Miraculous - Amor Revelado

42 Conhecendo o poder maior


O grito de Chat Noir ecoou por todo o prédio da escola naquela manhã cinzenta. Um som que deixava transparecer toda dor, desespero e agonia transbordantes em seu coração. Ele trouxe o corpo desfalecido de Marinette para junto de si, apertando-a contra seu peito, suas lágrimas encharcando os cabelos de ébano. Em sua mente martelava a dura realidade que ele tentava negar, a única coisa que ele temia que acontecesse: Ela se foi...

Ele ainda não conhecera dor maior do que aquela. Nem mesmo quando soube que sua mãe havia desaparecido sentira algo semelhante ao que estava experimentando naquele momento. Dor, culpa, vazio... Um enorme vazio dentro do peito. A luz da sua vida tinha se apagado juntamente com a luz nos olhos de Marinette.
Mais um sinal de alerta foi emitido por seu anel, mas ele sequer se importou. Nada mais importava. Todo o resto ficara em segundo plano, ele não tinha o que fazer e nem para onde ir, o seu mundo estava bem ali, inerte nos seus braços.

— Chat... – Estava tão imerso em seu sofrimento que demorou alguns segundos para ouvir seu nome sendo pronunciado – Chat...

Ele olhou ao redor tentando identificar de onde vinha a voz fraca que lhe chamava. Seus olhos focaram em um ponto vermelho no chão bem ao lado onde Marinette estivera deitada antes que ele a tomasse nos braços.

— Tikki!

A kuami parecia muito fraca e desorientada, mas conseguiu erguer o pequeno corpo e olhou na direção do felino, desviando-se por alguns segundos para o corpo de sua portadora amparada no colo do herói.

— Você precisa nos tirar daqui Chat...

O olhar que ele lançou à pequena joaninha era totalmente vazio.

— Acabou Tikki... Não há mais nada o que fazer e eu sinceramente não me importo.

A kuami reuniu o restante das forças que ainda possuía e com dificuldade conseguiu planar até ficar na altura dos olhos do felino. Falou com a voz mais firme que conseguiu.

— Levante-se e tire-nos daqui, agora! Ninguém pode saber quem vocês são. – Ela viu o sofrimento estampado no rosto de Chat Noir, uma dor que ela reconhecia ser a mesma que se instalara em seu próprio coração. Suspirou e tocou a bochecha do garoto em um gesto de conforto — Confie em mim Chat. Apenas nos tire daqui.

Ele pareceu despertar do seu estado de torpor com aquele toque. Olhou para todos os lados e agradeceu aos céus por não haver aparecido ninguém ainda. Viu Lila começando a se mexer. Ela acordaria a qualquer momento e com certeza haveria alguém para ajudá-la.
Não perdeu mais tempo, colocou Tikki em seus ombros e levantou-se com Marinette nos braços. A dor na perna machucada havia sumido. Com certeza os miraculous haviam curado o ferimento. Porque não haviam curado a sua Mari...?
Tentando afastar os pensamentos dolorosos ele buscou forças para ativar o poder de super velocidade e sair logo dali, uma vez que, com sua audição apurada ele conseguiu ouvir passos que já se aproximavam do local onde estavam.
Foi difícil ganhar velocidade. Ele estava emocionalmente abalado, fora de seu equilíbrio, mas o peso que segurava nos braços o impulsionou a continuar. Ele tentou mais uma vez e sentiu o brilho verde inundar-lhe, concentrando-se nos pés. Com um salto enorme ele pulou para fora das dependências do colégio e passou a correr o mais rápido que conseguiu.

Assim que entrou pela janela do seu quarto, Adrien desligou a transformação, liberando Plagg. Ele achara melhor irem para sua casa. Ainda não sabia o que deveria fazer, mas seu quarto naquele momento parecia o melhor lugar do mundo para se estar. Deitou Marinette com delicadeza na enorme cama e sentou-se ao lado dela, acariciando o rosto de porcelana e os cabelos negros azulados que agora se encontravam espalhados em seu travesseiro. Ela continuava imóvel, pálida, mas surpreendentemente ainda emanava calor do seu corpo conforme Adrien pôde notar ao carregá-la.

Plagg veio planando até a beirada da cama, ele também parecia exausto

— Ela está...? – o kuami negro não conseguiu completar a pergunta. Havia uma tristeza profunda em seus olhos felinos.

