Mirror
5 Decisões
Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer.
– Antoine de Saint-Exupéry
Abrir os olhos nunca tinha sido uma tarefa tão difícil como hoje. Era como se alguém tivesse colocado tijolos sobre minhas pálpebras, mas por fim, consegui. Tudo do meu quarto aparentava estar normal. Exceto por uma pilha de lençóis limpos formada no chão — mamãe deve estar lavando as roupas -. Decidi me levantar. Quem sabe, se tivesse forças, ajudá-la. Mas algo me fez levar um tombo para trás da cama.
Meus pés tinham sumido novamente. Assustado, fiz o mesmo procedimento de hoje mais cedo. Pisquei e esfreguei os olhos. Balancei a cabeça, mas dessa vez, não funcionou. Que maravilha! Estou tendo alucinações. Procurei meu velho espelho, esperando que ele me desse a resposta que mais tinha vontade de ouvir: "você está enlouquecendo, Millard Nullings. Mas não se preocupe. É só temporariamente".
Ao encontrá-lo, mais um susto. Meus pés também não apareciam no reflexo. Como isso era possível?
—Mill! — ouvi a voz da minha mãe. Ela estava se aproximando da porta, isso tinha certeza. Corri para debaixo das cobertas e escondi meus pés — que, ironicamente, já estavam escondidos de mim — e deixei que ela entrasse.
— Oi, mãe. — sussurrei, depois de uma tosse falsa.
— O que está fazendo aí? Vai se atrasar para a escola.
— Eu já estou indo. Só preciso... tomar banho. Sim! — falei tão rápido que ela deve ter desconfiado. Após minutos tentando convencê-la de que tudo estava bem, Marian foi embora e me deixou sozinho, novamente.
Ainda estava em choque, mas ficar deitado não parecia ser a melhor solução. Andei para um lado e para o outro, batendo de vez em quando os dedos nas bordas da cama. Não conseguia vê-los, de qualquer maneira. Apressei-me no banho, pus uma roupa folgada e simples e um sapato acompanhado de uma meia larga. Estava decidido: iria para a casa de Jason. Talvez ele pudesse me ajudar.
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— Como assim você está desaparecendo? — foi a primeira reação do meu irmão, assim que falei dos meus pés. Seu riso, pela primeira vez em anos, me irritou — Você está vendo muitas revistas, moleque. Se não tiver cuidado, mamãe cancela sua assinatura com a Wild World.
— É verdade! — choraminguei como uma verdadeira criança — Olhe.
Arranquei o sapato que tanto me incomodava e mostrei meu pé. Todos os dois ainda estavam em falta. Jay deixou um palavrão escapar e se afastou de mim.
— Acha que eu sou como você?
— Vendo assim, não tenho dúvidas. — sua voz soava mais tensa. Ele me olhava como quem tivesse pena. Algo dentro de mim dizia que eu não ficaria feliz com suas próximas palavras — Mill, eu sinto muito.
— Eu sei. Não queria que isso me acontecesse. E se eu desaparecer verdadeiramente? O que será de mim, Jason? — ele continuou cabisbaixo, sua expressão estava pior do que antes — E meus sonhos? Como vou poder ser um professor ou lecionar aulas sem que eu suma na frente dos alunos? — meu discurso parecia tão eloquente quanto os da minha professora de História.
— Não é disso que estou falando. — uma ameaça. Era o que estava parecendo. Seus olhos escondiam mais do que eu poderia imaginar. Mas ele não me ameaçaria, não é? Somos irmãos... — Você é como eu, Millard. Um estranho nesse mundo.
— É... acho que agora sou. — minha voz estava incrivelmente trêmula e perdida.
— Não pode ficar perto dos normais. Você me entende, não é? — Jason encurtou nossas distâncias. Já estava ficando com medo dele, o que não era normal.
— Quer que eu me afaste do mundo? Das poucas pessoas que me amam?
— Estou pedindo para tomar cuidado. — advertiu, pondo alguns dedos no queixo — Já sei! Você vai ficar aqui. De hoje em diante, morará comigo.
— O quê?! — exclamei de maneira ofegante — Não pode fazer isso. Eu tenho meus direitos, Jason. Sou uma pessoa de carne e osso. Tomo minhas próprias decisões.
— Uma pessoa de carne e osso que está desaparecendo! — repeliu como se lançasse o mais amargo veneno — Só estou te protegendo deles, Millard. Pense nisso! O que acha que sua amiguinha diria se visse que você não tem mais membros? Ou até uma cabeça.
Cassie. Por que aquilo me machucava tanto? Ah, claro. Porque nunca mais eu falaria com ela, de acordo com ele.
— Ou nossos pais? Já imaginou? O mundo não está pronto para nenhum de nós. Somos aberrações para eles.
A acidez em suas palavras apenas se intensificava, corroendo-me aos poucos. Ele estava tão perdido em cada uma delas, que parecia ocultar algo de mim. Me arrisquei em mostrar possíveis hipóteses.
— Espere... você já se feriu, não foi? — o menino me olhou com dúvidas.
— O que quer dizer?
— Alguém te descobriu. Descobriu que você era diferente, não é?
Jay se esquivou de mim como quem se desviasse de uma lança afiada. Ele não respondeu, o que deixou tudo tão límpido quanto a água. Ele tinha medo dos normais. Tinha medo de se relacionar com alguém e acabar se machucando.
— O nome dela era Grace. — pigarreou, olhando para o vazio de sua sala de estar — Nós éramos apaixonados um pelo outro. Até ela descobrir que eu conseguia atravessar paredes.
— O que houve depois?
— Ela morreu por minha causa. — me engasguei com o ar, assim que ele falou. O coração voltou a martelar contra minhas costelas -Estávamos discutindo perto do parque central. Ela dizia que não namoraria alguém como eu e outras coisas terríveis. No meio da discussão, um homem nos interrompeu, obrigando-nos a dar o que tínhamos de dinheiro.
— Sua discursão terminou com um assalto?
— Terminou com o cara apontando uma arma para nós dois. — falou, enquanto representava o revólver com os próprios dedos. Ele apontou a "arma" recém formada para mim — Eu fiquei na frente dela, mas quando o ladrão puxou o gatilho, — assim que disse, ele moveu o polegar, como se este fosse o mecanismo de disparo — Bang! A bala atravessou meu corpo, assim como eu fiz com seu livro. Infelizmente, atingiu Grace. Ela morreu na hora.
Jay parou para respirar.
— Se eu não tivesse permitido a bala de me atravessar, eu morreria no lugar dela.
O ar ficou mais denso, repentinamente. Eu pude ver todo o desgosto no rosto do meu irmão. Não sabia que sua história era tão trágica, muito menos, que sua peculiaridade teria tornado sua vida mais complicada.
— Você se arrepende de ter conhecido Grace? — ele não me respondeu de imediato, senti que ainda estava sendo abraçado pelas lembranças moribundas.
— Não. Mas me arrependo de não ter feito algo por ela.
Então era isso. Se eu me distanciasse do mundo, poderia estar evitando milhares de tragédias. Se continuasse vivendo ativamente nele, seria um estranho no ninho. Formei minha decisão, mesmo sem ter vontade.
— Tudo bem. — falei, com insegurança — Eu faço o que você quiser.
— Ótimo. — sussurrou, apertando os olhos com inquietação — Agora só falta uma coisa.
— E o que seria?
— Você, meu amigo, terá que morrer.
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