Miranda: Starve
21 Lost
Juan Hussie
— Certo, pessoal. Acho que todos podemos chegar à conclusão de que estamos perdidos — eu falei, tentando esconder meu nervosismo — Vamos nos concentrar pra conseguir sair daqui. Pelo jeito isso foi só mais uma pista falsa.
Eu olhava em volta, vendo apenas mais um labirinto de árvores. Se ao menos conseguíssemos uma visão aérea... Mas não tínhamos conseguido nada. O celular não funcionava, não tínhamos sinal, ninguém viria nos buscar, pois estavam muito ocupados, não teríamos comida por muito tempo... Bom, esse era o ponto. Não tínhamos comida! Ninguém! Na ilha! Por que aquilo tudo estava acontecendo?
O que não saía da minha cabeça era como alguém teria coragem de fazer tamanho crueldade. O criminoso não se sentia mal vendo tanta gente morrendo? Que tipo de pessoa sem coração poderia fazer aquilo? Miranda.
Fui andando até Bella, que parecia se sentir mal pela acusação de Greeny.
— Você está bem? — eu perguntei, quando cheguei mais perto e vi que ela parecia estar assustada.
— Claro — ela respondeu, friamente, virando o rosto e tapando o bico com a nadadeira.
E se realmente fosse ela? Não, Bella não conseguiria fazer aquilo. Ela parecia um pouco ingênua e uma boa pinguim. Não gostaria de ver tanta gente morrendo.
— Minkis? — chamei a minha amiga, chegando perto dela — Tudo ok?
— Ah, claro — ela falou, meio irritada — O Greeny chega aqui acusando a Bella e está tudo ok? Mas que droga!
— Acho que o Greeny deve ter algum problema. Parece que ele vem agindo assim só porque nós brigamos — Marcus citou. Você acha que o Greeny está agindo assim só porque você brigou com ele no meio dessa situação louca da ilha? Pensei. Eu odiava aquele cara.
— Vamos nos acalmar. Se nós ainda queremos salvar a ilha, temos que sair daqui o mais rápido possível. Eu acredito em vocês. Contenham esse ódio, certo? Nós vamos... conseguir.
Eu estava quase morrendo de insegurança. A gente não ia conseguir! Se a gente saísse dali, uma hora morreríamos de fome! Eu estava ficando louco!
Começamos a tentar voltar o caminho, embora a maioria das migalhas no chão pareciam ter desaparecido. O sinal do celular ainda não funcionava e logo a bateria acabaria.
Após algumas horas andando, o sol começava a nascer. Ou seja, em menos de duas horas ele iria se pôr novamente. Isso que significava estarmos quase no solstício... Andamos mais e mais, até chegarmos a um lugar parecido com o que estávamos antes.
— O quê? Nós voltamos para cá? — Minkis ficou surpresa.
— Estamos andando em círculos? — Bella exclamou, preocupada.
Eu não sabia o que fazer.
— Talvez se a gente... Voltar... Ou seguir em frente... — eu tentava falar, mas uma lágrima já se formava em meus olhos. Outra, e mais outra. Eu não aguentava mais, eu só queria que aquilo acabasse — Por favor, alguém ajuda a gente! — eu gritei o mais alto que pude. Para quem? Não sei. Para outros agentes? Para Greeny? Para Deus? Uma rápida imagem da Miranda aparecendo para mim e me oferecendo um acordo passou por minha mente e me aterrorizou por um segundo.
Mas parecia que meu pedido tinha sido atendido. Parecia que nos poucos minutos de sol que teríamos, sua luz se refletia em... Alguma coisa que eu não sabia o que era, bem no céu. E um feixe de luz era feito ao sul.
— O que é aquilo? — meus amigos diziam.
— Vamos seguir! — Minkis falou.
Não precisamos nem esperar um minuto. Todos saímos correndo, sempre olhando para cima para nos localizarmos. Nós não tínhamos muito tempo até o Sol se pôr. Os minutos foram se passando, a luz desaparecia aos poucos... Lágrimas saíam de meus olhos. Aquilo me lembrava de... Thay. Não sei por que, mas eu só conseguia pensar nela, enquanto a luz do Sol se esvaía. Agora apenas um pequeno feixe iluminava a saída do labirinto de árvores.
Precisávamos chegar logo. Mas o Sol se pôs e não conseguíamos mais ver nada. Provavelmente já era mais de uma da tarde.
— Espera, eu lembro! Era bem ali! — Minkis exclamou, apontando para um lugar enquanto ligávamos as lanternas. Nós seguimos para onde ela dizia, e, em menos de dez minutos, percebemos que tínhamos saído da floresta. Agora estávamos numa planície e já conseguíamos ver algumas construções em um local ali perto.