— Não! – Tikki respondeu com a expressão séria, compenetrada. Plagg sabia que ela estava pensando em algo – Ela ainda está viva... Mas não por muito tempo.

A mão de Adrien estacou na face da namorada. Virou o rosto em direção a Tikki. Os olhos vermelhos pelo choro estavam suplicando para que ela explicasse o que acabara de dizer.
A joaninha aproximou-se de Marinette e acariciou a testa da garota com as minúsculas patinhas vermelhas. O imenso amor que sentia pela portadora agora transbordava de seus olhos e transparecia em sua voz embargada quando falou

— Ela ainda vive, sua respiração e os batimentos cardíacos estão muito fracos, mas ela ainda não se foi...

Adrien levantou-se de um salto

— Preciso levá-la ao hospital

— Não vai adiantar. – Tikki o alertou – A medicina dos humanos não conseguirá trazê-la de volta. Para eles o quadro dela é irreversível.

— Você tem o poder de cura Tikki, Lady Bug me salvou de uma situação semelhante...

— Eu sei, mas eu não posso fazer isso sozinha e ela não tem forças para invocar seu poder de cura

— Eu não entendo – Adrien passava as mãos pelos fios loiros, totalmente frustrado. Levantou-se da cama, passando a andar pelo quarto enquanto mil perguntas giravam em sua mente – Porque os miraculous não puderam faze-la voltar ao normal?

— Porque a magia que Volpina lançou era forte demais Adrien e quando a Lady Bug invocou os miraculous ela já estava fraca, sendo assim ela precisou escolher...

Adrien que continuava andando de um lado para o outro do quarto parou de súbito e virou-se para Tikki

— Escolher...?

A kuami abaixou a cabeça. Não tinha uma maneira fácil de contar-lhe aquilo.

— Sim. Quando Volpina nos atacou eu sabia que poderia ser o fim. Eu resisti o máximo que consegui e Marinette também foi muito forte, porém não foi o suficiente para mantê-la fora de perigo – Tikki fitou a paisagem lá fora com olhar perdido. Sentia-se culpada daquilo — Ela ainda precisava purificar o akuma e liberar os miraculous, seus poderes não iriam suportar... Ela teve que escolher entre restaurar todo o estrago na escola e curar os possíveis feridos ou... Usar o poder de cura em si mesma.
Adrien olhou para sua própria perna que estivera machucada e agora estava completamente curada.

— Então... Ela preferiu... – as palavras morreram em seus lábios e mais lágrimas inundaram seus olhos.

Plagg que até então apenas ouvia a conversa, aproximou-se do loiro e sentou-se em seu ombro

— Você não devia estar surpreso garoto, sabia que se fosse necessário ela faria algo assim. Ela não foi escolhida para ser a Lady Bug por causa do rostinho bonito, mas sim por causa de seu coração bondoso e generoso.

Adrien lembrou-se de todas as vezes em que Marinette havia sacrificado sua própria felicidade pela dos outros. Lembrou-se do cachecol que ela lhe dera de presente, mas não contara pra ele porque ele achava que havia sido presente do pai. Aquilo parecia ter acontecido há séculos e não há alguns meses. Lembrou-se de que se não fosse por Tikki ter colocado a carta de Marinette no bolso do seu paletó ela teria se afastado dele apenas para mantê-lo seguro, uma vez que não sabia que ele era o seu parceiro de batalhas.
E tantas outras vezes que ela simplesmente se colocava em segundo plano apenas para ver a felicidade de outrem. Abnegação era a palavra que definia Marinette.
Ele ouviu a voz de Tikki trazendo-o de volta ao presente.

— Eu não pude fazer nada para interferir na escolha dela. A única coisa que pude fazer para que ela resistisse por um pouco mais de tempo foi conduzi-la a uma espécie de refúgio dentro de sua própria mente.

Adrien arregalou os olhos em total confusão. Aquilo era muito pra ele

— Como isso é possível?

— É um pouco complicado tentar explicar em termos humanos, mas vou tentar. Como você já deve saber o cérebro humano controla todas as funções do corpo. Na medicina humana muitas vezes um paciente em estado muito grave precisa ser sedado para que possa receber o tratamento necessário. É o chamado coma induzido. O que eu fiz com a Marinette foi algo semelhante, porém a nível... mágico.

— Está querendo me dizer que você a induziu a uma espécie de coma? Assim como aconteceu comigo no ataque de Governant?

