Miraculous - Amor Revelado
24 A origem do caos
Seus olhos fitavam a paisagem urbana do lado de fora da janela da sala de estar de Mestre Fu. Em suas mãos segurava uma xícara de chá que ela ainda não experimentara. Já havia esfriado.
Tikki comia silenciosamente alguns cookies que o mestre havia lhe dado, sentada a seu lado no pequeno sofá marron. A pequena kuami estava tão triste quanto Marinette, mas estava quieta. Parecia saber de alguma coisa que a garota ainda não sabia, mas em breve iria descobrir.
Marinete suspirou. Mestre Fu estava com Chat Noir no quarto, avaliando seu estado. Tivera sorte de não ter dado tempo para usar o cataclismo. Se sua transformação se desfizesse com ele ainda naquele estado de sono profundo, seu corpo e mente não suportariam e ele provavelmente morreria...
Não queria nem pensar em tal possibilidade!
Marinette ainda sentia medo de perdê-lo. Não tinha noção do quão importante aquele gato era para ela. Não saberia mensurar como sua vida seria triste e vazia se ele não fizesse mais parte dela. Às vezes nós só damos valor quando perdemos, ela já ouvira certa vez e agora começava a sentir na pele tal verdade. Porque precisamos passar por determinadas situações para poder enxergar o óbvio? Chat Noir era muito mais do que apenas um parceiro de batalhas, mesmo que eles não soubessem muita coisa sobre o outro, a ligação entre eles era algo forte demais para ser ignorado e somente agora ela conseguia entender, quando corria grande risco de perdê-lo para sempre.
As lágrimas que ela não conseguia controlar inundaram seus olhos novamente.
— Marinette, você precisa ser forte agora. Por ele! Precisa se acalmar. Chat precisa de você – Tikki tentava confortá-la acariciando sua bochecha com as minúsculas patinhas.
— Como posso ajudá-lo Tikki? O mestre disse que apenas eu tenho esse poder, mas que poder é esse que eu desconheço? Eu não posso fazer nada...
— Você pode minha querida... Só ainda não sabe disso.
Ela ouviu a voz de mestre Fu que havia acabado de entrar no cômodo onde estavam. Sentou-se na poltrona a sua frente e segurou suas mãos.
— Como ele está mestre? – Ela perguntou ansiosa
— Na mesma. Wayzz está com ele. Mas logo o tempo de transformação dele irá terminar... O kuami dele deve estar resistindo bastante para mantê-lo como Chat Noir, porém em algum momento as forças o deixarão. Você precisa agir agora.
— Mas mestre, eu não sei o que fazer...
— Minha querida, o seu poder e o de Chat Noir não se limitam ao que vocês têm agora. Você pode fazer mais do que apenas capturar e purificar akumas. Pode fazer mais do que restaurar aquilo que foi destruído. Você tem o poder de curar Lady Bug.
Os olhos de Marinette se arregalaram de genuína surpresa. Jamais havia passado pela sua cabeça que poderia ter mais poderes do que aqueles que já possuía, muito menos que poderia curar alguém.
— Um poder... de cura? – perguntou ainda duvidando daquela informação.
— Sim, cura para qualquer tipo de mal causado por magia. É um pouco limitado quando se trata de doenças da natureza humana, mas já ouvi relatos de curas nesse sentido também. Talvez com uma pesquisa mais profunda possamos chegar até lá, mas o importante agora é você desenvolver esse poder para curar seu parceiro.
Ela custava a acreditar naquilo, mas pouco se importava com suas dúvidas, faria tudo que estivesse a seu alcance para salvar seu amigo.
— Eu farei o que for preciso. Apenas me diga como e o que devo fazer. – Ela disse se levantando, determinada. Daria sua própria vida por Chat Noir se fosse necessário.
— Então chegou a hora de se transformar – mestre Fu olhou para Tikki e esta assentiu confirmando estar pronta para aquela missão importante.
