Quando chegou a porta de entrada da mansão, Marinette se agarrou à embalagem de macarrons como se sua vida dependesse disso!

— Oi Marinette! – o próprio Adrien abriu a porta – Ué cadê a Alya? Ela não iria vir com você?

— O-oi A-adrien! S-sim ela viria, mas a mãe ligou e... Os irmãos... Hã... Ela teve que ir...

Adrien não entendeu muito bem a explicação, mas deu de ombros. O mais importante era que Marinette estava lá.

Ela lhe estendeu a caixa verde com laço dourado.

— São m-macarrons. E-Eu t-trouxe pra v-você.

— Obrigado! – Ele pegou a caixa bem elaborada e deu uma espiadela em seu interior – Parecem deliciosos! Você é muito gentil Marinette.

Ela corou

— Bom, então vamos subir? – Adrien a pegou pelo braço com delicadeza

— Pra onde? – Ela estava como uma estátua fincada no chão. Adrien achou graça

— Até a sala de música, lembra? Para nosso ensaio.

— A sim, é claro — suspirou baixinho. Iria ser uma longa tarde

Adrien queria que Marinette ficasse mais a vontade com ele. Ela o havia evitado o dia todo na escola e ele achou que ela poderia estar nervosa por causa do ensaio. Entraram na sala de música e os olhos dela brilharam.

— Nossa! Que piano mais lindo! – Ele não sabia por que se sentia tão feliz por ela ter gostado.

— É mesmo. Ele pertencia a minha mãe. Ela tocava como ninguém! – Marinette percebeu a emoção na voz dele ao falar da mãe.

— Devia ser maravilhoso ouvi-la tocar! Ela te ensinou?

— Não — Ele sorriu – Meu pai quem me obrigou a ter aulas de piano.

— Sério? Como assim? — Ela o incentivou querendo afastar o semblante triste que caíra sobre seu rosto.

— Ele contratou um professor sem sequer me perguntar e eu não queria ocupar mais do meu tempo com aulas de piano. Porém ele insistiu e eu acabei obedecendo só para agradá-lo. Mas me apaixonei pelo instrumento, pela música e agora para mim é um prazer.

— Que bom! Eu não sei tocar nenhum instrumento. Acho que não levo muito jeito pra isso, apesar de achar maravilhoso.

Adrien riu.

— Assim como eu não me arriscaria a abrir a boca para cantar! – Ele admitiu e ela o olhou com um meio sorriso

— Se eu tivesse escolha agora, também iria preferir não fazê-lo – Ela cruzou os braços e tombou um pouco a cabeça de lado.

O sol da tarde que entrava pela janela iluminou os cabelos negros, destacando ainda mais os olhos azuis daquele rosto angelical. Adrien engoliu seco.

— Ainda bem que você não tem... – Ele se aproximou e tocou-lhe o queixo fitando-lhe a boca e depois os olhos. E como havia acontecido no parque, ele se perdeu naquela imensidão azul.

— Não... Tenho... O que? – Ela sentiu o tremor em sua própria voz. Fitou os olhos verdes de Adrien e a avalanche de sentimentos que havia experimentado no parque voltaram com toda força.

— Escolha... – Adrien percebeu o tremor na voz dela e perguntou suavemente – E então, você trouxe a música?

Ela se afastou um pouco para pegar o papel dobrado dentro de sua bolsa.

— S-sim! Eu imprimi a p-partitura também – ela estava nervosa de novo. Precisava assumir o controle de suas emoções ou colocaria aquele projeto por água abaixo. Ela estendeu o papel para Adrien.

La vie en rose, de Edith Piaf! Eu conheço essa canção, é linda, um clássico! Só não me lembro bem da letra, mas isso é com você. – Ele sorriu confiante — Teremos tempo para deixar essa música perfeita. Podemos começar?

— A-acho que s-sim! – Ele percebeu que ela ainda hesitava.

— Escute – Ele pôs as mãos em seus ombros. Ela sentiu certa familiaridade naquele toque, mas não teve muito tempo para pensar no assunto. Adrien prosseguiu – Eu sei que está nervosa porque será a primeira vez que você vai cantar para um público... Hã... De uma pessoa por enquanto – Ela riu o que ajudou a aliviar a tensão – Mas eu confio em você. E você Marinette, confia em mim?

Ela respirou profundamente. Falando desse jeito...

— Está bem, eu... Confio sim. Vamos começar.

— Boa garota!

