Minkis Mackenzie

Havia se passado um dia após o ocorrido no evento do governo, e Bella estava visivelmente chateada. Eu entendo, afinal, ela devia se sentir culpada por ter derrubado água e sabão sobre pães e peixes que seriam entregues para vários pinguins.

Falando na pinguim, ela estava em uma das cadeiras do quartel, mexendo na barra da blusa. Aproximei-me da mesma, me sentando ao lado da garota, pegando em uma de suas nadadeiras:

— Bella, está tudo bem, fique calma.

Eu sabia que não estava tudo bem, mas ao mesmo tempo disse que estava apenas para ver Bella melhor. Não sabia se havia feito o certo, mas pelo menos sentia que ajudei um pouco a garota. Continuei mexendo em sua nadadeira, em uma tentativa de acalmá-la.

Olhava para o rosto da pinguim, os cabelos loiros e ondulados cobriam uma parte de seu rosto, por estar com a cabeça abaixada, suas penas eram extremamente brancas e seus olhos estavam parados em um ponto fixo, no que ela estava pensando?

A pinguim levantou a cabeça assustada por conta de um barulho, virei minha cabeça em direção à entrada do quartel, e lá estavam Juan e Marcus. Eles correram até nós, cansados e respirando profundamente, provavelmente estavam correndo para chegar rapidamente até o local:

— Achamos migalhas de comidas e folhas de tomates em uma trilha que começa na floresta, nós temos que ir até lá!

Arregalei meus olhos, era a nossa chance de finalmente encontrar quem era o ladrão! Após a notícia, me levantei da cadeira apressadamente, arrumando o casaco que estava no meu corpo, me protegendo do frio que predominava a ilha naquele momento. Fomos até uma sala, que tinha várias mochilas e equipamentos, era necessário juntar o máximo de coisas para conseguirmos explorar a floresta, já que não conseguíamos saber a quantidade de dias que ficaríamos no lugar.

Vesti apenas uma bota, substituindo meu tênis, acho que ela seria bem mais útil do que o meu sapato anterior. Os outros pinguins optaram por colocarem mais casacos, mas em minha opinião, não achava que aquilo seria necessário.

Coloquei a mochila cheia de equipamentos nas minhas costas, colocando as duas alças em meus ombros. Saí do quartel, acompanhada dos outros investigadores. A caminhada demorou um pouco, já que havia uma distância consideravelmente grande da Estação de Esqui, onde o quartel se localizava, até a Floresta, que era aonde a trilha de alimentos se encontrava.

Durante o caminho, não comentamos nada, o silêncio era o principal acompanhante da caminhada. Conseguia ver as feições dos outros pinguins, Marcus e Juan estavam animados, e eu também estava. Era a nossa chance de encontrar o ladrão dos alimentos, e assim, distribuir a comida roubada para a população. Bella não estava tão feliz com a notícia, ela parecia chateada. Provavelmente ela ainda estaria abalada pelo ocorrido no evento do governo, o sentimento de culpa devia ser grande.

Estava muito feliz com a notícia, a esperança de encontrar o culpado era gigantesca. Mas em comparação, a ilha ainda teria outros problemas para encontrar, como sendo os principais a muralha de gelo e a recuperação dos alimentos. Demoraria para conseguirmos plantar vegetais, para que os animais de fazendas se recuperem e que a pesca volte ao normal. É necessário a quebra do muro para que a pesca retorne, e eu não tinha a mínima ideia de como seria possível destruí-lo.

O sentimento de tristeza tomou conta de mim ao pensar nisso, e ainda por cima, durante a caminhada, era possível ver vários pinguins passando fome, era uma cena horrível. Eu estava quase chorando, porque isso estava acontecendo? Aos poucos, começava a acreditar ainda mais na possibilidade disso tudo ser causado pela tal Miranda. Mas, o que os pinguins fizeram para ela realizar tudo isso? Foi algo especifico? Foi algo recente ou antigo?

Será que outros pinguins, no passado, passaram por isso? Muitas dúvidas estavam na minha cabeça, e isso se tornou normal desde o início da fome. Além disso, comecei a me sentir cada vez mais sob pressão. O número de pinguins mortos aumentava a cada dia, a cada hora, na verdade. Eu estava encarregada de achar o culpado, e caso não encontrasse, não seria possível encontrar os alimentos roubados para distribuir.

Em meio a todo esse clima, o solstício de inverno foi esquecido. Não havia mais felicidade, entre os pinguins da ilha, todos estavam preocupados em uma única coisa, sobreviver. Armazenar o máximo de alimentos para conseguir viver. Queria que a única preocupação da população fosse a busca de tintas para pintar seus corpos. Queria que os únicos pensamentos de desespero fossem relacionados ao festival, como por exemplo, “que desenho eu faço?”, em vez de questões como “como eu irei encontrar comida para viver?”, era preocupante.

Resolvi parar de pensar um pouco nisso, precisava parar de pensar nisso. Sei que não é bom se desviar da realidade em um momento como esse, mas já pensei muito sobre esse assunto que começa a afetar meu desempenho na investigação.

Tive um último pensamento sobre a situação, antes de parar de pensar sobre isso completamente. O que estaria acontecendo se nada ocorresse? Se não tivesse ocorrido o acontecimento dos encapuzados, das bruxas e o atual? Como a ilha estaria? Como eu estaria? Como os meus amigos estariam? Eu seria o mesmo pinguim? Bem, provavelmente não. Acho que eu não esconderia tanto meus sentimentos para todos a minha volta, eu não me culparia tanto pelos meus atos ou coisas que deixei de fazer por algum motivo. Não consigo imaginar uma Minkinha diferente da atual, talvez tudo isso que ocorreu foi para dar uma lição para nós, pinguins. Para dar mais valor às coisas, como por exemplo, os alimentos. Não tenho uma certeza absoluta do que eu estou falando, mas, quem sabe não é a realidade? Ou, pode apenas ser uma teoria de uma pinguim de vinte anos, que está tentando resolver um caso que envolve a fome de uma ilha inteira.

Balancei minha cabeça, espantando todos aqueles pensamentos. Eu precisava focar! Precisava estar concentrada para conseguir encontrar as mínimas pistas. Parecia que os meus pensamentos eram um tanto demorados, visto que quando resolvi esquecê-los, estava na entrada da floresta.

Respirei fundo, calma Minkinha! Tentava me acalmar, eu deveria estar preparada para tudo, para qualquer ocorrido. Eu poderia muito bem encontrar o ladrão, ali, na floresta, junto com todo o alimento roubado, e eu não poderia estar despreparada, precisava saber o que fazer. Por isso, após conseguir me acalmar por meio da minha própria respiração, abri meus olhos, que até então não havia percebido que estavam fechados e olhei para os meus companheiros de investigação, eu estava com eles caso algo acontecesse. Olhei em direção às várias árvores presentes no local, sorrindo. Estava preparada, e era agora que eu iria dar o meu máximo, precisava dar tudo que tinha, era nosso momento, a nossa chance, a nossa oportunidade.