Marinette não perderia mais nenhum segundo sequer.
— Tikki transformar!
Chegaram ao quarto onde Chat Noir jazia deitado na cama. Agora bastante inquieto, ele se debatia e murmurava palavras sem nexo, mas carregadas de pavor. Lady Bug fechou os olhos diante daquela cena. Como ele deveria estar sofrendo com aquilo!
Seu ódio por Hawk Moth atingiu níveis estratosféricos. Ela iria fazê-lo pagar pelo que havia feito a seu parceiro.
— Você precisa se concentrar agora. Não deixe que sentimentos negativos tomem seu coração – Mestre Fu a alertou como se conseguisse ler seus pensamentos, mas na verdade sua expressão denunciava o que se passava dentro de si.
Ela respirou fundo e ajoelhou-se ao lado da cama, apoiando uma das mãos na cabeleira dourada do gato mascarado, fazendo uma carícia leve e reconfortante. Sentiu a respiração dele se acalmar um pouco.
Olhando para aquele rosto que lhe era tão familiar sentiu a calmaria chegar ao seu coração. Ela iria salvá-lo, como tantas e tantas vezes ele a salvara.
— Estou pronta.
Mestre Fu viu a força e a bondade no coração da garota que ele havia escolhido para ser Lady Bug. Ele sabia que ela iria conseguir, bastava um pouco de confiança em si mesma. Ela não sabia ainda, mas estava dando um grande passo em sua jornada. As coisas mudariam um pouco dali em diante.
— O poder está no miraculous, mas apenas você pode invocá-lo. Precisa vir de você também entende? – Ela assentiu – Você vai ativá-lo quando pronunciar as palavras certas, assim como acontece com seus outros poderes. Você saberá o que deve dizer Lady Bug. Apenas se concentre e sinta o poder da cura.
Lady Bug fechou os olhos e lembrou-se de suas batalhas com Chat Noir, cada uma delas foi passando pela sua mente como um filme. Lembrou-se de todas as vezes em que ele se metera na sua frente para lhe salvar de algum ataque inimigo. Ele realmente pensava ter sete vidas, esse presunçoso!
Lembrou-se de seu sorriso cativante e suas piadas e trocadilhos sem graça. Sorriu quando veio a sua memória o dia em que ele lhe dera o colar com pingente de gatinho. Queria ver novamente aqueles olhos felinos tão lindos que ela aprendera a amar...
Pensou em como ela queria curá-lo e tirar toda dor, todo mal que estava fazendo-o sofrer. Queria abraça-lo de novo, beijar os lábios de sorriso zombeteiro e ouvir a sua voz chamá-la pelo apelido que ela fingia detestar... Bugboo... A voz rouca dele soava em seus ouvidos.
Ela sentiu o poder nascer dentro de si. Como uma pequena chama que havia se acendido e começava a crescer. Sentiu a quentura por todo seu corpo restaurando suas forças, revigorando sua alma e entendeu que primeiro a cura vinha para ela mesma. Todo seu corpo foi renovado, ela podia sentir. Hematomas, cicatrizes e dores musculares foram sumindo, ela sentia-se com a força de mil homens.
Então as palavras saíram naturalmente de seus lábios
— Miraculous curar!
O poder em forma de uma luz avermelhada começou a brilhar intensamente na palma das suas mãos. Ela sabia que devia tocar o coração de seu parceiro. Por isso pousou as duas mãos no peito do lado esquerdo onde ainda batia, mesmo que de maneira fraca, o coração de Chat Noir.
A luz que estava em suas mãos expandiu-se por todo o cômodo e logo depois se concentrou no loiro deitado na cama, entrando completamente em seu coração.
