ele estava sentado no sofá me esperando. Sentei-me ao seu lado e aquela mesma mulher que havia nos ajudado antes se sentou na nossa frente colocando xícaras e café. Eu aceitei um pouco, mas Shi recusou.

— Periodicamente, algumas rachaduras aparecem no espelho por causa da grande concentração de magia na luta — ela começou a explicar. — Recentemente, uma maior abriu e precisamos que alguém vá lá proteger os trabalhadores enquanto eles tapam o buraco e evitar a entrada em massa do exército inimigo.

— Fácil. Então, onde é? — Shi perguntou.

A mulher abriu um mapa na mesa e nos mostrou a localização.

— Certo. Vamos?

Levantei o olhar para o garoto de capuz.

— Quanto antes começarmos, antes terminaremos. Eu nos levaria para lá pela minha magia, mas não posso garantir onde iremos parar já que nunca fui lá.

— Creio que não poderão demorar muito, recebemos relatório de que os que estão lá quase não se aguentam.

— Está bem. Qual o lugar mais próximo que você já esteve? Se pudermos fazer pelo menos metade do caminho com a sua magia… — Direcionei minha pergunta para Shi. Ele examinou o mapa e não demorou a apontar um ponto.

— Esse é o mais próximo se não me engano. Então, já vamos indo.

Ele pegou minha mão e quando vi novamente, estava numa floresta. Senti algo como uma sensação gelada em meu corpo e fiquei desnorteado quando chegamos. Se não fosse o apoio de Shi, provavelmente teria caído.

— Espere aqui, vou ver a direção.

No segundo seguinte, Shi não estava mais ao meu lado, e sim na copa de uma árvore próxima. De copa em copa, ele chegou num ponto mais alto e logo estava de volta ao meu lado. Ele apontou numa direção e disse:

— Por ali. Estamos mais ou menos perto, então se nos apressarmos chegaremos lá em breve.

— Você conseguiu ver como está a situação?

— Alguns vermes estão tomando conta, infelizmente. Provavelmente vão começar a aumentar o buraco para passar o exército. Vamos correr?

Assenti. Ele podia usar seu poder para teletransporte ou o que quer que fosse e desse modo eu não iria alcançá-lo. Resolvi usar minha visão para alcançar o que estivesse no meu campo.

O caminho foi mais curto do que parecia no mapa, ou parecia mais curto porque fomos mais rápido. Parei atrás da árvore mais próxima e avaliei a situação. Alguns corpos mortos, mas vários dos Falsch estavam presos. Aquela era a nossa vantagem sobre os Wahr: os Wahr queriam paz, mas os Falsch tinham um instinto assassino. Os corpos mortos eram de Wahr e os Falsch que estavam mortos provavelmente foram acidentes.

Usei minha espada de modo disfarçado para cortar as cordas que mantinham os trabalhadores e alguns Falsch, que provavelmente tinham a tarefa de protegê-los, presos. Shi reapareceu ao lado de algum Wahr e o nocauteou antes que ele tivesse o tempo de reagir. Lidar com aquele número na verdade foi fácil, não tinha muito o que fazer além de alguns poucos cortes.

No entanto, ficaríamos lá até que terminassem de bloquear. Montamos acampamento e ficamos de olho. A menor ameaça sequer colocava os trabalhadores atrás de nós e minha espada em uso. Por causa do tanto de vezes que usei meu poder num curto período de tempo, não poderia usar por um tempo. Eu já sentia que poderia perder o controle a qualquer momento e o que me impedia de fazê-lo era o tapa-olho.

Deitei-me na grama e fiquei observando o céu limpo. Senti um movimento ao meu lado e virei meu rosto para ver que Shi havia se deitado ao meu lado. Voltei a olhar para o céu e me lembrei das visões que eu estava tendo.

As duas primeiras eram definitivamente da mesma luta. Uma das pessoas era Shi, mas a outra eu não tinha ideia. Era tudo um borrão e eu não podia identificar nada, por mais que repassasse a visão em minha cabeça. A terceira foi em primeira pessoa, mas não garantia que a pessoa que tinha sido assassinada com uma flecha atravessada era eu. No entanto, o que eu podia ver era os olhos claros. Aqueles olhos que se tornaram presentes na minha vida de repente.

Mas eu não entendia o porquê de seu olhar ser tão doloroso, afinal, Falsch nasciam matando, era praticamente uma rotina e eles não se importavam com isso. Incluindo Shi. Eu sabia que ele não tinha hesitado ao matar ninguém na guerra. E não hesitaria em matar um colega. Ele foi criado dessa maneira. Todos eles tinham sido. Eu também.

Sentei-me e baixei meus olhos para o garoto deitado de olhos fechados ao meu lado.

— Posso fazer uma pergunta?

— Já fez.

Revirei os olhos, mas continuei:

— Existe alguma possibilidade, por menor que seja, de você se arrepender de matar alguém?

Ele finalmente abriu os olhos e olhou para mim como se eu estivesse louco:

— Por que eu me arrependeria?

— Não tem ninguém assim, mesmo? — insisti.

— E se tiver?

— Se eu souber, talvez eu possa evitar.

— Evitar o quê?

— Longa história.

Ele se sentou e sorriu de lado: — Temos tempo.

Eu suspirei. Ele não me deixaria ir sem lhe contar o que realmente estava acontecendo.

— Está bem. Sabe que meu poder é a Visão — contei olhando para baixo. — Ela me permite ver o futuro também.

— E o passado?

Eu levantei o olhar surpreso pela pergunta dele.

— Sim, mas isso não é rele-

— Você não pode evitar algo que já aconteceu, Yon. O que lhe garante que o que você viu é o futuro?

— Você matou alguém e se arrependeu?

O olhar de Shi escureceu e eu abaixei novamente a cabeça, arrependendo-me da pergunta que eu tinha feito.

Um barulho de explosão e gritarias me fez entrar em posição de ataque imediatamente. Estavam tentando invadir de novo.

Desembanhei a espada e rapidamente ataquei os primeiros que surgiram. No entanto, a brecha já era consideravelmente menor. Apenas quatro passaram e todos esses quatro já estavam no chão aos meus pés. Embainhei novamente a espada e perguntei aos trabalhadores:

— Quanto tempo acham que vão levar?

— Se não formos mais atrapalhados, terminamos antes de anoitecer — um deles respondeu.

Eu assenti e me sentei na frente da brecha. Eu poderia assim ver quem tentasse entrar e cortar-lhe antes que vá longe.

O Sol começou a se pôr quando eles terminaram. Dessa vez, Shi conseguiu levar todos nós para o prédio, já que ele conhecia o lugar. Se fossemos andando, poderíamos nos perder agora que estava escuro.

Quando aparecemos no hall, ouvi a conversa entre uma voz masculina e outra feminina. Quando abri a porta, a mulher se virou e disse:

— Esperávamos por vocês. Shi e Yon, vocês foram chamados para o QG.