Miracle
3 Capítulo Três — New Home
Notas iniciais
Miracle
Capítulo Três — New Home
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Mesmo que inicialmente Izaya tivesse trocado pouquíssimas palavras com Mai, para ele já havia ficado bem óbvio que a jovem carecia de algumas noções sociais e até mesmo de bom senso, ainda que ele não conseguisse explicar o porque dela ser assim. Por isso, visando evitar futuros transtornos, o rapaz optou por esclarecer algumas questões de convivência com ela antes de levá-la para sua casa.
Gastando toda manhã em uma lanchonete simples de Ikebukuro, Izaya explicou para Mai várias questões e regras importantes que ela deveria se ater enquanto estivessem vivendo sob o mesmo teto. Já que Mai iria morar com ele para ajudá-lo, ela deveria se mostrar realmente útil, caso contrário o acordo seria desfeito. Outro ponto importante era o trabalho de Izaya. Mai não deveria em hipótese alguma interferir em seus negócios ou dizer a alguém as coisas que acabasse vendo ou ouvindo em seu escritório. Não incomodar o próprio informante também era outro ponto muito importante. Izaya não tinha paciência com crianças e ser babá de uma estava definitivamente fora de seus planos.
— Não me traga problemas — frisou. — Iremos morar juntos, mas isso não significa que sou responsável por você.
— Certo ~ — ela respondeu com tranquilidade, saboreando do chocolate quente que Izaya havia lhe comprado.
Revirando os olhos, o rapaz bebericou um pouco de seu café. Aquela garota sentada a sua frente era realmente uma pessoa estranha, pensou ele. Sem falar que parecia completamente desprovida de bom sendo. Afinal, que tipo de pessoa, ainda mais uma mulher, aceita sem receio algum morar sozinha com um homem totalmente desconhecido? Será que ela não temia por sua segurança ou não questionava possíveis segundas intenções escondidas nas motivações de Izaya? Qualquer pessoa, prudente ou não, desconfiaria ao menos um pouco de uma situação como aquela.
Muito estranho, pensou. Talvez essa garota esteja escondendo algo. E, se é assim, preciso descobrir o que é o mais rápido possível.
— Ei, Izaya — Mai chamou. — Qual o seu trabalho?
— Eu sou um informante — respondeu.
— E o que um informante faz? — Insistiu ela.
— Diz as pessoas o que elas querem saber e compra segredos.
— Oh ~ — ela se mostrou impressionada. — Isso significa que você consegue responder a qualquer pergunta?
O questionamento de Mai o fez erguer uma sobrancelha, um tanto surpreso com a forma literal com que ela interpretou sua resposta. Ele a encarou por alguns instantes, curioso, e então de um sorriso fino.
— Sim — disse tranquilamente. — Consigo responder à qualquer coisa que me perguntarem, pois eu se de tudo que acontece nessa cidade.
— Realmente?! — Ela pareceu momentaneamente assombrada. — Isso quer dizer que sabe até sobre mim?
O sorriso do rapaz desapareceu e ele abandonou sua xícara de café sobre a mesa, erguendo-se de seu lugar.
— Hora irmos, Mai — falou.
Após pagar a conta, ambos deixaram a lanchonete e, com Izaya guiando-a, começaram a caminhar em direção ao seu escritório. Durante o trajeto, foi a vez de Mai falar, essa que fez ao informante incontáveis perguntas sobre diferentes assuntos — um tanto aleatórios, na verdade —, mas todas de uma simplicidade tão grande que era até estranho ela própria não saber as respostas. Já Izaya, por sua vez, respondeu cada uma delas pacientemente, mesmo que no fundo aquilo estivesse começando a irritá-lo.
— Chegamos, Mai — falou o rapaz, parando de frente para um grande prédio com incontáveis andares e belas vidraças.
— Nossa, é enorme! — Exclamou a jovem, maravilhada.
Izaya suspirou, pegando as chaves do bolso.
— Não é o prédio todo, apenas o último andar — esclareceu.
— E como ele é alto… — continuou ela, não prestando muito atenção nele.
Revirando os olhos novamente, o informante adentrou com a jovem no edifício. Cruzando uma luxuosa área de recepção, eles entraram em um elevador que os levou até o último andar. O corredor em que saíram era longo e continha apenas uma porta, que foi para onde o rapaz se dirigiu com sua acompanhante.
— E é aqui que começa nosso pequeno acordo, Mai — comentou ele, com um sorriso malicioso. — Conto com você ~
Abrindo a porta, ele deu passagem a Mai com um floreio, apresentando seu escritório. Cheia de curiosidade, ela entrou, olhando incrivelmente fascinada para aquele novo lugar que agora seria sua casa.
— Enfim tenho um lugar para ficar — ela sussurrou.
— Venha, vou te mostrar tudo.