Chat Noir vivia em um mundo escuro, sombrio. Sua mãe o havia abandonado e após um ano ele recebera a notícia de sua morte. Seu pai era um homem maléfico que o torturava com palavras e agressões físicas. Ele era um gato de rua abandonado. Porque a única pessoa que ele ainda amava também o havia deixado. Lady Bug havia morrido em sua última batalha e ele não havia conseguido salvá-la. Paris vivia na escuridão desde então. O dia nunca chegava, sempre era noite na cidade e ele vagava pelas ruas sem destino. Os olhos estavam sempre vermelhos pelo pranto contínuo. Ele sentia todo seu corpo doer, desejava, ansiava e esperava pela morte. Havia desistido de continuar...
Enquanto caminhava sem rumo sentiu algo aquecer seu coração. Uma luz brilhou ao redor de todo seu corpo e ele pensou que finalmente morreria... Sorriu feliz quando ouviu a voz daquela que tinha seu coração lhe chamando para unir-se a ela de novo.
— Chat... Volte pra mim gatinho. Estou aqui, por favor, volte! Saia desse mundo, ele não é real, mas eu sou...
Ele abriu os olhos e viu o rosto lindo da sua joaninha bem perto do seu. As lágrimas transbordavam dos olhos azuis. Ele tentou levantar as mãos para limpar-lhe o rosto, mas ainda estava fraco demais.
— Bugboo...
Ela o abraçou forte e sua voz estava carregada de alívio quando falou
— Você voltou pra mim! Você voltou...
Ele ainda estava confuso, mas sorriu ao sentir os braços dela rodearem seu pescoço. Sentiu que suas forças voltavam aos poucos, mas seus olhos ainda estavam pesados. Ouviu uma voz desconhecida dizer
— Ele precisa descansar. A magia era forte demais, mas em pouco tempo ele voltará ao normal.
Lady Bug assentiu. Beijou-lhe a fronte e saiu do quarto ouvindo o primeiro sinal de alerta do anel de Chat Noir apitar.
***
Adrien acordou de um sono sem sonhos desta vez. Estava em uma cama desconhecida. Olhou para o relógio na cômoda antiga. Eram quase sete horas da noite. Sua última lembrança foi a batalha contra o prefeito Bourgeois, vítima de akuma. Isso havia sido no período da tarde e já era noite! Mas o que será que aconteceu?
Governant. Lembrou-se dos olhos de fogo e de se atirar na frente do raio que atingiria Lady Bug. Depois apenas escuridão, pesadelos terríveis que ainda levaria muito tempo para ele esquecer.
Levantou-se rapidamente. Onde ela estava? Será que estava bem?
Plagg surgiu na sua frente e Adrien assustou-se com a expressão séria de seu kuami. Assustou-se ainda mais quando o gatinho negro abraçou seu rosto de modo carinhoso. Plagg não era muito de sentimentalismos...
— Você está bem garoto? – O kuami o soltou, fitando novamente seus olhos – Você quase nos matou de susto.
— Estou bem Plagg, mas... Ainda estou confuso sobre o que aconteceu...
— Eles vão explicar tudo pra você.
— Eles? – Adrien franziu o cenho – Quem?
— O Mestre Fu e lady Bug.
Adrien prendeu a respiração
— Lady Bug? Ela está aqui? Ela sabe que eu...
— Não – Plagg sorriu pela primeira vez desde o início daquele dia terrível – Ela não sabe. Saiu do quarto antes que sua transformação se desfizesse. Ela te salvou Adrien, assim como você a salvou.
Adrien engoliu seco. O que será que o esperava por trás daquela porta fechada. Precisava descobrir o que tinha acontecido.
— Acho que preciso ouvi-los então não é?
O kuami assentiu e se preparou
— Plagg mostrar as garras!
Quando a porta do quarto se abriu e Chat Noir saiu de lá, ela não teve como se segurar. Levantou-se da poltrona e correu até o parceiro jogando-se nos seus braços. Estava tão feliz e aliviada porque ele estava bem, estava ali e ela podia senti-lo.
