Greeny Wicked.

Logo que vi seu rosto não consegui disfarçar que estava chocado, ele provavelmente percebeu isso.

— Eu sei que faz tempo e... — Ele disse tentando se justificar.

— Não. Está tudo bem, você teve seus motivos. — Respondi friamente.

— O que veio fazer aqui? Tá um breu lá fora! Isso sem falar sobre a nevasca. — Eu disse continuando a minha última fala.

— Nós precisávamos conversar para eu ficar em paz. E também acho que você sabe o motivo dessa mudança de tempo radical. Ficou sabendo dos muros de gelo que surgiram em volta da ilha? É impossível sair daqui! — Respondeu.

— Muros de gelo? Essa é nova. Deve ter sido a minha mãe... — Eu disse revirando os olhos.

— Mãe? Você me disse que seus pais te abandonaram quando você era criança! — Ele disse.

— E você disse que me amava, Marcus. — Eu disse.

Provavelmente ele sentiu como se tivesse levado uma facada nas costas, infelizmente a verdade dói. Um silêncio começou a crescer, durando até alguns segundos.

— Eu te amava, mas eu precisava tomar uma decisão. — Disse Marcus em um tom seco.

— Engraçado. Todas as decisões que você tomou me deixavam em segundo plano. — Eu respondi com raiva cruzando as nadadeiras, dando uma risada irônica.

— Parece que continua com o mesmo pensamento desde a nossa última discussão. — Ele respondeu com calma rindo um pouco.

Eu cruzei minhas nadadeiras revirei meus olhos e fiquei em silêncio.

— Eu sei que eu te magoei, mas eu não fiz de propósito! Era minha única chance. Você sabe disso. Desculpa! — Continuou.

— Não podia ter mandado um SMS? — Eu perguntei ainda com raiva.

— Não tinha sinal na ilha. — Respondeu.

— Você voltou pra cá há quatro meses e não teve coragem de vir falar comigo assim que chegou. Por que não me surpreende? — Eu perguntei.

— Eu estava com medo. — Disse ele.

— E por que não está agora? — Eu perguntei.

— Bem... É que eu não esperava vir aqui para pedir desculpa e nem acertar as contas, era para conversar com você porque eu tinha certeza que sabia a razão do tempo ter mudado tanto. Isso podia me ajudar a fazer uma manchete perfeita pro jornal do tempo. — Respondeu.

— Você veio aqui por puro interesse e diz isso na maior naturalidade? Você só pode estar brincando comigo... — Eu disse com mais raiva ainda.

— Mas não importa mais! Essa era a minha ideia no começo, mas agora vendo você... Senti que devíamos conversar. — Respondeu colocando a nadadeira sobre meu ombro.

— Como sempre me deixando em segundo plano. Você deixou bem claro que não me amava na nossa última discussão. Como você disse mesmo? “Ah! Eles vão pensar que você é monstro!” — Respondi tirando sua nadadeira de mim. Eu estava quase derramando uma lágrima, só não sabia se era de raiva ou de tristeza.

— Certo. Você tem razão, eu não te amava. Eu te amo. — Disse Marcus, ele se aproximou do meu rosto e tentou me beijar, mas eu me esquivei e coloquei minhas nadadeiras no meu bico. Eu não queria sofrer mais, não por ele.

— Não. — Eu respondi.

— Eu não consigo mais, me desculpa. — Respondi derramando algumas lágrimas, mas secando-as rapidamente.

— Eu que peço desculpa. Eu literalmente desapareci por quatro anos, você já deve ter encontrado outro pinguim. — Disse Marcus.

Quando eu ia respondê-lo Minkis e Thay acabaram acordando devido aos sons da conversa.

Enxuguei minhas lágrimas rapidamente e abri a porta para Marcus ir embora.

— Quem que é esse cara? — Perguntou Thay coçando seus olhos.

— Ele é meu ex-na... — Respondi até ser cortado por Marcus.

— Professor de Geografia! — Interrompeu.

— E você vai deixar o coitado na escuridão e na neve? Você tá muito perverso, Greeny! — Disse Minkis rindo para tentar descontrair, aparentemente sem sucesso.

— N-não! — Respondi gaguejando e rindo de nervoso. Fechei a porta e levei Marcus para o meu quarto, peguei um edredom verde com poá preto e um travesseiro com a fronha da mesma cor, eu adorava aquela roupa de cama.

