Miranda: Starve
6 Oh My God
Greeny Wicked
Eram exatos 10 minutos que eu tinha, depois disso eu perderia a chance de adentrar na magnífica e assustadora estrutura envelhecida com o tempo.
Eu não tinha ideia de como chegar lá antes de ela se mover para outro lugar. E se de repente eu entrasse e ela movesse para o mar? Bem, eu precisava me preparar com alguns equipamentos e até aquilo... As esferas do Dylan, aquele maldito. Mesmo Juan contando que Dylan lhe ajudou, eu ainda não conseguia acreditar na benevolência dele, bem, eu não acreditava nem na minha!
Eu me levantei cedo no outro dia, comecei a preparar uma bolsa com tudo que eu podia precisar. Equipamentos de mergulho, de escalada, varinhas e poções caso tenha alguma fera lá e um taco de baseball. Um taco nunca é inútil. Coloquei também um cantil e algumas coisas doces para me dar energia caso eu ficasse preso ali.
Depois de preparar a mochila eu desci a montanha. Parecia que a cada passo que eu dava eu sentia um clima pesado, ódio, desespero, pânico, medo e destruição. Era isso que eu sentia.
Pinguins gritavam por todos os lados, corriam com latas de comidas, garrafas de suco, outros choravam e imploravam pelas suas coisas que acabavam sendo levadas por saqueadores, era horrível e a natureza sentia isso ficando cada vez mais fria e escura, o solstício de inverno era em duas semanas.
Eu estava com medo de ser sequestrado, de ser roubado, ou de ser comido vivo. Corri dali na minha maior velocidade e então finalmente cheguei na Mina, onde tinha vários minérios e onde se podia conseguir um puffle dourado. Eu deduzi que as cápsulas de Dylan não estariam muito escondidas, elas eram pretas e brilhantes, daria para enxergar.
Acabei encontrando apenas uma, peguei uma picareta e quando ia introduzi-la na parede eu escutei uma voz infantil um pouco longe de mim:
Era um pinguim pequeno com seus cinco anos, ele segurava um Rockhopper de pelúcia e cantava um poema:
Miranda, Mirandinha
O mundo vai acabar
Vamos de volta às origens
As origens vão reinar
O acordo que fizestes
Não cumpriu e o quebrou
Sua doce vida é minha
E agora se acabou.
Aquilo arrepiou minhas penas, só me lembrava um pinguim, Thay. Eu estava com medo, tudo que Juan dissera estava próximo de ser realidade e isso era horrível. Mas bem, nós tínhamos tempo até o terceiro e provavelmente último cavalo chegar na ilha... Ou não! Talvez aquilo tudo que estava acontecendo era coisa da nossa última ameaça. Se nós o derrotássemos não precisaríamos enfrentar a misteriosa Miranda.
Minha mente estava uma bagunça, aquele poema, a mansão, as cápsulas, a investigação, o provável terceiro cavalo, Thay... Decidi me organizar em etapas: primeiro eu pegaria as cápsulas, depois eu iria para a mansão, logo em seguida iria contar aos meus amigos sobre o poema que ouvi e então visitaria minha amiga.
Bati a picareta na parede rochosa afim de obter as pedras de teletransporte. Antes que elas caíssem e fizessem uma bagunça me mandando para o Iceberg, eu as coloquei em um compartimento e guardei em minha bolsa.
Era hora do almoço, eu nem tinha percebido que demorava tanto tempo para tomar decisões. Subi de volta para o meu iglu, a ilha agora tinha passado de um grande caos para um silêncio horrível. Era assustador porque me lembrava muito ano passado, quando Dylan transformou a ilha em um deserto. Foram dias horríveis. Eu tentava manter a cabeça levantada, mas eu ainda tinha todos os meus amigos comigo naquela época. Agora eu estava sozinho, eles estavam ocupados demais para darem atenção para uma bruxa enfraquecida, curiosa e depressiva. Uma pequena lágrima tomou forma.
Subi a montanha lentamente por conta do frio que piorava a cada dia. Devido à grande crise alimentar eu só comi uma maçã-verde, eu não devia gastar pães, ovos, leite ou enlatados tão cedo.
Depois de comer a maçã eu me sentei na sala de estar bebendo uma xícara de café e liguei a TV para ver as atualizações do dia sobre a investigação. Me surpreendi quando vi alguém familiar, era a loira, Bella.
Ela falava que eles encontraram uma prova e que talvez tudo se resolveria até a próxima semana. Os pinguins vibraram, eu consegui ouvir.