— Na verdade é bem diferente do que aconteceu com você. A magia de Governant teve o propósito de aprisioná-lo a um estado de sono permanente em meio a um pesadelo torturante que em pouco tempo te levaria a morte. O que eu fiz foi colocar o cérebro de Marinette para descansar, impedindo que ela sentisse a gravidade de seu estado até que pudéssemos encontrar o tratamento adequado e conseguir traze-la de volta. Porém esse recurso que usei não dura muito tempo.

— Nossa! Impressionante! — Ainda aturdido com todas aquelas informações, uma ideia passou pela mente do loiro — E se a levarmos ao mestre Fu? Ele pode ajudar...

— Não dá tempo de levá-la ao mestre Fu e provavelmente ele também não terá recursos para nos ajudar. Lembre-se que foi o poder de cura da Lady Bug que te salvou. – Tikki tinha a voz urgente agora — Eu estou sentindo Adrien, a Mari está morrendo e só existe uma forma de salvá-la...

— Tikki... – Plagg a chamou em tom de advertência. Adrien percebeu, mas não recuou

— Faço qualquer coisa Tikki! – Declarou decidido

— Tikki é muito arriscado! Não podemos fazer isso. — Plagg continuava exasperado.

Adrien percebeu a dúvida surgir nos olhos da joaninha ao ouvir as palavras de Plagg. Ele a envolveu em suas mãos em formato de concha e olhou no fundo dos olhos azuis.

— Eu sei que você a ama, assim como eu amo. Eu faria qualquer coisa para tê-la de volta, qualquer coisa mesmo. Morreria por isso se necessário. Você sabe não é? Nenhum preço é alto demais se pudermos trazê-la de volta. Então me diga Tikki, qual é a nossa opção?

A kuami vermelha engoliu seco antes de declarar

— Você precisará usar os miraculous da criação e da destruição... Juntos.

— Você quer dizer... Usar o... Poder absoluto?

— Sim, é a única maneira de salvar a Marinette.

Plagg bufou

— Eu não serei conivente com isso ouviram?

Adrien estava confuso

— Mas... O poder absoluto, aquele que Hawk Moth tanto almeja, não seria um poder destrutivo, quer dizer, para dominar o mundo ou sei lá quais os propósitos malignos dele?

— O poder absoluto é mais forte que todos os miraculous juntos. Ele concede aquele que o detém, habilidades extraordinárias, dentre elas o poder de curar. E sim, ele pode ser usado para o mal, mas também pode ser usado para o bem, desde que a pessoa que o controle tenha um coração puro, incorruptível.

Adrien olhou Marinette deitada em sua cama. Ela seria a única pessoa apta para controlar aquele poder, ele pensava. Ela era bondosa, amorosa, justa e tinha um coração gigante. Era muito melhor que ele. Nem de longe ele se sentia digno de receber aquele poder, mas por ela, ele queria tentar.

— Eu farei – Decidiu e Plagg gemeu frustrado, mas Adrien o ignorou – O que eu preciso saber sobre o poder absoluto?

— Na verdade, quanto menos você souber da capacidade desse poder melhor será. O importante é que ele pode tratar o mal causado pela magia da Volpina e trazer Marinette de volta – Tikki fitou os olhos verdes com a expressão séria e falou com certa severidade — Você precisará ser forte, muito mesmo, porque ao sentir o controle sobre esse poder, seu coração será tentado a se corromper.

— Mas como o poder absoluto pode me corromper se vocês são os kuamis que formam esse poder?

— Já ouviu falar naquele antigo ditado, “se você deseja conhecer alguém de verdade conceda-lhe poder”? – Adrien meneou a cabeça afirmativamente – pois bem, não é apenas um ditado qualquer, é a mais pura verdade. Todo ser humano tem um lado sombrio, mesmo que bastante adormecido. Porém o poder absoluto é tão grande e permite tantas possibilidades que consegue despertar o pior das pessoas. Se não controlá-lo ele controlará você!

— Entendi.

— Você precisará manter-se firme em seu propósito de salvar a Marinette e esquecer as outras tantas possibilidades de usar o poder absoluto.

Ele assentiu, ciente de que iria travar a maior batalha de sua vida. A batalha contra si mesmo.

— Lembre-se do que o mestre Fu ensinou Adrien. A força do amor é maior que o poder absoluto. Pense na Marinette, não perca o foco.