— Eu morri e fui para o céu, ou estou num sonho muito, mas muito bom mesmo. – ele quis fazer graça para aliviar a tensão daquele momento.
Ela afundou seu rosto no pescoço dele.
— Não brinque com isso Chat. Você quase me matou de susto. Não faça mais isso! – Os olhos azuis o fitaram com desespero, brilhando pelas lágrimas que ela segurava para não derramar.
— Ei – ele segurou o queixo da joaninha com carinho — Me desculpe. Não queria deixá-la tão preocupada my Lady.
Ela o abraçou de novo, suspirando
— O importante é que você está bem.
— Você deve estar com fome meu jovem – Um senhor de olhar calmo veio da cozinha com alguns sanduíches, depositando-os na mesinha de centro da pequena sala.
Chat estava realmente faminto. Olhou para os sanduíches com um sorriso agradecido.
— Muito obrigado senhor...
— Chat, esse é o Mestre Fu. – Lady Bug os apresentou soltando-se dos braços do felino.
Ele encarou o ancião de rosto simpático. Demorou um pouco para se lembrar, mas o reconheceu. Lembrava-se de tê-lo ajudado em seu primeiro dia de aula. No dia em que recebeu seu miraculous.
— Eu me lembro do senhor...
— É um prazer revê-lo meu jovem. Pena que em circunstâncias tão delicadas.
Chat apertou a mão do ancião e seu olhar era interrogativo.
— O que exatamente aconteceu?
— Sente-se Chat Noir e aprecie seu lanche. Nós iremos explicar tudo.
Chat sentou-se ao lado de Lady Bug e enquanto comia ele ouvia atentamente sobre os fatos das últimas horas em que esteve inconsciente. Sua expressão foi ficando mais séria à medida que as coisas eram esclarecidas. Sentiu um aperto no coração com o relato de Lady Bug. Ela havia se esforçado muito para levá-lo até ali.
E o mais impressionante ficou para o final quando soube do novo poder que ela desenvolvera com o propósito de salvar-lhe a vida.
Ele olhou para as íris azuis e pegou na mão dela que estava apoiada no assento do sofá a seu lado.
— Obrigado my lady... – ele agradeceu com voz emocionada e olhar intenso
Ela sorriu surpreendentemente ficando corada de vergonha
— Por nada gatinho. Você sabe que eu não posso viver sem você – Ela tentou dar um tom leve e brincalhão a declaração, mas não conseguiu tamanha a veracidade daquilo.
Chat sentiu seu coração dar cambalhotas dentro do peito. Nunca tinha visto sua lady tão vulnerável. Provavelmente ela estava sensibilizada demais por causa de tudo que passou. Foi o que ele conseguiu deduzir.
Um silêncio constrangedor se instalou na pequena sala. Mestre Fu que observava os dois jovens terminou de encaixar a última peça daquele quebra cabeça em sua mente. Sorriu consigo mesmo. Aquele era o momento de uma conversa séria com os dois jovens que eram tão fortes e corajosos em suas batalhas, inteligentes e sagazes, mas incapazes de enxergar um palmo a frente quando se tratavam de si mesmos e das coisas do coração.
— Bem, existe uma explicação para tudo o que aconteceu hoje e já vem acontecendo há algum tempo.
Eles se endireitaram no assento, os olhos atentos as palavras do mestre.
— Vocês conseguiram perceber mudanças nos ataques de Hawk Moth?
Lady Bug foi a primeira a se pronunciar
— Há dias estamos tentando entender esses ataques mestre. Hawk Moth fica algum tempo sem liberar um akuma e quando acontece, geralmente são vilões muito fortes, difíceis de derrotar. A cada dia fica pior...
Chat Noir concordou e fez a pergunta que há muito tempo os atormentava
— Mestre, diga-nos, Hawk Moth está ficando mais forte?