Ele se assentou ao piano e começou a tocar os primeiros acordes da música de Edith Piaf. Marinette se lembrou do sonho que havia tido algumas noites antes. Apesar de sentir seu rosto corar com a lembrança, foi o que deu forças para ela fechar os olhos e começar a cantar:

Olhos que fazem baixar os meus

Um riso que se perde em sua boca

Aí está o retrato sem retoque

Do homem a quem eu pertenço

Quando ele me toma em seus braços

Ele me fala baixinho

Eu vejo a vida em rosa

Ele me diz palavras de amor

Palavras de todos os dias

E isso me toca

Ele entrou no meu coração

Um pouco de felicidade

Da qual eu conheço a causa

É ele para mim

Eu para ele na vida

Ele me disse, me jurou pela vida

E desde que eu o percebo

Então sinto em mim

Meu coração que bate

Noites de amor a não mais acabar

Uma grande felicidade que toma seu lugar

Os aborrecimentos e as tristezas se apagam

Feliz, feliz até morrer

Adrien mal conseguia manter o ritmo, tão perplexo estava com a garota que cantava na sua frente. A voz dela era maravilhosa, simplesmente incrível. Era doce e melosa, mas potente e muito afinada. Perdeu o fôlego ao prestar atenção na letra. Era uma história de amor! Sentimentos intensos retratados na canção que ela cantava com tanta expressão que ele sentiu seu coração dar cambalhotas dentro do peito.

Ela cantava de olhos fechados e as mãos juntas na altura da cintura. Mas em alguns momentos da música ela inclinava levemente a cabeça e uma das mãos pousava na altura do coração.

Quando ele me toma em seus braços

Ele me fala baixinho

Eu vejo a vida em rosa

Ele me diz palavras de amor

Palavras de todos os dias

E isso me toca

Entrou no meu coração

Um pouco de felicidade

Da qual eu conheço a causa

É você para mim

Eu para você na vida

Ele me disse, me jurou pela vida

E desde que eu o percebo

Então sinto em mim

Meu coração que bate

Lalalala Lalalala

La la la la

Adrien tocou o último acorde e só então Marinette teve coragem de abrir os olhos. Ele a olhava de um jeito intenso que a deixou totalmente insegura.
— E... e-então?
— Meu Deus! – Ele ainda estava estarrecido e extremamente confuso com a avalanche de sentimentos que o assolaram enquanto tocava e ouvia a linda voz. Suas mãos tremiam e ele tentou disfarçar passando-as pelos cabelos loiros.
— Foi tão ruim assim? – Marinette também tentava lidar com o misto de sensações dentro de si que chegava a embrulhar seu estômago. Em todo tempo que cantava, ela pensava nele, e nos sentimentos que ele lhe despertava. Toda a intensidade desses sentimentos, sensações e a ansiedade do coração, ela colocou na música. Foi a sua válvula de escape. Ela notou que Adrien parecia surpreso e até um pouco nervoso, o que a deixou tensa na mesma hora.
— Ruim? – Ele sentia uma necessidade urgente de tocá-la. Pegou as mãos dela e beijou uma de cada vez. – Você foi incrível! Que voz é essa? Por que esconde esse talento?
Marinette arregalou os olhos surpresa. Ela não fazia idéia de como havia feito aquilo. Não tinha nenhuma técnica. Tudo que fez foi pensar nele e cantar!
— Eu não tenho nenhuma pretensão de ser cantora. Eu só gosto de cantar de vez em quando. – Deu de ombros — A Alya que fala demais!
— Me lembre de dar um presente para a Alya quando eu a encontrar! Você é um achado Marinette!
Ela riu um pouco mais relaxada, porém suas mãos ficaram trêmulas quando ele as beijou.
— V-você também toca maravilhosamente bem Adrien!
— Obrigado! Somos uma dupla e tanto heim! – Ele voltou a se sentar ao piano – Soube que haverá um prêmio para o melhor trabalho da exposição.
— Sim, é verdade. Alya me contou.
— Já é nosso! – Ele disse confiante – Você é nossa arma secreta. Vamos repassar?
Marinette concordou com a cabeça. Em sua mente martelavam as palavras de Adrien. Eles eram uma dupla? Ela era a arma secreta? Era bom demais ouvir isso dele. Trouxe-lhe confiança para continuar.
Eles ensaiaram a canção mais algumas vezes. Adrien agora mais calmo conseguia perceber os pontos em que teria que melhorar. Algumas notas para corrigir, além do tempo da música que precisavam alinhar. Mas no geral estava muito satisfeito! Marinette o havia surpreendido! Ele nunca poderia imaginar que havia tanta intensidade naquela menina de aparência frágil e tímida. Ela conseguia intrigá-lo a todo instante. Quanto mais se aproximava dela, mais tinha vontade de conhecê-la melhor.
Ao término do ensaio, eles lancharam e conversaram sobre vários assuntos. Adrien estava ávido por saber mais sobre ela. Em dado momento o assunto girou sobre o verdadeiro sonho dela, de ser designer de moda.
— Você tem muito talento Marinette! Vai conseguir – ele disse sincero
— Obrigada! Vou me esforçar para isso! – Ela olhou o celular – Eu preciso ir... Está ficando tarde.
— Tudo bem... Vou te acompanhar até lá fora.
Adrien a levou até o portão. Pararam em frente a ele para se despedir.
— Obrigado por ter aceitado cantar. – Adrien agradeceu – Foi um prazer tocar pra você.
Ela sorriu sem graça
— E-eu hã... Que agradeço... Você também foi lindo... Quer dizer... Tocou lindo
Ela era muito fofa! Ele a puxou para um breve abraço porque continuava com aquela necessidade de tocá-la. Beijou-a no rosto como da outra vez que estivera em sua casa.
— Até amanhã Marinette...
— Até...