— Não perderei. — Ele declarou com uma segurança que estava longe de sentir — Como faremos a junção?

— Isso é ridículo! – Plagg estava bastante alterado agora diante da possibilidade de que aquilo realmente iria acontecer – Não vou permitir que faça isso garoto!

— Plagg... – Tikki tentou acalmá-lo. Ela sabia por que o kuami negro estava tão alterado. Era o mais puro medo

— Não Tikki! Sei que você quer trazer a Mari de volta e acredite, eu também a amo, muito! E meu coração está em pedaços por vê-la desse jeito, mas não podemos arriscar perder os dois!

— Como assim perder os dois? – Adrien perguntou, mas Tikki ignorou a pergunta e olhando para o gatinho preto ela viu como ele estava sofrendo. Ele nunca deixava seus sentimentos à mostra, mas ali estava Plagg, totalmente vulnerável, temeroso de perder seu portador, seu melhor amigo. Ele amava Adrien de verdade, assim como ela amava Marinette. Tikki planou até o kuami negro que mantinha as orelhinhas baixas e o abraçou.

— Não podemos prever o que irá acontecer. Além disso, nós estaremos juntos e faremos o que estiver ao nosso alcance para ajudá-los

— Mas ele pode morrer Tikki... – Plagg forçou-se a fitar seu portador – Se você não conseguir dominar o poder absoluto ele pode matar você garoto, e aí não teremos Chat Noir e nem Lady Bug. Perderemos Adrien e Marinette no mesmo dia.

O loiro compreendeu o temor de Plagg. Havia muitas coisas em jogo ali. Uma decisão importante para tomar e que poderia mudar tudo. Pensou se aquilo não era demais para um garoto de apenas dezesseis anos. Ele deveria estar se preocupando apenas com lições de casa e os pequenos desafios da adolescência. Mas estava ali, decidido a arriscar sua vida para tentar salvar a pessoa que mais amava no mundo sem garantias de que iria conseguir. Olhou para Marinette. Arriscaria tudo somente pela chance de ver aquelas olhos azuis brilhantes mais uma vez.

— Plagg, eu sei que está preocupado. Quero que saiba que você é mais que um kuami pra mim, você é meu amigo. Deu-me a chance de me tornar Chat Noir e de certa forma também salvou a minha vida. Mas você também sabe o que a Mari significa pra mim não sabe? – o kuami apenas balançou a cabeça afirmativamente – Então você também sabe que se houver a mínima chance de eu trazê-la de volta é exatamente o que farei sem me importar com as consequências.

Plagg suspirou. É claro que ele sabia. E sabia que se Adrien não tentasse fazer aquilo ele nunca se perdoaria. Nunca mais ele seria o mesmo se perdesse sua princesa, sua lady. Ele viveria apenas meia vida, se vivesse! Não havia o que fazer para evitar o inevitável. Plagg sentiu a mão do loiro afagar-lhe a cabeça. Voou até o rosto de Adrien e o abraçou

— Você é um idiota de bom coração garoto! Vai conseguir!

Adrien sorriu e Tikki os apressou

— Tudo bem. Não percamos mais tempo. Adrien você vai pegar os brincos da Mari. No momento em que fizer isso eu serei recolhida. Plagg também irá sumir quando você tirar o anel. Você só precisa unir os dois miraculous e a fusão ocorrerá naturalmente.

— Quer dizer que... Eu não preciso dizer nada? Invocar o poder de alguma forma?

— Não. Os miraculous yin e yang só precisam de proximidade para se fundirem. São opostos que se atraem.

— Mas... E você e o Plagg?

— Com a fusão dos nossos miraculous eu e Plagg nos tornaremos um. Então alcançaremos o nível máximo do nosso potencial e os nossos poderes serão combinados como um todo. Essa totalidade é o que chamamos de poder absoluto.

— E é isso que você terá que controlar quando fizer uso do miraculous que surgir em suas mãos. – Plagg salientou

Adrien engoliu seco e assentiu. Uma pergunta veio a sua mente

— Alguém já conseguiu controlar esse poder? Quer dizer... Isso já aconteceu antes?

Tikki abriu um leve sorriso

— Sim para as duas perguntas. Foram pouquíssimas vezes ao longo de todos esses séculos que o poder absoluto precisou ser invocado. Não vou mentir e dizer que todas às vezes foi um sucesso porque não foi... Mas houve algumas vezes em que o portador conseguiu controlar e terminar sua missão.