Mestre Fu acariciou a barba e suspirou. Não havia uma maneira branda de falar aquilo
— Hawk Moth não está ficando mais forte meus jovens... São vocês que estão enfraquecendo.
Eles se entreolharam assustados com aquela revelação
— O que? – Ambos gritaram em uníssono
— Como isso é possível mestre? – A joaninha indagou totalmente perplexa.
— Por qual motivo estaríamos enfraquecendo? – Chat também estava abalado.
Será que precisariam entregar seus miraculous e renunciar aquela missão porque não estavam dando conta do trabalho?
Mestre Fu imaginava os temores que estariam passando pela mente dos heróis e tentou acalmá-los
— Saibam que isso é algo extremamente normal. Todos os portadores dos miraculous da joaninha e do gato já passaram por semelhante situação, principalmente porque geralmente são escolhidos quando ainda muito jovens – ele percebeu a confusão, insegurança e medo que a dupla transmitia no olhar, mas precisava dizer-lhes a verdade. Prosseguiu – A raiz desse enfraquecimento encontra-se no desequilíbrio do poder que está inteiramente ligado ao conflito interior de cada um de vocês. Na idade em que vocês estão é natural passar por dúvidas, incertezas, mudanças de humor e outras situações que os levam a se abalarem emocionalmente, principalmente quando diante de grandes pressões e isso faz com que o equilíbrio do poder do miraculous também seja abalado. Por esse motivo Lady Bug, o poder do talismã não foi suficiente para restaurar a magia que havia atingido Chat Noir.
Ela empalideceu. Sentia-se culpada ao pensar que pelo seu próprio desequilíbrio, seu poder havia falhado e Chat havia sofrido as consequências. Os heróis ficaram em um profundo silêncio refletindo sobre as palavras do mestre.
— O fato é que ser Lady Bug e Chat Noir não é uma missão muito fácil. Parece injusto quando colocado dessa maneira, mas vocês foram escolhidos porque possuem um grande potencial para essa missão, porém as responsabilidades os obrigam a atingir um nível de maturidade maior e mais rápido do que seria normal para a idade de vocês.
O mestre suspirou antes de continuar
— Talvez vocês precisem fazer escolhas difíceis no processo, abrir mão de algumas coisas ou até de sua própria vontade. Mesmo sendo tão jovens precisam estar prontos pra isso. Trata-se de um velho e conhecido princípio, grandes poderes vêem acompanhados de sérias responsabilidades e escolhas difíceis.
Chat fitou os olhos calmos do ancião que contrastavam com a nuvem tempestuosa em seu próprio coração.
— Mas como podemos recuperar esse equilíbrio perdido mestre?
— Vocês precisam se aceitar primeiro, aceitar quem vocês são por trás da máscara – Diante do olhar de dúvida da dupla, mestre Fu fitou os olhos felinos de Chat Noir – Porque você acha que esse é o seu melhor lado se os dois lados são um só?
Chat refletiu sobre aquilo e constatou que ele tinha razão. Ele não gostava de ser o Adrien e tão pouco da sua vida civil, mas amava ser o Chat Noir e a liberdade de poder ser ele mesmo. Na verdade, o Adrien era sua verdadeira máscara.
— E você minha jovem – Ele olhou para Lady Bug que permanecia em silêncio a seu lado – Porque você acha que não consegue ser aquilo que você já é?
Lady Bug entendeu o que ele queria lhe dizer. Ela pensava que sua coragem, força e ousadia vinham exclusivamente de seu alter ego e que sem a máscara ela era apenas a tímida e desajeitada Marinette.
— Isso parece bem complicado mestre – ela suspirou desanimada e Chat passou o braço por seus ombros demonstrando com aquele gesto carinhoso que estavam juntos naquilo, como sempre.