— Você se lembra que foi eu que te dei esse edredom de presente? — Perguntou. Eu me lembrava, lembrava de cada momento com ele.

— Não. — Respondi. Eu estava tentando ser frio com ele, qualquer sentimento que eu sentisse por ele poderia ser fatal pra mim. Apaguei a luz do quarto e quando ia sair ele chamou pelo meu nome:

— Ei Greeny! Boa noite.

Eu não respondi, apenas saí do quarto e fechei a porta. Depois desci as escadas e cheguei à sala, Thay e Minkis estavam olhando para mim com vontade de rir.

— O quê? — Perguntei.

— Ele não é seu ex professor de geografia, né? — Disseram juntas.

Revirei meus olhos e me sentei no sofá ao lado delas negando com a cabeça.

— Eu sabia! Por que não contou pra gente que estava namorando? — Perguntou Minkis.

— Porque eu não estou. Eu não o vejo há quatro anos. — Respondi.

Elas ficaram quietas por alguns minutos, bastante constrangidas.

— Por que se separaram? — Perguntou Thay.

— É uma longa história... — Respondi. Eu não queria contar, pois eu provavelmente iria chorar e isso seria reabrir uma ferida.

— Então conte! — Exclamou Minkis.

— Bem... Nós nos conhecemos no Club Penguin News, ele escrevia sobre a previsão do tempo e essas coisas. Ele entendia bastante disso, e era um tema que eu me interessava bastante. Começamos a conversar, saímos e depois de um tempo de amizade iniciamos um relacionamento amoroso. Então um dia ele teve que viajar para outra ilha porque lá estava tendo algumas coisas estranhas com a temperatura, eu não sabia o que era, mas eu queria ir junto com ele. Só que aí começou o problema. Ele não queria viajar comigo porque eu era uma bruxa e os pinguins iam ficar com medo de mim, prejudicando todas as pesquisas e entrevistas. Eu insisti várias vezes até que um dia ele explodiu e disse que eu era um monstro e que não era pra eu interferir no caminho dele. Depois deu uma desculpa esfarrapada e desapareceu por quatro anos. Quando voltou nem se preocupou em me ver, até que hoje ele veio, mas não para saber como eu estava ou coisa do tipo, era apenas para eu explicar para ele o que estava acontecendo com a ilha porque isso daria uma manchete perfeita. — Eu disse dando ênfase na parte que citei a manchete.

— Nossa que chato... — Respondeu Thay.

— Nossa que ruim... Se bem que ele te pediu desculpas... — Disse Minkis tentando me consolar.

Falhou.

— Mesmo com todo tempo do mundo, algumas coisas não podem ser perdoadas. — Respondi.

— Eu não acredito nisso. — Disse Minkis.

— Eu congelei um pinguim inocente. Pronta para beijos e fingir que nada aconteceu? — Respondi.

Minkis ignorou o último comentário e se levantou para pegar o celular e ver horas era:

— Acho melhor irmos dormir, daqui algumas horas vamos descer a montanha para procurar Juan — Disse ela.

— A hora tá voando hoje, misericórdia! — Respondeu Thay se deitando no sofá.

Nós nos deitamos no sofá e pegamos no sono. Quando o despertador tocou, eu acordei. Preparei algumas panquecas para Minkis, Thay e Marcus, depois fiz um chocolate quente para todos nós.

Escovei meus dentes, tomei um banho e vesti uma blusa verde transparente com umas estampas florais da mesma cor. Coloquei uma calça preta e também peguei um broche com uma esmeralda e prendi na blusa.

Calcei um coturno, fiz uma trança nas laterais do meu cabelo e fui acordar as meninas e Marcus para tomar café da manhã.

Eu estava sem fome, então peguei uma maçã verde e fui comendo enquanto preparava minha bolsa para descermos a montanha. Assim que terminei, sentei-me na mesa para tomar um chocolate quente.

Quando Minkis levantou, ela tomou um banho e vestiu uma blusa listrada de mangas compridas de lã, acompanhado de um vestido roxo por cima, calçou uma meia e um sapato antiderrapante. Prendeu o cabelo em um coque e vestiu luvas

Depois Thay também tomou banho e foi tomar o café da manhã. Ela vestia uma blusa de lã roxa bem solta, uma calça de cintura alta e um sapato antiderrapante. Seu cabelo arroxeado estava preso na lateral.

