Mirabiliary
1 Starry-eyed
Notas iniciais
Elvire abriu os olhos com susto, o cobertor que anteriormente jazia em seu corpo agora derrubado no chão. A cadeira já estava no lugar, mesmo que ela se lembrasse de tê-la reclinado completamente momentos antes de cair no sono — provavelmente uma obra de uma das aeromoças. Abriu o protetor da janela, confirmando a chegada na cidade de Saffron, Kanto, ao deparar-se com o enorme aeroporto de Shuta. Estava mesmerizada. Se o primariamente doméstico Shuta era tão fantástico, não podia nem imaginar o grandioso Joden.
Vinha voando de Hoenn, depois de uma nova tentativa (falha) de infiltrar-se em Kalos com um passaporte falso. Talvez alguns tempos na região tão elétrica, mas ainda assim tão tradicional de Kanto a ajudariam a esfriar a cabeça. Não seria nada mais do que uns rápidos dias de fêrias — afinal, não eram tantos os incidentes de Mega Evolução na grande ilha. E isso certamente não a encorajava a passar mais do que alguns dias ali.
Soltou um suspiro profundo. Os olhos repousaram na fila longa de passageiros já em pé, empenhando-se em forçar o corpo uns nos outros (ainda que eles nunca realmente se encostassem) para sair da aeronave apertada. Apertou as duas PokéBolas na parte lateral de sua bolsa enquanto vestia a mesma, como se para confortar seus companheiros; "Eu estou aqui", ela dizia. "Não se preocupe".
...
— Ito...You? — o atendente perguntou, focando os olhos no rosto certamente nada culpado de Elvire. Seus lábios contrairam-se em um sorriso, e o olhar cortante do outro convenceu-a que isso não ajudou nem um pouco.
E ela fez como havia treinado. Abriu a boca com convicção, usando de todo o japonês que tinha aprendido viajando por Hoenn por tanto tempo: — Não, é "Haru"! "Ito" com o kanji de "isso" e "glicínia", a planta, e "Haru", que nem "luz". Foi mal, a leitura é meio diferente. Culpe meus pais. — a jovem soltou um riso baixo, talvez mais ríspido do que ela imaginou que seria. Isso é ruim. Ruim, ruim, ruim, ruim. Esfregou as mãos juntas, os dedos se contorcendo com ansiedade.
O estranho levantou uma sobrancelha, ainda que um sorriso compreensivo adornasse os lábios secos. — Não liga não, meu próprio nome é meio bizarro. Sempre tive dificuldade na hora de mostrar minha identidade.
Elvire tentou não deixar tão óbvio que ela acabara de soltar um novo longo suspiro de alívio.
— Espero que aproveite sua estadia em Kanto! — o atendente deu um carimbo no passaporte laranja fluorescente da moça, a capa marcada com a lendária luta entre Groudon e Kyogre e um pequeno escrito em japonês denominando a região de Hoenn. A morena ofereceu-lhe um novo sorriso, esse trazendo consigo o brilho animado de seus olhos ao fitar o adiante com uma silenciosa admiração.
Ajeitou sua marca registrada novamente no rosto — uma máscara médica completamente branca, já usada tantas vezes que perdeu seu verdadeiro significado. Talvez fosse que nem ela, pensou, ao ajustar a bagagem. Desgasta, sem propósito. Não, concluiu. Elas são bem diferentes no final; mas sentiu um suave vazio ao afastar de si a única coisa que conseguiu manter depois de tanto tempo sem nem mesmo se reconhecer.
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