Juan Hussie

— Então, pessoal, vamos começar? — Minkis disse, segurando o livro de receitas. Ele era um livro bem grosso com capa dura, e também tinha uma superfície bem grande. Diversos tipos de receitas poderiam ser encontrados lá, mas resolvemos olhar no capítulo das de Natal. Depois de tantas coisas ruins ocorrendo, ao menos nós estávamos tentando nos alegrar.

Podia parecer meio ruim fazer isso sendo que nossos amigos estavam em perigo, mas não tínhamos nenhuma chance de sairmos naquela noite durante a nevasca, então precisaríamos esperar o outro dia de qualquer jeito.

— Sim, estamos prontos — falei ao colocar o último ingrediente do panettone na mesa. “Pode falar.”

Eu e Thay estávamos frente a frente, cada um de um lado de uma longa mesa de madeira com algumas tigelas e vários ingredientes — tais como ovos, trigo, fermento, manteiga, açúcar, sal, etc. — em cima.

Fiquei feliz de estar fazendo aquilo. Antes de começarmos, tínhamos fechado todas as janelas e a porta frontal e lateral do iglu, impedindo que qualquer um nos visse lá. Depois, acendemos a lareira que ficava em um dos cantos. Ela era bem grande e feita de tijolos. Não foi muito difícil acendê-la, mas após fazermos aquilo, eu tive uma ideia.

Aquele lugar não era o mais seguro que conseguiríamos encontrar, obviamente, então nós precisaríamos de algo para nos defender caso algo acontecesse. O encapuzado poderia entrar, por exemplo.

Então, montamos as nossas armas. Aproveitamos que em uma das paredes tinham três espadas que ficavam guardadas como enfeites, mas ainda poderiam ser usadas para lutar, e as pegamos.

Depois, resolvemos pegar a caixinha que encontramos na Dimensão das Caixas que tinha espaço para qualquer coisa. Eu a enchi de água, bastante água mesmo, e a fechei. Se alguém suspeito aparecesse, eu a abriria e jogaria um jato enorme de água nele. Acho que assim ficaríamos um pouco mais protegidos.

E, apenas depois disso, finalmente começamos a fazer o tão esperado panettone com gotas de chocolate.

Minkis foi dizendo todos os ingredientes e observando enquanto eu e Thay os colocávamos na tigela. Foi um até divertido e fizemos um pouco de bagunça, mas conseguimos terminá-lo após alguns minutos.

Agora só restava colocar tudo numa forma e depois colocar a forma no forno e esperar uma hora.

Enquanto esperávamos, resolvemos lavar nossas nadadeiras. Não era uma boa ideia tomar um banho porque depois teríamos que sair da água quente e logo depois tomaríamos o frio daquele iglu, e essa mudança de temperatura nos causaria doenças.

Depois de lavar as nadadeiras, fomos até a sala e nos sentamos em um sofá. Eu do lado direito, Minkis no meio e Thay do lado esquerdo. O sofá era muito confortável e quentinho. Ele era vermelho escuro e parecia ter alguns anos de idade, pois até estava um pouco velho.

Em frente a ele estava um tapete verde com detalhes e desenhos dourados, ocupando um grande espaço do chão, e, logo depois, a lareira, com aquele fogo queimando os pedaços de madeira que a sustentavam.

Nessa hora, já tínhamos apagado as luzes e a única fonte de iluminação era aquele fogo. Aquela coisa brilhante e quente, aquele fogo, representando a vida, representando a chama dentro de nós.

O fogo.

As chamas vermelhas e brilhantes, a luz. O fogo, algo que corre e se espalha em um piscar de olhos. Algo tão grande e poderoso, algo bonito e inspirador. A primeira descoberta do pinguim: o fogo.

E algo que também... Não é eterno. É enorme enquanto dura, mas, depois, vai desaparecer. Aquela pequena chama vai se esvair e só restarão cinzas.