***
Já era quase meia noite, eu tinha visitado Thay no cemitério, fiz umas anotações sobre a mansão. Caso eu me perdesse, saberiam que eu estava ali. Tinha cada detalhe, desde os minutos que ela ficava até em que lugares ela mais aparecia.
Vesti uma calça verde folgada, botas de couro pretas não muito altas, uma blusa com estampa floral e por cima uma capa de inverno de pelo sintético verde com botões pretos e mais alguns pelos na gola. Coloquei luvas também, um colar que eu considerava muito especial e óculos de proteção. Peguei minha bolsa preta e fui para fora do meu iglu. Estava nublado e bastante escuro, ainda havia um pouco de luz no centro da ilha, mas ainda sim era pouco. Peguei meu telescópio e procurei pela mansão. Demorou um pouco, mas ela apareceu na floresta... lugar onde Thay morava.
Peguei os minérios de teletransporte de Dylan e joguei-os nos meus pés e pensei na floresta. Eu senti o chão desaparecer e uma névoa em minha volta, eu sempre gostei da sensação de estar sendo teletransportado – desde que seja com meu consentimento, é claro.
Assim que senti o chão de novo e abri meus olhos eu estava bem perto daquela estrutura que parecia maior ainda, era assustadoramente linda, mas me provocava arrepios. Coloquei meus pés na escada de poucos degraus e entrei pela porta azul ciano claro de maçaneta dourada. Logo que abri percebi que a estrutura era velha de muitos anos. Tinha teia de aranha por todos os lados. Passei a minha nadadeira, abaixei a cabeça e finalmente consegui passar. O hall era um corredor escuro, as paredes tinham um forro listrado roxo e lilás. O cheiro era de mofo, parecia que o lugar era muito úmido, mas também empoeirado. Tinha várias velharias, candelabros com velas já queimadas, vaso de flores mortas, espelhos quebrados, esculturas de vidro, de metal e de concreto. Tinha também quadros pelas paredes com retratos antigos que eu nunca tinha visto em minha vida. Eles eram datados apenas com números aleatórios, um em específico chamou a minha atenção, era uma pinguim ruiva de cabelos bem compridos, vestes em tom grená com um pouco de dourado. Ela era séria, mas tinha um sorriso em seu bico, eu não conseguia explicar sua expressão, era até assustadora. Ela tinha as penas brancas e um véu também grená cobrindo um pouco do seu rosto. Tinha um nome embaixo, Glaucea, seu sobrenome se iniciava com W. Glaucea W. Algo de estranho me parecia familiar nela.
Dos outros lados havia outros quadros e seus respectivos nomes. Ah! Como eu queria meus amigos me ajudando a descobrir a quem pertenceu tudo aquilo! Peguei meu celular para fotografar, mas assim que o liguei, a bateria começou a acabar, sendo que eu tinha carregado antes de sair. Caiu gradualmente e muito rápido, era bizarro.
Medo.
Era isso que eu sentia, medo.
Eu estava começando a ficar com muito medo, se eu me acidentasse ninguém jamais me encontraria, meu corpo iria decompor e eu nunca mais seria achado. Comecei a tremer com medo. Cada passo que eu dava o chão se mexia, não era seguro, eu sabia. Comecei a andar pelo corredor até chegar na sala de estar, era linda, mas assustadora. Estava coberta de teias de aranha e insetos. O cheiro era horrível e aquilo era muito assustador. Na mesa de centro tinham alguns papéis velhos e amarelados. Assim que eu os peguei não consegui entender, estava em uma língua que eu nunca tinha visto. Não era português, nem inglês, nem árabe e nem mandarim. Não era nenhuma língua que eu conhecia na verdade, nem hebraico e grego. Era outra coisa. Tudo que eu reconhecia era o nome daquela pinguim do retrato, Glaucea W.
Eu mexi em cada um dos papéis, não havia tradução em nenhum deles, era bizarro. De repente as velas se acenderam automaticamente. Minhas penas se arrepiaram, peguei minha varinha mágica e me preparei para o ataque. Não via barulho de nada e nem de ninguém. Vi que havia uma janela ali perto, assim que abri a cortina, o chão e todo a estrutura tremeram. Oh. Meu. Deus. Foi o meu primeiro pensamento. O casarão estava mudando de lugar. Assim que o pequeno terremoto parou eu olhei para todos os lados e comecei a andar até alguns lugares com portas fechadas, talvez seria algo de interessante, mas assim que ia abrir eu ouvi alguém me chamando:
— Oh meu Deus! Greeny! Sou eu, Thay! Sua amiga!
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