— E qual dos portadores de miraculous que conseguiu essa proeza Tikki?

A joaninha suspirou profundamente fazendo Adrien imaginar a resposta

— O portador do miraculous da criação.

— Foi o que eu imaginei – O loiro também sorriu sem muito humor

— Não se preocupe com isso Adrien! Até onde sabemos, Chat Noir é tão capaz quanto Lady Bug de controlar o poder absoluto. O que importa é o coração e você tem um muito bom e puro aí dentro. – A joaninha cutucou-lhe o peito no lado esquerdo.

Adrien suspirou e preparou-se para o que viria. Contemplou o semblante aparentemente calmo de Marinette e acariciou-lhe a face. Inclinou-se para beijar-lhe os lábios suavemente e sussurrou

— Eu vou trazer você de volta princesa

Após alimentar Tikki e Plagg, Adrien seguiu as orientações dos kuamis e retirou os brincos de Marinette assim como seu anel. Imediatamente o gatinho e a joaninha desapareceram, provavelmente recolhidos pelos miraculous como Tikki havia lhe explicado.

Chegara o momento. Adrien agradecia aos céus por não ter ninguém em casa àquela hora, além dos empregados. Tanto Nathalie quanto seu pai estavam em outra cidade a negócios e retornariam apenas ao anoitecer. Ele havia ligado para Gorila e dito que ficaria a tarde toda na escola fazendo um trabalho. Ligara também para os pais de Marinette informando que a garota estava com ele e que passariam a tarde juntos. Os pais dela confiavam tanto nele que sequer haviam questionado o fato de que quem ligara para avisá-los fora ele e não a própria filha. Essa confiança que eles tinham nele pesava em seus ombros e revirava-lhe o estômago. Precisava trazê-la de volta, pelos pais dela, por ele, pelo bem de toda a França.

Segurou o anel e o par de brincos um em cada mão e fez uma rápida oração para que aquilo funcionasse. Uniu as duas mãos e imediatamente sentiu as jóias trepidarem. Uma luz muito brilhante envolveu os dois miraculous, cegando o loiro por alguns instantes. A luz tomou a forma de uma esfera perfeita e saiu de suas mãos flutuando diante de seus olhos. Era dourada com algumas nuances arroxeadas. Era algo lindo de se ver.

Subitamente a luz se apagou, restando apenas a jóia que pousou suavemente em suas mãos estendidas. Era um anel, porém nada parecido com o seu original. Esse era dourado, brilhava como ouro puro, era largo e bem no meio havia o símbolo da rosa dos ventos, a unidade dos elementos do universo. Adrien colocou o anel no dedo anelar da mão direita e imediatamente sentiu aquele poder fluir por todo o seu corpo, alma e espírito. Era muito forte. Ele não precisou proferir nenhuma palavra e a luz arroxeada o envolveu fazendo-o sentir a já conhecida sensação de transformar-se. E foi nesse momento que ele perdeu sua consciência.

***

A figura que surgiu no quarto de Adrien após ser envolvido pelo poder absoluto poderia ser classificada como magnífica. O uniforme de couro preto havia dado lugar a outro bem semelhante, porém em tons de roxo e dourado, emitindo uma luz própria constante. Os olhos verdes estavam ainda mais em destaque com o brilho do poder reluzindo nas íris fendidas de felino. Os volumosos cabelos loiros adquiriram um tom mais escuro emoldurando o rosto de traços perfeitos. Era a imagem da beleza e do poder. Seus olhos pareciam conhecer todos os mistérios do universo e seu sorriso era de triunfo. Seu corpo já estava a alguns metros do chão, planando perfeitamente como se sempre tivesse sido assim. Ele sentia que poderia fazer qualquer coisa. Tinha consciência de tudo ao seu redor, seus sentidos foram aguçados ao máximo. Olhava pelas enormes janelas do quarto e sua visão alcançava quilômetros de distância de onde estava. Poderia ouvir cada som que era emitido, até uma agulha que caísse no chão seus ouvidos conseguiriam captar o ruído facilmente. Ele sentia tudo. Olhou para suas mãos, as responsáveis por canalizar todo aquele poder. Queria experimentar! Tocou na primeira coisa que viu em sua frente, o brilho em sua mão ficou mais intenso e de imediato a enorme televisão desintegrou-se sob seu toque. Sorriu, deleitando-se naquela sensação. Aquilo havia sido apenas uma mínima mostra do que aquele poder de destruição poderia fazer. Ele poderia subjugar aquele mundo inferior, dominar todos os seres que ali viviam. Seria como um deus, pois o controle de tudo estava em suas mãos.