Talvez sejamos como o fogo. Enquanto estamos felizes, ativos, temos festas, alegria. E então, desaparecemos. Não somos eternos. Talvez aquela situação era toda como uma fogueira. Eu e minhas duas amigas éramos as únicas chamas restantes de uma lareira.

E, algum dia, nós apagaríamos também. Talvez todo aquele esforço estava sendo em vão.

Não.

Não estava.

Nós íamos nos espalhar como as chamas de um incêndio. Nós íamos trazer todos de volta, nós conseguiríamos. Eu conseguir sentir. Apenas olhar aquilo me fazia sentir isso.

E, então, meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho do panettone ficando pronto no forno. Me levantei e fui andando calmamente até a cozinha. Peguei duas luvas que usam na cozinha para pegar coisas quentes e peguei a forma em que estava o delicioso bolo de natal.

Coloquei em um prato e levei até a sala, onde Minkis e Thay me esperavam. Nós nos sentamos no chão e esperamos o panettone esfriar, enquanto eu segurava uma faca.

— Mês louco, não? — Comentei, sem tirar os olhos da lareira.

— Pois é... Eu nem tenho mais noção de tempo. Quantas semanas já faz que isso aconteceu? Duas? Três? — Minkis disse. Me lembrei de que estávamos sem mais nenhuma noção de dia da semana ou do mês.

Gary tinha feito com que o relógio central do Forte Nevado se conectasse a todos os outros relógios da ilha. Eu não sabia como tal construção estava, mas provavelmente algo tinha acontecido, e, agora, tudo, até mesmo os celulares, estavam bugados e não mostravam mais o horários corretamente.

A única noção que tínhamos era a posição do sol.

— Gente, vocês acham que vamos conseguir encontrar todos? — Thay comentou. “É que está tudo dando cada vez mais errado.”

— É bem difícil, mas... Minhas filosofias da vida me fizeram acreditar que tudo vai dar certo graças a essa lareira. Por favor, não me peçam para explicar — respondi. “Só precisamos de mais pistas. Já descobrimos para quê serve o pozinho preto, por exemplo. Sinto que a próxima pista está bem perto. Eu só gostaria de saber o que isso significa...”

Falei enquanto tirava do bolso a pequena lula azul que encontrara em cima da cama de Lina.

— Quando será que ela conseguiu isso? Será que significa alguma coisa? — Perguntei.

Ninguém tinha uma resposta.

Nessa hora, o panettone já esfriara um pouco e cortamos três fatias para comermos. Nós começamos a comer quando Minkis falou:

— Ei, você dois. Por favor... Vamos ficar juntos, certo? Não importa o que aconteça... Não podemos perder mais ninguém.

Ela estava no meio e colocou suas nadadeiras em volta de meu pescoço e em volta do de Thay, nos abraçando. Eu e Thay colocamos nossas nadadeiras na cintura dela e ficamos lá, nós três, quietos, observando a lareira.

E foi aí que eu comecei a chorar. Chorar muito, chorar como não chorava há muito tempo. E as duas também choraram. Foi uma bad feliz, foi um sentimento de derrota e vitória. Foi estranho e... Incrível. E estava tudo bem, e não estava tudo bem.

Até que esse sentimento de conforto acabou. Ouvimos um barulho. Era a porta sendo aberta por fora, à força.

— Galera, eu estou com um pressentimento ruim... — Thay disse enquanto nós três olhávamos em direção à entrada do iglu.

E, entrando por ela, estava ninguém mais, ninguém menos que... Certo pinguim com um capuz.

***

— Ora, ora... Temos uns pinguinzinhos aqui! — O Encapuzado disse, parado na porta do iglu. Ele estava com as duas nadadeiras atrás das costas e era possível ver um sorriso cínico em seu rosto. “Ficamos procurando por vocês durante bastante tempo, mas vocês sempre estão fugindo.”

Eu me levantei nesse momento, secando as lágrimas. O som do fogo na lareira ainda estrava em meus ouvidos. Fiquei de pé e coloquei o óculos em meu rosto. Percebi que Thay e Minkis estavam de pé ao meu lado, assustadas.