O apartamento de Izaya possuía dois andares. O primeiro servia como escritório, muito espaçoso, bem organizado e com uma decoração moderna e luxuosa. A parede de frente era toda coberta por grandes janelões, que iam do teto ao chão, e de frente para elas posicionava-se uma grande mesa de trabalho, equipada com um computador, notebook, impressora e materiais para escritório. Já nas paredes laterais, uma delas era repleta de estantes cheias de livros e uma mesa a parte com bancos, enquanto na outra ficava as escadas para o andar superior e um conjunto de sofás de couro com televisão e uma mesinha de centro que também podia ser usada como kotatsu. E, por último, havia uma cozinha que ficava na parede ao lado da porta, cercada por bárias bancadas e com aparelhos para uso diário.
— Maravilhoso! — Suspirou a jovem, correndo para os janelões e contemplando impressionada a privilegiada visão que tinha de Shinjuku.
Observando suas reações, o informante fez uma careta de desgosto. De aparência, Mai aparentava ser uma adolescente, porém seu comportamento e as perguntas que fazia davam a quem via a impressão de ser uma criança com um nível de experiência abaixo do normal.
Crianças são tão irritantes, pensou ele com frieza. Acho que é por isso que nunca gostei das minhas irmãs.
— Vamos, saia dai vou te mostrar o resto…
Ao notar Namie parada perto do sofá, olhando-o de forma inquisitiva, ele parou de falar e lhe deu um sorriso descontraído.
— Oh, não te vi ai ~ Por acado estava se escondendo de mim? — Riu ele.
— Quem é essa garota? — Perguntou sem rodeios.
— Nossa nova amiga ~ — respondeu em tom meloso.
Balançando a cabeça de um lado para o outro em desaprovação, ela lhe deu as costas e foi para a cozinha retomar seu trabalho.
Dando de ombros com indiferença, Izaya caminhou até sua mesa e se acomodou, ligando o computador. Ia deixar para mais tarde seu pequeno “tour” com Mai pelo apartamento e usar o pequeno tempo livre que tinha naquele momento para descobrir um pouco mais sobre ela.
— Quantos anos você tem, Mai-chan? — Quis saber, demonstrando um pouco de falsa simpatia para conquistar sua confiança.
Desgrudando os olhos da janela, a jovem virou-se para o mais velho e o encarou em dúvida.
— … “–chan”?
— Prefere que eu use “-san”? — Sugeriu.
Ela apareceu ficar ainda mais confusa.
— Não compreendo… — falou incerta. — O que essas coisas significam?
O rapaz a encarou por alguns instantes sem dizer nada.
— Fluente em japonês, mas não compreende esses termos? — Ponderou.
Talvez ela fosse estrangeira, o que seria uma grande descoberta e, principalmente, daria um pouco de lógica àquela situação fora do comum.
— Bem — ele começou, notando que ela ainda estava perdida. — A língua japonesa conta com alguns sufixos para determinar o grau de intimidade e respeito entre as pessoas. Usar “-chan” com alguém significa que você é muito próximo dessa pessoa, enquanto o “-san” demonstra respeito e formalidade.
Mai o observou.
— Isso não faz sentido.
— O que? — Izaya riu de sua sinceridade. — Claro que faz, ao menos para as pessoas de nossa cultura. Por acaso você não é daqui?
A jovem olhou para os próprios pés, visivelmente desconfortável.
— Eu não sei…
Curioso com sua declaração, o informante tirou alguns instantes para pensar um pouco mais a respeito de Mai. Aparentemente nada sobre ela fazia sentido algum. Falava fluentemente japonês, sem qualquer indício de sotaque, mas não compreendia a cultura do país. E agora não sabia dizer nem de onde vinha. Tudo a respeito dela era vago e misterioso demais.
Ou talvez ela tenha perdido a memória, ponderou. É uma alternativa bem incomum, mas ao menos é a que mais faz sentido.
— Por acaso… — ele começou, mais logo tendo que parar ao ver Namie se aproximando.
— O cliente de hoje chegou — avisou.
Suspirando, o rapaz virou-se para Mai, lhe direcionando um olhar sério.
— Lembra das regras? Hora de colocá-las em prática — declarou. — Suba as escadas e me espere lá em cima. Não desça até que eu a chame.
Assentindo sem questionar, a jovem acatou suas ordens sem demora. Indo até as escadas, ela subiu para o andar superior. Chegando lá, deparou-se com uma galeria com três portas e uma sala com estantes de ferro cheia de livros e papeis. Sem saber onde entrar, arriscou a primeira porta.
Lá embaixo no escritório, Izaya já esperava pela visita de Shiki naquele dia, no entanto, não conseguia deixar de pensar que ele havia escolhido um péssimo momento para aparecer.
— Seja bem-vindo, Shiki-san — cumprimentou ao vê-lo entrar. — O que traz para mim hoje?
Sem nem ao menos se dar ao trabalho de sentar, ele caminhou até e mesa de Izaya e jogou sobre ela um envelope lacrado.
— Preciso que “pesquise” sobre essas pessoas — pediu.
Com um sorriso confiante, o rapaz pegou o objeto e o abriu, checando seu conteúdo.