Mestre Fu continuou
— Vocês também precisam aceitar um ao outro. Entenderem que são dois lados de uma mesma moeda. Poder da criação e poder da destruição... não podem atuar separados. Precisam de harmonia entre si, confiança e sintonia. – ele sorriu – eu posso ver isso em vocês, mas em algum momento dessa jornada de um ano alguma coisa aconteceu e vem atrapalhando essa harmonia total. Precisam descobrir do que se trata.
Eles não se atreveram a fitar os olhos um do outro. Sim, havia algo que atrapalhava aquela sintonia entre eles. Seus próprios sentimentos confusos com relação um ao outro.
— Mestre, o senhor acha que se soubéssemos nossas identidades secretas seria mais fácil alcançar esse equilíbrio? – a pergunta viera de Chat Noir, claro, ele tinha um interesse pessoal nessa questão.
— Talvez fosse o caminho mais fácil... Ou talvez não. A orientação de manter as identidades secretas é para sua própria proteção e daqueles que os rodeiam, mas cabe a vocês avaliarem se essa revelação deixaria as coisas fluírem mais facilmente.
— Mas se soubéssemos sobre nossas identidades, não ficaríamos mais vulneráveis mestre? – Lady Bug argumentou e Chat revirou os olhos. Ela sempre queria garantias.
— Poderiam ficar sim minha querida, mas também existe a possibilidade de ficarem mais fortes e unidos, protegendo um ao outro.
Chat a olhou com um olhar triunfante, enquanto ela se encolhia novamente no sofá.
— Vocês entendem? Precisam tomar sérias decisões que não importam quais forem, irão acarretar consequências. Isso faz parte da vida de qualquer pessoa, mas para vocês que carregam a responsabilidade de super heróis precisam ser muito bem avaliadas e deve haver acordo entre os dois.
Eles assentiram refletindo sobre tudo que Mestre Fu havia falado.
— Eu sei que é muita coisa para vocês digerirem, mas precisavam saber desses fatos importantes. Muitos desafios ainda virão meus jovens. O desejo de Hawk Moth pelo poder absoluto parece não ter fim. Ainda não entendo qual a motivação dele, mas sei que ele não irá descansar enquanto não conseguir o seu intento.
Lady Bug fitou o mestre
— Será que conseguiremos derrotá-lo mestre? Talvez não seria melhor se entregássemos nossos miraculous para outros escolhidos mais capazes...
Chat a olhou e viu a dor nos olhos azuis diante daquela possibilidade. Ele não sabia o que lhe doía mais, ter que entregar seu miraculous ou ver sua lady sofrer daquele jeito.
— Você nunca foi de desistir diante dos desafios minha querida, porque o faria agora?
Ela sentiu novamente as lágrimas, mas segurou-as com toda força que possuía. Não queria desistir do seu chamado, do seu destino, mas ela sabia que não suportaria perder Chat Noir. Mais do que nunca ela tinha consciência de que estavam ligados, todos os riscos que ela corresse ele também correria. Ela sabia que ele não deixaria de protegê-la porque era leal demais. Ele era um verdadeiro herói... e ela tinha medo, e se não superassem o desequilíbrio? E se seus poderes falhassem novamente...?
— Não se preocupe my lady – Chat fitou os lindos olhos azuis como se pudesse ler seus pensamentos – Eu estarei sempre do seu lado. E vamos vencer, porque somos fortes quando estamos juntos. Confie em mim e confie em si mesma. Você conseguiu algo maravilhoso hoje, um novo poder! Você é a heroína que Paris precisa!
Ela sentiu conforto nas palavras de seu parceiro. Ele tinha esse poder de animá-la sempre que sua confiança caía por terra.
— Nós somos! – ela disse com um meio sorriso
Mestre Fu ainda precisava dizer algo para aqueles dois. Ele tinha certeza de que haviam nascido um para o outro. Ele só errara uma vez na vida e sabia que não estava errado a respeito deles, só precisava fazê-los enxergar o óbvio.
