Miracle
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Karamatsu via Nyaa como sua deusa Vênus encarnada. Tinha os cabelos perfumados, os olhos verdes brilhantes pela possibilidade de um desafio extra, a postura decidida. Tinha um amor próprio único que poucos poderiam entender, mas, ah, como ele entendia! Era a sua flor, mais que um rosto bonito, mais que venenosa, ela podia ser tão verdadeira e clara como uma água cristalina, um reflexo no espelho.
Tinha em si enfeites tanto quanto Karamatsu tinha para, quando alguém se aproximasse muito, revelar, como o rapaz, um vazio por promessas quebradas e outras cumpridas com preço.
Nyaa, como ele, tinha criado uma distância entre as pessoas que um dia gostaram dela, uma barreira, quando tentou mudar sua classe social. Isso para virar alguém que as pessoas quereriam se tornar: uma estrela. No caso de Karamatsu, o que queria mudar era seu estilo comum, que em nada se diferenciava de seus irmãos, até adotar aquele que usava até o tempo presente. Eles conseguiram o que desejavam... mas tinha valido a pena?
Tornaram-se pessoas mais solitárias do que um dia teriam sido. E eles se enganaram por um tempo pensando que “isso seria o bastante”, porque para algumas pessoas era o bastante, mas não no caso deles. Não poderia ser o bastante, uma vez que ansiavam por aquele amor romântico que muitos juravam apenas se encontrar em contos de fadas, que mais libertava que prendia, de sacrifício sem dor, porque nada era mais belo do que ver sua pessoa amada feliz.
Eles procuravam sem dizer nada, em uma esperança fútil que seu príncipe ou princesa apareceria casualmente em suas vidas e os levaria a um mundo mais iluminado.
Quando viram que isso não daria certo, e vieram os problemas que ameaçavam as conquistas que eles tinham adquirido a custo, eles quebraram, pouco a pouco, tão silenciosamente quanto a forma que usaram para fazerem a sua busca. Ninguém os entendeu, porque não tinham se feito entender. Dessa forma, não poderiam culpar seus conhecidos. Mas eles tinham que encontrar uma solução, de alguma forma.
E essa solução veio, um dia, em uma tarde nada diferente das demais. Apesar de toda a loucura que a sua vida tinha se tornado quando virou uma idol, Nyaa nunca tinha deixado de ser atenta. Dessa forma, ela o notou. Karamatsu tentava sem muito sucesso flertar com uma dupla de amigas quando uma delas jogou a bolsa que trazia no rosto dele, que acabou caindo com tudo no chão.
— Eh? — Karamatsu disse, em um gemido dolorido, muito surpreso.
— E nunca mais tente falar conosco, seu doloroso! — A moça falou irritada, pegando a bolsa que tinha jogado e indo embora com a amiga.
—... extravagantes aquelas poses, hum? — Nyaa disse, pela forma como Karamatsu tinha girado e fingindo dar um tiro, no “heart”, das moças. — Consegue se levantar?
Karamatsu olhou surpreso para Nyaa, que estava com suas roupas camufladas de quando saía para dar uma volta. Depois, de súbito, o rapaz deu um sorriso confiante e disse, com o queixo entre o dedo polegar e o indicador:
— Huh. Nada com o que precise se incomodar, lady. — Karamatsu disse, se levantando, sem deixar de fazer uma pose para ajeitar os óculos escuros no rosto, apesar de Nyaa claramente ver que ele estava sentindo dor pelo golpe que levou no rosto, devido as lagrimazinhas no canto dos olhos. — Isso é apenas um teste do destino para um guilt guy. Aliás... are you free tonight?
— Hum? — Nyaa disse, arqueando uma sobrancelha, um sorriso divertido se esboçando em seu rosto. — Você acabou de receber uma rejeição bem feia... ainda tem vontade de arriscar a sorte?
— Eu sou um cara sortudo por te encontrar, lady misteriosa. — Kara disse, baixando um pouco seus óculos escuros. — Você é... eu sei...!
Ele tentou dar um giro como da outra vez, mas um gatinho casualmente estava passando àquela hora. Então, ele acabou tropeçando no animal e os dois acabaram em uma luta sem sentido por parte do animal irritado.
— Ai, ai, ai, ai... Mistake. — Kara disse, meio confuso, o rosto além de vermelho pelo golpe de antes agora com vários risquinhos das unhas do gato.