— Hm, interessante — comentou, lendo os papeis que havia ali dentro. — Pessoas importantes, algumas perigosas… Vai ficar caro.
— O preço não importa.
— Muito bem — Izaya abaixou os papeis, direcionando ao mafioso um olhar provocativo. — Mas, diga-me, Shiki-san, por acaso esses nomes são de pessoas que estão lhe dando dor de cabeça?
— Suponho que de um jeito ou de outro você vai descobrir isso, não é?
Izaya sorriu.
— Poupe-me desse trabalho.
Soltando um suspiro, Shiki foi até o sofá e se acomodou nele. Entretanto, antes de começar a falar, fez sinal com a cabeça, apontando para Namie parada perto das estantes.
— Estamos sem pó de café, Namie-san — comentou Izaya, compreendendo a situação. — Importa-se de sair para comprar mais?
Soltando um murmurou irritado, a secretária abandonou seu trabalho e deixou o escritório.
— Há pouco tempo a Farmacêutica Yagiri foi incorporada a uma misteriosa empresa estrangeira chamada Nébula, como você bem sabe — começou Shiki. — Sinceramente, pouco me importa quais são os planos dessa tal companhia, o problema é que eles estão usando a influência que tem para recrutar membros do meu grupo. Por isso que quero que você consiga o máximo de informações possíveis sobre essas pessoas. Preciso saber exatamente como pressioná-los a saírem do meu caminho.
— E mesmo com o trabalho que está te dando, não quer mesmo saber o motivo por atrás de suas ações? — Questionou Izaya.
— Como eu disse, pouco me importa os objetivos da Nébula, não me interesso pelos experimentos científicos que ela promove. Apenas a quero fora de meus negócios — esclareceu ele, levantando do sofá. — E, se me permite dizer, também acho que seria prudente de sua parte evitar se envolver com ela. Se a Nébula está recrutando facilmente membros da máfia, significa que é tão influente quanto perigosa.
Izaya o olhou desafiadoramente.
— Diz isso para mim, mas você mesmo está se envolvendo com ela — riu. — Por que acha que eu deveria seguir seu suposto conselho?
— Porque, ao contrário de você, eu tenho a minha volta uma grande organização que me protege, enquanto você está só — respondeu friamente. — Já vou indo, Orihara-san. Ligue-me quando terminar.
Dando as costas para Izaya, Shiki abandonou o escritório, deixando o informante sozinho com seus pensamentos. Assim como seu companheiro de negócios, não tinha lá grande interesse na Nébula e seus negócios, entretanto, por algum motivo, quando o ouviu falando que estava sozinho, uma sensação desagradável o tomou.
Bobagem, pensou Izaya, empurrando aquele incômodo para o fundo de sua mente.
Sentindo-se pouco inclinado a voltar a lidar com a garota que o esperava no andar de cima, o rapaz preferiu gastar sua tarde recolhendo informações sobre as pessoas que Shiki havia lhe apresentado. Após algumas horas imerso em seu trabalho, ele finalmente resolveu deixá-lo de lado e subir para ver Mai.
Quando chegou no segundo andar, notou que a primeira porta estava aberta. Passando por ela, Izaya logo encontrou a jovem lá dentro, parada de frente para a janela.
— Seu quarto é na segunda porta, o de hóspedes — falou ele. — Esse aqui é o meu.
— Alguém tem que pará-lo… — ouviu-a murmurando. — Se não vai acabar matando alguém injustamente…
Irritado por ter sido ignorado, Izaya caminhou até Mai do outro lado do quarto e colocou a mão em seu ombro, virando-a para ele.
— Estou falando com… — Sua voz foi lentamente morrendo ao se deparar com o estado da garota.
Seus olhos, normalmente tingidos de um belo azul-escuro, estavam mais claros, quase como se estivesse brilhando.
Inicialmente ela pareceu em transe, até que aos poucos foi voltando a si e o tom de seus olhos retornando ao normal.
— O-o que houve, Izaya? — Ela perguntou confusa.
— … Nada — devolveu desconfiado. — É melhor sair daqui, seu quarto é…
— O segundo, eu ouvi.
— Certo — assentiu mal-humorado. — E o que ainda faz aqui?
— Já estou saindo… — respondeu um pouco magoada.
Afastando-se dele, Mai caminhou até a porta. Estava quase saindo, quando seu estômago soltou um longo e sonoro ronco.
— A-ah… — ela parou, levando a mão a barriga e corando.
Izaya suspirou.
— Desça até a cozinha e espere pela Namie, a moça que estava aqui quando chegamos. Ela irá lhe preparar algo.
— Desculpe! — Exclamou, saindo apressadamente.
O informante esperou o som de seus passos desaparecerem para se aproximar da janela e olhar para fora. Observando a rua com seus transeuntes e carros apressados, ele teve a impressão de ter visto um vulto negro passar rente as paredes dos prédios e lojas.
O Lobo das Montanhas, pensou. Preciso logo colocar meu plano em prática.
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