— Ouçam, existe um poder maior do que qualquer miraculous. Um poder maior até mesmo que aquele que Hawk Moth tanto almeja. O verdadeiro poder absoluto é muito mais antigo, milenar, transcende os tempos e épocas.
— Que poder é esse mestre? – Lady Bug quis saber
O mestre olhava de um para o outro e disse com toda sua sabedoria de mais de cem anos na terra dos viventes
— Amor, minha jovem. Puro e simples amor. A força mais poderosa que existe. – Chat Noir e Lady Bug enrubesceram o que deu ao mestre mais uma razão para prosseguir — O amor que tudo crê, tudo espera e tudo suporta. Que não exige nada em troca, que é verdadeiro e sincero... No entanto esse amor precisa ser revelado para mostrar o seu poder. É como as águas de uma represa. Enquanto estão cercadas pelos muros de concreto não se consegue ver a sua força, são águas calmas e tranquilas. Mas ao romper os muros, as águas ganham uma força devastadora, capaz de vencer qualquer obstáculo a sua frente. É esse o poder de um amor revelado, conhecido, livre de qualquer impedimento. Pensem nisso antes de tomarem suas decisões.
Eles haviam entendido muito bem o recado. A maior parte de seus conflitos vinham do coração. Eles se entreolharam e ficaram cativos um do outro, o verde no azul, até que ouviram o sinal de alerta de seus miraculous.
— Precisamos ir... – Lady Bug murmurou
— Tem razão... – Chat concordou
Mas não desgrudavam os olhos um do outro. Mestre Fu pigarreou, despertando-os.
— Espero que possamos nos encontrar novamente em breve, em circunstâncias menos... Drásticas.
Lady Bug olhou para o ancião e sorriu agradecida.
— Obrigada mestre... Por tudo! – Ela lhe deu um beijo na face, fazendo o simpático senhor sorrir
— Foi um prazer revê-lo mestre e obrigado! – Chat apertou a mão do homem com firmeza. Havia aprendido muito com ele aquela noite
— Vá em paz meu jovem e até breve!
A dupla saiu da casa de mestre Fu e ao chegarem à rua ficaram parados, como se não quisessem se separar ainda. Precisavam ir para lados opostos, mas não tinham nenhuma vontade de fazê-lo.
Chat colocou as duas mãos nos ombros da sua Lady naquele gesto que lhe era tão familiar.
— Bugboo... Eu não sei como te agradecer por me salvar
Ela meneou a cabeça e sorriu
— Você me salvou tantas vezes Chat, não precisa agradecer.
— Precisamos conversar...
— Eu sei, mas não agora. Tenho muitas coisas na cabeça para colocar no lugar
— Nos vemos na patrulha então?
— Sim, conversaremos na patrulha. – Ela não sabia se aguentaria esperar ainda três dias, mas precisava de tempo para pensar.
— Então até breve my lady – ele curvou-se e beijou-lhe a mão
Ela não soltou a mão dele, simplesmente colocou seus braços ao redor do seu pescoço e beijou-lhe os lábios. Chat ficou sem reação por um breve momento, porém não pode resistir ao doce sabor da sua joaninha. Ele a abraçou pela cintura trazendo-a ainda mais para si e aprofundando o beijo. Ficaram perdidos um no outro até ouvirem o sinal de alerta de seus miraculous pela terceira vez. Separaram-se ainda se olhando intensamente. Lady Bug foi a primeira a romper o contato.
— Até breve chaton!
— Até my lady!
Os dois seguiram direções opostas.
Pela janela da sua casa, mestre Fu e seu kuami observavam os heróis de Paris.
— Quanto tempo o senhor acha que eles vão demorar para perceber que se amam mestre? – Wayzz perguntou com um enorme sorriso.
Mestre Fu olhou para seu kuami de forma enigmática e respondeu
— Eles já sabem disso Wayzz. A pergunta é... quando esse amor será revelado...?
***
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