— Você estava dizendo...? — Nyaa questionou com um sorriso, tentando segurar uma risada.
—... Hum... — Kara disse, ao ver seus óculos escuros no chão, quebrados. Um suspiro finalmente deixou os lábios dele. — Understand. Até um guilt guy tem que entender seus limites... quem sabe uma próxima vez, lady, se minha Vênus assim permitir.
Kara se levantou outra vez e limpou a sujeira da calça. Pegou um plástico no bolso e começou a catar os pedaços dos óculos do chão, algo que Nyaa teve a impressão de acontecer com frequência. Ela pensou que seria a brecha que precisava para ir embora e dar adeus aquele estranho. Chegou a dar um passo ou dois para longe, só que parou. A garota retornou o olhar para o rapaz, e o acompanhou ali mesmo, sem entender ao certo as próprias razões.
Franziu o cenho. Não havia nenhuma vantagem para ela em levantar o astral daquele rapaz que provavelmente só iria querer explorar sua gentileza. Devia ter encontrado algo, alguma jóia, mas se fosse tão pequena a ser desprezível ela só estaria perdendo tempo enquanto o príncipe que aguardava já estava se apaixonando por outra. Agora era sério... tinha que dar um fim naquilo!
Nyaa se forçou a olhar para frente, para longe, e continuar seu caminho. Uma risada já estava prestes a deixar seus lábios, quando estava perto do fim da rua, até que ouviu um barulho de algo caindo na água. Algumas vozes surpresas, alguém chamando por uma ambulância, e Nyaa olhou para trás com muita surpresa. O rapaz não estava mais onde antes se encontrava.
“Como? Como havia caído nesse espaço tão curto de tempo? É alguma maldição, por acaso?” Nyaa pensou com tanto espanto para ter algum divertimento com a situação.
— E você o acompanhou no hospital? Mesmo vocês sendo desconhecidos? — Atsushi perguntou com surpresa.
— Eu devia estar mesmo entediada. — Nyaa disse, dando de ombros, colocando a xícara de café que havia terminado sobre a mesa.
— E então? Ele sobreviveu? — Atsushi disse com curiosidade. Apesar do que Nyaa tivesse dito, não era qualquer um que ganhava o olhar da amiga.
— No dia seguinte, ele já estava na ponte de novo. Um idiota mesmo... — Nyaa disse um pouco melancólica. Ao sentir o olhar questionador e preocupado de Atsushi sobre si, ela tentou explicar melhor. — Bem, acho que ele é um pouco parecido comigo. Sabe, ele tentou flertar com algumas garotas outra vez... só que depois de um tempo ele parou. A expressão dele me lembrou algumas coisas...
— Ainda quer desistir? — Atsushi disse em um tom tão triste quanto o dela. — Você sempre quis ser uma idol. Só porque não há tantos fãs como antes...
— Esse é o fim que todas nós iremos ter cedo ou tarde. — Nyaa disse, dando um suspiro. — Sinceramente, não poderia reclamar, porque fui querida por um bom tempo. Já está na hora de outra tomar meus holofotes...
“Apesar que eu lutei tanto para chegar onde estou para ter esse sentimento de querer desistir.” Nyaa pensou consigo, sem querer compartilhar com outro. Atsushi já tinha sido uma pessoa boa o bastante para querer aceita-la outra vez como amiga depois de tê-lo afastado.
— Vou vê-lo outra vez, pelo menos mais uma vez... — Nyaa disse pensativa, retomando o assunto. — Acho que eu tenho que dizer algo. Tenho que admitir que fiquei um pouco preocupada...
Karamatsu não estava lá. Por que ele não estava lá? Nyaa olhou os arredores aflita. Aquela expressão que ele tinha feito antes era tão familiar para ela que até mesmo a fazia voltar para aquele dia em que encarava a si mesma no espelho. Aqueles sentimentos alojados em seu peito, os insucessos que não conseguia mais suportar... havia nascido para brilhar, não importasse o que os outros tivessem lhe dito quando adolescente ou criança.
Não havia nascido para ser uma dependente, apesar do que uma vez havia dito para sua rival na carreira para parecer melhor na vida: “rica e casada”, como se fosse a formula exata da felicidade. Na verdade, Nyaa estava com medo, ia perder a coisa mais importante da vida dela. Queria, pelo menos, alguém que lhe desse apoio, mas não queria admitir em voz alta.