Depois de andar mais um pouco, percebemos que o sinal do celular estava de volta. Ligamos para a polícia e em menos de cinco minutos algumas viaturas já chegavam.
— Finalmente vocês apareceram! — um policial disse.
— E aí, encontraram alguma coisa? — Marcus perguntou.
— Infelizmente, não. O número de mortes aumentou drasticamente. Muitos pinguins tentam destruir a barreira, mas sem resultado. A natureza parece estar morrendo, está tudo caótico. Parece que nossa ilha está chegando ao fim. Logo seremos... Apenas uma ilha deserta coberta por uma barreira de gelo — ele dizia, se desanimando — Um enorme cemitério.
As notícias não me ajudaram em nada. Depois de mais de um dia presos naquela floresta, eu queria pelo menos ouvir alguma notícia boa. Mas não tinha nenhuma.
— Por favor, entrem — o policial falou para nós, enquanto abria a porta de um dos carros. Nós quatro entramos e esperamos ele começar a dirigir. A ilha só não estava totalmente escura pelos postes acesos, mas ela estava triste e quase morta, pelo menos naquele local. Fiquei olhando pela janela enquanto andávamos pelas ruas.
Eu estava desanimado, com a cabeça encostada no vidro e apoiada na minha nadadeira. Eu não queria que tudo acabasse daquela maneira. E, no fundo, eu me sentia mal por ser praticamente privilegiado por ter comida na EPF enquanto tanta gente morria. Eu não poderia ter ajudado mais?
No meio de meus pensamentos, avistei um pinguim sozinho na rua, um pinguim que estranhamente me parecia familiar. Mas quando chegamos mais perto que reconheci:
— Minkis! É ele! O ruivo! — falei, tentando lembrar seu nome — É o-o Owen! — gritei, gaguejando.
— Senhor, siga aquele pinguim! — Marcus exclamou.
A sirene da polícia foi ativada e o pinguim, ao ver aquilo, começou a correr. Ele corria incrivelmente rápido, não sei como. Mas ele não iria escapar. Ou iria? Eu percebi que tudo poderia dar errado quando vi ele correndo em direção a um manifesto de pinguins, bem no meio do Centro.
— Pare o carro! — eu gritei. O policial freou no mesmo instante e eu abri a porta e comecei a correr atrás do suspeito. Minkis fez o mesmo atrás de mim, enquanto Bella e Marcus continuavam lá dentro. Nós dois corremos o mais rápido que podíamos, lado a lado. Aquela cena foi bem parecida com a da última vez que tínhamos perseguido o pinguim. Ele não podia chegar perto do manifesto ou perderíamos ele.
Mas Owen nos surpreendeu quando virou para entrar em um beco, igual da última vez. Eu e Minkis corremos mais rápido ainda, e estávamos quase chegando.
Ele entrou no beco um segundo antes de nós, mas, quando ele começava a desaparecer, tocamos nele e ele continuou ali.
— Você está apreendido em nome da lei! — Minkis exclamou enquanto suspirava.
Enquanto eu estava cansado, suspirando, minha mente trabalhava a mil. Marcus chegava após Bella, que segurava algumas algemas.
— Vou colocar as algemas nele! — a loira exclamou. A loira. De cabelos ondulados. E se Greeny estivesse certo?
— Entregue-as para Marcus! Ele pode colocar! — eu exclamei. Não podíamos perder o suspeito naquele exato momento. Se o prendêssemos, o mistério poderia estar resolvido. Ou não, se ele não fosse o verdadeiro ladrão.
— Mas... — Bella tentou dizer, mas parou quando Marcus passou por ela pegando as algemas. Agora só faltava levarmos ele para a delegacia.
— Não deixem de olhar ele por nenhum segundo... E também o segurem — Minkis falou para que todos ouvissem. Ela provavelmente tinha percebido, assim como eu, que no momento em que o tocamos, ele voltou a aparecer.
Andei calmamente até Bella e falei só pra ela:
— Não é nada contra você — menti —, mas acho melhor ficar um pouco longe. Só pra não... Tropeçar e deixar ele escapar, igual você tropeçou e derrubou a água nas coisas, ok?
Ela parecia muito nervosa, mas ignorei. Enquanto andávamos até a viatura novamente, fiquei pensando. Ele não parecia estar desaparecendo com uma das esferas igual às que os encapuzados de Dylan usavam no ano anterior. Ele parecia estar desaparecendo como se estivesse tomando outra forma feita de sombras, mais parecido com... mais parecido com que tinha acontecido com o Ryan quando eu saía do iglu dele.
Fale com o autor