— O quê? Você sabe que a gente está se mudando o tempo todo? — Perguntei. Tentei ser sério, mas minha voz ainda estava um pouco como uma voz de choro.

— Digamos que sim. — ele respondeu enquanto começava a andar em nossa direção.

Olhei para o lado e vi que Minkis e Thay também olhavam para mim. Tentei sinalizar algo com as nadadeiras para elas tomarem cuidado se ele jogasse algo na gente.

Ele foi andando calmamente. E, quando ele estava quase chegando até nós, eu gritei:

“Agora!”

Nós três corremos até o sofá e pegamos as espadas que tínhamos escondido debaixo dele. Estávamos prontos para o ataque do Encapuzado. Ele continuava com o sorriso cínico. Parecia que ele não imaginava que conseguiríamos escapar.

E, então, ele jogou a primeira coisa. Era uma pequena esfera preta. Imaginei que fosse o que fazia os pinguins serem teleportados. Thay viu que a esfera estava indo em direção a ela, então a pinguim levantou a espada e conseguiu acertar bem no pequeno objeto.

Ele então se partiu ao meio e uma pequena fumaça feita com bastante pó foi espalhada para todos os lados. A espada desapareceu da nadadeira do Thay, mas ela saiu correndo e escapou sem ser levada.

E foi aí que eu corri para atacar o pinguim com a espada. Eu usei toda a minha força e habilidade para atingi-lo. Eu não tinha quase nenhuma habilidade, mas ele pelo menos não esperava por aquilo. Quase fui acertado por mais uma esfera que ele jogou, mas consegui fazer um corte na nadadeira dele e corri para o outro lado.

Minkis então correu até ele, que estava tapando o corte da nadadeira danificada com a outra, e o chutou. Ele caiu no chão e seu capuz saiu de sua cabeça. Foi possível ver seu rosto: ele era um pinguim azul com o cabelo preto, bem curto. E ele me parecia um pouco familiar...

— Argh! Não! — Ele gritou, com raiva. Parecia que ele ia pegar várias esferas de uma vez para jogá-las em Minkis. Eu não podia deixar.

Enquanto ele colocava a nadadeira no bolso, peguei a pequena caixa da Dimensão das Caixas e me preparei para abri-la. O problema é que, por causa da pressão do momento, acabei a derrubando. Isso me fez perder muito tempo.

E então, vi tudo passar rápido: O pinguim jogou pelo menos cinco esferas em Minkis. Elas iam se chocar contra ela em uma fração de segundo, quando... CONSEGUI! Abri a caixinha de papelão e um enorme jato de água saiu dela. Eu mirei em Minkis, que foi lançada em direção à parede do iglu, mas não foi atingida por nenhuma das esferas.

E foi aí que eu tive um plano. Gritei “Aqui, garotas!” após jogar a água no Encapuzado. Mas, enquanto ele estava distraído com a água, eu levantei minha nadadeira e fiz uma sinalização com ela para Thay e Minkis. Depois apontei para a lareira. As duas correram até lá e ficaram do lado dela. Então, mirei a água para lá e o fogo foi apagado.

E, por fim, fechei a caixa. Corri para o lado de minhas amigas enquanto o Encapuzado tentava se levantar. Sem que ele me visse, entrei no lugar onde antes estava o fogo junto com as duas outras pinguins e apenas esperei. Por causa do escuro, não poderíamos ser vistos.

— Droga, eles fugiram! — Ouvi o Encapuzado dizer. Depois, ouvi alguns passos e esperamos alguns minutos até sair do esconderijo. O Encapuzado achara que nós tínhamos fugido do iglu e foi nos procurar fora dele. Tivemos bastante sorte.

Fiquei aliviado que aquilo tinha terminado. Peguei uma toalha e outras roupas para Minkis, que agora estava ensopada.

“Desculpa...”