Enquanto comíamos e conversávamos sobre uma maneira de deter as bruxas, Marcus tomava um banho, depois desceu e resolveu tomar o café da manhã. Assim que se se sentou à mesa eu saí para ver onde estava a minha lanterna caso entrássemos na caverna abaixo da montanha.

Peguei meu celular e resolvi mandar mais uma mensagem para Juan, sem sucesso resolvi ligar para o vendedor de iscas de peixe que tinha uma loja perto da montanha para ver se ele tinha visto Juan, ele disse que não viu nada por conta da escuridão do eclipse das bruxas.

Quando todos terminaram de comer, nós pegamos nossos suprimentos e saímos, a nevasca estava um pouco mais fraca, mas o frio parecia estar pior. Entrei no meu iglu de volta e peguei um casaco de pelos verdes, coloquei luvas e um chapéu também.

Depois retornei ao frio que estava do lado de fora.

Eu nos teletransportei para um lugar um pouco abaixo do pico, que era onde se encontrava a caverna. Era menos de cinco metros abaixo.

Andando pelo terreno, encontramos alguns rastros de que alguma coisa teria passado por ali... Talvez Juan rolou do topo da montanha até a caverna.

Quando entramos, Marcus viu a máquina de Dylan e um celular no chão, provavelmente o de Juan.

— Wow... O que é isso? — Perguntou Marcus.

— Eu costumo chamar de caverna. — Eu respondi sarcasticamente passando entre ele e Minkis com a lanterna para tentar encontrar algo.

— É uma máquina que abre portais. Não sei se você sabe de toda história, mas um pinguim com sede de guerra surgiu do nada e tentou abrir um portal para outra ilha. — Disse Minkis olhando para os olhos castanhos e brilhantes de Marcus.

Enquanto Minkis contava a história de Dylan para Marcus eu resolvi tentar encontrar alguma pista no celular, mas ele estava bloqueado por uma senha, pelo menos tivemos um avanço: o celular era realmente de Juan.

Tentei chutar algumas coisas, mas nada dava certo. Percebendo que eu estava com dificuldade, Marcus se aproximou e disse que sabia como desbloquear, mas ele precisaria buscar o celular dele pra fazer isso, existia algum aplicativo que hackearia o celular.

— Nós só precisamos levar o celular pro meu iglu, lá tem internet, caso ele tenha enviado alguma mensagem — Eu sugeri.

De repente uma das seis bruxas apareceu na caverna com a minha varinha, fazendo Marcus desaparecer em uma névoa verde.

— Vocês parecem tão preocupados... Acho melhor descansarem em uma cobertura de alto nível! — Disse ela conjurando um feitiço com a varinha dando uma gargalhada bizarra que parecia ser ouvida por todos na ilha.

Nós ficamos sem entender por uns segundos, pois nada acontecia. Até que de súbito o chão pareceu estar subindo como se fosse um elevador em movimento, mas não era bem isso. Ou era? Eu não sabia, só sabia que minha labirintite tinha atacado.

Um teto apareceu sobre nossas cabeças junto com várias paredes ao redor, tudo se formou muito rápido, os tijolos voavam em volta do nosso pequeno grupo e formavam a parede que era circular, pedaços de madeira voavam também, vidro, carvão, folhas, neve e uma poeira que me cegaria se eu não estivesse com os olhos trancados.

O barulho era estrondoso, o vento então parecia até que ia me tirar do solo, isso se é que havia um.

Parecia que eu estava girando, e tudo ao redor também estava, mas no sentido contrário, eu não conseguia abrir os olhos, só conseguia sentir a poeira e escutar a gargalhada da bruxa.

Então tudo parou, abri os olhos, e estava caído no chão, será que desmaiei antes do feitiço estar concluído?

Estava tudo muito confuso, eu não conseguia enxergar direito, Minkis estava com náusea enquanto Thay sofria de dores de cabeça intensas.

Eu me levantei, esfreguei os olhos e vi um cenário diferente, eu nunca tinha visto, mas parecia-me muito familiar. Assustado, olhei para os lados, eu ainda estava perdido, se eu andasse certamente iria cair.

As paredes do lugar eram bege, havia cadeiras e uma mesa entalhadas, várias flores ficavam penduradas em todos os lugares, havia uma estante de madeira recheada de livros. Uma das paredes tinha desenhos bastante agradáveis aos olhos, em cores pastéis, predominantemente verde, minha cor favorita.