“Talvez ter dinheiro e um casamento a distrairiam de sua paixão”, ela pensou, o que se revelou uma fórmula exata para a infelicidade. Então, se divorciou pouco depois. Desse modo, mais vazia do que antes, Nyaa se encarava no espelho outra vez e ela pensou em cenários cada vez piores a ponto de, quando relembrava, lhe causava ânsias de vômito e tonturas.
“Que ele não tenha escolhido nenhum deles...” Foi um dos últimos pensamentos que passaram em sua cabeça enquanto corria sem rumo pela cidade até que esbarrou em alguém.
— Ai! Olha pra onde anda, seu...! — Osomatsu disse em um tom raivoso, virando-se para ver quem tinha a ousadia de acertá-lo, quando percebeu que Nyaa estava chorando. Dessa forma, continuou em um tom mais calmo, desesperado até. — Minha nossa...! Desculpa, moça, você está bem? Se machucou?
—... a lady misteriosa...! — Karamatsu disse, ao observá-la, muito surpreso.
Não estava usando a jaqueta de couro e os óculos escuros da vez que se encontraram, mas sim um moletom azul. Parecia cansado. Mesmo assim, ele deu um sorriso e lhe estendeu a mão livre. Não disse mais nada, apenas esperou sua reação. Nyaa segurou a mão dele para se levantar, e ele pareceu um pouco surpreso com isso, mais ainda quando ela não soltou quando estava devidamente de pé. Então, ele disse, incerto:
— Hum... lady...
— Meu nome é Reika. — Nyaa disse, percebendo que o rapaz de moletom vermelho ficou inquieto onde estava e ela sabia o porquê, mas decidiu que não era algo a ser resolvido naquele momento. — E o seu?
—... Karamatsu... — Karamatsu disse, ainda olhando para as mãos juntas. Um sorriso meio triste apareceu em seu rosto. — Sorry, lady Reika, não acho que estou free tonight.
— Não precisa ser hoje. — Nyaa disse pensativa, sentindo os olhos arderem pelas lágrimas de antes. — Mas quero que a gente saía um pouco, está bem?
Ela se inclinou sobre o Matsuno de moletom azul e lhe deu um beijo na bochecha. Osomatsu parecia que ia ter um infarto a qualquer momento e Karamatsu tinha um rosto muito vermelho. Nyaa disse alegre para Kara:
— Até outro dia!
A vida de Karamatsu, em seus piores ou melhores momentos, sempre foi cheia de surpresas. Em um dia, um caminho esmagava os dedos de sua mão quando ele já tinha caído antes por conta de um grupo de corvos que estavam tentando pegá-lo por ter esbarrado em sacos de lixo quando estava fugindo de alguns cachorros de rua. Outro dia, ele estava em um café com uma das idols mais populares da cidade, ou pelo menos havia sido por um bom tempo, Nyaa-chan.
Ele devia estar muito contente, e realmente estava. Contudo, não necessariamente por quem a garota era ou foi, não pela imagem que era transmitida dela na mídia, mas sim por quem ele estava vendo em sua frente. Ela tinha um heart que trazia um sunshine em uma noite triste.
Quando Choromatsu descobrisse a respeito ele estaria morto, mas enquanto ainda não era o alvo de sua ira, aproveitaria aquele pequeno momento de tranquilidade.
— Ai, ai, ai, ai. — Nyaa disse, massageando a barriga depois de alguns momentos resistindo bravamente.
— Honey, você está bem? — Karamatsu disse muito preocupado, tendo uma sensação de déjà vu.
— Tudo bem, é um preço a se pagar... ai, ai, muito dolorido. — Nyaa disse, se apoiando na mesa para ficar de pé. Kara prontamente se aproximou da garota e apoiou um dos braços dela nos ombros para ajudá-la. Já tinham pago a conta, mas esperavam o restaurante fechar para irem embora. Não era como se pudessem se ver todo o dia. — Dessa vez, foi um pouco demais, Kara-nyaa.
— I'm so sorry, darling! — Kara disse, olhando bem para o rosto de Nyaa, após ter certeza de que a tinha apoiado em si direito. — Assim está bom?
— Perfect. — Nyaa disse contente.
— A-Alright. — Kara disse, desviando o olhar, o rosto se avermelhando muito.
Notas finais
Nos vemos!
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