Virou-se para sair daquele quarto, ansioso em experimentar a liberdade fora daquelas paredes, extravasar seus desejos. Estava pronto para destruir as janelas e abrir passagem para o mundo lá fora quando seus ouvidos captaram um leve ruído, um som muito sutil. Respiração fraca, quase inexistente. Virou-se na direção do som e deparou-se com a garota deitada na cama que até aquele momento permanecera completamente imóvel, quase impossível de ser notada, quase.
Aproximou-se e imediatamente um perfume delicioso invadiu suas narinas sensíveis. Baunilha. Aquele cheiro lhe era muito familiar. A própria garota lhe parecia familiar. Era de uma beleza estonteante, parecia um anjo.

Mon ange.

Ela estava muito pálida, muito quieta. Ele pôde ouvir o som do coração da jovem que batia fracamente.

Ele queria sair dali, ir de encontro a seu destino glorioso, o domínio de tudo. Sentia seus poderes aumentando a cada minuto. Queria deixar a garota e sair daquele quarto. Afastou-se dois passos e fitou pela última vez aquele rosto. Nesse momento um lampejo surgiu em sua mente e ele viu o sorriso dela bem na sua frente, lindo, terno, acolhedor. Os olhos de um azul oceânico intenso, brilhantes. Memórias de uma vida que ele não queria se lembrar. Aquilo não deveria acontecer! Ele desviou o olhar do rosto angelical e afastou-se um pouco mais, porém sentiu um impulso de tocar a garota do qual não tinha controle. Impossível!
Ele poderia dominar tudo, como não conseguia controlar a si mesmo? Usou a raiva para combater aquele impulso, era a emoção mais rapidamente acessível. Afastou-se mais e uma nova onda de sentimentos confusos lhe atingiu o tirando de seu inabalável equilíbrio. Ele precisava aniquilar a garota, era o seu único elo com aquele que lutava dentro de si por causa dela. Suas mãos brilharam novamente com o poder da destruição, bastava tocá-la e tudo finalmente teria um fim. Foi se aproximando lentamente da cama, seu olhar recaindo sobre a face da garota deitada, indefesa. Só precisava tocá-la para acabar com aquilo. Dentro de si, o turbilhão aumentou e ele sorriu cinicamente. Uma parte de si mesmo tentava impedi-lo, mas ele jamais conseguiria tal façanha, ele tinha o poder absoluto, nada poderia ser mais forte do que aquilo.
De repente seus ouvidos captaram outro som, muito fraco, inaudível aos ouvidos naturais, menos que um sussurro

— Adrien...

Adrien

Aquela voz era tão doce. Aquilo foi o suficiente para fazê-lo parar. A mão brilhante estacou a poucos centímetros do rosto da garota. Aquele nome... Por milésimos de segundo sentiu-se perdido, suas mãos vacilaram, fazendo com que o poder da destruição desaparecesse antes que ele tocasse o rosto de porcelana em uma leve carícia. Então tudo mudou quando a pele suave daquele anjo encontrou a sua.
Sua mente foi invadida por uma enxurrada de lembranças. O sorriso meigo, o brilho no olhar azul quando ela estava feliz, uma música suave tocada no piano e a voz doce que cantava de forma maravilhosa. Uma dança sob a luz do luar no terraço. Sua expressão corajosa e determinada enquanto lutavam lado a lado, os olhos azuis esplêndidos envoltos pela máscara de joaninha. Beijos e mais beijos apaixonados no quarto cor de rosa. Os olhos, sempre aqueles olhos de amor, azuis como os da flor...

— Marinette...