As velas que ali existiam estavam queimadas, e outra parede parecia ser riscada, alguém estava preso ali, assim como nós. Em um altar havia uma Matryoshka, aquelas bonecas russas fofinhas. Cheguei perto dele, nele havia várias velas queimadas, a boneca, um pentagrama e umas ervas frescas, toquei em uma das folhas e ela simplesmente se desfez. Estranho, pareciam tão frescas... A Matryoshka era graciosa, delicada, era uma pinguim de penas brancas, cabelos platinados, de vestes verdes e rosas em tons bem claros, ela era ornamentada com flores e uma coroa de trigo dourada. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto, a boneca me lembrava a minha infância...

Ah! Que saudade!

Tirei a primeira cúpula, havia outra boneca, dessa vez suas penas eram um degrade de branco para preto, sua expressão facial era enigmática e diferente da primeira, mais assustadora, ela carregava uma coroa de espinhos e suas roupas eram violeta e azul bastante acinzentados. Tirei a segunda cúpula, havia uma boneca marrom de olhos fechados, parecia um pinguim de barro. Quando tirei a terceira cúpula me assustei, dando até um passo para trás; ela era preta, um tom de preto muito escuro, parecia que não batia luz naquela parte, havia uma mancha branca e dentro da mancha estava escrito “morte” em sangue fresco. Aquilo arrepiava minhas penas e me assustava muito, parecia que havia sido feito um sacrifício ali.

Guardei as outras bonecas com medo e saí de perto daquilo, mas antes algo aconteceu, quando toquei na última boneca... Eu vi um flash de uma pinguim descabelada com um pincel e uma das bonecas na nadadeira, ela chorava e gritava a cada vez que pintava na boneca.

De repente um livro caiu de uma das estantes em que estava, o que me tirou do flash, me assustando. Era o conto infantil Grampunzel, a história de uma princesa antipática que foi presa em uma torre, até que um dia um príncipe foi levar Croissants pra ela comer, só que ela rejeitou ele... Eu não teria feito diferente, comida não me compra.

Certamente a bruxa que nos prendeu se inspirou nessa história e infelizmente nenhum de nós tinha o cabelo tão comprido quanto o da princesa antipática.

Nós estávamos vivendo um conto de fadas, mas ninguém nunca disse que todos os contos de fadas tinham um final feliz, certo?

Passando as páginas do livro acabamos encontrando umas folhas soltas que automaticamente caíram no chão. Nós não sabíamos ao certo o que eram elas, até que Minkis abriu, e com isso abriu também uma fonte de esperança em todos nós, mas parecia ser o mesmo conto em suas escrituras originais.

Tentando encontrar a saída deixamos as folhas de lado e fomos tentar procurar um escape na própria torre.

A torre tinha três janelas, cada um de nós olhamos em uma, gritando tentando chamar atenção de alguém, mesmo sabendo que ninguém iria ver porque nós estávamos nas montanhas e em uma torre imensa. Até que de súbito, uma das bruxas apareceu no meio da sala, a mesma que apareceu das outras vezes.

— Gostaram da nova estadia? Eu não lembrava que aqui era tão pequeno. — Disse ela rindo.

Reviramos os olhos em conjunto e cruzamos as nadadeiras.

— Essa é só mais uma forma de tentar me convencer entrar pro seu culto ao demônio? — Eu perguntei entediado.

— Oh! Eu tenho certeza que o demônio é uma garota..., mas fazer o quê? A cultura machista não os permite enxergar isso. Quando você entrar pro meu coven, vai ser por vontade própria, eu sei que vai. — Disse a bruxa sorrindo, e quando terminou as luzes piscaram, em seguida ela havia desaparecido. Bastante assustador.

— Credo. — Disse Thay de olhos arregalados.

— Alguma ideia de como sair? Não aguento mais essas desgraçadas vindo aqui toda hora. — Eu respondi com raiva.

— Não sei, mas se a Grampunzel saiu daqui uma vez sozinha deve ter alguma coisa por aqui que ajude! — Respondeu Minkis começando a procurar algo pela torre.

— Ela não saiu sozinha, esqueceu do Principezinho Vermelho? — Perguntei.

— Na verdade nem foi ele, foram uns cavaleiros que passaram pela Floresta Encantada enquanto ela lavava o cabelo — Respondeu Minkis.

Seria bom se tudo aquilo fosse apenas uma discussão sobre contos de fábulas, mas era a realidade.

Não havia sinal de Marcus, ou de Juan, como sobreviveríamos sem comida e sem água?