— Não tem problema, Juan, você me salvou — ela disse, tremendo. “Só estou com... bastante... frio...”

Demorou bastante tempo até o frio de Minkis passar. Demos umas cinco toalhas e cobertas para ficar em cima dela, porque senão ela não aguentaria. E então, finalmente olhei em volta. Observei todo o iglu e vi uma coisa no chão: a lula que estava na cama de Lina.

Parecia que eu a tinha perdido enquanto o lutava contra o Encapuzado, então fui pegá-la novamente.

Me agachei, peguei o objeto e me levantei enquanto o colocava no bolso. E foi aí que senti que já havia algo lá.

Coloquei a nadadeira no lugar e tirei de lá... A lula de Lina.

— O quê? — Gritei, enquanto andava em direção às pinguins. “Ei, olhem isso! Apareceu outra lula aqui!”

— Logo depois que o Encapuzado entrou? Isso é bem suspeito! — Minkis exclamou.

Thay estava pensativa, olhando pra os lados. E então, ela finalmente disse, após vermos em sua expressão que ela tinha percebido algo importante:

— Eu conheço o Encapuzado...

Eu e Minkis olhamos para ela e falamos ao mesmo tempo:

— Quem é?

— Então, no dia que todo mundo foi capturado... Mais cedo... Veio um pinguim pra entregar a árvore de natal. Eu e Lina fomos pegá-la com ele, e... Agora que vocês tiraram o capuz dele eu percebi que os dois são a mesma pessoa.

A expressão em nossos rostos representou o quanto aquela notícia foi chocante.

— E a lula... O Encapuzado... A cama da Lina... Será que ele que entregou a lula pra Lina? Queria dizer que ela seria capturada?” — Minkis exclamou.

—Mas que sentido faria ele mandar sinais pra alguém que a pessoa seria capturada? Ninguém mais recebeu uma? E por que só a Lina recebeu? — Comecei a falar. Parecia que cada hora surgiam mais perguntas sem respostas.

— Espera... A Lina não tinha falado nada quando estávamos no iglu nos escondendo. Ela estava totalmente quieta, até que, quando obrigamos você a ir... — Thay disse, apontando para mim. “...ela finalmente resolveu ver quem estava batendo na porta...”

E foi aí que percebi tudo.

— Então talvez... A lula não quer dizer que a pessoa será capturada, mas... Foi algo para chamar... Recrutar a Lina? Isso é tipo uma seita? — Eu falei, quase sem acreditar.

— Será que Lina... Não é quem pensamos ser? — Minkis disse, por fim.

***

No outro dia, acordamos bem cedo. Tínhamos dormido em um armário naquele iglu e saímos dele logo no nascer do sol para podermos sair daquele lugar. O Encapuzado poderia voltar.

Arrumamos nossas mochilas rapidamente e fomos para fora. Antes de sairmos, na verdade, enchi mais a caixinha com água, caso precisássemos novamente.

Eu tinha tido outro sonho nessa noite. Um sonho muito interessante, o mais realista até aquele dia. Mas... Certo, agora eu não podia negar. Os meus sonhos eram reais. Eram vários sonhos seguidos sobre coisas que aconteceriam no futuro. Não era mais possível imaginar que eram apenas coincidências.

Eu precisava contar, mas... O que pensariam? Será que ficariam bravos comigo? Ou me julgariam por não ter contado antes? Eu estava esperando o momento certo.

Ok, agora só precisávamos focar em ir pra um lugar mais seguro. Mas não sabíamos onde. A ideia era entrar no iglu mais próximo por ali, mas ficaria muito óbvio para o Encapuzado. Um pouco ao longe, vi a Cabana. Estávamos na Estação de Esqui.

Olhei para o lado. Thay olhava também para a Cabana, mas Minkis sorria olhando para outro lado. Me perguntei para onde ela olhava, e olhei na mesma direção. Era um iglu.

E, por fim, ouvi ela dizer:

— Galera... Encontramos meu iglu.