Adrien suspirou aliviado e seus olhos agora cheios de ternura não desgrudavam da face da sua princesa. Ele finalmente havia controlado aquele poder. E só conseguira por causa dela. O poder do amor é maior que o poder absoluto. Mestre Fu tinha razão.
As mãos que estavam no rosto desceram até a altura do coração de Marinette, ela estava morrendo. Restava-lhe pouco tempo. Ele sabia exatamente o que precisava fazer. Concentrou a onda de poder em suas mãos que voltaram a brilhar, porém agora com outro tipo de poder, o de curar. As mãos pousaram no peito e na fronte da garota e a luz dourada espalhou-se por todo o corpo de Marinette.
Adrien precisava buscá-la. Ela estava perdida dentro de si mesma e não tinha forças para voltar. Suas mentes estavam ligadas agora, os corações batiam no mesmo ritmo. Então o tempo pareceu parar e Adrien se viu na mais completa escuridão. De repente uma luz intensa brilhou no final de um extenso corredor. Ele correu até lá e passou pela abertura brilhante chegando a um campo florido. Árvores esplendorosas rodeavam a área de gramado verdinho e molhado. Um lago de águas límpidas e calmas brilhava sob um sol intenso e o som do canto de pássaros enchia o ambiente. Ele andou um pouco mais encontrando uma clareira repleta de roseiras cor de rosa, brancas e vermelhas. Ele sorriu. Claro que a mente de Marinette criaria aquele tipo de refúgio. Era a cara dela.
Então ele a viu. Estava de costas pra ele, sentada no meio da clareira, o vestido rosa claro rodado contrastava com o verde da grama macia e úmida. Os cabelos de ébano estavam soltos e desciam pelos ombros desnudos revelando o contraste com a pele clara. Perfeita, parecia etérea. Ele teve medo de se aproximar mais e ela simplesmente desaparecer.

— Mari... – chamou com voz suave e a viu virar-se em sua direção com um sorriso encantador nos lábios rosados

— Adrien... Você está aqui? Mas como...?

Ele se aproximou, agachando-se e ficando de frente pra ela. Tomou as mãos sedosas nas suas

— Mari, meu amor, precisa vir comigo. Voltar pra mim

— Mas eu não posso sair daqui... Eu não consigo

— Vem comigo amor, eu vou te levar de volta

— Mas aqui é tão lindo Adrien, tão cheio de paz. Porque não fica aqui comigo? Somente nós dois.

Ela tinha no rosto aquele olhar azul como o céu de verão, intenso, terno, apaixonante. Tudo que ele queria era tomá-la nos braços e nunca mais soltá-la e aquela era uma proposta tentadora. Ficar ali, apenas os dois, livres de Hawk Moth e seus akumas, livres de suas obrigações, responsabilidades, livre da dor da perda... Um mundo particular apenas para eles. Sim, era tentador... mas ele forçou-se a voltar a realidade. Aquilo era impossível e mesmo se houvesse essa possibilidade, não era o certo. Precisavam voltar e viver a vida que tinham, da melhor maneira possível, contanto que estivessem sempre juntos.

Ele levantou-se trazendo-a consigo. Fitou os olhos azuis profundamente

— Princesa, existem muitas pessoas que te amam e aguardam seu retorno. Confie em mim, eu sempre estarei com você – ele repetiu as palavras que ela havia lhe dito antes de desmaiar na escola – Eu te amo.

Ela sorriu e ele a beijou transferindo-lhe poder. Os corpos de ambos foram envolvidos naquela luz dourada, levando-os em uma viagem para fora da mente de Marinette. Quando abriram os olhos estavam de volta ao quarto na mansão Agreste.

Por alguns momentos Adrien pensou que poderia tentar encontrar sua mãe, poderia destruir Hawk Moth, poderia realizar grandes coisas com aquele poder... No entanto algo lhe dizia que se ele enveredasse por aquele caminho não haveria retorno e ele perderia tudo. Seu porto seguro estava bem ali na sua frente, o seu lar, sua família, seu tesouro, aquilo que realmente importava. Seu amor.
Com esse pensamento e sem deixar o olhar desviar-se do rosto de Marinette ele retirou o anel desfazendo sua transformação, abandonando o poder absoluto. O brilho dourado se esvaiu e ele voltou a ser Adrien Agreste.

O anel dourado sumiu do seu dedo e em suas mãos estavam as duas jóias dos miraculous da criação e da destruição. Ele colocou o anel prateado de volta em seu dedo e os brincos nas orelhas de Marinette no exato momento em que ela abriu os olhos.

— Adrien... — Havia certa confusão nas íris azuis, mas a cor já estava de volta ao rosto de traços perfeitos, ela estava curada.

Lágrimas escorriam pela face do loiro. Ele conseguira. Havia trago sua princesa de volta.

***