***


Marinette chegou em casa um pouco depois das sete da noite.
— Pai, mãe, cheguei!
— Já era hora mocinha! – Tom a abraçou – Nós já jantamos.
— Como foi o ensaio? – Sabine veio da cozinha assim que ouviu a filha chegar. Estava curiosa para saber como tinha sido na casa do Adrien.
— Foi... maravilhoso mãe! O Adrien toca piano muito bem. O piano era da mãe dele e é lindo. E eu consegui mãe! Consegui cantar sem grandes erros, mas ainda tenho algumas coisas para melhorar...
Sabine a abraçou
— Sabia que conseguiria!
— Essa é minha garota! Não perco essa exposição por nada! – Tom frisou
— Obrigada Pai! Desculpem por ter perdido o jantar... É que depois do ensaio nós fizemos um lanchinho e ficamos conversando... – Ela corou – E quando me dei conta, a hora voou!
— Eu posso imaginar – Sabine declarou com aquele olhar de quem sabia mesmo como a filha deveria ter ficado distraída na companhia do loiro.
— Eu vou subir, tenho que ligar pra Alya, senão ela me mata amanhã!
— Não vai jantar filha?
— Eu como um lanche mais tarde mãe. Não estou com fome. – Disse já no topo das escadas.
Entrou no quarto e sentou-se na espreguiçadeira. Tikki saiu da bolsinha flutuando e parou na frente do rosto de Marinette.
— Mas o que foi aquilo? O clima estava eletrizante entre você e o Adrien!
— Ai Tikki, não consigo explicar como me sinto! Ele é maravilhoso, gentil, carinhoso... É perfeito! E o sorriso... O mais lindo que já vi!
Tikki abraçou o rosto de Marinette
— Estou feliz por você! Cantou maravilhosamente! Eu mal conseguia ficar dentro da bolsinha. Queria sair de lá para te ouvir melhor!
Marinette riu
— Obrigada por me apoiar e acreditar em mim Tikki! – De um salto pegou o celular – Já ia esquecendo de ligar para a Alya!
Alya não atendeu. Marinette mandou-lhe uma mensagem. Agora precisava fazer a lição de casa. “Aiii como iria se concentrar na lição se sua mente teimava em repassar cada detalhe daquela tarde?”

***


Adrien havia subido para o quarto logo depois do jantar. Por algum milagre dos céus, o pai havia feito a refeição com ele naquela noite. Ele não falava muito, sempre a mesma pergunta, como havia sido seu dia. Adrien sempre lhe dava a mesma resposta que geralmente era “foi legal”, porém essa noite ele havia dito “foi espetacular”. Gabriel arqueou as sobrancelhas de surpresa e indagação ao mesmo tempo. Adrien então lhe contara como havia sido o ensaio, claro que omitindo alguns detalhes.
— Marinette escolheu uma canção de Edith Piaff e a interpretou muito bem! – Adrien havia falado com orgulho da amiga.
A expressão de Gabriel geralmente dura e inexpressiva, suavisou-se um pouco.
— Sua mãe era apaixonada pela música clássica francesa, principalmente as da Edith. Ela tocava quase todas no piano. Seria um prazer ouvir você tocar essa música no piano que era de sua mãe.
— Então você não pode deixar de ir à exposição Pai – Adrien disse esperançoso
A expressão de Gabriel tornara-se fria novamente.
— Vamos ver Adrien. Você sabe que tenho muitos compromissos e obrigações.

Adrien suspirou, voltando ao momento presente. Esperava sinceramente que o pai fizesse um esforço para ir à exposição. Queria muito que ele se orgulhasse de suas conquistas, de suas vitórias e que desse valor àquilo que lhe era importante. Seus pensamentos foram invadidos pela imagem de Marinette e por todos os momentos que viveram juntos naquela tarde. Era impossível não pensar, volta e meia as recordações vinham em sua mente.
— O que foi garoto? – Plagg lhe perguntou. Como de costume estava terminando de comer o queijo nojento. – Aposto que está pensando na garota que ficou aqui a tarde inteira.
Adrien revirou os olhos e virou-se para o kuami.
— Plagg eu já te pedi para não comer esse queijo fedorento na minha cama!
— Você está mudando de assunto – adivinhou o astuto companheiro
— Está bem... Estava pensando na Marinette sim.
— Hum... Já esqueceu da Lady Bug?
— Você enlouqueceu Plagg? A Lady Bug é a garota que eu amo! Ela é meu sonho... A Marinette é minha... Amiga, muito especial.
— Sei... E é costume dos humanos ficarem pensando nos amigos assim com tanta freqüência? Mesmo sendo especiais?
Adrien estreitou os olhos, sabendo exatamente onde Plagg queria chegar.
— É melhor irmos dormir Plagg! Amanhã tenho que acordar cedo para a escola
O kuami deitou-se a seu lado, dormindo quase que instantaneamente. Adrien ainda ficou acordado um bom tempo. Seus pensamentos giravam em torno de sua Lady e de forma surpreendente eram substituídos por imagens da garota com quem havia passado à tarde. Adormeceu embalado pela lembrança da doce voz de Marinette.

***